CAPÍTULO 12: O Despertar da Aliança de Sangue

1528 Palavras
POV – ENZO VITALE O cheiro de antisséptico e perfume caro de homem lutava pelo domínio no ar do meu apartamento na cobertura da Avenida Michigan. Ninguém da minha família, exceto meu círculo mais íntimo, sabia deste lugar. Era o meu refúgio, o único espaço onde eu não era o herdeiro Vitale, mas apenas Enzo. E era aqui que ela estava. Valentina estava deitada na minha cama king-size, parecendo pequena demais entre os lençóis de cetim escuro. Fazia quarenta e oito horas que o médico da família — um homem pago generosamente para ser cego e mudo — havia fechado os pontos que ela estourou naquela boate maldita. A febre ia e vinha em ondas, deixando o rosto dela corado sob a palidez doentia. Eu não saí do lado dela. Nem para dormir, nem para comer. Eu a observava, sentindo uma dor no peito que nenhuma bala ou facada jamais me causou. Ver Valentina Ortega, a mulher que botou o presídio de Chicago de joelhos, tremendo de frio e delirando, estava me destruindo. — Não... por favor... tira a mão de mim... — O sussurro dela saiu quebrado, carregado de um pavor que eu nunca associei àquela mulher de ferro. Eu segurei a mão dela, que estava quente como brasas. — Shhh... Val, está tudo bem. Você está segura. Eu estou aqui. — Arthur... não... — Ela se contorcia, as unhas cravando no meu braço. — O chão... está sujo... a arma... eu não queria... eu tive que... Minha respiração parou. Arthur? Que arma? Do que ela estava falando? O delírio dela não era sobre as lutas na máfia. Era algo mais antigo. Algo que cheirava a trauma e injustiça. Fiquei ali, ouvindo os fragmentos de uma história que eu não conhecia: o abuso, o medo, o som de uma cela se fechando. Cada palavra dela era um prego no meu coração. Peguei o celular e disquei o número da única pessoa que poderia me dar as respostas que eu precisava. — Isabel. Agora. — Minha voz era um rosnado. — Quero saber tudo sobre Valentina Ortega. Não os relatórios de combate. Eu quero a verdade sobre como ela foi parar na prisão. Quero saber quem é Arthur. E não ouse mentir para mim. POV – ISABEL VITALE O tom de voz do Enzo pelo telefone me disse que o tempo de segredos havia acabado. O destino tinha forçado a mão de todos. Suspirei, olhando para o Dom, que estava sentado à minha frente no escritório da mansão. Ele apenas assentiu. — Enzo, sente-se. O que vou te contar vai mudar a forma como você vê o mundo — comecei, sentindo o peso de cada palavra. — Valentina não foi para a prisão porque era uma criminosa. Ela foi para a prisão porque era uma sobrevivente. Aos dezessete anos, ela trabalhava como faxineira para os Harrison. Arthur Harrison, o patriarca, tentou estuprá-la. Ela lutou, Enzo. Ela usou o que o pai ensinou e, na luta pela vida, a arma dele disparou. Ouvi o silêncio mortal do outro lado da linha, seguido pelo som de algo quebrando. Imaginei Enzo socando a parede. — A família Harrison, com o apoio dos Petrov, comprou o juiz e destruiu a reputação dela — continuei. — Eles a jogaram naquele inferno para que ela morresse. E sobre o pai dela... Otávio Ortega foi dopado e morto pelos mesmos russos que hoje tentam te matar. Seu pai e Otávio tinham um pacto, Enzo. Um pacto de sangue. Eles planejavam que vocês dois governassem Chicago juntos. Valentina foi o sacrifício que os Petrov usaram para enfraquecer o Dom. — Por que ninguém me contou? — A voz de Enzo estava carregada de uma fúria gélida, o tipo de fúria que precede um m******e. — Porque você não estava pronto, Enzo. Você era arrogante demais para valorizar o que ela é. Agora, você sabe. Ela sangrou por você porque o destino dela está amarrado ao seu desde antes de vocês nascerem. Ela é a sua espada, e você é o trono dela. POV – ENZO VITALE Desliguei o celular. Minha mão tremia de puro ódio. Olhei para Valentina, que agora dormia um sono mais calmo, embora ainda suasse pela febre. Toda a minha arrogância, cada comentário sarcástico que fiz sobre ela ser uma "babá", cada vez que a tratei com desdém... tudo isso voltou para mim como um soco no estômago. Ela sofreu o indizível. Ela perdeu a juventude, o pai e a dignidade por causa de vermes que eu chamei de parceiros de negócios ou vizinhos de elite. Ajoelhei-me ao