CAPÍTULO QUATRO

2142 Palavras
Se passaram dois dias de fortes trovoadas e chuvas. Usávamos capas para nos proteger na viagem. Ikiiki queria que ficássemos amparados por todos esses dias numa caverna que achamos no meio do caminho, mas Muaido disse que era perigoso e daríamos tempo da tropa de Biermoni nos alcançar ou de enviar águias e gaviões à fronteira com os países que rodeavam Estarim e todos já estivessem preparados, nos esperando. Dada à velocidade do voo dessas aves, eu tinha certeza que o reino inteiro já nos esperava em prontidão. Talvez Muaido estivesse tentando nos dar alguma esperança. Aquele tipo de esperança tola que sabemos a verdade, mas repetimos a mentira tantas vezes até acreditarmos. Chegamos em Guhji naquele antiescuro. A cidade de Guhji e o rio Hunmrihinm, atrás dela, faziam fronteira com o reino de Ispunmrri. O lugar tinha muito mais comércios que casas. Passando ela e passando a ponte sobre o rio, já estaríamos seguros da tropa do meu tio Biermoni Qatel, no reino de Ispunmrri. A fila para entrar na cidade estava longa. Eu estimava longos minutos até chegar nossa vez. Talvez até mais de uma hora. Encarei Ikiiki e ela me acalmou com seu olhar. Tinha algo maternal naquela criatura. Algo carente e desesperado no sentido maternal. Eu ficava incomodada em como eu me sentia segura perto dela, como só mamãe me fazia sentir. — Vai dar tudo certo — ela sussurrou. Muaido olhou para trás e me encarou, mudo, por alguns instantes para então voltar a olhar para frente. Quando estávamos caminho até ali, Muaido, Ikiiki e eu discutimos estratégias de entrar na cidade. Não sabíamos como seria ao cruzarmos os portões da última cidade de Estarim naquela região. Cidades de fronteiras são sempre bem vigiadas, Muaido me advertiu. Ainda mais com bastardos fugitivos do rei, prometidos de morte pelo rei. Minha mão formigava com a possibilidade de ser morta por aqueles soldados que revistavam as carroças, carruagens, alforjes e até as pessoas que desejavam entrar na cidade. Sem contar que muitos não conseguiam entrar. Simplesmente eram barrados, como se não fossem ser o suficiente para entrar na cidade fronteira com a terra dos gigantes, belos e esbeltos menádios. Na nossa conversa, sugeri que era melhor que eu entrasse sozinha na cidade, logo atrás de Muaido e Ikiiki, mas os dois disseram ao mesmo tempo que era uma péssima ideia. Tanto Ikiiki quanto eu não seríamos permitidos de entrar sozinhas ou uma acompanhada da outra, sem Muaido, na cidade. O anão ficou sem jeito em poder me explicar o motivo: — Você é uma griza e você uma anua. — Eu já sabia o motivo pelo qual eu não posso entrar me Guhji — a anua respondeu erguendo o tom de voz. — Ikiiki só pode entrar na cidade, se passando como escrava — Muaido continuou, olhando para mim. — Uma escrava de um menádio ou de um anão. Se for de um humano em viagem, para cruzar o reino dos gigantes já vai ser estranho. Humanos não são tão bem vindos naquela terra como os anões. Menádios e humanos não se dão tão bem desde sempre. E nós podemos entrar e sair de Ispunmrri a vontade, porque para chegar em Bonrras, temos de passar por Ispunmrri e porque as leis de migração nos permite entrar em qualquer reino mais perto do nosso, em linha reta. — Ele suspirou. — Alleumena não pode entrar sozinha só por ser uma griza. Então suas melhores chances estão comigo. — É arriscado para vocês ficarem perto de mim — os adverti. — E se soldados estiverem a nossa espera? — Um reino inteiro de soldados estavam em Nestta e ainda assim escapamos deles — ele retrucou. — Mas eu quase morri — expliquei. — Por besteira eu quase morri. E meu irmão morreu. Meu peito doeu com a menção de sua pessoa. Nelo morreu, mamãe morreu. Todos morreram. Aquela onda de querer desistir da vida assumiu controle do meu corpo novamente. Meus braços anestesiaram, caídos pesados sobre minhas pernas, e minhas narinas queimaram logo em seguida. Meus amigos deviam estar todos mortos também. Parei de me lembrar da nossa conversa com esse sentimento no