POV – ENZO VITALE
As luzes estroboscópicas da Obsidian, a minha boate mais lucrativa no centro de Chicago, cortavam a fumaça e o cheiro de álcool caro como lâminas de neon. Eu estava no camarote VIP, o meu trono particular, observando o movimento lá embaixo. Eu não estava ali para me divertir; o prazer para mim era apenas uma transação, uma forma de liberar a adrenalina que o cargo de Dom e CEO exigia.
Senti unhas compridas e bem feitas deslizarem pelo meu pescoço. Era Sheila, uma modelo que frequentava o lugar há semanas tentando chamar minha atenção. Ela era bonita, o tipo de beleza óbvia que cansa rápido: loira, lábios preenchidos, olhos que brilhavam com a ganância de quem quer um sobrenome Vitale.
— Você está muito tenso hoje, Enzo — ela sussurrou, a voz carregada de uma sensualidade forçada que não me afetava em nada.
— O trabalho exige muito de mim, Sheila. — Não desviei o olhar da pista. — E eu não gosto de perder tempo com conversas vazias.
Ela riu, uma risada anasalada, e se ajoelhou entre minhas pernas ali mesmo, no escuro do camarote, protegida pelas cortinas de veludo. Eu não a impedi. Não havia carinho, não havia conexão. Para mim, ela era apenas um objeto de alívio. Meus dedos se enredaram no cabelo dela com força, sem delicadeza, enquanto eu mantinha os olhos abertos, observando a segurança da boate pelo vidro fumê. Mesmo no momento de prazer, minha mente estava no império. A pele dela era fria, o perfume era doce demais, enjoativo. Quando terminei, apenas fechei o zíper e sinalizei para que ela se levantasse.
POV – SHEILA (A Mulher da Boate)
Ele me olhava como se eu fosse um móvel caro. Não houve um beijo, não houve um "obrigado". Enzo Vitale era um bloco de gelo esculpido em forma de homem. Eu me levantei, ajeitando meu vestido de seda de dois mil dólares, sentindo um gosto amargo na boca que não era do champanhe.
Eu queria o poder dele, queria o brilho que ser a mulher de um Vitale trazia, mas ele me tratava como lixo descartável. Ele achava que eu era apenas mais uma conquista, alguém que ele poderia usar e esquecer. O que ele não sabia era que o meu desprezo por ele estava começando a superar minha ambição. Eu via os homens dele nos cantos, via como ele se achava invencível.
Um dia, Enzo, você vai implorar para que eu olhe para você, pensei, enquanto sorria falsamente para ele antes de sair do camarote. Eu já tinha sido procurada por homens que odiavam os Vitale. E a cada vez que Enzo me tratava com aquela indiferença c***l, a proposta daqueles homens parecia mais tentadora. Se eu não podia ter o trono ao lado dele, eu ajudaria a derrubá-lo.
POV – ISABEL VITALE
Saí da banheira de hidromassagem na mansão da família, sentindo que, finalmente, o cheiro de desinfetante da prisão estava deixando meus poros. Mas as cicatrizes invisíveis ainda estavam lá. Eu fechava os olhos e ainda via as sombras das detentas se aproximando de mim com facas.
Vesti um roupão de seda e desci para o escritório do meu irmão. O Dom estava lá, cercado por mapas de Chicago e relatórios financeiros.
— Como você está, pequena? — ele perguntou, sem tirar os olhos dos papéis.
— Melhor, Dom. Mas não consigo parar de pensar nela. Valentina sai em poucos dias.
— Eu já dei as ordens — ele disse, finalmente olhando para mim. — O galpão na zona industrial foi adquirido sob um nome de fachada. A conta bancária já está ativa com os primeiros cinco milhões de dólares. É o capital inicial para a Sombras Segurança.
— Enzo vai surtar quando descobrir que você está financiando uma empresa de guarda-costas feminina — eu disse, sentando-me na poltrona de couro. — Ele acha que mulheres só servem para o que ele faz naquelas boates.
