As velas tremulam sobre a mesa de mogno à minha frente, lançando sombras longas nas prateleiras abarrotadas de antigos grimórios. O cheiro de pergaminho envelhecido e tinta desbotada preenche o ar, misturando-se com o meu perfume suave e doce de ervas secas.
Estou na biblioteca do enorme palácio de Primordia, meu único refúgio dentro destas muralhas. O palácio é feito de mármore branco, imponente e intocado pelo tempo, com uma enorme pedra de rubi no topo. Ela pulsa suavemente, emanando a magia que protege o reino. As muralhas que cercam Primordia não são de pedra ou ferro, mas de vidro — um vidro impenetrável, forjado de pura magia.
E eu vivo entre essas muralhas, protegida a sete chaves.
Nunca soube o real motivo disso. Nunca me disseram com clareza por que minha vida era restrita a este lugar, por que meus passos eram vigiados e por que minha existência parecia um segredo tão bem guardado.
Mas uma coisa sempre foi certa: eu nunca fui tratada como uma princesa frágil.
Desde pequena, fui ensinada a lutar. Meu pai sempre repetiu que eu não poderia ser apenas uma dama inofensiva, que minha linhagem exigia mais de mim. “Você deve honrar Dione”, ele dizia. E eu honrei.
Conheço qualquer feitiço que possa imaginar. Qualquer ritual que precisar. Desenho runas com precisão e luto como ninguém. Ando por este palácio como uma sombra, porque foi assim que me ensinaram a ser.
E, ainda assim, nunca soube de verdade do que estou sendo protegida.
Minha mão desliza pelas páginas do grimório à minha frente. Meus olhos percorrem cada linha, cada símbolo entalhado à tinta n***a, buscando respostas para perguntas que nem sei como formular. Há algo errado. Algo que nunca me contaram.
Um estalo ecoa pela biblioteca, e meu corpo se enrijece.
Seguro a respiração. O silêncio se arrasta por segundos que parecem horas. Meus instintos gritam que há alguém aqui.
Fecho o grimório com cuidado e apago a vela, mergulhando a mesa na penumbra. Meu coração martela no peito quando me levanto, os sentidos alertas. Sei que não deveria estar aqui a esta hora, mas essa sensação vai além do medo de ser pega.
Estou sendo observada.
Então, uma voz ecoa das sombras.
— Você precisa partir. Agora.
Minha pele se arrepia, e minha magia crepita sob minha pele, pronta para atacar. Mas não há ninguém ali. Apenas sombras e… névoa?
Uma figura encapuzada emerge entre as estantes, seu rosto oculto por um véu espectral. Não é uma presença comum. Não é um ser qualquer.
É um oráculo.
Engulo em seco. Meu pai falava sobre eles nos contos da guerra antiga. Seres que enxergavam além do tempo e que nunca apareciam sem motivo.
— Quem é você? — Minha voz sai firme, mas minha mente gira em desespero.
A figura dá um passo à frente, e mesmo sem ver seus olhos, sinto seu olhar atravessar minha alma.
— Não há tempo para perguntas, Lyara Aetheris — a voz ecoa, carregada de algo que não é humano. — Eles estão vindo.
Um calafrio sobe pela minha espinha.
— Quem?
— Aqueles que querem apagar sua existência. Aqueles que mentiram para você a vida inteira.
Meus punhos se fecham.
— Eu já sei que estão me escondendo algo — sibilei. — Mas por que agora? O que mudou?
O oráculo estende a mão e, por um instante, tenho a impressão de que o tempo ao meu redor desacelera. Vislumbres de imagens tomam conta da minha mente — chamas consumindo Primordia, sombras se erguendo no horizonte, meu próprio reflexo em um espelho quebrado.
— O destino está se movendo — a voz do oráculo ressoa dentro da minha cabeça. — A profecia está prestes a se cumprir, e você é a chave. Se ficar, será tarde demais.
Minha respiração fica presa na garganta. A profecia.
A profecia que nunca me contaram.
Minha pulsação martela, e as imagens ainda giram na minha cabeça. Fogo. Destruição. Morte.
— Fuja, Lyara. Antes que eles venham. Antes que o destino seja selado.
O oráculo recua, sua forma se dissipando como névoa ao vento. O tempo parece voltar ao normal, e de repente, estou sozinha novamente na biblioteca.
Mas agora, sei o que preciso fazer.
