O jantar naquela noite foi diferente do que eu estava acostumada. Havia um clima estranho no ar, e parte disso tinha um nome: Christian Escobar.
Ele sempre foi reservado, mas naquela noite estava além disso. Estava quieto demais, atento demais. Sentado ao meu lado, m*l tocava na comida, limitando-se a responder o necessário quando falavam com ele.
E a outra parte desse clima estranho tinha outro nome: Enzo Salvatore.
Desde que havia chegado, ele parecia completamente confortável, conversando com meu pai sobre negócios e arrancando risadas da minha mãe com seu carisma.
Ele era exatamente o tipo de pessoa que sabia como entrar em um ambiente e se destacar.
E, aparentemente, também sabia como irritar Christian.
— Então, Anastácia — Enzo disse, inclinando-se levemente para mim — seu pai me contou que você dança.
Sorri, assentindo.
— Sim, desde pequena. Ballet e jazz.
— Impressionante. Deve ser incrível ver você no palco.
Antes que eu pudesse responder, ouvi um som baixo vindo de Christian.
Quase como uma risada… debochada.
Virei o rosto para encará-lo.
Ele mexia na comida com o garfo, expressão entediada, como se não estivesse prestando atenção na conversa. Mas eu sabia que estava.
— Algum problema, Escobar? — perguntei, estreitando os olhos.
Ele finalmente ergueu o olhar para mim, depois para Enzo.
— Nenhum. Só achei engraçado.
— Engraçado o quê? — Enzo perguntou, ainda mantendo o tom leve.
Christian inclinou-se um pouco para frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— O jeito como você fala. Como se estivesse tentando impressionar alguém o tempo todo.
Um silêncio se espalhou pela mesa.
Minha mãe olhou discretamente para meu pai, que pigarreou, claramente tentando manter o clima amigável.
Enzo apenas sorriu, mas seus olhos pareciam avaliar Christian de um jeito diferente agora.
— E você fala como se estivesse tentando encontrar defeitos em todo mundo o tempo todo.
Christian apenas ergueu uma sobrancelha.
— Só quando eu acho necessário.
Pisquei, surpresa com a troca de palavras afiadas.
O que estava acontecendo ali?
Antes que a tensão piorasse, minha mãe resolveu intervir.
— Christian, querido, quer mais alguma coisa?
Ele soltou o garfo e recostou-se na cadeira.
— Não, obrigado tia.
Mas o clima já havia sido alterado.
Depois do jantar, saí para a varanda para respirar um pouco. O vento noturno era fresco, e eu fechei os olhos por um instante, tentando entender a troca de provocações entre Christian e Enzo.
Não fazia sentido.
Christian sempre foi observador e seletivo com quem se aproximava. Mas a antipatia por Enzo foi instantânea.
— Você parece pensativa.
Abri os olhos e me virei.
Enzo estava ali, recostado no batente da porta, me observando com um sorriso discreto.
— Eu sou sempre pensativa — respondi, cruzando os braços.
Ele riu, aproximando-se alguns passos.
— Sobre o que estava pensando?
— Em você e Christian — falei sem rodeios. — Foi impressão minha ou vocês já se odeiam?
Ele soltou um suspiro divertido.
— Eu não odeio seu amigo. Mas ele definitivamente não gostou de mim.
— Christian é assim. Não confia nas pessoas facilmente.
— Ou talvez ele não goste de concorrência.
Franzi a testa.
— Concorrência?
Enzo sorriu, inclinando-se um pouco mais para mim.
— Você não percebe, não é?
— Perceber o quê?
— O jeito que ele te olha.
Meu coração deu um pequeno salto.
— Ele me olha como sempre olhou.
— Não — Enzo negou, com convicção. — Ele te olha como alguém que acha que tem direitos sobre você.
Ri, cruzando os braços.
— Você está exagerando.
Ele sorriu de lado.
— Só estou dizendo o que vejo.
Antes que eu pudesse responder, a porta da casa se abriu novamente, e Christian surgiu ali.
Seu olhar foi diretamente para Enzo, e eu senti, mais do que vi, a mudança sutil em sua expressão.
— Já é tarde — disse ele, sem olhar para mim. — Eu vou indo.
— Te vejo amanhã, então — falei, tentando soar normal.
Ele assentiu, deu uma última olhada para Enzo e saiu.
Fiquei ali por um momento, olhando para a porta por onde Christian havia saído. Algo nele estava diferente, e eu não sabia dizer exatamente o quê.
— Interessante — Enzo murmurou, ainda ao meu lado.
— O quê? — perguntei, sem desviar o olhar.
— Como ele saiu sem se despedir direito. Como se estivesse fugindo de alguma coisa.
Revirei os olhos, cruzando os braços.
— Ele só não gosta de certas situações.
— Ou talvez não goste de me ver aqui.
Soltei um suspiro, virando-me para encará-lo.
— Por que isso te importa tanto? Você acabou de chegar, m*l conhece a gente.
Enzo sorriu, inclinando-se ligeiramente.
— Porque é divertido observar as dinâmicas entre as pessoas. E essa, Anastácia, é particularmente interessante.
Balancei a cabeça, me afastando um pouco.
— Boa noite, Enzo.
Ele riu baixo.
— Boa noite, bailarina.
Deixei a varanda e fui direto para o meu quarto, mas a mente continuava agitada.
Enzo falava como se soubesse de algo que eu não sabia.
E Christian… bem, eu não conseguia parar de pensar no olhar dele antes de sair.
Naquela noite, demorei para dormir.
Virei de um lado para o outro na cama, tentando ignorar as palavras de Enzo ecoando na minha mente.
"O jeito que ele te olha."
Christian sempre esteve na minha vida. Sempre foi o amigo rabugento, que implicava comigo tanto quanto eu implicava com ele. Mas agora, de repente, alguém de fora via algo que eu nunca tinha notado?
Bufei, irritada comigo mesma. Isso era bobagem.
No dia seguinte, desci para o café da manhã e encontrei Christian na cozinha, encostado no balcão, tomando café como se nada tivesse acontecido.
— Bom dia — falei, pegando uma xícara para mim.
Ele apenas murmurou algo inaudível, sem me encarar.
Revirei os olhos.
— Ah, então além de antissocial, agora você também é m*l-educado de manhã?
Christian soltou um suspiro pesado e finalmente me olhou.
— Não estou de mau humor.
— Ah, não? Porque parece.
Ele apertou a mandíbula e tomou mais um gole do café, como se precisasse de paciência para lidar comigo.
— Foi m*l pelo jantar de ontem — disse, depois de um momento.
Isso me pegou de surpresa.
— Pelo quê, exatamente?
— Pelo clima estranho.
Cruzei os braços.
— Você sempre foi direto, Escobar. Vamos lá, diz logo: você não gostou do Enzo.
Christian me encarou, o olhar indecifrável.
— Não é questão de gostar ou não.
— Então o que é?
Ele hesitou. Isso por si só já era estranho.
— Só não confio nele — disse, finalmente.
Eu ri, balançando a cabeça.
— Você não confia em ninguém.
Ele não respondeu, apenas terminou o café e deixou a xícara na pia.
— Te vejo mais tarde.
E saiu, me deixando ali, com uma xícara cheia e a mente ainda mais confusa do que na noite anterior.