CAPÍTULO 4: O Pacto de Sangue e Sombras

1335 Palavras
POV – VALENTINA ORTEGA (Prisão de Chicago, 3º ano de sentença) A prisão tem um som próprio. É um zumbido constante de ódio, metal e lamento. Mas na ala 4, o som era diferente. Lá, o silêncio imperava quando eu passava. Eu não precisava gritar; minha presença era o grito. Os guardas, homens e mulheres que já tinham visto o pior da humanidade, encostavam-se na parede e me deixavam passar. Eles conheciam minha ficha. Sabiam que eu não era uma criminosa comum, mas uma força da natureza que o sistema tentou, em vão, domesticar. Eu estava caminhando em direção ao pátio quando ouvi o som. Não era uma briga comum. Era o som de várias contra uma. O som de covardia. Dobrei o corredor e vi o grupo de detentas liderado por "Big Carla", uma mulher que vendia proteção por cigarros. Elas tinham cercado uma garota nova. Ela era magra, tinha um porte que gritava "berço de ouro" e olhos que, embora aterrorizados, ainda mantinham uma chama de desafio. — Você não vai durar uma noite aqui, bonequinha —carla rosnou, levantando uma faca improvisada feita de uma escova de dentes afiada. — Vamos ver como esse seu rostinho bonito fica com uns cortes. Eu dei um passo à frente. O som das minhas botas no concreto fez todas pararem. — Carla. — Minha voz saiu baixa, mas carregada de uma autoridade que fez o ar esfriar. — O pátio está muito barulhento hoje. — Ortega... não se mete. Essa aqui é carne nova. É assunto nosso. Caminhei até o centro do círculo, parando entre a garota e a faca. Olhei para carla, depois para as outras. Nenhuma delas sustentou o olhar. — Nada aqui é assunto de vocês se eu disser que não é. Saiam. Agora. Ou a próxima vez que vocês virem a luz do sol será através de um tubo de oxigênio na enfermaria. Elas hesitaram por três segundos. Três segundos em que a morte pairou sobre elas. Então, uma a uma, recuaram. Carla cuspiu no chão, mas guardou a faca e saiu bufando. A garota no chão tremia, as mãos protegendo o rosto. Estendi minha mão para ela. — Levante-se. Aqui, se você fica no chão por muito tempo, eles te enterram sob ele. POV – ISABEL VITALE Eu achei que ia morrer. Eu, uma Vitale, herdeira de uma linhagem que comanda metade da Europa e agora se expandia por Chicago, estava prestes a ser retalhada em uma prisão de segurança máxima por causa de uma armação política contra o meu irmão. Os inimigos dele foram baixos; não puderam atingir o Dom, então me jogaram nesse inferno enquanto ele resolvia o processo. Mas então, ela apareceu. Eu nunca tinha visto ninguém como Valentina Ortega. Ela não era alta, mas parecia uma gigante. Quando ela olhou para aquelas mulheres, eu vi o que era o verdadeiro poder: não era sobre armas ou dinheiro, era sobre a alma. Aceitei a mão dela e me levantei. Minhas pernas ainda tremiam, mas a força que emanava dela parecia me sustentar. — Por que me ajudou? — perguntei, limpando o sangue do lábio. — Ninguém faz nada de graça aqui. Ela me olhou com olhos que pareciam ter séculos de idade. — Eu não suporto covardes. E eu decido quem sangra nesta ala. Como se chama? — Isabel. — Pois bem, Isabel. Agora você está sob minha proteção. Mas aprenda: no meu círculo, todas lutam. POV – VALENTINA ORTEGA (Meses depois) Isabel se tornou minha sombra, mas não como uma serva, e sim como uma aliada. Ela era inteligente, astuta e tinha informações que me deixavam intrigada. Sentávamos em um canto isolado do pátio, cercadas pelas minhas outras aliadas: Bia e Sofia, que cuidavam para que ninguém chegasse a menos de dez metros de nós. — Você não pertence a este lugar, Valentina — Isabel me disse um dia, enquanto observávamos o pôr do sol através das cercas de arame farpado. — Você tem