CAPÍTULO 7: Pontos Cegos

1372 Palavras
POV – VALENTINA ORTEGA O carro de Gustavo parou em frente a um galpão de fachada discreta na zona industrial de Chicago. O metal enferrujado e as janelas altas e sujas escondiam o que estava por vir. Saí do carro e o vento gelado cortou meu rosto, mas eu sorri. Pela primeira vez em cinco anos, eu não sentia o cheiro de confinamento. — Está pronta, Val? — Gustavo perguntou, o tom de voz preocupado. Ele ainda era o irmão que queria me proteger, mesmo sabendo que eu era a arma da família. — Eu nasci pronta, Gustavo. Entramos. O som de correntes batendo e sacos de pancada sendo atingidos ecoou pelo espaço imenso. No centro, Bia, Sofia e Marta pararam o que estavam fazendo. O silêncio foi absoluto por cinco segundos, até que Bia soltou o ar que parecia prender há anos. — A Rainha voltou — ela disse, e as outras se aproximaram, batendo os punhos nos ombros em nosso cumprimento de cela. Mas não estávamos sozinhas. No fundo, perto de uma mesa de carvalho que parecia deslocada naquele ambiente bruto, estavam Isabel e um homem que exalava um poder ancestral. O Dom. POV – DOM VITALE Ao ver Valentina Ortega caminhar em minha direção, senti como se o tempo tivesse voltado trinta anos. Ela tinha a mesma postura de Otávio. O mesmo olhar de quem não negava uma luta, mas a inteligência em seus olhos era algo novo, algo dela. Eu sabia quem ela era. Eu e Otávio fomos amigos em uma época em que o mundo era mais simples. Eu sabia que a morte dele não foi apenas um suicídio por vergonha; havia mãos sujas que eu ainda estava rastreando. Ver a filha dele ali, forjada no fogo da injustiça, fez meu sangue de mafioso ferver de satisfação. — Valentina — eu disse, levantando-me. — Isabel me contou sobre sua bravura. Mas no meu mundo, gratidão não é o suficiente para um contrato de milhões. Eu preciso de competência. — O senhor quer uma demonstração, Dom Vitale? — ela perguntou, a voz sem um pingo de hesitação. — Escolha o seu melhor homem. Ou todos eles. POV – ISABEL VITALE Eu estava ansiosa. Ver Valentina fora daquelas roupas de detenta era como ver um diamante bruto ser lapidado. Ela estava ali, vestida de preto, com as tatuagens no pescoço à mostra, desafiando o homem mais poderoso de Chicago. — Ela não está blefando, irmão — avisei, cruzando os braços. — Eu vi o que ela fez no pátio. O Dom sinalizou para dois de seus guardas de elite, homens de quase dois metros de altura. Eles riram, achando que era uma brincadeira. Valentina nem sequer mudou a expressão. Em menos de trinta segundos, o galpão ficou em silêncio novamente. O som de ossos estalando e corpos atingindo o chão de concreto foi a única música. Valentina não usou força bruta; ela usou física, pontos de pressão e a agressividade de quem não tem nada a perder. — Contratada — o Dom disse, com um brilho de admiração que eu raramente via. — Mas há uma condição. Meu filho, Enzo, é um homem difícil. Ele acha que você é um homem chamado "Val". Quero que você o proteja das sombras primeiro. Ele vai sofrer um ataque hoje à noite. Eu sei disso. Meus informantes dizem que os irlandeses se moveram após a traição de uma de suas amantes. Valentina limpou uma gota de suor da testa. — Considerem-no protegido. Mas quando ele descobrir, não esperem que eu seja gentil. POV – ENZO VITALE A noite estava perfeita. Saí da Obsidian com a confiança de quem é dono da cidade. Sheila não estava comigo; ela tinha saído mais cedo, alegando um m*l-estar. Eu não me importei. Estava dirigindo meu conversível de volta para a cobertura, sentindo a adrenalina de um dia de negócios bem-sucedido. — Marco, avise ao meu pai que amanhã não estarei na reunião — disse pelo viva-voz. De repente, o mundo explodiu. Uma van preta cortou minha frente e o som de tiros de submetralhadora rasgou o silêncio da noite. Os