Oitenta e cinco anos atrás...
A expedição corria como o esperado e novas terras surgiam no horizonte, durante as viagens era direito dos homens do senhor participarem e abençoarem os conquistadores quando pisassem em terras desconhecidas. Dentre eles se encontrava um padre de certa idade o qual foi destinado àquela missão de espalhar através da pregação as bençãos divinas.
Como em muitas outras descobertas, o povo daquelas terras pacíficas para evitar conflitos mudaram suas moradas para o coração da mata, onde viviam escondidos dos invasores que exploravam suas riquezas. Só que diferente de outros conquistadores Dom Hernandes de Lá Suel não aceitava dividi-la com os antigos donos e convenceu a muitos que o povo selvagem poderia atacá-los enquanto dormiam. Com essa ideia em mente o medo se instaurou e pequenas guerras foram travadas entre eles.
Cinco anos se passaram e doenças junto com outras causas obrigaram os antigos habitantes a conviverem com os conquistadores e formar vínculos que até então não eram aceitos pelas duas partes extinguindo as brigas e formando uma nova aliança. Mas como nem tudo são flores, em certa noite o vilarejo construído para civilizar o povo e repartir conhecimento foi invadido causando terror com a nova horda de exploradores que vinham com a intenção de tomar aquelas terras e dirigi-las ao novo governante.
O terror atingiu os habitantes e desprevenidos com aquela chegada muitos perderam suas vidas tentando defender as terras que os pertencia, restando no final, apenas a pequena igreja erguida pelos homens e mulheres que agora jaziam mortos do lado de fora. Assim como na missão passada, outro representante da nova religião se encontrava presente. Este com o coração apertado tentava não olhar para o m******e e rezava para as almas encontrarem seu caminho até o paraíso. Bem é entendido que a culpa não era dele e sim daqueles que eram tomados pela ganância e que não mediam escrúpulos quando o assunto era arrecadar mais riquezas para si e sua família.
O jovem missionário ao adentrar a pequena casa do senhor nota que nem ali a crueldade tinha sido perdoada, corpos apunhalados por lanças, perfurados por flechas e com a cabeça decepadas pelas espadas afiadas enfeitavam o local que deveria ser sagrado. Muitos dos antigos habitantes entraram naquele lugar acreditando que a fé os manteria seguros, mas o inimigo não perdoou nem o local e o que ele significava para seus fiéis, para eles, todos se tornaram pagãos no momento que unificaram suas religiões e deveriam pagar por tal blasfêmia.
Manoel se aproxima do altar quando nota o corpo de seu irmão o antigo padre daquela igreja que morreu ajoelhado com uma lança cravada em seu peito o mantendo imóvel na posição que certamente rezava pelas almas dentro da casa do pai antes de ser empalado. Ao se aproximar da cena macabra o jovem missionário retem o desejo de vomitar e terminar por cometer sacrilégio ao lugar que deveria ser um porto seguro para as almas aflitas e não a sepultura delas.
– Ajude-a – a voz fraca do padre sai entrecortada. – Salve-a, meu irmão, e Deus terá piedade de sua alma – seu último pedido como uma súplica antes de se perder na escuridão da morte. O seminarista (estudante de teologia e filosofia) sem entender bem o que tinha acontecido apenas procura rastro de algum sobrevivente em meio ao sangue e corpos decepados, ele deveria ser rápido antes que alguém mais entrasse naquele local e matasse impiedosamente a pessoa a qual seu irmão de fé pedia para proteger. Manoel sabia que mesmo não tido participativa na chacina, sua alma pesaria na balança e que se sacrificar para salvar alguém inocente iria o livrar do purgatório que se encontrava por ter aceitado participar daquela missão, mesmo que de início as intenções daqueles governantes parecessem uma maneira de pregar sua fé e espalhá-la pelas terras recém-descobertas, fora os benefícios que sua abadia havia recebido apenas por aceitar enviar um de seus anjos que estudava com afinco para um dia se tornar cardeal para aquela viagem além do mar.
