Caminhamos até o palácio do Lorde de Bronze. Segundo Muaido, eles nos esperavam.
Eu só precisava de um banho e um canto para encostar a cabeça. Já não aguentava mais estar sempre em vigia, com medo da minha sombra. Desligar a cabeça seria ótimo para esquecer que mamãe, Nelo e os outros estavam mortos.
O palácio ficava no alto de uma baixa chapada. Havia uma estrada que levava até lá. O palácio era uma construção acinzentada com telhados de um amarelo bronze. Havia uma escadaria em linha reta para cima, para entrarmos nela.
Primeiro, teríamos de passar pela muralha que circulava a cidadela. Soldados em rondas circulavam no alto da muralha e outros no lado de dentro e de fora dos portões de madeira. Todos usavam armaduras de um bronze reluzente.
Muaido foi na frente e se apresentou pelo título que tinha em Estarim e o título de seu clã em Bonrras. Ouvi um pouco da conversa de longe. Ikiiki agarrou meu braço tentando me deixar tensa. Mas me afastei dela.
— Não vai funcionar de novo — a alertei. Depois apontei para Muaido com um sorriso no rosto. — Eu sei que vai dar tudo certo ali.
Um soldado subiu o morro para comunicar que Muaido Esparréu estava nos portões da cidadela, pedindo permissão para entrar. Esperamos seu retorno sob o sol ardido. Quando finalmente ele desceu, soldados usando armaduras de bronze e de armaduras negras de Nestta saíram pela lateral do palácio e desceram os degraus em direção à muralha.
Estatelei meus olhos e recuei alguns passos. Meu corpo se chocou contra a carroça e ela gemeu, me impedindo de continuar indo para trás e balançando.
Ikiiki olhou para trás, para mim. Ela era péssima atriz, não conseguiria fingir aquele pavor todo nem se quisesse muito.
— Corram! — berrou Muaido lá no pé da muralha. Ele colocou-se a correr. Eu me virei e trombei agora de frente com a carroça, depois a rodeei e comecei a correr. Ikiiki montou no seu cavalo e me alcançou rápido.
— Suba. — Ela estirou o braço para mim. Eu corria quase da velocidade do seu cavalo até então. Se eu montasse nele, ele ficaria mais lerdo por estar carregando dois grandes pesos, mas em contrapartida eu não conseguiria me manter naquele ritmo por muito tempo.
Agarrei a mão dela e Ikiiki me puxou. Voei no ar, rodeando o corpo dela, abri as pernas e parei sobre o lombo do cavalo, rente às costas da anua.
Olhei para trás e vi Muaido atrapalhado, tentando soltar seu cavalo anão da carroça, enquanto vários soldados saíam do portão. Uma porção foi na direção dele e uma maioria vinha na nossa.
— Muaido! — gritei. — Ikiiki, ele vai ser capturado.
Ikiiki virou a cabeça para olhar Muaido e o topo de seu turbante desenrolou ao ar e foi se desenrolando e se ondulando conforme o cavalo galopava, deixando um rastro amarelo ao longo do caminho. Ela tirou o restante ainda preso na cabeça, o jogou no chão e olhou mais uma vez para o amigo anão.
Olhei para ele novamente e o vi desistindo do cavalo e colocando-se a correr na nossa direção. Mas seus passos curtos não venceram os passos longos dos soldados humanos e logo ele foi capturado, jogado ao chão e cercado por um monte de soldados.
— A Casa de Bronze nos traiu! — gritei, furiosa. — Minha vida inteira vai ser assim? Vou ser caçada por onde eu for?
— Enquanto estivermos em Estarim vamos ser caçadas por todos os lugares. Mas assim que atravessarmos a fronteira, estaremos seguras — ela respondeu.
— E o Muaido? — indaguei, olhando para ele.
— Precisamos estar seguras para pensarmos em como vamos salvar ele.
Soldados o ergueram no ar e puxaram os braços amarrados dele para trás. O anão gritou e tentou lutar, mas eram muitos contra ele.
Era h******l vê-lo passando por aquilo tudo por minha culpa. Ele só foi pego por estar me ajudando. Ele traiu um rei bastardo para salvar a bastarda de outro rei. Queria apenas manter a linha de sucessão funcionar da forma mais honesta e justa, com o verdadeiro sangue de cervo no trono do castelo de areia.
Muaido me salvou quando todos queriam me m***r e agora eu o estava abandonando, procurando estar salva primeiro para pensar em como salvá-lo.
— Precisamos voltar — gritei para Ikiiki.
— Não vamos voltar. Muaido vai ficar bem. Querem arrancar informações dele. Se ele for forte como sei que é, não vai falar nada e vai continuar vivo. Ele vai morrer se der aos soldados toda a informação que precisam.
Agarrei ela ainda mais forte e olhei para trás uma última vez. Dessa, não consegui ver o anão e percebi que os soldados que corriam atrás de nós estavam distantes, vencidos pelo cansaço. Mas entre os soldados que corriam, apareciam outros a cavalos, se aproximando mais rápido de nós, que nós nos afastávamos deles.
Quando alcançamos o miolo da cidade, começamos a entrar em vielas e ruelas. Pessoas gritavam e saíam da nossa frente quando notavam o que acontecia ali.
— Ali. — Ikiiki apontou quando passamos por um corredor estreito entre duas construções. Ela parou o cavalo, desceu e pediu que eu descesse também. A obedeci, olhando incessantemente para trás, buscando algum vestígio de soldados.
Ikiiki bateu na b***a do cavalo e ele colocou-se a correr. Ela pegou na minha mão e me puxou corredor adentro, desenhou um círculo rodeando nós no chão arenoso e símbolos no interior e no exterior do círculo, que mais pareciam letras de uma língua antiga e morta. Ela arrancou um anel de ouro seu do dedo, colocou no meu.
— Repete comigo.
— Por que está me dand...
— Repete comigo, Alleumena. Rápido!
— Tá. Fala! — Balancei a cabeça, sobressaltada.
— Eu desbloqueio o que tenho e te permito usar o que é meu por agora.
— E o que estou permitindo? — perguntei arqueando as sobrancelhas.
— Fala, Alleumena! — ela pediu, alterada, olhando para trás. — Só fala. Depois te explico.
— Eu desbloqueio... — Arqueei as sobrancelhas outra vez. Aquela não era hora de brincar. Ela sabia. Por algum motivo ela acreditava que aquilo nos salvaria. Será que eu perdi algum sinal de insanidade na Ikiiki?
— Eu desbloqueio o que tenho e te permito usar o que é meu por agora — ela repetiu, me olhando fixo. — Fala, Alleumena!
— Eu desbloqueio o que tenho e te permito usar o que é meu por agora! — gritei. Senti uma onda de algo sair de mim, como deveria ser sentir o sangue jorrar nas veias dos braços até os dedos. No mesmo instante ela se virou e colocou suas mãos nas duas paredes do corredor. Senti uma coisa viva percorrer no meu corpo e se remexer dentro de mim com violência. Parecia uma ardência, mas não era exatamente isso. Era quase refrescante, mas também não era isso. Era gelado, mas não tinha a ver com o frio. Senti algo perto disso tudo, mas era só perto, porque era outra coisa. Algo indescritível. Se mexia dentro de mim junto com o sangue agora.
A sujeira seca do chão começou a se mexer, enquanto ela falava alguma coisa baixa que eu não entendia.
A sujeira começou a voar na direção de suas mãos e a formar blocos do que pareciam tijolos e foi-se construindo uma parede, nos escondendo da rua.
Quando estava pronto, ela se virou e ouvimos nesse instante os galopes dos cavalos conduzindo os soldados, passando ali do outro lado da nova parede de blocos de sujeira.
Apontei para trás dela e abri meus lábios para perguntar o que foi aquilo, mas não saiu voz alguma da minha boca. Depois olhei para o anel que ela colocou no meu dedo e voltei a olhar para ela.
Ikiiki se escorou numa parede e suspirou aliviada. Eu fiquei a encarando. Não sabia como perguntar isso da forma certa.
Algo avançou na minha direção, por trás de mim, me empurrou para o lado. A única coisa que vi foi uma cor suja de verde esmeralda antes de me chocar contra a parede e cair no chão para trás.
O tal sujeito famoso que quase fora barrado de entrar na cidade colocou um pano no rosto de Ikiiki, tampando sua boca e nariz. Ela se debateu, gritou, o socou e do nada seus braços caíram, moles e seus olhos começaram a se revirar e a se fecharem.
Será que os anuos eram diferentes dos humanos em questão de tempo que podiam ficar sem respirar? Ela estava morrendo com menos de cinco segundos sem respirar.
Usei as mãos no chão como alicerce para me levantar e avancei no sujeito, mas ele me deu um coice e voltei ao chão, agora com dor no peito e na barriga.
Repeti o investimento, já que agora eu parei mais longe do que antes e poderia ao menos conseguir me levantar. Uma vez em pé, corri em sua direção, gritando. Ele deu outro coice na minha direção, enquanto eu via Ikiiki se entregando e caindo no chão.
Desviei do seu chute, segurei seu pé, contornei sua perna e avancei nele, agarrando seu pescoço e cravando minhas unhas em toda carne que eu podia tocar. Ele soltou dela, me agarrou, me desgrudou dele, como se eu fosse um cachorro e, na hora que pensei que me lançaria metros na direção do corredor, ele me chocou com força contra a parede de blocos que Ikiiki fez da poeira da sujeira do corredor, com as mãos no meu pescoço. Após um baque minimamente doído, a parede toda se desfez, como se fora m*l projetado e ambos despencamos rumo ao chão, já na viela movimentada da cidade.
O ** dos tijolos voou e o vento levou longe, enquanto o que ficara em pé começava a despencar, todo desfarelado.
O sujeito, que era famoso por alguma coisa que eu desconhecia, caiu sobre mim. Na queda consegui ver o final disso. Se ele caísse com aquelas mãos que me apertavam no pescoço, no chão ainda, poderia quebrar meu pescoço. Eu morreria na hora.
Uni meus braços como numa oração, passei as mãos e o antebraço no vão entre os dois seus e, um milésimo antes de chocarmos contra o chão, tirei suas mãos dali e cai com cabeça e tudo no chão de terra batida. Ele caiu com ambos os braços ao lado da minha cabeça.
Olhei para os dois lados, suspirando e aliviada por mais alguns segundos de vida.
As pessoas que passavam por ali só desviaram de nós e exclamaram protestos por termos quebrado uma parede que nem estava ali minutos antes.
Nesse meio tempo, pude olhar para o rosto do homem. Ele era branco e careca. Não sei se o olhei por muito pouco tempo, mas me parecia ser um humano por volta dos seus trinta ou quarenta anos, muito alto, de corpo forte e esguio.
Ele puxou as pernas para se colocar de pé. Uma das mãos usava como alicerce para se levantar e a outra agarrou no meu b***o, colocando o máximo possível de pano no interior do punho e me erguendo com ele. Ele se colocou de pé e, com um braço só, me ergueu no ar. A roupa deformada pelo modo como foi capturada na mão dele, apertava meu corpo nas costas.
Cerrei o maxilar e cravei um chute entre suas pernas.
Na hora ele faltou ficar roxo de dor. Todo seu cenho se fechou numa agonia avermelhada e então sua mão me soltou da minha roupa e caí no chão com tudo.
Me afastei dele, patinando na sujeira, usando braços e pernas e trombando nas pernas dos transeuntes até que me vi distante o suficiente para me colocar de pé e começar a correr.
Dei cerca de sete passos até sentir um baque e uma dor aguda na nuca e eu perder todo meu norte e sul. Tudo ficou escuro e senti o baque s***o do meu corpo caindo sobre o chão antes de apagar.