POV – VALENTINA ORTEGA (Aos 17 anos)
O cheiro de água sanitária e sabão barato se tornou meu perfume diário. Aos dezessete anos, enquanto outras garotas de Chicago se preocupavam com vestidos de baile e notas escolares, eu me preocupava em não deixar manchas no mármore da mansão dos Harrison. Eu era inteligente, talvez mais do que qualquer um daqueles herdeiros que passavam por mim sem me olhar nos olhos. Eu devorava livros nas horas vagas, mas a realidade era c***l: livros não compravam os remédios da minha mãe, nem pagavam a faculdade que o Gustavo tanto sonhava.
Eu estava agachada, esfregando o chão da biblioteca, quando o ar na sala mudou. Ficou pesado, denso. Senti um calor incômodo nas minhas costas antes mesmo de ouvir os passos.
POV – ARTHUR HARRISON (O Patrão)
Eu a observava há meses. Valentina era diferente das outras empregadas. Ela tinha um porte de rainha, mesmo segurando um esfregão. Aquelas tatuagens escondidas sob o uniforme, o olhar que nunca baixava... ela era um desafio que eu estava ansioso para quebrar. Eu tinha quarenta e oito anos, dinheiro e poder suficiente para comprar o silêncio de qualquer um.
Aproximei-me por trás, sentindo o cheiro de sabão misturado ao suor jovem dela. Segurei sua cintura com força, colando meu corpo ao dela.
— Você sabe que eu te observo, não sabe, Valentina? — sussurrei no ouvido dela, sentindo-a enrijecer como pedra. — Faz dias que imagino você sem esse uniforme ridículo. Você vai ser minha hoje. E não se preocupe... você vai acabar gostando. Eu sempre consigo o que quero.
POV – VALENTINA ORTEGA
O nojo subiu pela minha garganta como ácido. O toque dele era como se vermes estivessem rastejando pela minha pele. Minha mente, treinada por anos de combate, entrou em modo de sobrevivência instantaneamente.
— Tire as mãos de mim agora, senhor Harrison — minha voz saiu fria, cortante.
Ele não parou. Pelo contrário, começou a se esfregar em mim, rindo, achando que eu era apenas uma presa assustada. Ele não sabia que estava tocando em uma granada sem pino.
Eu não pensei. Meu corpo agiu. Joguei meu peso para frente e disparei uma cotovelada certeira para trás, atingindo-o bem no plexo solar. Ele soltou um ganido sufocado e cambaleou. Virei-me de frente, meus punhos cerrados, a guarda levantada.
— Se encostar em mim de novo, eu acabo com você.
Ele limpou o canto da boca, os olhos injetados de raiva e luxúria.
— Você é uma v***a abusada! Acha que pode me bater na minha própria casa?
Ele investiu contra mim. Dei um soco direto no rosto dele, sentindo o osso do nariz ceder sob meus nós dos dedos. Saí correndo. Meus pés voavam pelo corredor, mas quando tentei a porta principal, estava trancada. As janelas eram blindadas. Ele tinha planejado tudo. Ele queria uma caçada.
Subi as escadas, o coração martelando contra as costelas. Entrei no quarto principal e me escondi dentro do closet imenso, entre ternos caros que cheiravam a charuto. Cobri minha boca com as mãos, tentando abafar o som da minha respiração e o choro de puro ódio que queria escapar.
A porta do closet se abriu com um estrondo.
POV – ARTHUR HARRISON
Eu estava possesso. A dor no meu nariz só alimentava meu desejo de destruí-la. Tirei minhas roupas, deixando-as jogadas pelo chão do quarto. Eu ia mostrar a ela quem mandava. Eu estava armado, sempre andava com uma pequena pistola no coldre da cintura para "segurança pessoal".
— Apareça, Valentina! Você não tem para onde ir!
Eu a vi no fundo do closet. Ela tentou me empurrar, mas eu a prensei contra as prateleiras. Saquei a arma apenas para assustá-la, para mostrar que a vida dela estava na palma da minha mão.