Entre passos rápidos em que ele evitava fazer barulho para não chamar a atenção dos homens que estavam na parte de fora, ele vasculhava o espaço pequeno, os diversos bancos e cantos. Ao abrir o livro sagrado no púlpito um desenho rabiscado em contornos infantis mostrava a imagem de uma grande família, entre elas havia quatro crianças de diferentes estaturas e um homem de vestido que o monge logo definiu como sendo o padre que tinha adotado os habitantes do vilarejo como seus familiares ou quem os desenhou o considerava assim. A folha escorrega e cai ao chão e quando Manoel se abaixa para pegá-la um detalhe chama sua atenção o altar ficava sobre um tablado entapetado de cor marrom que deixava aquele lugar em específico mais alto e visível naquela parte da igreja. Perto das vestes do padre desfalecido um pedaço do carpete parecia ter sido puxado e a mão do homem repousava na madeira descoberta. Ele havia procurado por tudo, menos no local onde o padre estava ajoelhado com medo de macular o corpo santo. Ao puxar mais um pouco o tapete pesado um barulho quase imperceptível parece surgir abaixo de si.
– Se demorar muito, iremos queimar a igreja com você dentro – uma voz ao fundo grita para alertá-lo que deveria ser mais rápido. O seminarista apenas finge estar rezando pelas almas pecadoras e não dá atenção ao homem que tentava o apressar. Os passos parecem se afastar e o mesmo abre seus olhos só para ter certeza de que estava novamente sozinho dentro do espaço que a muito tinha deixado de ser a casa divina. Suas mãos aflitas puxam o carpete com rapidez e sem querer seu cotovelo acerta o corpo imóvel fazendo a lança cravada no alta se desprende e derrubar a corpulência desfalecido na madeira, o que teria acontecido se os reflexos de Manoel não fossem tão bons ao ponto de ele conseguir segurar seu irmão antes de atingir o tablado e ecoar o barulho pelo lugar chamando a atenção dos homens plantados na parte de fora, os quais procuravam por sobreviventes para os executar sem dó. O sangue quente escorria do peito dilacerado umedecendo as mangas da batina branca que usava simbolicamente.
Ao dispor o corpo sem vida deitado no tablado, ele volta a puxar o tapete revelando uma portinhola bem abaixo do local onde os joelhos do padre estavam, e ao puxá-la para cima um espaço pequeno se revela ali, seus olhos são atraídos para a criança que se encolhia trêmula e amedrontada.
– Vou protegê-la, mas preciso que fique em silêncio – ele murmura para o serzinho que apertava suas pernas contra o peito em uma posição fetal. – Preciso que saia desse cantinho e venha até mim – a criança chacoalha a cabeça em negação e continua em seu lugar escondidinha. – Por favor! – Manoel se curva dentro da pequena a******a e ao alcançá-la a pega em seus braços a tirando do lugar sujo e escuro.
Ali estava uma criança vestida em uma túnica infantil que antes clara agora sujas de terra e sangue, a touca delicada escondia parte da face úmida de lágrimas e os lábios trêmulos não proferiam uma única palavra. Um novo barulho faz o missionário escondê-la abaixo do púlpito que tinha um pano fino para enfeitá-lo.
– Não faça barulhos, entendeu? – A criança levanta levemente a cabeça em direção ao corpo empalado ao chão, e seu silêncio é visto pelo jovem como uma benção provindas do céu.
Manoel corre até a antessala, onde possivelmente era o quarto do padre falecido e abre o baú aos pés da cama, ele já havia ido até ali antes a procura da pessoa desconhecida, só o que não sabia era como sairia com ela de dentro das instalações sem que a sua presença fosse notada pelos cruéis exploradores. De dentro do caixote amadeirado ele tira as diversas batinas entre eles um casaco longo e grosso feito de pelagens propriamente usado em dias de frio. Ao pegar tudo o que precisava ele retorna a outra parte e lá sobe no tablado segurando a sua nova aquisição.
O baú era pequeno e não serviria uma criança, nem que ela fosse contorcionista, mas ele usaria aquele objeto para distrair algumas pessoas na saída da casa santíssima.