lado da cama e levei a mão dela aos meus lábios. — Me perdoa, Val — sussurrei, as lágrimas finalmente encontrando caminho. — Eu fui cego. Eu achei que era o rei, mas eu era apenas um t**o sendo protegido por uma rainha ferida. Naquela penumbra, fiz um juramento silencioso. O show dos Vitale acabou; o show dos Vitale e Ortega estava apenas começando. Se os Harrison achavam que tinham vencido, eles não conheciam o monstro que acabaram de despertar em mim. Se os Petrov achavam que me matando teriam Chicago, eles não sabiam que agora eu tinha o motivo perfeito para queimá-los vivos. Eu serei os olhos da frente. Eu serei o CEO implacável, o Dom que destrói impérios financeiros. E ela... ela continuará sendo os meus olhos nas costas, a lâmina que corta no escuro. Mas não como subordinada. Como igual. POV – VALENTINA ORTEGA A escuridão estava sendo dissipada por uma luz suave. Meus olhos pesavam toneladas, e cada fibra do meu corpo protestava contra o movimento. Onde eu estava? O cheiro não era de hospital, nem da mansão. Era o cheiro dele. Madeira, âmbar e um toque de uísque caro. Abri os olhos devagar e vi o teto de gesso trabalhado. Tentei me sentar, mas uma mão firme e quente pousou no meu ombro. — Nem pense nisso, Ortega. Você ainda tem pontos que precisam de descanso. Virei a cabeça e vi Enzo. Ele estava diferente. Não havia aquele sorriso convencido, nem a postura de quem se acha superior a tudo. Ele parecia... cansado. As olheiras estavam profundas e a camisa social estava amassada, com os primeiros botões abertos. — Onde... onde estamos? — Minha voz saiu como um r**o de vento. — No meu apartamento particular. Você desmaiou na boate. — Ele se inclinou, pegando um copo de água e me ajudando a beber. — Você levou uma facada por mim, Val. Por que não me contou? — Era o meu trabalho — respondi, tentando recuperar minha máscara de frieza. — Eu sou paga para sangrar no seu lugar, Vitale. Não seja sentimental. — Não venha com essa merda — ele retrucou, mas não havia raiva, apenas uma intensidade que me fez perder o fôlego. — Eu sei de tudo, Valentina. Isabel me contou. Sobre os Harrison. Sobre o presídio. Sobre o seu pai e o meu. O mundo pareceu parar. O segredo que eu guardava como uma armadura tinha sido exposto. Senti uma onda de humilhação, seguida de uma raiva defensiva. — Então agora você sente pena da faxineira que virou assassina? É isso? — Pena? — Enzo soltou uma risada curta, sem humor. Ele pegou minha mão e a apertou com força. — Eu sinto é ódio. Ódio de mim mesmo por não ter sido o homem que você merecia ter ao lado nesse tempo todo. E ódio daqueles que tocaram em você. Ele se aproximou tanto que nossas testas quase se tocaram. O calor que emanava dele era inebriante. — Escute bem, Valentina. Você passou anos lutando sozinha nas sombras. Mas isso acaba hoje. Eu vou te ajudar na sua vingança. Eu vou usar cada centavo, cada contato e cada arma da família Vitale para destruir os Harrison e os Petrov. Mas eu quero uma promessa em troca. — Que promessa? — perguntei, meu coração martelando contra as costelas. — Que você nunca mais vai carregar o peso do mundo sozinha. Prometa que vai estar ao meu lado. Não atrás de mim, não como guarda-costas, mas como a mulher que governa esta cidade comigo. Nós fomos feitos para isso, Val. O aço do seu pai e o ouro do meu. Juntos, nós somos imparáveis. Eu olhei nos olhos dele e vi a verdade. Não havia mais o "Príncipe de Chicago". Ali estava um homem pronto para a guerra. E pela primeira vez em cinco anos, eu senti que não precisava mais segurar o mundo nas costas sozinha. — Eu prometo, Enzo — sussurrei. Ele sorriu, um sorriso que prometia destruição para os nossos inimigos e algo muito mais profundo para nós dois. Ele se inclinou e beijou minha testa, um gesto carregado de uma química que não podíamos mais negar. — Então descanse, Rainha das Sombras. O show vai começar. E Chicago não faz ideia de que o diretor e a estrela acabaram de se unir. Pela primeira vez em muito tempo, eu não sonhei com o passado. Sonhei com o futuro. Um futuro onde o sangue dos Ortega e dos Vitale pintaria a cidade de vermelho, até que não restasse ninguém para contestar o nosso reinado.
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