Capítulo 2

1927 Palavras
A primeira semana sem Scorpius transcorreu sem muitas novidades. Minha mãe me escreveu da França, seu novo lar há sete anos. Papai estava bem. Andava frequentando muitos museus e cafés parisienses. Mamãe passava suas tardes tomando chá com as amigas francesas, algumas delas trouxas, o que me surpreendeu. Mandavam beijos para Scorpius, e esperavam vê-lo no Natal. Scorpius também me mandou uma carta. Prometemos nos escrever ao menos uma vez por semana. Ele parecia feliz, o que me deixou bastante aliviado. Agradecia pelos doces e biscoitos, mandados por Astoria, e pelo livro de poções, mandado por mim. Scorpius adorava poções. Eu esperava que ele fosse tão bom quanto Severo havia sido. Coloquei as cartas de volta na bandeja de prata e tomei mais um gole de chá com leite. Não tinha fome, o que era absolutamente normal. Eu raramente tinha fome. De vez em quando Astoria me obrigava a comer. Dizia que eu estava magro demais, e fraco demais. Meus cabelos antes tão sedosos e brilhantes agora estavam opacos e sem vida. Eu estava cada vez mais pálido também. Odiava me olhar no espelho e ver aquele ser tão frágil na minha frente. Mas era preciso ser forte. Por Scorpius. Tomei meu remédio, esperando me sentir melhor. Recusava-me a tomar algo mais forte conforme receitado pelo curandeiro de minha família. Eu estava doente, precisava de ajuda, mas queria pelo menos ter a chance de encontrar forças dentro de mim mesmo para combater aquilo. Se o remédio fosse mais forte, qual seria o meu mérito em melhorar? Abri o Profeta Diário e logo vi a foto de Harry ao virar a página. Suspirei. Ele havia recebido outro prêmio. Quantos já haviam sido naquele ano? Uns dez, pelo menos. Será que eles não se cansavam de exaltar as qualidades dele? Pergunta i****a. Se nem eu havia conseguido resistir, imagine o resto do mundo. Astoria veio sentar-se ao meu lado, feliz por suas begônias estarem crescendo saudáveis. Ela adorava passar o tempo cuidando do jardim. Era o seu passatempo preferido, mesmo que ele fizesse minha mãe torcer o nariz. Na visão de mamãe, Astoria não era adequada para mim, mais precisamente, ela não era uma típica dondoca bruxa. Pelo contrário. Embora não trabalhasse fora – aquilo seria o cúmulo tanto para a sua família quanto para a minha – mantinha-se sempre ativa. Acima de tudo, tinha amor pela natureza e fizera uma bela estufa de plantas nos fundos da casa onde passava grande parte do tempo. Achava divertido mergulhar as mãos na terra. Era o horror de minha mãe, e eu a adorava por isso. Nós nos amávamos, mas a nosso modo. Eu sabia que ela gostaria que fôssemos um casal apaixonado, mas lhe bastava que nos importássemos um com o outro. Astoria parecia uma típica burguesa bruxa a princípio, com seus cabelos dourados e rosto de boneca. Vinha de uma família tradicional e rica, o que influenciara nosso casamento para começo de conversa. Mas quem a conhecesse melhor perceberia que ela era doce e carinhosa. Cuidava muito bem de mim, e era uma boa mãe. Éramos bons amigos. Entre nós o silêncio era bem-vindo. Para alguém de fora, era estranho. Todos tinham a impressão de sermos um casal frio, mas não era verdade. – Draco, querido, comeu alguma coisa? - perguntou ela, tirando os olhos da revista de jardinagem bruxa que tinha nas mãos. Sorri. – Uma torrada. - menti. Ela sorriu satisfeita. – Ótimo. Melhor do que nada. Não tive coragem de dizer a verdade e desapontá-la. Continuei a ler o jornal. Franzi o cenho ao ler sobre uma gangue de bruxos adolescentes que andava aterrorizando trouxas em Londres. Um pub havia sido vandalizado, e alguns trouxas tiveram que ter as memórias apagadas. Nada mais grave havia acontecido, mas o Ministério estava preocupado. O grupo, que se