POV – ENZO VITALE (Presente – 30 anos)
O reflexo no espelho de cristal da minha cobertura nunca mente. O terno italiano, cortado sob medida, abraça meus ombros de uma forma que impõe respeito antes mesmo de eu abrir a boca. Ajustei o nó da gravata de seda e verifiquei o relógio de edição limitada no pulso. Trinta anos. No auge do meu poder. Eu não sou apenas o herdeiro da linhagem Vitale; eu sou o motor que faz Chicago girar, seja através dos arranha-céus da Vitale Corp ou através das sombras onde a nossa verdadeira lei é escrita.
Caminhei até a janela panorâmica, observando a cidade abaixo. Chicago parece pequena daqui de cima. As pessoas parecem formigas, e eu sou quem decide o caminho que elas seguem.
— Sr. Vitale? O carro está pronto. Temos a reunião com os investidores às nove e o conselho da Família às onze — a voz de Marco, meu assistente de longa data, soou na porta.
— Eu sei, Marco. Eu nunca me atraso.
Desci pelo elevador privativo. Ao entrar na garagem, vi o habitual destacamento de seguranças que meu pai insiste em manter por perto. Homens grandes, armados, mas que para mim eram apenas estorvos.
— Eu já disse que não preciso de quatro carros me seguindo — resmunguei, entrando no banco de trás da minha SUV blindada.
— Ordens do Dom, senhor. Com a recente instabilidade e o que aconteceu com a Srta. Isabel... — Marco hesitou.
O nome da minha tia me fez apertar o maxilar. Isabel. Minha tia caçula, a menina que eu vi crescer como uma irmã. Aqueles desgraçados a usaram para nos atingir. O erro deles foi achar que poderiam quebrá-la. E o meu erro foi não estar lá para impedir que ela fosse para aquele buraco imundo chamado presídio. Graças a Deus, algum detento chamado "Val" cuidou dela. Devo uma garrafa de uísque bem cara e um maço de dinheiro a esse sujeito quando ele sair.
— Eu sei me cuidar sozinho, Marco. Treino desde os treze anos. Aprendi com os melhores. — Meus pensamentos voaram por um segundo para o passado. Lembrei-me de Otávio Ortega. Eu era apenas um garoto de treze anos quando o via lutar. Ele era um deus no ringue. Eu queria ser como ele. Quando ele morreu, algo na minha visão de mundo mudou. A perfeição pode ser dopada. A força pode ser traída.
Mas eu não seria como ele. Eu não deixaria ninguém me dopar ou me derrubar.
POV – LUCIANA VITALE (Mãe de Enzo)
Observei meu filho sair de casa pela janela da sala de jantar. Enzo é a imagem perfeita do pai, mas com uma chama de arrogância que me preocupa. Ele caminha como se o chão fosse sua propriedade privada. Luciana Vitale, esse é o nome que carrego com honra, mas meu coração de mãe está sempre em alerta.
Aos trinta anos, Enzo é o sol da nossa família, mas sóis tendem a queimar quem chega perto demais.
— Ele se recusa a ver o perigo, não é? — meu marido, o Dom, disse, aproximando-se e colocando a mão no meu ombro.
— Ele acha que é invencível, querido. Como você era nessa idade. Mas o mundo mudou. Os inimigos agora atacam pelas costas, como fizeram com a nossa pequena Isabel.
— Eu sei. Por isso o plano está em andamento. Isabel me falou sobre esse tal de Val. Se ele for metade do que ela descreveu, ele será o escudo que Enzo se recusa a carregar. — O olhar do meu marido era frio, determinado.
Eu sabia que, na máfia, a gratidão é tão forte quanto a bala. Se esse homem salvou a vida da minha cunhada, ele teria um lugar à nossa mesa. Mas eu temia o encontro. Enzo não gosta de ser protegido. Ele gosta de dominar.
POV – ENZO VITALE
A manhã na Vitale Corp foi um sucesso, como sempre. Esmaguei dois concorrentes e fechei um contrato que garantiria milhões para os cofres da família. Depois, a noite caiu sobre Chicago, e o terno de CEO deu lugar ao instinto de Dom.
Fui para uma das minhas boates favoritas. O som alto, as luzes neon e o cheiro de perfume caro. Eu precisava de uma distração. Mulheres se jogavam no meu caminho, atraídas pelo poder, pelo dinheiro e, eu sabia, pela minha aparência. Eu não era modesto; sabia que era o homem que elas queriam ter na cama.
Escolhi uma loira deslumbrante que estava no bar. Passamos a noite entre champanhe e sussurros. Quando chegamos à minha cobertura, foi rápido, intenso e puramente físico. Sem nomes, sem promessas, sem paixão. Mulheres eram como os carros que eu dirigia: máquinas bonitas para serem apreciadas, mas que nunca deveriam assumir o volante da minha vida.
Enquanto ela dormia, eu me levantei e fui para a varanda fumar um charuto.
A imagem da Isabel na prisão não saía da minha cabeça. Ela me contou histórias sobre como esse tal de "Val" botava ordem no lugar. Como ele desafiava os guardas e protegia quem não podia se defender.
— Val... — murmurei para o vento frio. — Você deve ser um bruto e tanto para dominar aquele presídio.
Eu imaginava um homem gigante, com mãos do tamanho de pratos e o rosto marcado por facadas. Alguém que eu poderia contratar para limpar o lixo das ruas, talvez, mas nunca alguém que eu respeitaria como igual. Eu não preciso de guarda-costas. Eu sou a própria arma.
Eu não sabia que, a quilômetros dali, a "arma" que mudaria minha vida estava contando os dias para sair. Eu não sabia que o meu "grande herói" do passado tinha deixado um legado que não usava ternos caros, mas sim luvas de combate e um olhar de vingança.
O meu império estava sólido. Minha sucessão estava garantida. Eu tinha o mundo na palma da mão. O que poderia dar errado?
Puff. Soltei a fumaça do charuto.
Eu era o rei de Chicago. E reis não precisam de babás. Eles precisam de súditos. Se esse tal de Val quer abrir uma empresa de segurança com o dinheiro do meu pai, ele vai ter que passar por mim primeiro. E eu não sou fácil de impressionar.
POV – ISABEL VITALE (Na mansão dos Vitale)
Eu ouvia o riso do Enzo do andar de cima e só conseguia suspirar. Ele não tem ideia.
Meu sobrinho é o homem mais lindo e arrogante que eu conheço. Ele acha que sabe tudo sobre o mundo, mas ele nunca esteve onde eu estive. Ele nunca viu a morte de perto em uma cela suja.
— Ele vai ter um choque, não vai, Dom? — perguntei ao meu irmão, que revisava alguns relatórios.
— Enzo é como um puro-sangue, Isabel. Ele precisa de um freio antes que pule de um penhasco. Valentina Ortega... — meu irmão saboreou o nome. — Eu pesquisei sobre o pai dela. Otávio era um homem de honra. Se o sangue dele corre nas veias dessa garota, ela é exatamente o que esta família precisa.
— Ele acha que ela é um homem, sabia? — eu disse, rindo baixinho.
O Dom deu um sorriso raro.
— Deixe que ele pense assim. A surpresa vai ser a melhor parte da lição. Valentina vai provar seu valor, e Enzo vai descobrir que as sombras podem proteger muito melhor do que a luz dos holofotes.
Eu olhei para o relógio. O dia da saída dela estava chegando. A "Sombras Segurança" estava prestes a nascer, e Chicago nunca mais seria a mesma.