CAPÍTULO 10: O Pacto dos Patriarcas

1415 Palavras
POV – DOM VITALE O aroma de charuto e carvalho sempre me ajudou a pensar, mas hoje, o peso do passado parecia tornar o ar do meu escritório mais denso. Abri a gaveta secreta da minha escrivaninha e retirei um envelope amarelado. Dentro dele, uma fotografia que poucos olhos em Chicago tinham permissão para ver: eu, trinta anos mais jovem, com o braço sobre os ombros de Otávio Ortega. Estávamos rindo, dois reis em mundos diferentes — eu, o herdeiro do sangue; ele, o herdeiro do ringue. — Nós tínhamos um plano, Otávio — sussurrei para a imagem. — Nossas linhagens unidas. O seu aço e o meu ouro. A morte de Otávio não foi apenas uma tragédia esportiva; foi um golpe direto no meu flanco. O que Valentina não sabe, e o que eu escondi até de Enzo, é que Otávio era meu aliado mais leal. Ele lavava a honra da nossa cidade enquanto eu cuidava das engrenagens brutas. Sua morte foi uma mensagem dos Petrov, um aviso de que ninguém estava seguro. Meu plano de juntar Enzo e Valentina não é apenas por gratidão. É a realização do desejo do meu melhor amigo. Otávio queria que sua filha estivesse protegida pela redoma dos Vitale, e eu queria que meu filho tivesse ao lado alguém que não o visse como um cifrão, mas como alguém por quem vale a pena lutar. Valentina é o fogo que Enzo precisa para forjar sua verdadeira liderança. Ela o encara de igual para igual. E Enzo, em sua arrogância cega, ainda não percebeu que está diante da única mulher que nunca o deixará cair. Eu vejo como ele a olha. O desafio está se transformando em fascínio. Agora, meu trabalho é garantir que as sombras do passado não os consumam antes que esse fogo se torne um incêndio. POV – ISABEL VITALE Caminhei pelos corredores da mansão, observando o movimento dos guardas. A presença de Valentina mudou a energia desta casa. Antes, havia apenas uma guarda rígida; agora, há uma vigilância silenciosa e letal. Sentei-me no jardim de inverno com Luciana, minha cunhada, e o silêncio entre nós estava carregado de expectativas. — Você viu como ele a seguiu com o olhar hoje de manhã? — Luciana perguntou, com um sorriso discreto. — Enzo está em negação, Luciana — respondi, tomando um gole de chá. — Mas a negação dele é o primeiro passo para a obsessão. Ele nunca teve que lutar pela atenção de uma mulher. Valentina o ignora com a mesma facilidade com que desarma um invasor. — Eu me preocupo com o momento em que a verdade vier à tona — Luciana comentou, o olhar perdendo-se nas roseiras. — Se Enzo descobrir quem são os Harrison e o que eles fizeram com ela... ele vai querer incendiar Chicago. E se Valentina descobrir que nós sabíamos de tudo e esperamos o momento certo para usá-la como escudo... temo que ela nunca nos perdoe. — Nós não a estamos usando, Luciana. Estamos dando a ela o exército que ela precisa para fazer a própria justiça. O Dom é um estrategista. Ele sabe que Valentina só será plenamente nossa quando tiver limpado o próprio nome. Mas os Harrison são protegidos pelos russos. Tocar neles é declarar guerra total. Eu sabia do que falava. Na prisão, ouvi segredos que os Petrov deixavam escapar. Eles usaram os Harrison para enterrar a filha do campeão porque sabiam que, livre, Valentina seria a maior ameaça aos planos deles. Eles criaram o próprio carrasco. POV – LUCIANA VITALE Isabel é jovem e vê a ação, mas eu, como mãe e como a mulher que caminha ao lado do Dom há décadas, vejo a sobrevivência. Eu não quero que meu filho seja apenas um Dom poderoso; eu quero que ele continue vivo. Enzo é um excelente CEO, ele tem a visão do pai para os negócios, mas ele é impulsivo quando o assunto é o seu próprio ego. Ele precisa de Valentina não apenas para parar balas, mas para ser a sua âncora moral. Ela é leal até a medula. Eu vi como ela cuida da mãe dela e do irmão. Uma mulher que ama a família desse jeito, com tanta ferocidade, é a única que eu aceitaria como parceira para o meu