POV – VALENTINA ORTEGA (Aos 10 anos)
O sol de Chicago costumava entrar pelas janelas da nossa mansão como se pedisse permissão para iluminar o mármore. Eu me lembro do cheiro de café fresco e do som suave que vinha da sala de música. Minha mãe, Mariana, dedilhava o piano de cauda com uma elegância que parecia de outro mundo. Ela dizia que a música era a linguagem da alma, algo que ninguém poderia nos tirar.
Eu, no entanto, preferia outra música: o som do couro das luvas batendo no saco de pancadas e a respiração ritmada do meu pai.
— Guarda alta, Val! O mundo não perdoa quem abaixa o queixo — meu pai, Otávio Ortega, dizia com aquele sorriso que iluminava até o ringue mais sombrio.
Ele era o nosso herói. Um campeão mundial, dono de cinturões que brilhavam como ouro puro na nossa estante de troféus. Aos cinco anos, eu já sabia a diferença entre um jab e um direto. Aos nove, minha técnica era comparada à de lutadores profissionais. Eu amava aquilo. Amava o suor, o esforço e a sensação de poder que o treino me dava. Gustavo, meu irmão mais velho, treinava ao meu lado. Com doze anos, ele era forte, mas seus olhos sempre fugiam para os livros de história na estante enquanto descansávamos.
— Pai, por que temos que treinar tanto se somos ricos? — Gustavo perguntou uma vez, limpando o suor da testa.
Meu pai parou, ajoelhou-se entre nós dois e colocou suas mãos imensas em nossos ombros.
— O dinheiro pode sumir, filhos. Casas podem queimar. Mas o que vocês constroem dentro de si mesmos... a força, a disciplina e a coragem... isso é a única coisa que ninguém, nenhum exército no mundo, pode roubar de vocês.
Vivíamos em um castelo de vidro. Éramos felizes, nobres, respeitados. Até aquela noite maldita.
POV – OTÁVIO ORTEGA (O Dia da Luta)
Eu sentia algo estranho. Meus reflexos pareciam lentos, como se houvesse neblina dentro da minha cabeça. Eu atribuí ao cansaço dos treinos, à pressão da defesa do título. Milhares de dólares estavam em jogo; famílias inteiras haviam apostado suas economias na minha vitória. Eu era o favorito. Eu era invencível.
Ao subir no ringue, olhei para a primeira fila. Mariana estava lá, linda em seu vestido de seda, com Valentina e Gustavo ao seu lado. Val me deu um soco no ar, sorrindo. Aquilo era o meu combustível.
Mas, no terceiro assalto, o mundo girou. Meus braços pesavam toneladas. Eu via os golpes vindo, mas meu corpo não obedecia. O primeiro soco me atingiu em cheio. O segundo me jogou nas cordas. Eu ouvia os gritos, as vaias, o desespero de quem estava perdendo tudo por causa do meu fracasso. Eu fui nocauteado. Pela primeira vez na vida, o chão me abraçou e eu não consegui levantar.
Eu não sabia que o meu café tinha sido batizado. Eu não sabia que mãos invisíveis já haviam decidido que eu cairia naquela noite.
POV – VALENTINA ORTEGA (A Queda)
O silêncio que se seguiu à derrota do meu pai foi pior do que qualquer grito. Voltamos para casa em um velório antecipado. Nos dias seguintes, o telefone não parava de tocar. Eram ameaças. Pessoas gritando que tinham perdido suas casas, seus negócios, tudo porque o "Campeão" tinha entregado a luta.
Meu pai definhou diante dos nossos olhos. Ele não entendia como tinha perdido. A culpa o consumia como ácido. Ele olhava para as medalhas e chorava em silêncio. Minha mãe tentava tocar piano para acalmá-lo, mas as notas saíam tristes, desafinadas pela angústia.
Naquela tarde cinzenta, estávamos todos na sala. Meu pai se levantou, nos deu um beijo na testa — um beijo que parecia um adeus — e subiu para o escritório. Minutos depois, o som que mudou nossas vidas para sempre ecoou pela mansão. Não era uma tecla de piano. Era um tiro.
