Acordei decidida.
Se Christian não queria falar sobre o que estava acontecendo, tudo bem. Mas eu não ia deixar esse clima horrível continuar entre nós.
Ele era meu melhor amigo desde sempre, e essa distância repentina estava me machucando mais do que eu queria admitir.
Então, eu ia resolver isso do meu jeito.
Levantei da cama com um plano em mente. Tomei um banho rápido, vesti uma roupa confortável e fui direto para o centro da cidade.
Primeira parada: uma floricultura.
Passei os olhos pelos buquês coloridos até encontrar um que achei que combinava com a situação. Nada exagerado, nada que o fizesse revirar os olhos e me chamar de dramática. Apenas algo simples, mas sincero. Um pequeno arranjo de girassóis, porque eles sempre me lembraram dele: fortes, vibrantes e impossíveis de ignorar.
Segunda parada: chocolates.
Conhecendo Christian, eu sabia que, se quisesse acalmar sua rabugice, a melhor forma era com comida. Comprei uma caixa de bombons recheados com caramelo — os favoritos dele — e saí da loja com um pequeno sorriso no rosto.
Agora, só restava a parte mais difícil: entregá-los.
Christian saía da escola às 12h30, e como eu não tinha aula naquele dia, ia aproveitar para esperar por ele na saída.
Mas, claro, nada na minha vida poderia ser tão simples.
Quando voltei para casa para deixar as coisas organizadas antes de sair, me deparei com alguém encostado no portão.
Enzo.
Revirei os olhos antes mesmo de falar.
— Você não tem outro lugar para ir?
Ele sorriu, divertido.
— Bom dia para você também, bailarina.
— Enzo, estou com pressa.
Ele arqueou uma sobrancelha e olhou para o buquê e a sacola de chocolates na minha mão.
— Presentes?
— Sim.
— Para mim?
Ri sem humor.
— Nem em um milhão de anos.
Ele colocou a mão no peito, fingindo estar ofendido.
— Isso machuca.
— Tenho certeza de que você sobrevive.
Tentei passar por ele, mas ele bloqueou meu caminho com um passo.
— E se eu disser que posso te acompanhar?
Suspirei.
— E se eu disser que prefiro ir sozinha?
Ele sorriu de lado, parecendo ainda mais intrigado.
— Isso tem a ver com o Christian, não tem?
Não confirmei nem neguei. Apenas olhei para ele, esperando que saísse do meu caminho.
Enzo me estudou por um momento, e então deu um passo para trás.
— Tudo bem, bailarina. Não vou insistir. Mas fica o aviso: não gaste suas melhores intenções com quem talvez não mereça.
Franzi a testa, mas não dei espaço para mais provocações. Apenas passei por ele e segui meu caminho.
Porque naquele momento, minha única preocupação era Christian.
Fiquei em frente à escola alguns minutos antes do sinal tocar. O fluxo de alunos saindo pelo portão aumentava aos poucos, e eu mantinha os olhos atentos até encontrar o rosto que procurava.
E então, lá estava ele.
Christian saiu da escola com a mochila pendurada em um ombro, o olhar fixo no chão, como se estivesse perdido nos próprios pensamentos.
Apertei as flores e o chocolate nas mãos e respirei fundo antes de me aproximar.
— Ei, Escobar!
Ele levantou o olhar, claramente surpreso por me ver ali.
— O que você tá fazendo aqui?
Sorri e levantei as mãos, mostrando os presentes.
— Trouxe uma oferta de paz.
Ele arqueou a sobrancelha, desconfiado.
— Oferta de paz?
— Sim. Porque eu estou cansada desse clima estranho entre a gente.
Ele olhou para os girassóis e depois para a caixa de chocolates.
— Você sabe que eu não sou muito de flores, né?
Revirei os olhos.
— Eu sei. Mas achei que combinavam com você. Agora pega logo antes que eu me arrependa.
Ele hesitou por um segundo, mas acabou pegando o buquê e a caixa, ainda parecendo desconfiado.
— O que você quer em troca?
Cruzei os braços.
— Que você pare de agir como se eu tivesse feito algo errado.
Ele suspirou e passou a mão pelo cabelo.
— Você não fez nada.
— Então por que tá me tratando desse jeito?
Ele ficou em silêncio por um momento, desviando o olhar.
— Não é nada.
Bufei.
— Christian…
Ele apertou a ponte do nariz, como se estivesse tentando encontrar as palavras certas.
— Eu só… não gosto desse cara.
Ele não precisou dizer o nome. Eu sabia exatamente de quem ele estava falando.
— Enzo?
Ele assentiu.
— Tem algo nele que não me desce.
Suspirei.
— Você já pensou que talvez só não goste dele porque ele é diferente de você?
Christian riu, sem humor.
— Não é isso. Eu só acho que ele tem segundas intenções.
— E se tiver? Qual o problema?
Ele apertou a mandíbula.
— O problema é que eu te conheço, Anastácia. Você confia fácil nas pessoas.
Cruzei os braços.
— Ah, entendi. Você acha que eu sou ingênua.
— Não foi isso que eu disse.
— Mas foi o que deu a entender.
Ele suspirou, parecendo cansado.
— Só… toma cuidado, tá?
Fiquei em silêncio por um momento, tentando entender aonde ele queria chegar.
Mas, em vez de continuar a discussão, resolvi mudar de assunto.
— Quer tomar um sorvete comigo?
Ele piscou, surpreso com a mudança repentina de rumo.
— O quê?
— Sorvete. Você sabe, aquele negócio gelado e doce que todo mundo gosta?
Ele riu baixo.
— Eu sei o que é sorvete, Anastácia. Só não esperava o convite.
— Bom, é isso ou você fica sozinho com suas paranoias. Sua escolha.
Ele me olhou por um instante, como se ponderasse.
Então, balançou a cabeça com um pequeno sorriso.
— Tá, vamos lá.
Sorri, satisfeita, e puxei ele pelo braço.
Fomos para uma sorveteria que ficava a poucas quadras dali. O clima parecia mais leve, como se aquela pequena troca de provocações tivesse quebrado um pouco a tensão.
Sentamos em uma mesa perto da janela, cada um com seu sorvete. Eu tinha pegado um de morango, enquanto ele escolheu o de chocolate com pedaços de cookies.
— Então… — comecei, depois de um tempo. — Você ainda acha que o Enzo é um vilão?
Christian revirou os olhos.
— Eu só acho que ele tem um jeito ensaiado demais.
— Talvez ele só seja carismático.
Ele deu de ombros.
— Talvez.
Suspirei, balançando a cabeça.
— Você vai continuar implicando com ele, né?
— Provavelmente.
Ri, pegando mais uma colherada do meu sorvete.
— Você é impossível.
— Eu sou realista.
Olhei para ele por um momento, estudando seu rosto.
— Mas vai parar de agir estranho comigo?
Ele desviou o olhar por um segundo, como se pensasse na resposta.
Então, soltou um pequeno suspiro.
— Vou tentar.
E, naquele momento, foi o suficiente para mim.
Talvez ainda houvesse coisas que ele não queria dizer, talvez houvesse algo mais por trás desse incômodo dele com o Enzo.
Mas, por enquanto, eu só queria ter meu melhor amigo de volta.