CAPÍTULO 11: O Sangue Néon e o Peso da Máscara

1526 Palavras
POV – ENZO VITALE (Quase um ano depois) O barulho da boate Obsidian deveria me acalmar, mas hoje, cada batida do grave parecia martelar na minha têmpora. Já se passou quase um ano desde que Valentina Ortega se tornou minha sombra. Um ano em que não sofri um único arranhão, um único susto real. Para o mundo, eu era o Dom intocável, o homem cuja sorte era tão grande quanto sua conta bancária. Para mim, isso era prova de que eu não precisava de guarda-costas. Valentina era apenas um adorno caro, uma presença constante e irritante que me lembrava que meu pai não confiava plenamente na minha capacidade de me proteger. Mas hoje, ela não estava lá. Ela sumiu a manhã inteira sem dar explicações. E, para minha surpresa, o vazio que ela deixou era ensurdecedor. Eu estava inquieto, irritado com o silêncio dela, com a falta daquele olhar de julgamento que ela sempre me lançava. — Quer saber? Que se dane — resmunguei para o espelho do escritório na boate. — Eu vou provar que posso ter uma noite normal sem uma "babá" me vigiando. Saí sem avisar Marco, sem sinalizar para a equipe de apoio. Entrei na minha sala privada, o santuário onde eu costumava descarregar minhas tensões. Pedi que trouxessem uma das garotas novas, alguém que não fizesse perguntas. Eu precisava sentir algo que não fosse a tensão constante de estar perto de Valentina. Precisava de algo carnal, algo que eu pudesse controlar. A garota era bonita, uma morena de curvas acentuadas que começou a se despir assim que a porta se fechou. Eu também me despi, deixando as roupas caras de lado, sentindo o ar condicionado na minha pele nua. Meu corpo respondeu rápido, o desejo pulsando, mas minha mente... minha mente ainda estava na Valentina. Onde ela estava? Por que ela não atendeu o rádio? Eu estava pronto. Exposto, e******o e pronto para mergulhar naquela distração carnal para esquecer a mulher que estava dominando meus pensamentos há meses. Mas o destino, ou melhor, Valentina Ortega, tinha outros planos. POV – VALENTINA ORTEGA A luz do hospital era branca demais, fria demais. Eu sentia cada batida do meu coração refletir na dor aguda na minha lateral esquerda. A facada tinha sido profunda. Ontem à noite, no escritório, as sombras se moveram rápido demais para o Enzo ver. Ele estava distraído com os documentos, com aquela postura de rei que ele assume quando está focado. O assassino saiu do teto, uma lâmina de cerâmica pronta para atravessar o pescoço dele. Eu não pensei. Eu nunca penso quando o assunto é a vida dele. Eu me joguei, bloqueando o golpe com o meu próprio corpo enquanto minha mão direita quebrava o pescoço do invasor em um movimento seco. Enzo nem ouviu. Ele achou que eu apenas derrubei uma prateleira ou algo do tipo. Eu escondi a ferida sob o casaco preto, limpei o sangue do chão enquanto ele ia ao banheiro, e o levei para casa com um sorriso cínico nos lábios, enquanto minha vida vazava lentamente pela camisa. Passei a manhã sendo costurada e tomando antibióticos. O médico disse para eu repousar, mas o rádio na minha bolsa começou a chiar. Marco estava desesperado. "Enzo saiu sozinho. Boate Obsidian. Sala privada." — Aquele idiota... — rosnei, sentindo o ponto repuxar enquanto eu vestia a camisa. Peguei o carro e dirigi como se o d***o estivesse no meu encalço. Cheguei na boate e os seguranças da entrada tentaram me barrar. Eles não sabiam que eu estava ferida; eles só viam a "mulher do Dom". — Saiam da frente — ordenei, a voz rouca de dor. — O Sr. Vitale pediu privacidade, Valentina. Ele está com uma acompanhante e... Eu não esperei. Acertei um golpe de palma no queixo do primeiro e chutei o joelho do segundo. A dor na minha barriga era um incêndio, mas a raiva era maior. Atravessei o corredor e chutei a porta da sala privada com tanta força que ela quase saiu das dobradiças. POV – ENZO VITALE O estrondo da porta me fez pular. Eu estava ali, completamente nu, com o pênis ereto e pulsante, a um segundo de penetrar a garota que estava curvada na minha frente. Valentina entrou como um furacão. Ela estava pálida, com o cabelo desgrenhado e um olhar que poderia derreter aço. O choque foi imediato. Tentei cobrir minha genitália com as mãos, uma reação instintiva de vergonha que eu nunca pensei ter. Mas ela já tinha visto. Seus