Passei o resto da manhã tentando ignorar o peso da conversa com Christian, mas era impossível.
Ele estava escondendo alguma coisa.
O problema é que, quando Christian decidia ser fechado, era praticamente impossível arrancar qualquer coisa dele.
Suspirei e resolvi focar no resto do dia.
À tarde, fui para o estúdio de dança. A música preenchia o espaço, e cada movimento parecia me ajudar a organizar os pensamentos. Pelo menos, era o que eu queria acreditar.
Até que, no meio de uma pirueta, meus olhos encontraram alguém na porta de vidro.
Enzo.
Ele estava ali, recostado na moldura da porta, observando com aquele sorriso fácil.
Finalizei o giro e parei, colocando as mãos na cintura.
— Espiando agora?
Ele entrou, devagar, batendo palmas uma vez.
— Eu disse que devia ser incrível te ver no palco, mas isso aqui já é impressionante o suficiente.
Revirei os olhos, mas senti um pequeno sorriso se formar.
— Como sabia que eu estava aqui?
— Seu pai mencionou que você passava as tardes treinando.
Assenti, pegando minha garrafa d’água.
— E resolveu aparecer por quê?
Ele deu de ombros.
— Quero conhecer melhor a cidade. E as pessoas.
O jeito que ele disse aquilo me fez estreitar os olhos.
— As pessoas… ou eu?
Ele sorriu, sem negar.
— Você me intriga, Anastácia.
Eu ri, bebendo um gole d’água.
— Já vi esse truque antes.
— Qual truque?
— O cara novo na cidade, misterioso, charmoso, que gosta de provocar e fazer insinuações.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— E funcionou alguma vez?
Cruzei os braços.
— Digamos que eu sou difícil de impressionar.
Ele sorriu de lado.
— Ótimo. Gosto de desafios.
Antes que eu pudesse responder, a porta do estúdio se abriu de novo.
Meu corpo ficou tenso antes mesmo de olhar.
Christian.
Ele parou na entrada, o olhar alternando entre mim e Enzo.
— Interrompo alguma coisa?
Enzo virou-se para ele com um sorriso tranquilo.
— Não, só assistindo à apresentação da Anastácia.
Christian cruzou os braços.
— Interessante. Você parece ter bastante tempo livre.
A tensão no ar foi instantânea.
Suspirei.
— Vocês dois precisam mesmo transformar cada encontro numa competição?
Christian olhou para mim.
— Você pode gostar desse joguinho, mas eu não tenho paciência.
Aquilo me irritou.
— Joguinho?
Ele balançou a cabeça, como se não quisesse continuar a conversa.
— Te vejo depois.
E, assim como mais cedo, ele virou e saiu.
Fiquei ali, sentindo um misto de frustração e confusão.
Enzo apenas observou a cena com um sorriso leve.
— Começo a achar que gosto de provocar seu amigo.
Lhe lancei um olhar seco.
— Isso não é um jogo, Enzo.
Ele se aproximou um pouco mais, os olhos brilhando em desafio.
— Não? Então o que é?
Eu não tinha resposta.
E esse era o problema.
Depois que Christian saiu, o silêncio se instalou no estúdio. Enzo ainda estava ali, me observando com aquele olhar analítico, como se estivesse tentando decifrar algo.
Eu, por outro lado, estava tentando entender por que diabos Christian estava agindo daquele jeito.
Respirei fundo e peguei minha toalha, tentando ignorar o incômodo que crescia dentro de mim.
— Então… isso acontece sempre? — Enzo perguntou, casualmente, como se estivéssemos falando sobre o clima.
— Isso o quê?
— Ele ficar assim quando estou por perto.
Revirei os olhos.
— Você está se achando demais.
Ele riu.
— Talvez. Ou talvez eu só esteja apontando o óbvio.
Suspirei e comecei a guardar minhas coisas.
— Christian é superprotetor, só isso.
— Superprotetor? — Enzo repetiu, pensativo. — Parece mais do que isso.
O jeito que ele disse aquilo fez meu estômago revirar.
