Os corredores do colégio estavam lotados no final da tarde, alunos apressados tentando sair o mais rápido possível, enquanto outros se arrastavam, ainda presos em conversas intermináveis. Eu era uma das que não tinham pressa.
Caminhava devagar, a mochila pendurada em um ombro só, fingindo que analisava o celular, mas na verdade, meus olhos estavam focados em uma figura mais à frente.
Christian Escobar.
Ele estava encostado no muro do estacionamento, de braços cruzados, esperando pelo motorista, como fazia todos os dias. Mesmo de longe, sua postura era relaxada, mas seus olhos carregavam aquela intensidade silenciosa que ele sempre teve.
Dois anos haviam passado, e Christian já não era o garoto rabugento que implicava comigo. Agora, aos dezoito, ele era alto, forte e carregava aquela presença que fazia as pessoas ao redor se sentirem pequenas.
E eu… bem, eu continuava sendo Nana.
Só que algo havia mudado.
Não sabia dizer exatamente quando, mas em algum momento, meu olhar sobre Christian deixou de ser apenas de amiga. E isso era irritante.
Porque ele nunca me olhava diferente.
Eu poderia estar com o cabelo bagunçado ou arrumado, usando uniforme ou um vestido bonito para uma festa. Para Christian, eu sempre seria apenas a pirralha de treze anos que roubava seus livros e enchia sua paciência.
E aquilo me dava vontade de socá-lo.
Respirei fundo e segui até onde ele estava.
— Você podia sorrir de vez em quando, sabia?
Ele ergueu uma sobrancelha, desviando os olhos do nada para mim.
— Oi para você também, Nana.
— Oi. Agora sorria.
— Por quê?
— Porque você parece que acabou de sair de um filme de terror.
Ele soltou um riso baixo, balançando a cabeça.
— Você continua a mesma.
— Você que mudou — rebati, cruzando os braços.
— É assim que funciona. As pessoas crescem.
— Eu cresci.
— Você ainda tem quatorze anos. Vai fazer quinze ainda. — Ele piscou e eu bufei, irritada.
— E você age como se tivesse quarenta. E Jajá é meu aniversário.
Antes que ele respondesse, um grupo de garotas do último ano passou perto de nós. Elas lançaram olhares demorados para Christian, seguidos de sorrisos e risadinhas abafadas.
Rolei os olhos.
— Você já percebeu quantas meninas olham para você o tempo todo?
— Não.
— Claro que não — revirei os olhos. — Porque você vive no seu mundo, lendo seus livros e fingindo que o resto da humanidade não existe.
Ele suspirou, como se aquela conversa fosse cansativa.
— E por que isso importa para você?
Eu congelei por um segundo.
Por que isso importava para mim?
Engoli em seco e forcei um sorriso debochado.
— Porque é engraçado ver você ser tratado como um troféu enquanto finge que não se importa.
Ele me olhou por um instante, como se tentasse decifrar alguma coisa em mim.
— Você se importa?
— Com o quê?
— Com elas me olhando.
Meu coração pulou uma batida.
Fiz uma careta e desviei o olhar, fingindo que aquela pergunta não significava nada.
— Não seja convencido, Escobar.
A buzina do carro soou no estacionamento, e eu me virei para ver meu motorista acenando.
— Vamos? — perguntei, tentando me livrar do peso daquela conversa.
Christian apenas assentiu e começou a caminhar ao meu lado.
Mas, enquanto seguíamos para casa, eu sentia seus olhos sobre mim de tempos em tempos.
O carro seguia silencioso pelas ruas da cidade. Pela janela, eu observava as luzes começarem a se acender enquanto o sol se punha. Mas, dentro do carro, minha mente ainda estava presa na última troca de palavras com Christian.
"Você se importa?"
Não. Quer dizer… talvez?
Suspirei, mexendo no zíper da mochila apenas para ocupar as mãos.
Christian estava ao meu lado, aparentemente tranquilo, olhando para o nada como sempre fazia. Mas eu o conhecia bem demais para não perceber que ele estava pensativo. Já era pra ele ter se formado más por algum motivo ele acabou repetindo um ano, por isso ainda estuda.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa para quebrar aquele silêncio estranho, o carro entrou na longa alameda que levava até minha casa.
Foi então que vi algo diferente.
Havia outro carro estacionado na frente da casa dos meus pais. Um modelo preto luxuoso, do tipo que só pessoas extremamente ricas usavam.
— Quem será que chegou? — murmurei, franzindo a testa.
Christian também olhava na mesma direção, seu maxilar levemente tenso. Já que ele ficaria comigo hoje.
Assim que o carro parou, saí rapidamente, curiosa. As portas da casa estavam abertas, e vozes animadas vinham de dentro. Christian saiu do carro com mais calma, mas percebi que ele estava atento.
— Vamos ver quem é — falei, já entrando.
Na sala, meus pais estavam conversando com um casal elegante, e ao lado deles, um rapaz. Ele parecia ter a idade de Christian, talvez um ou dois anos mais velho. Alto, cabelo castanho escuro perfeitamente penteado, roupas impecáveis, um sorriso no rosto que exalava confiança.
— Ah, aqui está minha filha! — Meu pai sorriu quando me viu. — Anastácia, venha cá, quero que conheça nossos convidados.
Me aproximei, tentando disfarçar minha curiosidade.
— Anastácia, estes são Ricardo e Helena Salvatore. Ricardo é meu novo sócio na empresa. E este é o filho deles, Enzo.
O tal Enzo sorriu para mim, estendendo a mão.
— Prazer em conhecê-la, Anastácia. Seu pai fala muito sobre você.
Apertei sua mão rapidamente, sentindo a firmeza do aperto.
— Espero que ele não tenha falado nada embaraçoso — brinquei, arrancando risadas dos adultos.
Foi então que percebi.
Christian ainda estava parado perto da porta, braços cruzados, expressão fechada.
Meu pai o notou e acenou para ele.
— Christian, venha cá, rapaz. Estes são os Salvatores, minha nova parceria de negócios.
Christian se aproximou devagar, mas diferente de mim, não estendeu a mão para Enzo. Apenas assentiu com um leve movimento de cabeça.
— Prazer — disse, sem emoção.
Enzo pareceu notar a falta de entusiasmo, mas manteve o sorriso educado.
— E você é…?
— Christian Escobar — respondi por ele, antes que a tensão aumentasse. — Ele é praticamente da família.
— Ah, entendi — Enzo olhou para Christian, avaliando-o de cima a baixo, como se tentasse decifrar algo sobre ele. — É bom conhecer os amigos da Anastácia.
Christian não respondeu. Apenas manteve seu olhar fixo no outro garoto, sua expressão impassível, mas com algo sutilmente tenso no fundo de seus olhos.
Eu o conhecia bem demais para não perceber.
Ele não tinha gostado de Enzo.