olhos desceram por um milésimo de segundo, mapeando cada centímetro do meu corpo, antes de voltarem para o meu rosto com um desprezo que me queimou mais que o sol. — Saia! — Valentina gritou para a garota, que pegou o vestido e correu como se tivesse visto um fantasma. — Você ficou louca, Ortega?! — rugi, pegando meu roupão de seda no sofá. — Como ousa entrar assim? Eu sou o seu patrão! Eu exijo privacidade! — Privacidade? — Ela caminhou até mim, e eu notei que ela estava segurando a lateral do corpo. — Você sai sem segurança, em uma boate que está na mira dos Petrov, para f***r uma estranha que poderia muito bem ser uma assassina paga? Você olha para a frente, Enzo, você vê os negócios, os lucros... mas quem é que olha as suas costas no escuro? Quem sangra por você enquanto você está ocupado sendo o "garanhão de Chicago"? — Do que você está falando? Eu não tive um atentado em meses! Eu estou perfeitamente seguro! Você é quem está paranoica, querendo justificar o seu salário! — Seguro? — Ela riu, um som amargo que terminou em um gemido de dor. — Você está seguro porque eu não durmo. Porque eu limpo o caminho antes de você passar. Você acha que aquela prateleira caiu ontem à noite por acaso? POV – VALENTINA ORTEGA Eu não aguentava mais. A discussão estava drenando o resto das minhas forças. Ver o Enzo daquele jeito, nu e vulnerável, não deveria ter me afetado, mas afetou. A química que eu tentava negar há um ano estava ali, vibrando entre nós, misturada com o cheiro de sexo e perigo. Eu me machuquei por ele não apenas por dever, mas porque a ideia de um mundo sem a arrogância dele me parecia insuportável. — Você é um ingrato, Enzo Vitale — eu disse, a voz ficando fraca. — Você quer se provar melhor que eu, quer provar que não precisa de mim... Pois bem, tente sobreviver sozinho a partir de amanhã. Apontei o dedo para o peito dele, mas a sala começou a girar. O calor úmido na minha barriga me disse que os pontos haviam estourado. A cor preta da minha blusa escondia o sangue para ele, mas eu sentia o cheiro metálico inundando o ar. — Valentina? — O tom dele mudou. A arrogância deu lugar à preocupação. — Você está pálida. O que... Minhas pernas falharam. O chão pareceu subir para me encontrar. POV – ENZO VITALE Vi os olhos dela revirarem. Valentina, a mulher que eu achava ser de pedra, estava desabando. Antes que ela atingisse o carpete, eu me joguei, pegando-a no ar. O corpo dela era firme, mas parecia estranhamente frágil naquele momento. — Valentina! Ei, fala comigo! — Eu a sacudi de leve, e foi quando minha mão, apoiada na cintura dela, sentiu algo pegajoso. Retirei a mão e o horror me paralisou. Sangue. Muito sangue. Vermelho vivo, quente, encharcando a blusa dela. — Não... não, não, não! — Desfiz os botões da camisa dela com as mãos trêmulas. Lá estava. Uma bandagem de hospital atravessada por uma mancha escarlate. Um ferimento de faca. Naquela hora, tudo fez sentido. O barulho no escritório ontem... ela não derrubou uma prateleira. Ela recebeu um golpe por mim. E eu a tratei como um estorvo a manhã inteira. — Marco! Chame a equipe médica agora! No escritório da Obsidian! Agora! — gritei pelo comunicador que ela deixou cair. Eu estava nu sob o roupão, com o coração saindo pela boca. Olhei para o rosto dela, as sardas leves no nariz, os lábios entreabertos. O sentimento que eu tentei esconder com orgulho e mulheres fúteis explodiu no meu peito. Eu a amava. De um jeito doentio, possessivo e desesperado. Ela sangrou por mim no escuro enquanto eu tentava gozar com uma qualquer. A garota que estava na sala antes saiu pisando duro pelo corredor, provavelmente reclamando do "clima cortado", mas eu nem a vi. Eu só conseguia ver Valentina. — Fica comigo, Val... — sussurrei, pressionando o ferimento com um pano limpo, as lágrimas de frustração e medo turvando minha visão. — Você não pode morrer por um i****a como eu. Por favor, abre os olhos. Eu te dou o trono, eu te dou Chicago, mas não me deixa aqui sozinho. Pela primeira vez em trinta anos, o Dom de Chicago se sentiu verdadeiramente impotente. O poder, o dinheiro, o império... nada disso valia o peso daquela mulher nos meus braços. A química entre nós não era mais um segredo; era uma ferida aberta que agora, finalmente, eu estava disposto a tratar.
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