POV – VALENTINA ORTEGA (Um mês depois)
O suor escorria pelo meu pescoço, mas eu não parei. O som seco do impacto dos punhos contra o saco de areia era o metrônomo da minha vida. Trinta dias haviam se passado desde que cruzei os portões de concreto da prisão, e Chicago já não era a mesma para mim.
O galpão na zona industrial agora era uma fortaleza. Minha elite de mulheres continuava sendo o coração da empresa, mas eu havia aberto as portas para homens — não qualquer homem, mas ex-militares e lutadores de rua que o sistema quebrou e cuspiu. Eu os estava transformando em máquinas. Eles não eram apenas guarda-costas; eram especialistas em resgate, sombras capazes de cruzar fronteiras para proteger quem o dinheiro não conseguia salvar. A "Sombras Segurança" estava crescendo em um ritmo assustador, e o nome "Ortega" voltava a ser sussurrado nos cantos escuros da cidade com um misto de medo e reverência.
Mas minha verdadeira missão acontecia nas madrugadas, entre pilhas de arquivos e telas de computador. Com a ajuda de Sofia, que era um gênio da computação na cela e agora minha inteligência externa, eu comecei a puxar os fios da morte do meu pai.
— Val, você precisa ver isso — Sofia disse, apontando para a tela.
Eram registros de transferências bancárias de dez anos atrás. O dinheiro que circulou para dopar Otávio Ortega veio de contas fantasmas ligadas ao clã Petrov — os mesmos russos que hoje tentam arrancar a cabeça de Enzo Vitale.
O impacto daquela descoberta me fez perder o fôlego. O assassino do meu pai e o inimigo do meu atual protegido eram a mesma serpente. Eles não queriam apenas o trono dos Vitale; eles queriam o controle total das apostas e do submundo que meu pai um dia liderou com honra.
E tinha mais. Eu estava vigiando a mansão dos Harrison. A família que me roubou cinco anos de vida estava celebrando o noivado da filha, a mesma que mentiu no tribunal. Eu os via através da minha lente de longo alcance. Eles achavam que eu era cinzas. Eles não sabiam que eu era a fênix que estava apenas esperando o momento certo para incendiar o mundo perfeito deles.
POV – ENZO VITALE
Eu estava sentado na cabeceira da mesa de reuniões da Vitale Corp, observando os gráficos de lucro do último trimestre. Eu era bom no que fazia. Eu respirava estratégia, antecipava crises e esmagava concorrentes antes mesmo de eles saberem que éramos inimigos. Mas, pela primeira vez, eu sentia um par de olhos nas minhas costas que eu não conseguia ignorar.
Valentina estava parada no canto da sala, vestida com um terno preto sob medida, com o rádio discreto no ouvido. Ela parecia uma estátua de ébano, imóvel, mas eu sabia que ela estava processando cada respiração naquele ambiente.
Durante esse mês, eu tentei de tudo para provar que ela era desnecessária. Eu lutava nos meus treinos matinais com uma fúria renovada, e admito, eu era bom. Eu enxergava o campo de batalha antes da maioria. Mas Valentina... ela enxergava o que eu ignorava. Ela via o garçom que tremia levemente ao me servir o café. Ela via o carro que dobrava a esquina duas vezes antes de estacionar.
Eu estava começando a respeitá-la. Não apenas como uma lutadora, mas como uma profissional. Ela era o CEO das sombras, enquanto eu era o CEO da luz.
— A reunião acabou, senhores — eu disse, dispensando o conselho.
Quando ficamos sozinhos, levantei-me e caminhei até ela.
— Você está silenciosa hoje, Ortega. Algum problema nos seus "treinos de máquinas"?
Ela me olhou, e por um segundo, vi algo diferente naqueles olhos de tempestade. Não era apenas o desdém habitual. Era algo mais profundo.
— Seus inimigos são mais persistentes do que eu imaginava, Enzo. E eles têm raízes no meu passado — ela respondeu, a voz num tom baixo que me deu um calafrio. — Você é um excelente presidente. Você olha para frente e vê o sucesso. Mas você precisa que eu olhe para trás, porque é lá que o seu fim está sendo planejado.
POV – ISABEL VITALE
Eu via a mudança no Enzo. O jeito que ele olhava para a Valentina quando achava que ninguém estava vendo. Não era apenas desejo — embora a tensão s****l entre eles fosse forte o suficiente para eletrificar a mansão — era reconhecimento.
— Ele está começando a entender — eu disse ao Dom, enquanto observávamos os dois saírem para um jantar de negócios.