Corremos. Gustavo foi o primeiro a abrir a porta. O que vimos... o sangue no tapete persa, o homem que nos ensinou a lutar agora imóvel no chão... aquilo matou uma parte de todos nós. Minha mãe caiu de joelhos, soltando um grito que parecia rasgar o próprio tecido da realidade. Gustavo ficou paralisado, os olhos fixos na arma.
Eu? Eu não gritei. Eu senti um frio percorrer minha espinha que nunca mais me abandonou.
A tragédia foi apenas o começo. Aproveitando-se da depressão profunda de Mariana e do caos, "amigos" da família e advogados corruptos surgiram como urubus. Documentos foram forjados, dívidas de apostas foram cobradas com juros de sangue. Em menos de seis meses, perdemos a mansão, as medalhas, os carros. Tudo.
Fomos morar em um cubículo na periferia de Chicago. Onde antes havia mármore, agora havia mofo. Onde havia piano, agora havia o som de ratos nas paredes.
POV – GUSTAVO ORTEGA (Aos 14 anos)
Eu odiava a luta. Cada vez que eu fechava os olhos, via o ringue e depois o escritório ensanguentado. Se meu pai não fosse um lutador, se ele não vivesse nesse mundo de apostas e glória, ele ainda estaria aqui. Eu joguei minhas luvas no lixo. Eu me enterrei nos estudos, trabalhando como entregador de jornais de madrugada para comprar remédios para nossa mãe.
Mariana não era mais a nossa mãe. Era uma sombra que ficava sentada em uma cadeira de balanço, olhando para o nada, com as mãos movendo-se sobre as coxas como se ainda tocasse um piano invisível.
— Val, para com isso! — eu gritava com minha irmã enquanto ela socava a parede de tijolos do beco atrás de onde morávamos. — A luta matou o papai! Você não vê?
Valentina parou, os nós dos dedos sangrando, a pele em carne viva. Ela se virou para mim, e pela primeira vez, eu tive medo da minha própria irmãzinha. Os olhos dela não eram mais de uma criança.
— A luta não matou o papai, Gustavo. Quem o matou foi quem o dopou. Quem o matou foram os covardes que tiraram o trono dele. — Ela deu mais um soco, tão forte que o som ecoou por todo o beco. — Eu não vou ser uma vítima. Eu vou treinar até que minhas mãos sejam armas. Eu vou aprender a atirar, a lutar, a caçar. Se o mundo é dos lobos, eu vou ser a loba que eles temem.
POV – VALENTINA ORTEGA (Aos 15 anos)
Enquanto Gustavo se tornava um homem de livros, eu me tornava uma sombra das ruas. Eu trabalhava em dois empregos: limpando um ginásio de boxe sujo em troca de horas no saco de pancadas e entregando encomendas para pessoas que não queriam ser vistas.
Eu não tinha treinador, então eu era meu próprio mestre. Eu observava os caras grandes lutarem e copiava cada movimento, aperfeiçoando-os com a técnica refinada que meu pai me deixou. Eu ia até os lixões e praticava arco e flecha com materiais que eu mesma construía. Eu aprendi a manusear uma arma antes mesmo de aprender a me maquiar.
Minha mãe continuava definhando. A depressão era um monstro que comia sua carne. Eu olhava para ela e sentia um ódio profundo. Não dela, mas de quem fez isso conosco.
Eu dominava o judô, o muay thai, o jiu-jitsu. Eu era pequena, mas era letal. Eu era invisível para o sistema, uma órfã de pai vivo que a nobreza esqueceu. Mas eu nunca esqueci quem eu era.
Eu era Valentina Ortega. E cada gota de suor que caía do meu rosto era uma promessa silenciosa: um dia, Chicago estaria aos meus pés. E quem quer que tenha dopado meu pai, quem quer que tenha rido da nossa ruína, sentiria o peso de cada soco que eu dei naquela parede de tijolos.
Gustavo achava que a segurança vinha da estabilidade. Eu sabia que a segurança vinha de ser a pessoa mais perigosa na sala.
Aos dezesseis anos, eu já não era mais uma menina. Eu era uma arma carregada, apenas esperando alguém cometer o erro de puxar o gatilho. E esse erro aconteceu um ano depois, quando aceitei aquele emprego como faxineira na mansão de um empresário rico... o dia em que minha liberdade acabou, mas a Rainha das Sombras realmente nasceu.