Enzo. — Eles são feitos do mesmo material, Isabel — eu disse, colocando a mão sobre a dela. — Diamantes que só podem ser lapidados um pelo outro. Eu rezo todas as noites para que a raiva de Valentina se transforme em proteção para o meu filho. Porque se os russos conseguirem chegar ao Enzo, o império Vitale desmorona. E Valentina Ortega é a única parede que os Petrov não conseguem escalar. Eu vejo os planos do meu marido. O Dom está jogando com vidas, mas ele faz isso por amor. Ele quer que Valentina e Enzo se tornem uma entidade única. O aço e o ouro. POV – GUSTAVO ORTEGA Eu estava no arquivo morto da Vitale Corp, organizando documentos de exportação antigos, quando algo me chamou a atenção. Um cofre de parede, parcialmente escondido atrás de uma estante de carvalho, estava entreaberto no antigo escritório que o Dom mantinha na sede da presidência. Curioso, entrei. O ar ali era pesado, com cheiro de papel velho e segredos. Sobre a mesa, havia uma pasta com o brasão da nossa família. Minhas mãos tremeram ao abri-la. A primeira coisa que vi foi a foto. Meu pai e o Dom, jovens, rindo em um vestiário de boxe. Atrás, escrito à mão: "Pela aliança de Chicago. Vitale & Ortega". — Eles eram amigos... — murmurei, o choque percorrendo meu corpo. Continuei folheando. Havia relatórios sobre a luta em que meu pai foi dopado. O Dom estava colhendo pistas todos esses anos! Havia nomes, datas e fotos de vigilância dos Petrov e dos Harrison. O Dom sabia que meu pai foi assassinado. Ele sabia que Valentina foi injustiçada. Toda a raiva que eu sentia pela luta, todo o medo que me fez abandonar os ringues, transformou-se em uma clareza gelada. Eu estava focado nos estudos, tentando ser um "homem comum", mas o sangue dos Ortega não é comum. Se o Dom estava tentando recuperar a honra do meu pai em silêncio, eu não ficaria apenas assistindo. Saí do escritório e fui direto para a academia privativa da empresa. O saco de pancadas estava lá, silencioso. Coloquei as bandagens com uma calma que eu não sentia há dez anos. O primeiro soco foi doloroso. O segundo, libertador. — Eu vou voltar, pai — sussurrei entre os dentes, golpeando o couro com força. — Eu vou ajudar a Val. Vou recuperar tudo o que nos roubaram. Eu não era apenas um contador ou um gerente de logística. Eu era o filho de Otávio Ortega. E se a minha irmã era a Rainha das Sombras, eu seria o General que recuperaria o nosso trono sob a luz do sol. Se o Dom queria uma aliança, ele teria os dois irmãos Ortega lutando ao seu lado. POV – DOM VITALE Isabel entrou no meu escritório, interrompendo meus pensamentos. — Gustavo descobriu a foto, Dom. Ele está na academia agora. Voltou a treinar. Dei um sorriso de satisfação, fechando o envelope amarelado. — Ótimo. O sangue Ortega finalmente despertou no rapaz. Valentina vai precisar dele. Enzo vai precisar dele. — E se eles descobrirem que você permitiu que Valentina fosse presa para que ela pudesse se fortalecer lá dentro e encontrar a Isabel? — Isabel perguntou, o tom de voz preocupado. Olhei para a janela, para a cidade de Chicago que eu tanto amava. — Eu não permiti que ela fosse presa, Isabel. Eu apenas não impedi o destino. Eu sabia que, se eu interviesse naquela época, os Petrov matariam a família inteira. Na prisão, ela estava segura do radar deles. Agora, ela é maior do que qualquer ameaça que eles possam enviar. O jogo estava em sua fase mais perigosa. Valentina e Enzo eram como duas tempestades se aproximando. Quando colidissem, o impacto mudaria Chicago para sempre. E eu estaria lá para garantir que, das cinzas, o império dos Vitale e dos Ortega se erguesse, mais forte do que nunca. — Avise a Valentina que teremos um jantar formal amanhã — ordenei. — Está na hora de colocar o Enzo em uma situação onde ele não possa ignorar a presença dela. O herdeiro e a guarda-costas... ou, como eu gosto de pensar, o rei e a sua salvadora
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR