CAPÍTULO SEIS

3857 Palavras
Uma dor aguda e um zumbido no ouvido me fez levar as mãos à nuca e a outra no ouvido. Senti uma pasta endurecida na nuca e abri os olhos. Me situei que eu estava desacordada e olhei em volta, com pavor. Levei minha mão à frente dos olhos e meus dedos estavam sujos de sangue. Nos meus pulsos, correntes pesadas me prendia à alguma coisa. Segui a corrente com os olhos e ele terminava em algo atrás de mim. Isso não era o mais importante no momento, então olhei em volta em busca de ver alguém. Armei um sorriso de felicidade ao ver Ikiiki amarrada ao meu lado. Se estava amarrada, significava que ela podia fugir e para fugir é porque estava viva. Muaido estava mais distante de mim ainda, estava do lado de lá de Ikiiki. Tanto ela, quando ele, estavam amarrados por correntes como as minhas. As correntes circulavam colunas de concreto e pedras. Ambos estavam desacordados. E só Muaido, além de mim, sangrava. Seu rosto estava inchado. Olhei em volta agora. Parecia que estávamos num calabouço, sujo, fedido à excremento humano e úmido. Todo som que eu fazia com as correntes, ecoava em repetições por todo o lugar. O lugar onde estávamos era cerca de vinte e cinco metros quadrados e uma das paredes era de barras de ferro e não de concreto e pedra. — É uma prisão? — sussurrei. — Socorro! — gritei agora. — Minha voz soou rouca e tremida. Ikiiki abriu os olhos e então ergueu sua cabeça, mas, fraca, voltou a cair. Seus olhos pareciam querer dormir mais e a anua se mostrava lutar para permanecer acordada, abrindo e fechando os olhos em intervalos, enquanto os revirava. — Ikiiki — a chamei. Ela virou sua cabeça na minha direção, fraca, sem a erguer. Seus olhos estavam miúdos e as piscadas estavam lentas e preguiçosas. — Alleumena — ela disse. A voz entregava o demasiado sono que ela sentia. — Onde estamos? — Presas em algum lugar. Muaido está do seu outro lado. Ela estatelou os olhos e então eles voltaram a diminuir. Um nó entre suas sobrancelhas mostrou que ela ficou preocupada, mas não conseguia reagir com todo o rosto. — Fomos pegas pelo homem do capuz verde, não foi? — ela perguntou. — Sim. — Balancei a cabeça. — Ele e eu lutamos. Eu consegui fugir, mas ainda assim fui pega de alguma forma. — Passei a mão na minha cabeça. Tanto ela quando minha orelha esquerda doíam de latejar. Forcei minha cabeça e consegui alguns lampejos de memórias. — Ele deve ter jogado alguma coisa na minha direção que me apagou. Ikiiki já estava dormindo outra vez quando olhei para ela. Fiquei acordada por muito tempo, até que o cansaço me venceu e, na luta para permanecer acordada, acabei adormecendo também. Acordei com a voz assustada de Muaido. Ele gritava em sua língua e suas correntes tilintavam com violência. — Muaido — disse conforme eu abria meus olhos. Havia um homem em pé ao seu lado. O que não reparei de imediato foi que havia dois outros ao meu lado, cada qual desamarrando as correntes que me prendiam. Lutei contra a minha vontade de gritar e me debater e permaneci parada. Foi só nesse instante que percebi Muaido gritando meu nome: — Alleumena, acorde! Alleumena! Vossa alteza, acorde! Alle! Alleumena, acorde. Eu queria dizer a ele que estava acordada, mas um dos homens abaixados, tampavam nossa visão um ao outro. Fechei meus olhos novamente e fingi estar dormindo ainda, até a hora certa de agir. — Ikiiki, estão levando-a! — ele gritou. — Hmm? — ouvi o resmungar sonolento dela. — Os soldados de Estarim estão levando a Alleumena. — O quê?! — ela abriu agora seus lábios e sua voz soou normal, embora ainda rouca. — Os sold... — Muaido tentou repetir, mas a voz da anua foi mais alto que o dele. — Assopra neles, Alle! — ela mandou. — Assopra no rosto deles. Encha seu peito de ar e assopre, porque nossas vidas dependem disso. Arqueei minhas sobrancelhas. Meus olhos ainda estavam fechados e eu não sabia dizer se eles notaram minha expressão. Algo em mim quis protestar sua ideia. O que ela esperava que aconteceria se eu assoprasse no rosto deles? Eles ficariam enojados por bafo ou algo assim? Outra parte em mim usou suas palavras como gatilho e se recordaram do seu desespero de antes, pedindo que eu repetisse suas palavras “Eu desbloqueio o que tenho e te permito usar o que é meu por agora.”. O que ela fez desbloquear dentro de mim? Uma parte cética em mim disse voraz que nada. Outra parte que viu tudo aquilo acontecer no corredor depois que eu disse suas palavras, se recordou daquela sujeira e ** se transformar em uma parede de blocos sem nenhuma intervenção física. E eu senti tudo aquilo partir de mim. Ela deu os comandos e meu corpo reagiu fazendo aquilo. Era verdade que grizas tinham magia? Um dos soldados me pegou no braço e me ergueu. Senti ainda uma pontada na barriga, como o que tivesse me machucado em Nestta, ainda não estivesse totalmente curado. Minha cabeça e orelha doíam dez vezes mais. Pelo barulho que os passos do outro dava, percebi que estava à minha direita, próximo de mim e do soldado que me carregava. Meu coração estava acelerado com a possibilidade do que Ikiiki implorava que eu fizesse. Eu precisava fazer alguma coisa. Os soldados de Biermoni me matariam e levariam minha cabeça griza para provar que matou sua sobrinha bastarda. Abri meus olhos. Vi o rosto do soldado de baixo para cima. Meu coração batia tão forte que sentia suas palpitadas nos meus lábios. Meu corpo todo vibrava. Ensaiei assoprar no rosto dele e senti meu peito arder de leve, gelado. Aquela mesma sensação de arrepio e frio percorreu meu corpo, como aconteceu no corredor na cidade de Guhji. Tensionei meus lábios para assoprar, enchi meu peito de ar e na hora que soltei o ar, o outro soldado tampou minha boca. Forcei o ar para sair do mesmo jeito. Se Ikiiki pediu que eu o fizesse, era porque aconteceria algo que precisava acontecer. Senti sua mão gelar no meu rosto e o soldado começou a gritar e tirou sua mão da minha boca. O que saiu dos meus lábios depois disso foi algo parecido à geada. Quando meu sopro acertou o rosto do soldado de Nestta, o petrificou em gelo e ele gritou pelo pouco de seus lábios congelados entreabertos. O soldado me lançou no chão e caí de costas e de cabeça no piso úmido. Meus olhos reviraram, tonteada pelo golpe e me contorci de dor no chão. — Alleumena, não durma. Nos salve — Ikiiki pediu. A imagem do rosto congelado na minha frente, junto ao grito que ainda ouvia do homem, a geada que saiu dos meus lábios e a voz de Ikiiki me pedindo para salvá-la foi choque o suficiente para que meus olhos se abrissem e, mesmo com as dores, eu permaneci acordada. Quando pude notar direito tudo o que acontecia à minha volta, notei o soldado da mão congelada avançar em minha direção com a espada, gritando um protesto: — O rei Biermoni Qatel vai nos perdoar por tirar essa abominação de uma vez por todas da fase de Hunamin. Não importando os planos que ele tenha para você. — Assopra, vossa alteza! — Ikiiki pediu. Assoprei na direção da espada com toda minha vontade. Mais geada saiu dos meus lábios e foi petrificando a espada. Quando ela se chocou contra meu peito, ela foi se espedaçando. Porém, os estilhaços me machucaram e vi sangue amarelo saindo por de baixo das minhas vestes. Parei de assoprar e a dor me fez usar o restante de ar no peito para gritar de dor. Vi o gelo percorrer a espada ainda assim e subir pelos dedos, mão e antebraço dele. No meu grito agudo, tudo o que estava congelado ali perto de mim trincou e explodiu. Virei meu rosto ao sentir os estilhaços da espada e de parte de seu corpo congelado chocar-se contra meu rosto e me machucar. O homem gritou e dor, deixando a cela com uma mão a menos num braço e meio braço restante do outro lado. Quando abri meus olhos, vi Ikiiki. Seus olhos arregalados e um sorriso de orelha a orelha me mostraram que fiz o certo. Uma lágrima escorreu de um dos meus olhos. Era de dor física e emocional. Eu estava cansada de ser caçada, mas doía no meu peito o que fiz com aqueles homens. — O... o-o que eu sou? — perguntei a ela. — Uma griza, minha querida. Nunca ouviu os contos de fadas sobre sua espécie? Olhei para os soldados desesperados. Eu posso fazer tudo o que as histórias dizem que posso? Tudo o que aquele livro velho de poemas diziam que uma griza pode? — Eu posso fazer todas aquelas coisas? — perguntei a ela. Minhas sobrancelhas tão arqueadas que eu sentia o calombo entre elas. — Não — Ela fez sinal negativo com a cabeça. — Algumas coisas são inventadas, mas você é capaz de fazer muito além do que narraram nos contos infantis. — As dredas também? — indaguei. Ela fez que sim com a cabeça. — As dredas também, mas de uma forma diferente. Seu domínio é o frio e o escuro; o delas é o calor e a luz. Suspirei e meus lábios tremeram. — Por que só agora? — Por que você despertou o que tinha, naquele corredor, quando pedi que o fizesse. Fechei meus olhos e senti o calor das minhas lágrimas escorrendo pelo meu rosto. — Não é à toa que somos tão odiadas. Eu sou capaz de causar tanta dor. — Não — Ikiiki respondeu. — Vocês podem causar muitas maravilhas também. — Abri meus olhos e a vi encolhendo os ombros. — Vocês são como qualquer arma. Podem criar ou destruir. As dredas fazem o mesmo e ainda assim são amadas. Meu corpo se contorcia de agonia, ouvindo os gritos daqueles homens e eu revendo tudo o que eu fiz para eles. — Agora tudo o que eu fizer, vai sair alguma coisa mágica de mim? Ela ficou impassível por um instante. — Às vezes, até você entender e conseguir separar uma coisa da outra. — Você vai me ensinar como controlar? — perguntei. — O que eu conseguir, posso te ensinar sim. Mas a grande maioria você vai ter que aprender sozinha, minha querida. Não sei como é ser você. O que mais poderei fazer é aprender junto com você a controlar isso. Posso dar conselhos, tentar ver o que você não percebe até então e te comunicar. Balancei a cabeça. Os poemas não contavam esse lado da história. Não mostravam que meu hálito leva à morte. — Por que você despertou isso em mim? — indaguei. Ela olhou em volta e balançou a cabeça. — Por sobrevivência, Alleumena. O que mais você acha. Imagina o que teria acontecido com você se não fizesse isso?! — Ela levou as mãos para frente e apontou para as correntes. — Assopra nelas. Assopra só pouco para o gelo não se espalhar e me congelar. — Eu posso te machucar — a alertei, balançando a cabeça. — Estávamos condenadas à morte agora a pouco. Qualquer cicatriz menor que a da morte é sobrevivência. — Ela parecia calma. — Assopre, eu vou sobreviver. — Mas assopre só um pouco e veja o resultado — Muaido me advertiu. — Se precisar mais, assopre um pouco mais. Vai ser assim que você vai entender e dominar seu poder, vossa alteza. Seu poder. Essa frase ecoou na minha cabeça como todo som naquela cela ecoava. Seu poder, vossa alteza. Olhei para ele e hesitei. — Por favor — Ikiiki pediu, balançando as correntes e inclinando seu corpo para frente, para ficar mais próxima de mim. Olhei para os lados e assenti com a cabeça. Me inclinei até a corrente de Ikiiki, e assoprei de leve mesmo com o desespero no sangue. A nevoa saiu quase impercebível. Um ar transparente levemente esbranquiçado. O metal enferrujado embaçou, mas não congelou. Ergui minha visão para Ikiiki e ela assentiu com a cabeça. — Outra vez — ela disse. — Agora um pouco mais intenso. Um pouco só. Engoli saliva, inspirei profundamente e então soltei um pouco mais forte, mais ou menos o dobro do que fiz antes. A corrente estalou, congelada dessa vez. Mas o gelo nele começou a desfazer rápido com o ar quente e abafado dali de baixo. Fechei os olhos. Meus lábios tremiam. Meu corpo inteiro tremia. Inspirei novamente e soltei aquilo que soltei e mais dois terços dele, sobre a corrente já gelada. Cristais de gelo começaram a se formar na corrente. O gelo percorreu entre os próximos gomos da corrente e avançou para o próximo e o próximo. Temi que chegasse no braço de Ikiiki e gritei, sabendo que o gelo se espedaçaria. A corrente à minha frente tremeu, como num terremoto só seu e então se explodiu em vários pedaços. Ikiiki virou a cabeça, mas fragmentos cortarem seu rosto assim como fizeram antes com o meu. Quando suas duas mãos estavam separadas, ela levou uma delas ao rosto. Engoli saliva e a encarei. — Desculpa — pedi. — Sem problemas — ela disse num tom não tão amigável. — Nas perna agora. Repeti o sopro nas correntes que prendiam suas pernas. O gelo foi percorrendo vagarosamente de gomo em gomo. Antes de gritar, me levantei e olhei em volta. Estávamos sozinhas agora. Os soldados saíram dali, deixando seus pedaços estilhaçados para trás. Corri até fora da cela, onde vi uma pilha de escudos, trouxe uma e, quando gritei, protegi nossos rostos com o escudo no momento da explosão. Fui até Muaido e o soltei também. No final desse dia era bem capaz que eu dominasse um pouco meu sopro e o tom certo do grito para aumentar ou diminuir o efeito da explosão. Saímos da cela correndo. Quando estávamos no corredor, Muaido pegou seu arco e flechas e seu machado. Eu peguei o machado de alguém. Eu não feriria muito alguém com uma espada. Já com machado era outra coisa. Corremos pelos corredores do calabouço até nos depararmos com um homem pardo de cabelo longo. Ele paralisou ao nos ver. Não soube ler sua expressão. Muaido desembainhou sua espada e cerrou seu maxilar. — Vocês nos traíram! — ele gritou. — Não! — o homem garantiu. — Não mesmo, Muaido. — Ele prendeu seus olhos nos meus por um instante, depois voltou a olhar para o anão. — Infelizmente os soldados da capital chegaram antes de vocês. Conseguimos fazer a travessia de vários bastardos. Pelo que sei, de acordo com seus primos, só faltava você passar com sua bastarda. — E isso que fizeram conosco não é traição? — Ikiiki protestou, furiosa. O homem fez que não tranquilamente com a cabeça. Ele parecia certo do que dizia. — Nunca trairíamos nossa fé. E o que estão fazendo é o certo a se fazer. Vim até aqui para libertar vocês. Vou mostrar um caminho até o esgoto da cidade. Vocês escaparão com vida indo por lá. Dezenas de soldados estão vindo aqui agora mesmo, mas antes estão se preparando para lidar com a... griza. — Ele agitou a cabeça suavemente, num “não” pesaroso. — A casa de bronze continua do lado de vocês. Mas para o plano dar certo, precisávamos mostrar que estávamos do lado de Biermoni e não de vocês. Ikiiki olhou para Muaido e ele para ela. Os dois pareceram conversar entre si, pelos olhos. O desespero de sermos pegos me inundou e dei um passo à frente, ficando entre a anua e o anão. — Eu acredito na intenção dele. — Suspirei e assenti com a cabeça. — Eu confio em você. Nos aponte o caminho até a rede de esgoto. Ele armou um sorriso no rosto, mas suas sobrancelhas ainda estavam arqueadas, olhando de Ikiiki a Muaido. — Nos mostre o caminho, velho amigo — o anão disse. Ele olhou para Ikiiki que, caminhou até ele. — Quero sua capa amarela. Perdi meu turbante na fuga. Ele olhou para o lado, sobre o ombro, do pouco que via sua capa, hesitou, assentiu com a cabeça, desabotoou as pregas e deu sua capa a Ikiiki. O tecido era diferente do tecido de seu turbante, mas ela rasgou aquela capa em tiras longas e a enrolou sobre a cabeça. O homem olhava para sua capa em luto. — Agora está perdoado! — Ikiiki disse, enfiando a ponta do tecido abaixo de uma cama do seu novo turbante. O homem assentiu com a cabeça, a olhou de cima a baixo, deu de costas para nós e começou a andar rápido. Fomos atrás dele. — Assim que as coisas se estabelecerem aqui na capital da Casa de Bronze, vamos enviar o segundo filho de meu pai para ficar com vocês e provar que estamos falando sério quanto a apoiar essa causa. Isso tudo não passou de um m*l entendido, Muaido. — As portas do clã de meu tio sempre estarão de portas abertas para os seus — o anão respondeu. — Mas não é necessário fazer o que está me prometendo. — Meu irmão pode ajudar a proteger o principado de Estarim que estará disperso no mundo. Ele é um excelente espadachim. Subimos e descemos alguns lances de escadas, viramos por esquinas e nos encontrávamos sempre em caminhos mais estreitos e úmidos, até o homem erguer do chão uma grade e nos mostrar o córrego do esgoto de Guhji. Ikiiki e Muaido hesitaram, então fui na frente e pulei no esgoto. Uma água pútrida e homogênea espirrou no meu rosto e cerrei o maxilar com força para nada entrar na minha boca. Muaido e Ikiiki foram depois de mim. Quando o homem abaixou a grade, disse para nós: — Sua carroça com seus cavalos e todos seus pertences estarão do outro lado da fronteira esperando por vocês onde o céu se estende vermelho e o chão branco. Arqueei as sobrancelhas. — Onde? — perguntei. Me virei para olhar para o homem, mas Muaido me desvirou e me empurrou de leve para que continuássemos avançando. — Sei onde é — o anão respondeu. Muaido nos guiou no esgoto afora até nos encontrarmos no rio que dividia o reino de Estarim do reino de Imbunrra. O sol nascia