peito. Meus olhos pesaram. Aquela moleza nos braços tomou conta do meu corpo e meus lábios queriam gritar quem eu era para me matarem. Outra parte de mim só queria m***r Biermoni Qatel. Eu queria declarar meu ódio ao rei e prometê-lo de morte na frente de todo seu reino. Eu não queria sua coroa. Não queria ser princesa ou rainha. Eu só queria matá-lo. Eu não seria covarde como ele foi em usar todos os soldados de seu reino para m***r todas as crianças da cidade. Eu o mataria com minhas mãos. Ainda vou cravar minhas unhas em seu pescoço e rasgá-lo tão profundo até ele morrer de dor, afogando-o em seu próprio sangue. Senti uma lágrima quente escorrer no meu rosto sujo. Quando voltei em mim, percebi Ikiiki me encarando. Frouxei meu maxilar tensionado e limpei as lágrimas. — Vai ficar tudo bem, vossa alteza. Cerrei meu maxilar novamente. Eu queria poder gritar com ela por me juntar a laia de Biermoni, mas ela não tinha culpa. Eu via isso, embora a cabeça não quisesse entender. Muaido se virou para me olhar e virei a cabeça. Não gostava de tanta atenção. Qualquer um que se cria no Canto Escuro de Nestta não gostava de atenção. Eu era do tipo de preferir uma meia luz, meio escuro. Tudo para me esconder dos olhares, quando eles me encontravam. Demorou para chegar perto da nossa vez. Um homem usando uma capa com capuz verde esmeralda bem sujo e de tom quase indetectável, num mistério curioso, falava baixo com os soldados à sua frente. Fora a única conversa das últimas que não pudemos ouvir desde o início. Isso até um soldado rir da cara do homem e quase gritar: — Não precisamos de gente da sua laia por aqui. Arrastei meus olhos até Ikiiki, assustada. Eu seria barrada também. O homem sussurrou alguma coisa e agora os dois soldados riram dele. Cheguei a me ajeitar sob a carroça e engatinhar até ficar ao lado de Muaido, na busca de ouvir melhor. Será que ele era um grizo? Seu capuz protegia sua identidade de quem estava atrás dele, na fila. — Então você é o famoso Atrebor Aluap? — o segundo soldado perguntou. O sujeito olhou para os lados, mas sem revelar quase nada do rosto e voltou a olhar para ele. Suspirei e quis me aproximar um pouco mais, mas não dava. Ikiiki olhou para mim e riu baixo. Eu sorri de volta para ela. Olhei depois para o Muaido e ele ergueu as sobrancelhas. Bem de longe tinha um sorriso naquele rosto rústico. — Se sou famoso, me diz vocês. Eu só faço meu trabalho — ele garantiu. — Garanto a vocês que ainda vou mostrar ser um m*l necessário, se me deixarem entrar em Guhji. Um soldado olhou para o outro e, do nada, um ergueu os ombros e riu, enquanto o outro fez um aceno com a cabeça. — Vai, entra! — respondeu. O homem entrou. Na vez do próximo, que era a carroça à nossa frente, os soldados notaram que eles estavam levando trigo para a cidade sem o selo de aprovação mercantil da Alfândega de Estarim. Esse tipo de produto pode ser comercializado, por baixo dos panos entre vilas e cidades pequenas sem uma muralha. Com suborno, eu já vi entrando até em Nestta, mas ali era uma cidade de fronteira. Suborno não deveria funcionar. Os soldados viraram a carroça e rasgaram todos os sacos de estopas dos trigos. Toda aquela comida foi jogada fora, enquanto muitas pessoas dentro daquela muralha estava disposto a todo tipo de coisa para conseguir um punhado daquele ** que o vento começava a arrastar pela terra e erguia no ar. Meu coração doeu no peito pelo desperdício enquanto minha cabeça se preocupava com a hostilidade dos dois soldados. O próximo caso que eles veriam era o de um anão com uma humana griza e uma anua. Grizas são mais detestadas que os anuos por qualquer raça no mundo e o meu caso seria visto após um acesso de ira dos soldados com um caso anterior ao meu. Ikiiki desceu do seu cavalo e pediu que eu descesse da carroça, vendo o acesso de raiva dos soldados. No final ela me explicou que quando estamos numa situação assim, devemos deixar nosso opressor ficar num plano mais alto que nós. Precisavam se sentir superior a nós em todos os sentidos imagináveis. Desci e arrumei meu cabelo desgrenhado, soltando-o e o deixando alcançar o meio da minha coxa. Demos um passo à diante quando a carroça à nossa frente deu meia volta. Uma mulher chorava sobre a carroça, vendo todo aquele alimento desperdiçado. — Bom meio-do-céu para o irmão soldado — Muaido disse, abaixando e erguendo a cabeça. — Bom meio-do-céu, anão — um dos soldados o respondeu. Ele passou por Muaido e freou o olhar em Ikiiki por um tempo. — Precisa tirar o turbante — ele a avisou. Ikiiki hesitou, mas ergueu os braços e levou as mãos até o turbante. — Não há nada neles, soldado — ela respondeu virando-o na direção do soldado. Sua cabeça careca carregava profundas cicatrizes de queimadura. Nenhum fio de cabelo sequer emergia dali. Ela virou os olhos na minha direção e desviei meus olhos dela e abaixei a cabeça. O soldado desenrolou todo turbante amarelo de Ikiiki e depois jogou o tecido na mão dela. Outro soldado veio do outro lado da carroça e começou a mexer nas nossas coisas. Ele me encarava em intervalos, como se me temesse. Segurava o cabo de sua espada como se esperasse qualquer movimento meu. O mesmo soldado que desarrumou o turbante de Ikiiki veio em minha direção. Engoli em seco e me mantive paralisada como se devesse até o último caldo do osso. Ele ergueu meus braços e me fez virar. Depois ele começou a mexer no meu cabelo e despenteá-lo todo, como se procurasse algo. Olhei para Ikiiki. Ela olhou primeiro para o outro soldado que vasculhava a carroça e depois fez sinal para que eu respirasse, respirando ela fundo e erguendo e abaixando sua mão. Parei para prestar atenção na minha respiração e percebi que eu não estava respirando nada. Soltei o ar preso cautelosamente, com medo de respirar errado e o soldado implicar comigo. Vagarosamente puxei o ar novamente para dentro. Ali percebi que eu estava tremendo tanto que até o ar fazia som trêmulo e entrecortado. — Liberado — disse o soldado que vasculhava. Estatelei meus olhos e permiti que meio sorriso me escapasse do rosto. — Liberados — o soldado que me revistava disse, me empurrando para frente. Trombei em Ikiiki e ela me segurou. Dura, hesitei em andar, mas ela me puxou pelo braço enquanto ela puxava seu cavalo com a outra mão. Passamos pelos portões da cidade e a avenida se mostrou longa e movimentada. O cheiro forte de suor de cavalo, estrume e o odor humano se condensava ali na beirada da cidade e me lembrava de Nestta. Quando se nasce e cresce em cidade grande, se aprende a suportar todo esse odor. Estava com a atenção perdida, mas consegui concentrar numa risada de alguém que começou longe e depois aumentou. Virei para o lado, minhas sobrancelhas já arqueadas quando notei Muaido gargalhando. — Você ficou com medo. — Ele apontou o dedo para mim. Passei o olhar para Ikiiki. Ela sorria e forçava os olhos na direção de seu cavalo. Quando tornei a olhar para o anão, tratei de fechar ainda mais o cenho. — E não era para eu ficar? — Sabe onde estamos? — Muaido me perguntou. Assenti com a cabeça. — Em Guhji. — Guhji é a capital da casa de Cobre de Estarim. Eles nos ajudaram a tirar os bastardos de Nestta. Ainda que fôssemos barrados nos portões agora, poderíamos entrar na cidade depois. Eles querem o sangue de um verdadeiro cervo no trono, não um bastardo filho de um servo. — Vocês usam com bastante desgosto a palavra bastardo para criticar Biermoni. Eu também sou uma bastarda. — Mas você é uma bastarda de sangue real. Está em algum lugar na linha de sucessão do trono de cervo. Ele é o bastardo de uma nobre que por ventura virou rainha, com um servo do castelo. — Então quer dizer que não corríamos perigo algum? — perguntei. — Nenhum mortal, pelo menos — Ikiiki respondeu por ele. Cerrei o maxilar e forcei a língua contra o céu da boca, forçando-me a ficar calada e não falar algo contra eles. Dei de costas para os dois e comecei a andar. Muaido riu mais um pouco, antes de eu ouvir eles vindo na minha direção.
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