Eu não vou esperar para descobrir quem “eles” são.
Eu vou fugir.
E nada me impedirá.
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O cheiro de sal impregna o ar quando me esgueiro pelo convés do navio mercante. A embarcação balança suavemente sobre as águas enquanto os marinheiros fazem os últimos preparativos. Meu peito aperta. Estou realmente fazendo isso.
As primeiras luzes da manhã tingem o céu quando me afasto da borda, puxando o capuz sobre meus cabelos prateados. Encontro um canto discreto, afastado do restante da tripulação. Aqui, sou apenas mais uma viajante anônima.
Ou pelo menos, era o que eu esperava.
— Você não parece pertencer a um lugar como este.
A voz surge do nada, e meu corpo se enrijece. Viro-me rapidamente, os olhos encontrando um par de íris douradas que brilham sob a luz da aurora.
Um homem está encostado contra a estrutura de madeira do navio, os braços cruzados e um meio sorriso no rosto. Seu cabelo n***o cai de forma desleixada sobre a testa, e suas roupas são escuras e discretas — quase como se estivesse tentando se misturar. Quase como se estivesse fugindo.
— Quem é você? — minha voz sai afiada.
Ele ergue uma sobrancelha, como se estivesse surpreso por eu não saber a resposta.
— Kael Drelkath — diz ele, sem rodeios.
Meu estômago se revira. O príncipe herdeiro de Seaphiel.
— E você? — ele pergunta, me estudando com curiosidade.
Penso por um instante. Se ele souber quem eu sou, pode me entregar.
— Lyra — minto.
Seu sorriso se alarga ligeiramente, como se não acreditasse em mim, mas não me desafia. Em vez disso, se afasta da parede e dá um passo na minha direção.
— Espero que tenha um bom motivo para estar aqui, Lyra.
A maneira como ele diz meu nome falso me dá a sensação de que ele já sabe a verdade.
A travessia será mais complicada do que eu imaginava
A tensão paira entre nós como eletricidade no ar antes de uma tempestade. Kael Drelkath me observa com um olhar intenso, avaliador, como se estivesse tentando enxergar através da mentira que acabei de contar.
Seguro minha postura, não desvio o olhar.
— Não sabia que o príncipe de Seaphiel viajava em navios mercantes — digo, tentando manter a compostura.
Ele dá de ombros, um meio sorriso brincando nos lábios.
— E eu não sabia que garotas misteriosas se escondiam em embarcações sem motivo aparente.
Cruzo os braços, forçando um suspiro entediado.
— Talvez eu apenas queira ver o mundo.
— Ah, claro — ele responde, a voz carregada de ironia. — Uma dama bem-vestida, com um sotaque refinado e postura de quem cresceu entre nobres, fugindo sozinha no meio da madrugada.
Meus dedos se apertam contra os braços. Ele é observador. Isso pode ser um problema.
— E você? — rebato. — O que um príncipe está fazendo aqui? Não me diga que também quer ver o mundo.
Kael solta um riso baixo, mas seus olhos não perdem a astúcia.
— Digamos que minha presença em Seaphiel se tornou… inconveniente.
Minha curiosidade se acende, mas sei que não posso me dar ao luxo de perguntar mais. Ele já suspeita de mim o suficiente.
— Bem — digo, me afastando um passo. — Se não se importa, prefiro ficar sozinha.
Ele me observa por mais um instante, como se ponderasse se deveria insistir ou não. Então, simplesmente ergue as mãos em rendição.
— Como quiser, Lyra. Mas algo me diz que ainda vamos nos esbarrar muito durante essa viagem.
Ele se afasta, descendo as escadas que levam ao interior do navio, e só então percebo que estava prendendo a respiração.
Kael Drelkath pode ser um problema. Um problema que eu não posso me dar ao luxo de ter.
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Atravessamos o Mar de Artheris por horas sem grandes eventos. O céu está limpo, as águas tranquilas. Mas a sensação de que algo está errado não me abandona.
A profecia.
O oráculo disse que eu era a chave. Mas a chave para o quê?
Fecho os olhos e respiro fundo. Não posso me perder em dúvidas agora. Meu único objetivo é ir o mais longe possível de Primordia antes que percebam que fugi.
Mas, no instante em que abro os olhos, vejo algo que faz meu coração disparar.
No horizonte, uma embarcação de bandeira n***a se aproxima.
E então eu entendo.
Eles já estão atrás de mim.