no horizonte. Então ficamos apagados desde o fim do antiescuro de ontem até esse dia brilhoso. Mais alguns metros e eu estaria segura. Mais alguns metros e eu estaria num reino estrangeiro de uma espécie diferente. Estarim podia ser perigoso para mim, mas era minha casa. Aparentemente, Estarim era muito mais do que minha casa. Estarim era meu reino. Eu era a bastarda mais velha do legítimo rei de Estarim. Precisei descobrir isso no meu último dia na capital. Precisei perder tudo e todos para descobrir ter outras coisas. Muitas outras coisas que na verdade eu não tinha. Nadei junto de Ikiiki e Muaido contra a correnteza fraca do rio e logo me encontrei do outro lado da margem. Subi pelo barranco gramado e corremos mata a dentro até nos sentirmos minimamente seguros e nos deitarmos sobre a terra. Respirei descompassadamente. Eu inteira fedia a esgoto, minha barriga se revirava, revoltada, pelo odor, mas minha cabeça descansava, feliz por estar segura. Ikiiki começou a rir. Muaido e eu nos deixamos inundar pela sua felicidade e rimos também. Conseguimos. Uma folha seca da copa da árvore acima de nós se soltou e começou a dançar no ar de um lado ao outro. Pelas minhas contas, imaginei que cairia em Ikiiki, mas ela começou a vir mais para a direção de Muaido e no fim se mostrou que cairia perto da minha cabeça. Quando ela estava próxima do meu rosto, inspirei profundamente e soltei um sopro nela. A folha de congelou no mesmo instante e caiu dura e sem mais dançar no ar, sobre meu rosto. Ri e afastei a folha de mim. Virei minha cabeça e olhei para Ikiiki. — As histórias dizem que não é seguro usar magia por algum motivo — comentei. — Que desequilibra o mundo e que podemos ser caçadas. É verdade? Ela assentiu com a cabeça e ficou pensativa por tempo demais para então me olhar e resolver responder: — Existem magias e magias. Algumas são proibidas, outras nem são consideradas magias de tão leves que são. — Ela apontou para mim. — Essa arte que você praticou hoje é uma mistura de Alento com Espoco, naturais dos seus atributos de griza. Eu ri, feliz e me sentindo burra por entender muito pouco do que ela disse. — E o que essas palavras significam? — perguntei. — Alento é toda sua arte através da respiração; do ar que entra e sai de você. O Espoco é a arte de estourar algo. Uma pressão que você coloca dentro do material e o faz expelir até não restar nada além de fragmentos do que fora aquela coisa inteira. São todas artes naturais do seu ser. E você aprendeu a espocar sem querer. Assenti com a cabeça. — Sim. — Assenti com a cabeça outras vezes, pensativa. — Agora vou começar a fazer coisas acontecerem do nada? Ikiiki assentiu com a cabeça. — Vai. Até dominar suas artes grizas, você vai fazer algumas burradas. Ponderei a respeito de tudo o que aconteceu nesse último dia e coloquei um sorriso no meu rosto. Se alguém falasse para mim ontem que isso tudo aconteceria hoje, eu riria de deboche na cara da pessoa. — Esse tempo todo era só falar aquela frase para desbloquear esse poder? — Não esperei por nenhuma resposta e continuei: — Se eu tivesse juntado aquelas palavras antes, minha vida teria sido tão melhor... tão mais fácil. — Não. — Ikiiki balançou a cabeça. — Existem várias formas de despertar a magia em uma pessoa e não foram as palavras em si que deram o resultado necessário. Ele foi só um condutor de todo o estresse, desespero e necessidade de agir. Os símbolos certos também fizeram parte do serviço. — Posso pedir duas coisas? — perguntei a eles. Olhei em suas direções e os vi assentindo com a cabeça. — O que mais eu posso fazer? E o mais importante. Nunca mais me chamem de Alleumena. Só Alle, por favor. — Ergui o dedo indicador para cima. — E Ah, chega de me chamarem de vossa alteza. Só Alle! — Vossa alteza continuarei a chamar — Muaido disse. — Vossa alteza Alle não combina. — Por favor, só Alle — insisti. Ikiiki assentiu com a cabeça. — Tá certo, Alle. — Ela ficou pensativa. — Você pediu três coisas — Muaido resmungou. — Largar de te chamar de vossa alteza e pedir para te chamar só de Alle, são coisas separadas. — Muaido cutucou Ikiiki com o cotovelo. — Responde logo. O que mais ela pode fazer?
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