CAPÍTULO 4

1379 Palavras
Dias atuais... ✵ Viviane du Lac A recuperação do ferimento melhorava a cada dia e com isso pude conhecer a parte externa daquela moradia, assim como andar pelas areias da praia e mergulhar nas águas. A druida Yacira que descobri seu nome logo depois que consegui me ver livre de seus cuidados virou uma ótima ouvinte e talvez tenhamos até trocado de lugar, agora era eu aquela que falava como uma maluca e compartilhava coisas que nem sempre entendia, e assim como eu, eles eram um povo que mantinham segredos e tinham suas maneiras de se proteger do perigo que ronda a todos os que são diferentes. – Acho que ganhou um admirador – a velha murmura quando trançávamos uma rede de pesca, não muito longe seu neto que antes se mantinha o mais distante possível, agora alternava seu olhar para onde estávamos. – Eu acho que ele só está com ciúmes, já que roubei toda a sua atenção só pra mim. – Talvez seja isso, ou esses cabelos negros e olhos gentis conquistaram e quebraram o coração petrificado – ela diz passando a mão sobre minhas mexas as bagunçando. – Não, definitivamente não é isso – confesso a fazendo sorrir e ao olhar para perto da margem meus olhos encontram os dele que sustenta o contado. Definitivamente não poderia ser aquilo! Balanço a cabeça em negatividade, eu estava ali para terminar de me recuperar e não para me envolver com um menino/homem alto com pele queimada que insistia em andar só de tanga e deixar o peitoral desenhado e convidativo livre aos olhares. Os costumes daquele povo eram estranhos, e me habituei rapidamente a eles, era seguir os mesmos passos ou ser rejeitada por seus habitantes. Preferi a primeira opção. ⚝ ♱ ⚝ Durante o dia costumava caminhar pela praia e às vezes me embrenhava pela mata indo cada vez mais fundo para explorar as redondezas. O cantar dos pássaros e o rastejar dos pequenos animais me fazia sorrir pelo caminho e ao encontrar uma manga ao chão a pego e esfrego entre as vestes de meu corpo. Aquele pano não era bem um vestido e sim trapos que envolviam o tronco escondendo parte da nudeza e deixava o restante a mostra para que os bichinhos se alimentassem do meu sangue que parecia ser saboroso em seu sistema digestivo. Era impossível não coçar as diversas picadas que surgiam em minha pele amarelada e ferida que sangrava em alguns pontos pelas unhas frenéticas sendo raspadas para aliviar a ardência do líquido que aquelas pestes injetavam enquanto se esbanjavam de seu alimento até encherem a barriga e voarem para a próxima vítima. – Deveria passar isso – uma voz rouca em meio a mata me assusta e jogo a única coisa que segura entre meus dedos que vão de encontro a sua face que rapidamente desvia antes de ser atingida. – Até que você tem bons reflexos – disse sem um pingo de humor. – O que faz aqui? – Não estou te seguindo se é o que pensa. Só vim procurar algumas raízes e como disse, se passar essas folhas evitará as picadas das melgas. – Mel, o quê? – perguntei mais para irritá-lo do que por não saber o nome daquele maledito inseto. Com suas pernas longas o gigante moreno e encorpado cruza rapidamente o espaço que nos separava e para bem a minha frente, em seu peito diversos desenhos haviam sidos dispostos ali para esconder os símbolos significativos. – Passe isso aqui – ele insiste puxando meu braço e esfregando nas diversas feridas a folha que exalava um aroma diferente. Seu toque quente não me possibilitava pensar com clareza e em vez de seduzi-lo estava sendo bem o oposto. – Não pense na ardência e logo ela vai parar – a voz calma me faz perder a noção do lugar que me encontrava e sua aproximação não colaborava em nada com o sangue que bombeava e queimava o corpo por dentro. – Como está se sentindo? – Com calor – falei naturalmente o fazendo dar um sorriso de canto. – Tem um rio bem perto daqui, se estiver interessada em dar um mergulho – murmura tão