POV – VALENTINA ORTEGA
Ele estava pelado, uma visão grotesca de poder e decadência. Quando vi o cano da arma apontado para o meu rosto, o medo sumiu. Deu lugar a uma fúria gélida. Meu pai me ensinou: se alguém saca uma arma para você, essa pessoa já abriu mão da própria vida.
Eu avancei. Não para fugir, mas para lutar. Segurei o pulso dele e apliquei uma torção que aprendi aos doze anos. Lutamos no chão, entre sapatos de marca e vestidos de seda. Ele era pesado, mas eu era rápida. Minhas mãos buscaram o controle do ferro frio. Houve um puxão, um grito abafado e então... um estrondo que pareceu rasgar o mundo ao meio.
O corpo dele relaxou sobre mim. O peso se tornou morto. O sangue, quente e viscoso, começou a encharcar meu uniforme. Ele morreu na hora, com os olhos arregalados, fixos nos meus.
Eu ainda estava tentando processar o silêncio quando a porta do quarto se abriu. A esposa de Harrison e sua filha de dezoito anos entraram. O grito delas foi o que selou meu destino. Parecia ensaiado. Parecia que elas esperavam por um espetáculo, mas encontraram um cadáver.
— Assassina! — a esposa gritou, enquanto a filha corria para o telefone. — Você matou o meu marido! Sua rata de rua!
POV – GUSTAVO ORTEGA (No Tribunal - Meses depois)
Eu tinha dezenove anos e sentia que o mundo estava desmoronando novamente. Valentina estava sentada naquele banco de réus, parecendo tão pequena e, ao mesmo tempo, tão inquebrável. Eu trabalhei dia e noite, vendi tudo o que tínhamos, mas nada era suficiente contra o poder dos Harrison.
Eles compraram testemunhas. Inventaram que a Valentina tinha um caso com o patrão, que ela o chantageava, que ela era violenta e instável. Mentiram sobre o roubo de joias que nunca existiram. Eu olhava para ela, com as lágrimas escorrendo pelo meu rosto, e sussurrava sem som: "Eu vou te tirar daí, Val. Eu prometo."
POV – JUIZ CORRUPTO (A Sentença)
Eu recebi uma quantia muito generosa para garantir que o nome dos Harrison permanecesse limpo. O público precisava de uma vilã, e aquela garota de sobrenome caído, filha de um suicida, era o alvo perfeito.
Limpei a garganta e bati o martelo, ignorando o olhar de puro fogo que a ré me lançava.
— Valentina Ortega, por homicídio doloso, roubo qualificado e conduta perigosa, condeno-a a cinco anos em regime fechado na Penitenciária de Segurança Máxima de Chicago. Que este tribunal sirva de exemplo para aqueles que pensam que podem atacar as famílias que constroem esta cidade.
POV – VALENTINA ORTEGA (A Prisão)
As algemas apertaram meus pulsos, mas meu espírito já tinha se tornado algo muito mais duro que o aço. Enquanto os guardas me arrastavam para fora do tribunal, eu vi a família Harrison sorrindo discretamente. Eles achavam que tinham vencido. Eles achavam que a prisão seria o meu fim.
Eles estavam errados.
A prisão não foi onde eu morri. Foi onde eu renasci. Nos primeiros meses, as detentas pagas pelos Harrison tentaram me matar. Elas vinham com facas improvisadas no banho, tentavam me sufocar durante a noite. Mas elas esqueceram de uma coisa: eu fui treinada por Otávio Ortega.
No segundo ano, eu já não era mais uma detenta. Eu era a lei. Eu unia as mulheres que foram injustiçadas como eu. Bia, que matou para proteger o filho; Sofia, que foi traída pelo sistema. Nós éramos as "descartáveis". E eu as ensinei a lutar. Eu as ensinei que, se o mundo nos queria nas sombras, seríamos as donas delas.
O pesadelo de concreto me deu algo que a liberdade nunca daria: um exército. Eu passei mil e oitocentos dias planejando. Cada soco que eu dava na parede da cela era dedicado ao senhor Harrison, ao juiz e a cada um que riu da minha queda.
Quando saí daquela cela no último dia, eu não era mais a faxineira de dezessete anos. Eu era a Rainha das Sombras. E Chicago não estava pronta para o que eu ia fazer com o seu sistema impecável.