mente de estrategista e mãos de carrasco. O que você vai fazer quando sair? Olhei para minhas mãos calejadas. — Eu vou levar a justiça que o tribunal me negou. Vou abrir uma empresa de segurança. Mas não qualquer segurança. Eu vou treinar mulheres como nós. Aquelas que o mundo descartou. Seremos a elite. Onde os homens falharem, nós seremos a muralha. Eu ri, um som seco e sem humor. — Mas para isso preciso de verba. E quem vai investir em uma ex-detenta? Isabel sorriu, um sorriso que eu não entendia na época. — Dinheiro é a única coisa que nunca faltou na minha família, Val. Você salvou minha vida. No meu mundo, isso se chama dívida de sangue. E os Vitale sempre pagam suas dívidas. Ela se inclinou mais perto, baixando o tom de voz. — Meu irmão é o Dom. Ele é o chefe da máfia que você ouve nos sussurros desta cidade. Ele está resolvendo minha saída junto com meu sobrinho, o herdeiro dele. Ele é mais velho que eu, implacável, e vai limpar meu nome. Mas quando eu sair... eu vou financiar o seu sonho. Cada dólar, cada arma, cada sede. Eu serei sua sócia oculta. POV – ISABEL VITALE Eu via o plano brilhando nos olhos de Valentina. Ela queria o mundo, e eu ia dar as ferramentas a ela. Meu sobrinho, Enzo, precisava de alguém assim por perto, embora ele fosse orgulhoso demais para admitir. Ele era o rosto do poder, mas Valentina seria a sombra que protege o trono. — O meu sobrinho é um homem difícil, Valentina — eu disse, rindo. — Ele é o herdeiro de tudo. Ele acha que mulheres são apenas para prazer e adorno. m*l posso esperar para ver a cara dele quando encontrar você. — Eu não me importo com herdeiros mimados, Isabel — ela respondeu, com aquela frieza habitual. — Eu me importo com a ordem. Se ele precisar de mim, ele vai ter que aprender a respeitar o chão por onde eu piso. Fizemos um pacto ali mesmo, sob o céu cinzento de Chicago. Um elo de sangue e segredos. Ela me deu a vida; eu daria a ela o império. POV – BIA (Aliada de Valentina na prisão) Eu via as duas conversando e sabia que o destino de Chicago estava sendo decidido ali, entre muros de concreto. Eu e as outras meninas éramos o "Elo". Éramos a guarda pretoriana da Valentina. — Elas estão planejando algo grande, não estão? — Sofia sussurrou ao meu lado, enquanto vigiávamos o portão. — Algo que vai fazer esta cidade tremer, Sofia. — Respondi, sentindo um orgulho imenso. — A Valentina não está apenas cumprindo pena. Ela está recrutando um exército. E quando esse portão abrir, o mundo vai descobrir que o maior erro que cometeram foi prender a Rainha das Sombras. Porque agora, ela conhece o sistema por dentro. E ela sabe exatamente como derrubá-lo. POV – VALENTINA ORTEGA Os anos se passaram, e Isabel saiu antes de mim, levada por advogados caros e limusines pretas. No dia em que ela partiu, ela parou no portão e olhou para trás. Ela não disse adeus. Ela apenas tocou o pulso, um sinal de que a dívida estava ativa. Eu continuei treinando. Continuei botando ordem. Continuei sendo o pesadelo dos guardas corruptos e a esperança das presas injustiçadas. Agora, livre, enquanto o carro de Gustavo corta as ruas de Chicago, eu sei que o dinheiro de Isabel já está me esperando. A sede da "Sombras Segurança" já existe no papel. O treinamento das minhas meninas vai começar. O sistema me deu cinco anos de escuridão. Eu vou dar a eles uma eternidade de sombras. E quanto ao tal sobrinho de Isabel, o herdeiro da máfia... espero que ele esteja pronto. Porque quando as costas dele estiverem desprotegidas, serei eu quem estará lá. Não por amor, nem por lealdade a ele, mas porque eu sou a única capaz de manter a cabeça de um rei no lugar. O jogo começou.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR