Esperança
É tarde da noite quando deixamos a casa bonita; nunca vi tanta fartura em numa mesa. Até me espantei.
Foi assim, era por volta da hora do almoço quando a dona Violante me chamou para ajudar com as vasilhas de comida.
_ Venha, Esperança, pegue essas baichelas de prata me ajude a levar para a sala de jantar. Ande devagar para não forçar o seu tornozelo machucado. - pediu e eu apenas balancei a cabeça em confirmação.
Juro que fiquei que nem uma boba olhando tudo, nunca tinha visto tanta coisa bonita juntas num só lugar.
No entanto quanto olhei para a mesa enorme meus olhos quase caíram do meu rosto.
Contei até seis cadeiras, depois me perdi com os números.
_ Vai chega visita? - perguntei olhando às muitas travessas.
_ Não, menina, apenas o patrão vai almoçar. Por quê?
_ Uai,sô, é muita comida pra um armoçar sozim.
_ Senhor Florian gosta de comer bem.
_ Minha nossa! Ele comi tudo isso sozim?!
Me arrepiei ao ouvir uma voz de homem soar atrás do meu corpo.
_ Um pouco de cada alimento preparado, senhorita. - me virei e fiquei roxa ao me deparar com um homem zarrão. Meu olhar se ergueu até a face do sujeito.
Ele sorria e eu detestei o seu sorriso, porque o sorriso dos homens me machucam, eles são bichos cruéis.
_ Senhor Florian essa é Esperança, a mocinha de quem lhe falei.- Dona Violante, corre e retira rapidamente travessa das minhas mãos. Quase que o arroz foi parar no chão.
Após colocar a travessa na mesa, a senhora dona de bochechas rosas olha para mim.
_ Esperança, esse é o patrão, senhor Florian.
Eu fiquei congelada no lugar e quando ergueu a mão para me cumprimentar, olhei do seu rosto para a mão.
Como não me movi, dona Violante tocou em meu ombro.
_ Eu num toco em homi ninhum e não gosto que toque neu. - fecho a minha cara.
Vejo o homem me olhar com espanto.
_ Menina!Não seja grosseria! - ralha a senhora gorda.
_ Deixe, Violante. De qualquer forma, é bom te conhecer Esperança. Violante vai lhe ensinar as regras da casa e os horários. Você tem folga uma vez na semana e a metade do sábado. - o homem com cara de principe fala.
_ Sim, sinhô. - falo baixo - da licença. - peço antes de sair da sua presença e me esconder na cozinha longe dos olhos dele.
O homem é alto, branco que nem leite e tem os olhos azuis como o céu e o cabelo dele brilha feito ouro.
Me sento na cadeira ainda trêmula.
Não demora para a senhora Violante se juntar a mim.
A mulher chegou brava e com o rosto vermelho.
_ Esperança, o que foi aquela sua atitude com o patrão? Você parecia um bichinho assustado, menina, deixou o homem no maior vácuo! - fala brava porém não grita.
_ Num gosto de homi, são uns mardito! - fecho meu semblante.
_ Para com isso, menina, nem todos os homens são iguais. O senhor Florian é um homem de bem, tem um coração enorme e bondoso.Estou chateada pela forma como o tratou.
_ Só ele num querer toca neu que vai ficar tudo certo. - aviso.
Dona Violante desvia seus olhos verdes de minha face.
_ Vou terminar de servir o patrão e você fique aqui quietinha. - pede e logo se vai da cozinha.
Respiro fundo, nervosa e impressionada.
_ Ele parece um prínspe. - sussurro sozinha.
Depois de muito tempo, dona Violante retornou; ajudei com a louça e a limpeza das vasilhas.
Respiro o ar da noite, lembro das vezes que dormi no mato, com medo do monstro fazer alguma coisa comigo enquanto eu dormia; ele já fez e eu sofri muito.
_ Minha casa é pequena, mas confortável. Senhor Florian mandou gradear o espaço para que eu tivesse mais privacidade. - ouço tudo e não falo nada.
Na frente tem muitas plantas e flores coloridas, miniaturas feitas de barro, um burrinho, tartarugas e uma lagarta.
Atravessamos por um caminho feito de cimento, logo pisamos numa varanda com bancos de madeira cheios de almofadas coloridas.
_ A sinhora gosta de cor, né? - indago olhando quanta coisa colorida tem pendurada na parede da frente.
_ Gosto de vida e alegria, cores são um prenúncio dela.- responde sorrindo, observo a facilidade que tem para sorrir.
Dona Violante empurra a porta, entramos e o cheirinho de alfazema nos recebe.
_ Lar doce lar. Apartir de hoje essa casa é o seu novo lar, Esperança. Aqui é a sala, vou te mostrar o seu quarto.- ando mancando atrás da mulher de bochechas cor-de-rosa.
Aqui nessas atrás dessas portas estão os quartos, o banheiro e no final do corredor é a cozinha.
_ Num tem medo?- pergunto.
_ Medo de que?
_ De enfiar na sua casa, uma muié que não cunheci?
Dona Violante sorri, seus olhos também.
_ Não, menina, porque vejo que você está mais assustada do que um filhote de passarinho que caiu do ninho. Pessoas assim trazem consigo uma carga de sofrimento que não podemos dimensionar.
_ Pode expricar mior o que falo?
Ela suspira e abre a porta que tem um anjo pregado em cima do portal.
_ Que você é uma pessoa sofredora.
Abaixo meus olhos, tanto de tristeza quanto de vergonha. Se ela soubesse que sou uma criminosa não estaria me estendendo a mão.
_ A vida judiou deu, dona.- me limito a falar.
_ Quer conversar?
Apenas balanço a cabeça em negação. Falar não vai mudar nada do que me aconteceu.
_ Pode ir deitar, descansar; amanhã saímos cedo para o trabalho, o senhor Florian gosta de pão fresco todos os dias e eu preciso sovar a massa, acender o forno.... O banheiro é naquela porta de cor branca, tem tudo o que precisa para tomar um banho. Vá e se refresque.- aponta na direção do cômodo.
Não me faço de desentendida, sei que estou precisando mesmo de um banho, por isso não demoro a entrar e fico impressionada com a quantidade de produtos, sozinha e com a minha curiosidade em alta, pego algumas embalagens abro e sinto o cheiro.
O perfume é doce, uma delícia, os cremes são tantos que nem sei para que serve. Tento ler o rótulo.
_ Crê....e...crê...me...p...pa...ra o....ros...rosto! É isso! Cremi de pô na cara!- dou uma cheirada no produto- Hummm, cheira bom.
Fecho a tampa e o devolvo para o lugar.
Lá em casa o banho era com sabão em barra, shampoo não tinha e o creme era óleo de cozinha. Nunca tive luxos.
Escuto pancadas na porta e levo um susto.
_ Tudo bem, Esperança? - a voz da dona Violante soa abafada.
_ Sim! - largo tudo no mesmo lugar e decido parar de espiar as coisas da senhora.
Tiro minha roupa e me jogo debaixo do chuveiro. A água cai morna, uma delícia, sorrio, eu gosto da água.
_ Pode usar os produtos do nicho! Lave bem os cabelos!- ela fala alto e eu fico muito agradecida por poder usar shampoo e condicionador. Sempre quis ter esses luxos em casa, nunca podíamos.
_ Agradicida, dona Violante. - berro.
_ Vou arrumar sua cama, menina, acho que tenho algumas coisas que podem te servir aqui. Vou procurar.
Corri até o vidro de Shampoo enchi a mão e tasquei na cabeça esfreguei amando o cheirinho de frutas que o produto emana.
_ Oh, diacho, quanta espuma! Num caba não? - falo sozinha, porque quanto mais a água cai e eu esfrego mais espuma faz.
Entro em pânico achando que não deveria ter usado raio de shampoo nenhum!
Depois de uns cinco minutos de agonia a espuma vai-se pelo ralo.
Respiro normal, mais calma.
Olho para o condicionador com receio. Pego o frasco uso pouco do produto. Esfrego meu corpo com o sabonete, retiro a espuma.
Puxo a toalha e me seco o meu corpo.
_ Esperança, tem um pijama aqui para você. - abro a porta e vejo dona Violante - Olha, menina, eu arrumei nas sacolas que separei para levar para a doação na igreja, você é magrina vai te servir.
Pego a peça macia com estampa de gato.
_ Pra eu?
_ Sim, para você. É seu agora.
_ Brigada dona Violante, é bonito. - fico feliz com a roupa porque as que eu trouxe são muito velhinhas.
_ Vista-se, a cama te espera.- avisa- Ah, já ia me esquecendo, tem escova de dentes nova na gaveta e creme dental, escove seus dentes. Sabe que barata gosta de entrar na boca de quem não faz uma limpeza direita dos dentes.- avisa.
Retorno ao banheiro, visto o pijama e escovo os dentes, penteio meu cabelo. Vejo os pequenos cachos querendo se formar.
Organizo a minha bagunça; depois de deixar o cômodo, ando até a cozinha com a minha roupa suja em mãos.
_ Onde posso lavar?
_ Não precisa lavar, a máquina fará isso. Estou aqui fazendo uma lista de compras das coisas que preciso na casa do senhor Florian, quer me ajudar? - indaga e eu balanço a cabeça em afirmação.
Continua.....