autodenominava Gangue da Morte, reivindicava a soberania de bruxos de sangue puro e abominava trouxas. Senti um arrepio na espinha. Deixei o jornal de lado quando cheguei à página de esportes. A primeira coluna era de Gina Weasley. Ela era boa, eu tinha que admitir. Mas eu não a suportava. Ela era tão perfeita que me deixava enjoado. Fechei os olhos, tentando não pensar em Harry, mas foi em vão. Deixei que meus sentimentos tomassem conta de mim. Veja bem, vinte anos atrás, eu não fazia ideia de que todo aquele ódio fosse, na verdade, amor. Era doentio. Eu havia odiado Harry mais do que tudo. E então, quando minha saúde começou a deteriorar e eu tive que procurar ajuda profissional, o desgraçado me fez perceber, finalmente e como um tapa na cara, que eu amava Harry Potter. Havia sido um choque terrível. Eu havia piorado muito. Mas depois de me acostumar com o fato, de admitir para mim mesmo que era a pura verdade, e depois de ter o apoio de Astoria, acabei por me sentir melhor. Ao menos eu não era mais tão obcecado. Havia dias e dias. Como aquele dia na Plataforma 9 ¾. Aquele fora um dia muito r**m. Além de lidar com a partida de Scorpius, tive que lidar com a presença de Harry. Cheguei à Mansão com os nervos aos frangalhos. Astoria quase mandou chamar o nosso curandeiro. Mas eu havia melhorado aos poucos e com muita força de vontade. Estava orgulhoso de mim mesmo. Pela milésima vez, disse a mim mesmo que Harry Potter era uma ilusão, que ele nunca, nem em um milhão de anos, seria meu. Se ele soubesse como eu me sentia, mesmo após todos aqueles anos, riria da minha cara. Ou me mandaria para o inferno. Era difícil prever. O Harry Potter de agora havia mudado tanto. Era muito mais homem, muito mais maduro. Nas poucas vezes que havíamos nos encontrado, me tratara com polidez e frieza, mas não com agressividade. Nossos breves encontros sempre me deixavam com um tremendo m*l estar, porque eu odiava aquele Harry polido. Daria tudo para ter o Harry Potter estourado e desconfiado de antes de volta. Aquele que me olhava com brasas nos olhos verdes. Que vivia querendo saber o que eu estava aprontando. Ao menos naquele tempo ele sabia que eu existia. Agora parecia não mais se importar com minha presença no mundo. E quem poderia culpá-lo? Eu havia sido insuportável. Mimado. Egoísta. Um tremendo pirralho. Será que eu havia mudado tanto assim? Fiz uma careta. Decididamente não. – Está se sentindo bem? - Astoria perguntou. Havia me esquecido da presença dela. Abri os olhos e assenti. – Estou. Foi só uma dor passageira. – Talvez fosse melhor você entrar. Está ventando muito hoje. - disse ela preocupada. Estávamos no gazebo da Mansão, meu lugar preferido. Não queria sair dali tão cedo. O lugar me trazia paz. Era cercado por plantas e árvores centenárias, e meus quatro pastores alemães corriam de um lado para o outro à procura de gnomos pela forma como latiam para os locais onde a grama era mais alta. Athos, Porthos, Aramis e D'artagnan. Os quatro mosqueteiros. Eu os adorava. Assoviei para chamar-lhes a atenção, e os quatro me seguiram para a Mansão. Resolvi ler um livro, achando que me distrairia. Doce ilusão. Fiquei imaginando o que Harry estaria fazendo naquele momento. Provavelmente vivendo uma idílica cena doméstica. Tive vontade de vomitar. Tomei um banho, sentindo-me fraco. Resolvi me esforçar um pouco mais para comer no jantar. Precisava de energia. À mesa do jantar, Astoria me contou sobre as últimas novidades da nossa elite bruxa. Ela costumava comparecer às reuniões do Clube dos Bruxos, não sem reclamar um pouco antes. Achava aqueles encontros verdadeiras perdas de tempo, mas sabia que Astoria se divertia escutando as bobagens de bruxos que ainda se consideravam acima dos outros