— Ele não tem escolha, Isabel — meu irmão respondeu, servindo-se de um conhaque. — Os Petrov estão ficando desesperados. Eles sabem que Valentina está treinando um exército que eles não podem infiltrar. Eles estão perdendo o controle das ruas de Chicago.
— E a Valentina? Ela descobriu sobre o pai?
O Dom suspirou, o olhar perdido nas chamas da lareira.
— Ela é esperta demais. Já deve ter ligado os pontos. O que ela ainda não sabe é que os Harrison, a família que a destruiu, são apenas peões nas mãos dos Petrov. Eles precisavam de alguém para culpar, alguém que desviasse a atenção da manipulação da luta de Otávio. Valentina foi o sacrifício perfeito.
Senti um aperto no peito. Valentina estava servindo à família que, indiretamente, estava ligada à sua ruína. Mas o Dom sabia o que estava fazendo. Ele estava dando a ela os recursos para que ela mesma fizesse a sua justiça.
POV – GUSTAVO ORTEGA
Trabalhar para o Dom era como viver em uma realidade paralela. Eu tinha um escritório, pessoas que me respeitavam e um salário que me permitia dar à nossa mãe o melhor tratamento médico da cidade. Mas eu via a minha irmã se afastar cada vez mais da "paz" que eu tanto desejava.
Eu a vi no galpão ontem à noite. Ela estava treinando um grupo de homens, gigantes que baixavam a cabeça quando ela falava.
— Val, quando isso vai parar? — perguntei, aproximando-me dela após o treino.
— Só para quando o sangue for limpo, Gustavo — ela disse, limpando o suor das mãos. — O Dom deu a você uma vida nova. Aproveite-a. Mas eu... eu nasci para garantir que ninguém tire essa vida de você novamente.
Eu queria dizer para ela largar a arma, para sermos apenas irmãos de novo. Mas quando olhei nos olhos dela, vi a Rainha das Sombras. E eu soube que ela não pararia até que cada pessoa que nos fez chorar estivesse de joelhos.
POV – VALENTINA ORTEGA
A noite em Chicago estava pesada. Eu estava no banco do motorista, levando Enzo de volta de um evento beneficente. Ele estava quieto, observando as luzes da cidade.
— Por que você treina homens agora? — ele perguntou, rompendo o silêncio. — Achei que seu foco fossem as mulheres do sistema.
— Mulheres são o meu coração, Enzo. Mas homens são necessários para o tipo de guerra que está chegando. — Olhei pelo retrovisor, percebendo um veículo preto nos seguindo a uma distância segura. — Eu estou criando um exército diversificado. Resgate, inteligência, combate tático. A "Sombras" não é mais uma empresa de segurança de bairro. Somos uma potência.
— E você é a líder. — Ele deu um sorriso de lado, um que não era arrogante, mas quase... admirado. — Sabe, Ortega, eu subestimei você. Achei que seu salvamento foi sorte. Mas vendo como você gerencia aquele galpão e como você me vigia... eu percebi que você é a única pessoa nesta cidade que não quer nada de mim, exceto que eu continue vivo.
— Não se sinta especial, Vitale. É apenas o meu trabalho.
— É mais do que isso. — Ele se inclinou para frente, o cheiro de uísque e perfume caro inundando o carro. — Você tem sede de algo. Eu vejo nos seus olhos quando olha para certas notícias no jornal. O que você está planejando?
— Justiça, Enzo. Algo que você, com todo o seu poder, nunca teve que lutar para conseguir.
Eu estacionei o carro na garagem da mansão. Antes que ele saísse, segurei seu braço. A pele dele estava quente sob meus dedos, e por um segundo, o mundo pareceu parar.
— Os mesmos homens que mataram o meu pai estão vindo atrás de você. — Minha voz era um sussurro perigoso. — Eu não estou aqui apenas para ser sua sombra. Eu estou aqui porque o seu inimigo é o meu alvo. E eu não perco um alvo, Enzo. Nunca.
Ele me encarou, a intensidade do momento quase palpável.
— Então parece que estamos no mesmo lado da trincheira, Valentina.
Saí do carro antes que a química entre nós quebrasse a barreira profissional que eu tanto me esforçava para manter. Subi para o meu quarto e abri meu mapa de vingança. A foto da família Harrison estava no centro, marcada com um X vermelho. O próximo passo era infiltração.
Eu ia destruir a vida deles, tijolo por tijolo. E os Petrov seriam os próximos.
Eu era a Valentina Ortega. A filha do campeão. A sobrevivente do inferno. E Chicago estava prestes a descobrir que as sombras não servem apenas para esconder; elas servem para caçar.