Capítulo 2

1155 Palavras
A campainha soou novamente, anunciando que o intervalo estava no fim. Eu, como sempre, não ia me contentar em ir para minha sala. Estava de plantão na porta da turma do segundo ano, observando a movimentação e aguardando Christian. Ele, com seus 16 anos, tentava se esconder entre as conversas e olhares curiosos, mas eu sabia que ele não ia escapar de mim tão facilmente. — Christian! — Gritei, balançando a cabeça para ele. — Vamos! O intervalo está acabando, você não vai ficar aí parado o tempo todo, vai? Ele virou a cabeça lentamente, com uma expressão entediada, como se já estivesse esperando que eu fosse incomodá-lo. — O que foi agora, Nana? — Ele perguntou, já fechando os livros na mochila, como se estivesse só querendo voltar para sua solidão habitual. — Estava só me perguntando se você ainda estava vivo. Passamos o intervalo inteiro no pátio e você não apareceu. — Eu disse, cruzando os braços, divertindo-me com a forma como ele parecia tão distante dos outros. Ele suspirou e se encostou na parede. — Eu estava na biblioteca. Estudando. Como sempre. — Ah, claro! O lugar onde você se esconde como um eremita. Você não tem 60 anos, tem 16, Christian! — Eu ri, adorando a forma como ele sempre se refugiava nos livros. Ele ergueu uma sobrancelha, sem paciência, mas o sorriso que começou a se formar em seu rosto não passou despercebido. — E você, já tentou estudar? Não vai conseguir viver de piadinhas para sempre. — Ele respondeu, com uma pitada de provocação. — Ah, e você acha que a minha vida seria divertida se fosse só estudar o tempo todo? Acho que é por isso que sua vida é tão sem graça. — Eu retruquei, com sarcasmo. Ele me olhou, claramente prestes a retrucar, mas a professora dele apareceu no corredor. Ela me deu aquele olhar de "você deveria estar na sua sala", e, de forma educada, me afastou. — Anastácia, sugiro que volte para sua turma, antes que leve uma advertência. Revirei os olhos, mas fiz um gesto de "sim, senhora" e saí correndo pelo corredor, não sem antes dar uma última olhada para Christian, que estava com uma expressão que misturava exasperação e diversão. De volta à minha sala, a bagunça já estava instaurada. A turma do sexto ano, composta por alunos de 13 anos, estava em plena discussão sobre os desenhos animados mais recentes, com toda a empolgação de quem não tem mais nada importante para fazer. Sentei no meu lugar e comecei a folhear meu caderno, já um pouco entediada, quando minha amiga Helena, sentada ao meu lado, me cutucou. — Você e o Christian são muito estranhos. — Ela disse, com uma expressão curiosa. Eu a olhei, sem entender. — O quê? Como assim? — Porque vocês dois parecem... melhores amigos, mas vivem brigando. É como se fosse uma amizade diferente, sei lá. Eu dei de ombros, sem saber o que responder. Não queria admitir que era mais do que isso. — Faz parte da graça, Helena. Ele e eu nos entendemos de um jeito esquisito, mas funciona. Helena parecia não tão convencida, mas não insistiu. Ela sorriu e ficou quieta, o que me deixou um pouco desconfortável. Mas o desconforto não durou muito, porque a professora entrou e todos se aprumaram para a aula. Na hora da saída, joguei minha mochila nas costas e corri para o portão. Como sempre, lá estava Christian, encostado no muro e esperando o motorista, que parecia sempre se atrasar. Eu sabia que ele estava cansado, mas, como sempre, não podia evitar me aproximar. — Sobreviveu à aula? — Perguntei, com um sorriso provocador. Ele me olhou sem muita paciência, mas deu uma risada baixa. — Sobrevivi. E você? — Quase morri de tédio. — Respondi, exagerando no tom. Christian fez uma careta, mas com aquele jeito dele de quem não queria perder a oportunidade de provocar, disse: — Mas eu fiz um desenho muito legal no meu caderno, quer ver? Eu ergui as sobrancelhas, interessada, mas com uma pitada de desconfiança. — Eu sei, você é o "artista" da escola. — Eu ri. — Aposto que é uma obra-prima, como sempre. Ele me olhou com uma expressão que dizia "tá, vou te mostrar, mas se prepare". — Se você não parar de ser sarcástica, nunca vou mostrar. Eu dei uma risadinha e fiz um gesto com as mãos, dando permissão para ele me mostrar, mas antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, eu já estava pegando meu caderno e rabiscando algo. Quando ele me olhou, disse: — Não vale me zoar, ok? Eu olhei para ele e tentei manter a cara mais séria possível. — Quem, eu? Nunca. Ele me entregou o caderno, e eu abri rapidamente, me preparando para ver uma das suas tentativas “artísticas” que ele achava incríveis, mas que para mim eram só engraçadas. Quando abri o caderno, fiquei sem palavras. Lá estava eu , parecia até que era uma foto e não um desenho. — Uau Christian! Que lindo, eu amei, posso ficar pra mim? — Claro, se você gostou pode ficar Sim... Deixa vê o que você fez no seu caderno. — Ele pediu e eu guardei o desenho que ele me deu e com um sorriso largo mostrei o que eu fiz pra ele. No desenho ou melhor rabisco estava Christian, em uma cena de biblioteca, com os óculos de leitura quase maior que os olhos dele e um livro enorme nas mãos, cercado por pilhas de livros . No canto inferior, eu coloquei uma legenda: “O velho rabugento.” — Isso não é legal, Anastácia! Você me desenhou com cara de idoso! — Ele protestou e eu não pude evitar rir, mas dei de ombro. — Você se acha muito engraçada, sua anã de jardim. — Ei. Olhei para ele e não pude deixar de perceber o sorriso pequeno começando a aparecer em seu rosto. Talvez ele realmente estivesse se divertindo com tudo isso. — E você, parece muito mais velho do que realmente é? — Eu falei, rindo mais. — E você, sabia que precisa parar de desenhar meus traços com tanto exagero? — Ele respondeu, jogando o caderno de volta para mim, ainda sorrindo. Justo quando o motorista de Christian chegou, interrompendo nosso momento, ele levantou a cabeça, me dando um olhar significativo. — Vamos, antes que você me faça querer desenhar você em um caixão, de tanto me irritar. Eu ri alto. E antes de entrar no carro, dei uma última olhada para ele, sorrindo. Eu não sabia se era só para provocar ou se ele realmente gostava dessa bagunça toda que era a nossa amizade. — Ei Chris espera. — O que foi? — Posso ir com você? — Claro, vamos. — Obá. Dou a volta no meu carro e falo com o motorista de que vou pra casa de Christian.
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