porque eram puros sangues. Eu já não tinha mais tais ilusões, mas talvez fosse porque os Malfoys haviam despencado no ranking bruxo nos últimos vinte anos. – Chamaram Harry Potter para discursar na semana que vem. - Astoria disse casualmente. Quase engasguei com o vinho que tomava. Não fazia sentido que chamassem Potter. O Clube dos Bruxos o tolerava por ser quem era, mas eu sabia muito bem o que eles realmente pensavam do herói do mundo bruxo. Harry não era de sangue puro. Sua mãe havia sido metade trouxa, e aquilo ainda era intolerável para a verdadeira elite bruxa. Mas o que é que eu sabia? As coisas vinham mudando tanto e tão depressa. – Por que não vem comigo no sábado? - Astoria perguntou. Parecia inocente, mas eu sabia pelo brilho em seu olhar que ela estava maquinando alguma coisa. – Sobre o que exatamente ele vai discursar? – Sobre aquela fundação que ajuda os garotos órfãos da guerra. Parece-me que há uma gangue de meninos de rua bruxos em Londres, filhos e netos de ex-Comensais da Morte, e eles serão inseridos no projeto. Matilda Junian se interessou pelo assunto. Franzi o cenho. A velha Matilda era a última pessoa do mundo que abriria as portas de seu precioso clube de esnobes bruxos para alguém que desprezava. Matilda era uma mulher baixinha e atarracada, mas com toda a pompa de uma bruxa que fora casada com um dos homens mais ricos e influentes do Ministério na primeira guerra contra o Lorde das Trevas, guerra essa que o próprio ajudou a financiar. Seu marido há muito estava morto, vítima de uma estranha intoxicação alimentar. Desde então, Matilda tomara conta de tudo. Ninguém que fosse alguém no mundo bruxo tomava alguma decisão sem pedir o seu conselho primeiro. E como aquela velha bruxa adorava se meter na vida alheia. Ela bem que tentara domar Harry Potter e o resto dos Weasleys. Confesso que foi divertido vê-la tentar e dar a cara na porta. Já que Harry Potter simplesmente se recusava a vê-la como deusa, Matilda o desprezava. Não era de se estranhar, portanto, que eu estivesse achando a visita de Harry ao Clube dos Bruxos uma anomalia. A intenção de Harry, porém, era nobre, e senti que valeria a pena participar da reunião ao menos daquela vez só para vê-lo. Já ouvira Harry discursar antes. Cada palavra que dizia era infundida com uma paixão intensa. Ele adorava tudo que fazia, e eu o adorava por isso. – Certo. Irei com você no sábado. Ao menos será divertido ver aquele bando de bajuladores de Matilda se esforçando para agradá-la ao mesmo tempo em que tentam esconder o desprazer de ter Harry por perto. Astoria deu uma risadinha discreta. – Sem dúvida. Draco, querido... - disse ela, fazendo uma pausa suspeita. – Estivesse pensando. Por que você não... – Vai dormir mais cedo? - eu a cortei antes que ela pudesse dizer alguma coisa que me aborrecesse. – Ótima ideia, querida. Eu realmente estou cansado. Ela encostou-se na cadeira com um suspiro pesado, depois sorriu para mim tristemente. – Claro. - foi só o que disse. Levantei-me, beijei-lhe a testa, e fui para meus aposentos. Sabia o que ela queria, mas nunca o faria. Nem em um bilhão de anos eu iria me confessar a Harry Potter. Astoria tinha a ideia romântica de que tudo se resolveria quando eu finalmente me declarasse. As mulheres realmente podiam ser muito inocentes. Fechei a porta e encostei-me nela por alguns segundos. Cerrei os punhos. Eu precisava me livrar daquele sentimento que me prendia a Potter, e rápido, ou acabaria por morrer de amor não correspondido, e quão patético era isso? Deitei-me na cama, não sem antes tomar uma poção contra insônia. Queria apenas dormir naquela noite, sem sonhos que me perturbassem. Graças a Merlin, foi o que fiz.
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