O carro seguia devagar pelas ruas movimentadas da cidade, e eu observava Christian de soslaio. Ele olhava pela janela, aparentemente perdido em pensamentos. Provavelmente estava imaginando qual livro pegaria da biblioteca no dia seguinte ou planejando alguma resposta inteligente para rebater minha próxima provocação.
Eu conhecia aquele olhar.
— No que você está pensando? — perguntei, cutucando seu braço.
Ele desviou os olhos da janela e me encarou, como se decidisse se valia a pena responder.
— Nada de mais.
— Ah, claro, porque você não pensa em nada nunca — revirei os olhos.
Ele suspirou.
— Só estava lembrando de quando éramos menores. Tipo, lembra daquela vez que você tentou construir um castelo de areia no meio do jardim da minha casa e sujou tudo de lama?
— Claro! E eu quase consegui! — endireitei a postura, orgulhosa. — Mas aí você teve que ser chato e chamar sua mãe antes que eu terminasse.
— Você estava destruindo o gramado!
— Arte requer sacrifícios.
Ele riu baixo, balançando a cabeça.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, até que resolvi cutucá-lo de novo.
— Você acha que um dia a gente vai parar de ser amigos?
Christian virou o rosto para mim, a testa franzida.
— Que pergunta mais i****a, Nana.
— Não é i****a! Eu só pensei nisso porque… sei lá, e se um dia a gente mudar?
Ele ficou em silêncio por um momento, como se considerasse a ideia.
— Todo mundo muda — ele disse, enfim. — Mas eu não consigo imaginar minha vida sem você implicando comigo.
Eu sorri.
— Então estamos presos um ao outro para sempre?
Ele deu de ombros, mas havia um pequeno sorriso no canto de sua boca.
— Parece que sim.
Chegamos em casa alguns minutos depois, e como de costume, desci na casa dos Escobar para passar um tempo antes do jantar. Nossas mães estavam na varanda, conversando como sempre faziam, e Christian seguiu para o quarto dele, já sabendo que eu o seguiria.
— O que vamos fazer hoje? — perguntei, jogando minha mochila em um canto e pulando na cama dele.
— Eu preciso terminar uma lição de casa.
— Ah, não! — reclamei, dramaticamente. — Isso é um crime contra a diversão!
Ele ignorou meu drama e abriu o caderno, pegando um lápis.
— Se você quer se divertir, pode ir brincar sozinha.
Cruzei os braços, fingindo estar ofendida.
— Eu sou sua melhor amiga, e você me trata assim?
— Você é minha melhor amiga e minha maior fonte de dores de cabeça — ele corrigiu.
— Justo — admiti, rindo.
Levantei-me e comecei a andar pelo quarto, olhando os livros organizados na estante. Alguns eram enormes, do tipo que eu nunca teria paciência para ler. Outros pareciam mais interessantes, com capas coloridas e ilustrações.
Peguei um livro qualquer e me joguei no tapete, folheando as páginas.
— Ok, você estuda e eu finjo que leio.
Ele não respondeu, apenas continuou escrevendo.
Por mais que eu gostasse de atormentar Christian, também gostava da nossa rotina. De como eu podia ser barulhenta enquanto ele era silencioso, de como ele tentava me ignorar, mas no fundo sempre prestava atenção em mim.
Éramos opostos em tantas coisas, mas, de alguma forma, sempre voltávamos um para o outro.
Horas depois o tédio me atingiu com força.
Virei uma página do livro que eu nem estava lendo de verdade e soltei um suspiro dramático. Olhei para Christian, que continuava escrevendo sua lição, totalmente alheio ao fato de que eu estava morrendo de tédio ao lado dele.
— Christian. — Chamei.
Nenhuma resposta.
— Chris. — Tentei de novo, agora jogando um travesseiro nele.
Ele apenas o pegou no ar e o jogou de volta sem desviar os olhos do caderno.
— O que foi, Nana?
— Estou entediada.
Ele suspirou, finalmente levantando o olhar para mim.
— E eu com isso?
— Você é meu melhor amigo. É sua obrigação moral me entreter.
Ele me encarou por um segundo e depois voltou a escrever.
— Vá se entreter sozinha.
Bufei.
— Você é um péssimo melhor amigo.
Ele sorriu de canto, sem nem me dar atenção.
Fiquei alguns segundos em silêncio, observando o ventilador girar no teto, até que uma ideia surgiu na minha cabeça.
— Ei, vamos sair.
Christian soltou um resmungo.
— Sair para onde?
— Para comprar sorvete.
Ele me olhou como se eu tivesse sugerido um plano criminoso.
— Você quer sair de casa só para comprar sorvete?
— Sim! — Eu disse, empolgada. — Porque na sua casa não tem e eu estou com vontade.
Ele balançou a cabeça.
— Você não pode simplesmente pegar sorvete na sua casa?
— E perder a oportunidade de te arrastar comigo? Nunca.
Ele suspirou de novo, como se precisasse reunir toda a paciência do mundo para lidar comigo.
— Tá bom, Nana. Vamos logo antes que você comece a dramatizar mais ainda.
Soltei um gritinho vitorioso e me levantei num pulo.
— Sabia que eu ia te convencer.
— Na verdade, só estou indo... para que você me deixe estudar em paz depois.
— Aham, claro.
Ele pegou a carteira e saiu do quarto comigo. Passamos pela varanda, onde sua mãe estava folheando uma revista.
— Mãe
— Oi Christian
— A gente vai ali comprar sorvete!
— Tá bom, não voltem tarde — A mãe dele respondeu, sem nem desviar a atenção da conversa.
Sorri para Christian.
— Viu? Temos permissão oficial. Agora anda logo. — Falo fazendo a tia sorri e o Christian revirar os olhos.
Saímos pela rua enquanto o sol já começava a se pôr, tingindo o céu de tons alaranjados. O vento fresco da tarde bagunçou meu cabelo, e eu sorri, adorando a sensação de liberdade.
Christian, ao meu lado, apenas enfiou as mãos nos bolsos da calça e seguiu em silêncio.
— Você realmente precisa aprender a aproveitar a vida, Christian.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— E comprar sorvete é o auge do aproveitamento da vida para você?
— Sim. Porque envolve comida e felicidade.
Ele revirou os olhos, mas não discutiu.
O que, claro, significava que eu estava certa.