POV – ENZO VITALE
O hall de entrada da mansão Vitale nunca pareceu tão opressor. O cheiro de sangue seco no meu rosto e o latejar na minha cabeça eram lembretes constantes da humilhação que acabei de sofrer no asfalto. Mas nada doía mais do que o fato de ter sido jogado no chão por uma mulher.
— Isabel! — meu grito ecoou pelas escadarias de mármore.
Minha tia apareceu no topo da escada, com um olhar que misturava alívio e uma diversão contida que me deu vontade de socar a parede.
— Você mentiu para mim! — vociferei, ignorando a dor nas costelas. — Você disse que "Val" era um bruto, um homem que botava ordem na prisão! Você me deixou acreditar que eu teria um guarda-costas de verdade, não uma... uma garota que m*l tem idade para dirigir!
Isabel desceu os degraus com uma calma irritante.
— Eu nunca menti, Enzo. Eu disse que Valentina era a pessoa mais letal que já conheci. O fato de você ter assumido que "Val" era um homem apenas prova o seu próprio preconceito. Eu disse que ela era o "elo", a ordem. E pelo que vi no relatório que acabou de chegar, se não fosse por essa "garota", você seria um cadáver decorando um banco de couro agora.
— Isso é ridículo! — esbravejei. — Eu sou o CEO da Vitale Corp! Sou o herdeiro do Dom! Eu não preciso de uma babá de r**o de cavalo me seguindo! Foi um golpe de sorte, ela pegou os caras desprevenidos e...
— E ela te derrubou com um único movimento, não foi? — A voz do meu pai, pesada e gélida, veio do corredor escuro.
O Dom caminhou até a luz, seus olhos fixos nos meus. A presença dele sempre me fazia empertigar, mas hoje, eu me sentia pequeno.
— Pai, isso é um absurdo. Uma guarda-costas mulher? A máfia vai rir da nossa cara!
— A máfia vai rir se você for enterrado porque estava ocupado demais olhando para o decote de uma traidora em vez de olhar para a estrada — meu pai retrucou, aproximando-se até ficarmos cara a cara. — Quando você parar de ser esse moleque arrogante e prepotente, talvez entenda que o perigo não escolhe gênero. Valentina Ortega está aqui porque eu mandei. Ela está aqui porque é a melhor. E se você não gosta, aprenda a vencê-la. Mas até lá, ela é a sua sombra.
Saí dali cuspindo fogo. Entrei no meu escritório e me joguei na poltrona. Meu peito ardia, mas não era só pelo golpe. Era algo mais profundo. Ortega. A filha de Otávio Ortega. O homem cujas lutas eu assistia em transe, tentando decorar cada movimento. No fundo, uma parte pequena e guardada de mim estava fascinada. Eu estava diante da linhagem do meu ídolo. Mas o meu ego era um monstro muito maior que a minha admiração. Ela me humilhou. E eu ia provar que aquilo foi sorte.
POV – VALENTINA ORTEGA
Eu não estava nem um pouco interessada nos dramas familiares dos Vitale. Enquanto o herdeiro dava seu show de temperamento, eu estava no galpão, revisando o contrato que o Dom assinou. Ele foi generoso, mas eu sabia que cada centavo vinha com o preço de sangue.
— Val, você viu isso? — Bia se aproximou, apontando para a área de logística do galpão. — O Dom arrumou um cargo de gerência para o Gustavo em uma das empresas de exportação dele. Salário de alto nível, benefícios... ele está realmente investindo na gente.
Olhei para o meu irmão, que estava a alguns metros dali, falando ao telefone com uma expressão de alívio que eu não via há anos. Gustavo não sabia que o Dom e nosso pai eram amigos; ele achava que era apenas um bônus pelo meu serviço. Eu preferia manter assim. O passado era um campo minado.
— Deixe-o aproveitar, Bia. Ele carregou o peso dessa família nas costas enquanto eu estava presa. Ele merece paz. Já nós... nós temos uma guerra para montar.
Em uma semana, o galpão já não parecia mais um lugar abandonado. Tínhamos cinquenta mulheres. Cinquenta almas feridas pelo sistema que eu estava transformando em aço. Eu passava as manhãs treinando-as, ensinando que a força não vem do músculo, mas da precisão e do desespero controlado.
Mas o meu "trabalho principal" era o que me dava mais tédio: Enzo Vitale.
POV – VALENTINA ORTEGA (Duas semanas depois)
A rotina era um teste para a minha paciência. Eu tive que me mudar para a mansão dos Vitale para garantir proteção total. Todo santo dia, eu tinha que acordar aquele projeto de Deus grego e arrastá-lo para a realidade.
Eu estava parada ao lado do carro blindado, esperando por ele. Enzo saiu da mansão vestindo um terno cinza que custava mais do que a casa onde morei na infância. Ele caminhava com aquela arrogância de quem é dono do sol, mas não me dirigiu o olhar.
— Atrasado cinco minutos, Vitale — eu disse, abrindo a porta do motorista.