próximo. – Para que você tenha tempo suficiente para admirar a paisagem? – perguntei olhando diretamente para seus olhos escuros que naquele instante pareciam ser um misto de confusão e diversão. – Não estou interessada e agradeço o convite – terminei puxando meu braço e me afastando daquele homem. – Eu não estava te convidando para um banho – escutei ele dizer. Tinha experiência o suficiente para saber que suas intenções não eram nada inocentes por mais que ele tentasse esconder essa parte. ⚝ ♱ ⚝ A noite caiu e com ela uma torrente forte, pela janela era possível ver a claridade dos relampejares e o som ensurdecedor dos trovões. Gostava de água, mas não daquela provinda dos céus, ainda mais quando parecia que inundaria o mundo. – Alguém parece não gostar de chuvas – a voz feminina diz com sarcasmo. – Para uma criatura que adora água, você é bem medrosa em relação àquela que cai do céu como uma benção para a natureza. – Não sou uma dríade, ninfa e nem uma náiade – respondi com os dentes cerrados e os punhos fechados. Realmente aquele tempo não era dos melhores e estar em um local onde Regabor parecia fascinado em uma espécie de graveto enquanto mantinha seu corpo estirado dentro de uma rede tornava meu estado pior do que já estava. – Eu sei que não – a mulher confessa me entregando uma caneca fumegante. – Você é uma mestiça como muitos nessa aldeia que possui o sangue de duas raças diferentes, no seu caso metade fada aquática e a outra humana, o que a permite ter um corpo de carne e osso onde seu espírito que deveria ser livre é obrigado a ficar preso na casca até a morte e só depois se libertará e poderá retornar a suas antigas origens. Não deveria ficar tão longe assim de sua casa. A magia de seu corpo pode enfraquecê-la por completo. Aquela pequena explicação de Yacira conseguiu desviar a atenção do desnudo para o local que encontrava encolhida sobre o colchão de palha. Antes as alucinações eram tantas que me via deitada em um colchão macio como o qual estava acostumada, só para descobrir que dormia em cima de um monte de grama seca e cheia de farpas. – Não sou exatamente uma mestiça, por isso consigo me manter longe de minhas origens. A parte ninfa não é o suficiente para me tornar uma fada aquática. Essa é a beleza de ser humana, posso caminhar entre os dois mundos e não me afetar completamente por nenhum deles. – Deveria carregar um medalhão incrustrado ou algo provindos da sua parte magica, evitaria se ferir facilmente e tornaria sua vida mais longa nesse mundo – o intrometido diz voltando a brincar com os gravetinhos entre seus dedos largos. – Se para ser livre eu preciso desprender minha alma do corpo, acho que a morte não é tão r**m assim – rebati na tentativa de provocá-lo. – O que formaria os laços da parte sobrenatural e certamente te prenderia a sua origem antiga. Se é uma ninfa, acha que vai parar onde após a morte? – Ele pergunta movimentando os dedos e fazendo o galho aumentar seu tamanho, ramificações e folhas pequeninas se despontavam preguiçosamente. Exibido! – Pelo menos não vou ficar presa dentro de uma árvore pela eternidade – resmunguei fazendo Yacira sorrir com o conflito que surgia cada vez em que ambos ficávamos no mesmo espaço fechado por muito tempo. – Os mais velhos possuem descendência dos druidas e dríades da floresta, e alguns jovens tem o sangue selkien como Regabor – aquela afirmação me faz revirar os olhos, agora muita coisa estava explicado. Malditos selkiens e sua beleza sedutora!!! – Não achamos o correto, mas uma vez ou outra os homens e mulheres foca resolvem fazer uma visitinha e dá nisso – a mulher sussurra apontando para o neto que modelava sua pequena planta. Ele era um mestiço e tanto! Talvez não devesse ter recusado aquele mergulho, começava a me arrepender de ter me afastado quando ele estava tão perto.
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