Ignorei. Peguei minha bolsa e joguei a toalha dentro.
— Eu preciso ir.
Ele assentiu, mas antes que eu saísse, falou:
— Não precisa fugir de mim, bailarina.
Parei na porta e olhei para ele.
— Eu não estou fugindo.
Ele sorriu de lado.
— Claro que não.
Revirei os olhos e saí antes que pudesse me irritar ainda mais.
***
O caminho para casa foi mais longo do que o normal, ou talvez fosse só minha mente ocupada demais para perceber o tempo passando.
Assim que entrei, vi Christian no sofá da sala, mexendo no celular.
Ele ergueu os olhos quando me viu.
— Já terminou o show particular?
Cruzei os braços, sem paciência.
— Qual o seu problema?
Ele jogou o celular no sofá e se levantou.
— Meu problema? Meu problema é esse cara que apareceu do nada e já acha que tem lugar aqui.
Bufei.
— Ele só está tentando conhecer as pessoas.
— Ele está tentando te conhecer.
Hesitei por um segundo.
— E daí?
Christian riu, sem humor.
— Você realmente não vê?
— Ver o quê, Christian? Porque até agora, tudo que eu vejo é você agindo como um i****a sem motivo.
Ele passou a mão pelo cabelo, frustrado.
— Esquece.
— Não, agora você vai falar.
Ele me olhou por um instante, e por um momento, achei que fosse dizer algo importante. Algo que explicaria tudo.
Mas ele apenas soltou um suspiro pesado e desviou o olhar.
— Só toma cuidado.
E saiu da sala, me deixando ali, sozinha com minhas perguntas sem resposta.
A xícara de café estava quase fria entre minhas mãos, mas eu não tinha vontade de beber.
O silêncio da casa, que normalmente era confortável, agora parecia pesado.
Eu odiava me sentir assim. Odiava que Christian tivesse esse efeito sobre mim.
Desde ontem, ele estava diferente. Frio. Distante. Como se estivesse tentando criar uma barreira entre nós.
E eu não sabia lidar com isso.
— Filha?
A voz do meu pai me tirou dos pensamentos. Ele e minha mãe estavam na porta da cozinha, me observando com expressões preocupadas.
— Você está tão quieta — minha mãe completou, aproximando-se e sentando ao meu lado.
Suspirei, mexendo no café sem olhar para eles.
— É o Christian — murmurei, finalmente.
Eles se entreolharam, como se já soubessem.
— O que aconteceu? — meu pai perguntou, puxando uma cadeira.
Mordi o lábio, sentindo a garganta apertar.
— Ele está estranho. Diferente comigo.
Minha mãe tocou minha mão, um gesto silencioso de conforto.
— Vocês brigaram?
Neguei com a cabeça.
— Não exatamente. Mas ele está me evitando. Ele nunca fez isso antes.
O silêncio que veio depois quase me fez perder o controle.
Não queria chorar. Não por isso.
Minha mãe percebeu.
E, como sempre, soube exatamente o que fazer.
— Sabe o que acho que precisamos conversar agora?
Levantei os olhos para ela, confusa.
— O quê?
Um sorriso surgiu em seus lábios.
— Os preparativos do seu aniversário de 15 anos!
Pisquei, surpresa com a mudança repentina de assunto.
Meu pai sorriu, pegando o gancho.
— É verdade! Já está na hora de resolvermos a lista de convidados, a decoração…
Minha mãe assentiu, animada.
— E o vestido! Você já pensou em como quer o seu?
Engoli em seco, sentindo o aperto no peito se aliviar, mesmo que só um pouco.
Eles estavam tentando me distrair.
E, para minha própria surpresa, estava funcionando.
Soltei um suspiro e forcei um pequeno sorriso.
— Ainda não sei. Mas acho que quero algo clássico.
Minha mãe bateu palmas, empolgada.
— Então já temos um ótimo ponto de partida!
Ela começou a falar sobre fornecedores, cores e ideias, e meu pai acrescentava comentários engraçados sobre como não queria um evento que o deixasse falido.