vidros do meu carro, embora blindados, começaram a estilhaçar sob a pressão. Meus pneus estouraram e eu rodei, atingindo um poste de iluminação. Minha cabeça bateu no volante. Senti o sangue quente escorrer pela testa. Atordoado, tentei sacar minha arma, mas a porta estava amassada. Vi três homens descendo da van, armados até os dentes. — É o seu fim, Vitale! — um deles gritou. Eu estava preso. O herdeiro da máfia, o príncipe de Chicago, ia morrer como um rato em uma armadilha de metal. Fechei os olhos por um segundo, esperando o impacto final. Mas o que ouvi não foram tiros na minha direção. Foram gritos de dor. POV – VALENTINA ORTEGA Eu estava na moto, a poucos metros de distância, observando tudo. O "Príncipe" tinha pontos cegos do tamanho de um bonde. Quando os mercenários avançaram, eu entrei em ação. Desci da moto em movimento e saquei minha faca tática. O primeiro homem nem viu quando eu cortei o tendão de Aquiles dele e finalizei com um golpe na nuca. O segundo tentou virar a arma, mas eu fui mais rápida, desarmando-o com um chute giratório que meu pai me ensinou quando eu tinha oito anos. O terceiro apontou a arma para o peito de Enzo, que ainda tentava sair do carro. Eu voei sobre o capô, agarrando o pulso do atirador e quebrando-o como se fosse um graveto. Chutei a arma para longe e o nocauteei com uma joelhada. — Você está bem, "Príncipe"? — perguntei, aproximando-me do carro. Enzo levantou a cabeça. O rosto dele estava sujo de sangue e fuligem, mas os olhos... os olhos dele saltaram quando me viram. — Quem... onde está o Val? — ele gaguejou, a arrogância desaparecendo para dar lugar a uma confusão profunda. — Val sou eu, Enzo. — Sorri, mas não era um sorriso doce. — E se eu fosse você, ficava de boca fechada antes que mais algum irlandês decida tentar a sorte. POV – ENZO VITALE Eu estava em choque. Não pela morte quase certa, mas pela visão diante de mim. O "Val" que minha tia descreveu, o "homem bruto" que meu pai contratou... era uma mulher. E não qualquer mulher. Ela tinha olhos cor de tempestade e uma agilidade que eu nunca vi em nenhum guarda-costas masculino. — Você... é uma mulher — eu disse o óbvio, sentindo meu orgulho ser esmagado junto com a lataria do meu carro. — E você é um alvo fácil — ela retrucou, estendendo a mão para me ajudar a sair das ferragens. — Vamos. Meu contrato começa agora e eu não recebo para recolher cadáveres de herdeiros teimosos. Eu me levantei, tentando recuperar minha dignidade. Eu estava furioso. Meu pai tinha me enganado. Isabel tinha me enganado. E aquela mulher... ela tinha me salvado. — Eu não preciso de você — rugi, avançando para cima dela. Eu queria provar que aquilo foi sorte, que eu era o melhor. Tentei agarrar o braço dela para imobilizá-la, usando uma técnica de defesa pessoal que eu praticava há anos. Valentina nem piscou. Ela usou meu próprio peso contra mim. Em um movimento fluido, um giro de quadril e um gancho no pé, eu estava de costas no chão, com o joelho dela pressionando meu peito e uma faca encostada na minha garganta. — Esse golpe... — eu sussurrei, a respiração curta. — O "Giro do Falcão". Só uma pessoa fazia isso. Otávio Ortega. — Ele era meu pai, seu i****a — ela sussurrou de volta, a lâmina gelada pressionando minha pele. — Agora, você vai se levantar, vai entrar no carro de apoio do seu pai que está chegando ali na esquina e vai aceitar que, a partir de hoje, quem manda na sua vida sou eu. Ou você morre pelo seu orgulho, ou sobrevive pelas minhas mãos. Escolha. Pela primeira vez na vida, Enzo Vitale não tinha uma resposta. A negação era forte, o ódio por ser protegido por uma mulher ardia, mas o toque daquela faca dizia que ela não estava brincando. A Rainha das Sombras tinha acabado de colocar o Príncipe de joelhos.
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