— Enzo precisa de um choque de realidade. Ele acha que "Val" é um brutamontes que vai limpar as calçadas. m*l sabe ele que Valentina Ortega é a filha do homem que ele mais admirou. E que ela é mais letal que qualquer um dos gorilas que ele mantém na folha de pagamento.
POV – DOM VITALE (O Pai de Enzo)
Eu conhecia o peso de uma dívida de sangue. Quando Isabel me contou o que aconteceu naquela cela, meu sangue ferveu de ódio pelos meus inimigos, mas também de uma gratidão profunda por aquela garota. Eu pesquisei tudo sobre Valentina. A história do pai dela, Otávio, era uma mancha na história do esporte de Chicago. Ele foi um homem de honra destruído pela ganância de terceiros.
— Ela vai precisar provar o valor dela para o Enzo, Isabel — eu disse, cruzando os braços. — Eu não posso simplesmente impor uma segurança a ele. Ele é o Dom em treinamento, o orgulho dele é a sua maior força e sua maior fraqueza.
— Ela vai provar. Eu vi o que ela faz com as mãos limpas, irmão. Ela não luta por dinheiro; ela luta por sobrevivência. É uma diferença que o Enzo ainda não entende.
— O plano é o seguinte: deixaremos que ela estabeleça a empresa. Quando os ataques contra o Enzo se intensificarem — e eles vão, pois os russos e os irlandeses estão se movendo — eu farei com que a primeira opção de proteção externa seja a dela. Ele vai recusar, é claro. Mas o destino dará um jeito de colocá-los na mesma sala.
Olhei para a foto de família sobre a mesa. Enzo era impetuoso. Ele precisava de uma âncora.
— Valentina Ortega não é apenas uma segurança, Isabel. Se ela tiver metade da fibra do pai, ela será o braço direito que meu filho nunca soube que precisava. E se ela conseguir domar o temperamento do Enzo... bem, aí teremos uma nova era para os Vitale.
POV – ENZO VITALE
Voltei para casa de madrugada, o cheiro de Sheila ainda impregnado na minha pele, o que me causava uma leve náusea. Eu sentia que algo estava mudando na atmosfera da cidade. Havia sussurros de que uma nova força estava surgindo no submundo, alguém que não seguia as regras antigas.
Passei pelo escritório do meu pai e vi a luz acesa. Ele e Isabel estavam lá, conversando em voz baixa.
— Ainda acordados planejando o futuro de "Val"? — perguntei, encostado no batente da porta com um sorriso cínico. — Realmente, pai, gastar tanto dinheiro com um ex-presidiário por causa de uma briga de pátio parece exagero.
— Não foi uma "briga de pátio", Enzo. Foi a vida da sua tia — o Dom respondeu, a voz fria como o inverno. — E esse homem... esse Val... tem mais honra no dedo mindinho do que muitos dos seus aliados.
— Honra não para balas, pai. Eu cuido de mim mesmo. — Dei as costas, subindo as escadas. — m*l posso esperar para conhecer esse seu novo protegido. Vou adorar ver a cara de decepção dele quando eu mostrar que não preciso de babá.
Eu entrei no meu quarto e me joguei na cama. Eu era o príncipe de Chicago. Eu tinha o controle. Eu tinha as mulheres que queria e o poder que os outros apenas sonhavam.
Eu não sabia que meu pai e minha tia estavam jogando um xadrez que eu ainda não compreendia. Eu não sabia que Sheila, a mulher que eu acabei de descartar como lixo, estava agora mesmo enviando uma mensagem para um contato anônimo dizendo: "Ele está vulnerável. No camarote da Obsidian, toda terça. Ele não desconfia de nada."
E, acima de tudo, eu não sabia que a minha "babá" não era um homem bruto, mas uma mulher com a alma de vidro temperado e mãos que sabiam exatamente onde ficava o meu ponto cego.
A escuridão de Chicago estava ficando mais densa. E eu, em minha arrogância, achava que era eu quem comandava as sombras.