— Eu sou o dono da empresa, Ortega. Eu chego quando eu quiser. E eu já disse que eu dirijo. — Ele tentou pegar a chave da minha mão.
Eu apenas desviei o braço e entrei no carro.
— Você dirige quando eu decidir que você é capaz de notar um sniper a dois quarteirões de distância. Por enquanto, senta no banco de trás e tenta não ser um alvo tão grande.
Ele bufou, entrando no carro e batendo a porta com força. Durante o caminho para a Vitale Corp, o silêncio era tenso. Eu via pelo retrovisor que ele me observava. Enzo estava acostumado a ter mulheres se derretendo por ele, implorando por um segundo de sua atenção. Eu? Eu o tratava como um pacote valioso que eu não podia deixar quebrar, mas que me dava dor de cabeça.
— Você não cansa de ser tão... fria? — ele perguntou de repente, inclinando-se para frente. — Sabe, a maioria das mulheres daria tudo para estar no seu lugar, nesse carro, comigo.
— A maioria das mulheres quer o seu dinheiro ou a sua cama, Enzo. Eu só quero que o meu turno acabe sem ninguém tentar explodir a sua cabeça — respondi, sem tirar os olhos da estrada. — E sinto te informar, mas você não é o meu tipo. Eu prefiro homens que não precisam ser salvos por mulheres.
Vi o maxilar dele travar. O ego dele estava sangrando. Ótimo.
POV – ENZO VITALE
Ela me tratava como se eu fosse uma criança birrenta. Eu, o homem que fazia os maiores tubarões de Chicago tremerem em reuniões, estava sendo subjugado pelo sarcasmo de uma mulher que não usava maquiagem, não usava vestidos provocantes e me ignorava como se eu fosse um figurante na sua vida.
E o pior? Eu não conseguia parar de olhar para ela. Valentina era magnética. O jeito que ela controlava o volante, a forma como seus olhos escaneavam cada esquina, a tensão nos seus músculos... ela era a perfeição técnica.
— Foi golpe de sorte — eu murmurei para mim mesmo, mas alto o suficiente para ela ouvir. — Aquele dia no carro. Eu estava atordoado pela batida. Se eu estivesse cem por cento, eu teria acabado com aqueles caras sozinho. E teria acabado com você também.
— Claro, "Príncipe" — ela debochou, estacionando o carro na garagem privativa da empresa. — Continue acreditando nisso se te ajuda a dormir à noite. Agora desça. Temos uma reunião de conselho e eu não quero que você se atrase para o seu chá das cinco.
Ela saiu do carro com uma agilidade invejável. Eu a segui, fervendo por dentro. Eu precisava de um plano. Precisava derrubá-la, provar que eu era superior. Mas toda vez que eu tentava uma aproximação, ela estava três passos à frente.
POV – VALENTINA ORTEGA (Final do dia)
Depois de um dia exaustivo vigiando o ego de Enzo, eu finalmente tive algumas horas de folga. Fui visitar minha mãe.
A casinha onde Gustavo a acomodou era simples, mas limpa. Entrei e a vi sentada perto da janela. Ela não tocava piano, mas seus olhos pareciam mais presentes.
— Valentina? — ela sussurrou quando entrei.
— Sou eu, mãe. — Abracei-a com cuidado. A pele dela era frágil como papel, mas o abraço tinha um calor que eu senti falta em cada noite fria na cela. — O Gustavo está bem. Eu estou bem. Estamos reconstruindo tudo.
— Seu pai ficaria orgulhoso, Val. Ele sempre disse que você era a mais forte de nós.
Eu segurei as lágrimas. Eu não podia ser fraca. Não agora.
Ao sair de lá, vi o carro de apoio que o Dom enviou para me buscar. Eu estava vivendo uma vida dupla: de dia, a sombra de um mafioso arrogante; de noite, a líder de um exército de mulheres que buscavam redenção.
Eu sabia que Enzo estava me testando. Ele achava que eu era apenas um obstáculo. Ele não sabia que eu o estava estudando. Eu sabia seus horários, seus vícios, seus medos ocultos. Ele achava que a "Sombras Segurança" era apenas um capricho do pai dele.
O que ele ainda não entendeu é que ele não é o meu patrão. Ele é a minha missão. E no mundo da Valentina Ortega, missões não falham. Elas dominam.
POV – ENZO VITALE
No meu quarto na mansão, eu tomava um uísque puro, olhando para a porta do quarto ao lado — o quarto da Valentina.
Eu me sentia m*l. Pela primeira vez, o meu charme não funcionou. O meu poder não a impressionou. Ela era a filha de Otávio Ortega, e eu percebi que, para ganhar o respeito dela, eu não precisaria de ternos caros ou de um trono de máfia. Eu precisaria ser o homem que eu fingia ser.
— Você vai cair, Valentina Ortega — eu sussurrei para o copo de cristal. — Mais cedo ou mais tarde, você vai baixar a guarda. E eu estarei lá para ver quem você realmente é por trás dessa armadura de sombras.
Mas, lá no fundo, uma voz dizia que, se ela baixasse a guarda, quem cairia de joelhos seria eu.