O auditório da Mansão Junian estava lotado. À frente, Matilda pediu silêncio. Começou a velha ladainha de sempre. Ao começar a apresentação de Harry Potter, senti em suas palavras um toque de veneno, e me perguntei se Harry perceberia também. O que ele estaria pensando ao entrar naquele antro de cobras?
Sob aplausos mais curiosos que entusiasmados, Harry Potter entrou no palco usando um robe feito sob medida. Por baixo usava um pulôver verde, que combinava perfeitamente com seus olhos. A gravata era da Grifinória, destoando totalmente do resto da roupa, e sorri por dentro ao imaginar se ele o fizera de propósito. Afinal de contas, o Clube dos Bruxos era o antro de ex-alunos da Sonserina.
Confesso que não prestei muita atenção ao discurso, mas meus olhos não perderam um minuto da visão a minha frente. Queria me refestelar nele, nos olhos verdes que brilhavam mais e mais a cada palavra proferida, nos cabelos rebeldes que ele tentara domar sem sucesso, na boca que se mexia sensualmente, no som que saía dela e me envolvia como uma poção do amor.
Nossos olhos se encontraram uma dúzia de vezes. A cada uma delas, sentia meu coração bater apressado e meu rosto esquentar. A cada olhar, sentia-me vivo. Gostaria de poder usar Legilimência nele e lhe despir os pensamentos. Sabia que Harry nunca havia sido bom em Oclumência, portanto eu não teria problema algum em saber o que passava pela mente dele. Claro, isso não o impediria de me amaldiçoar até o próximo século.
Sorri e nossos olhos se encontraram novamente. Harry pareceu curioso, talvez imaginando o que eu estava achando de tão engraçado diante de um assunto tão sério. Gostei da ideia de que talvez ainda conseguisse deixá-lo furioso. Ao menos conseguiria alguma reação dele, e não aquela indiferença que ele agora parecia nutrir contra a minha pessoa.
O discurso durou cerca de meia-hora, e Harry se despediu sob aplausos contidos. Ele não pareceu muito satisfeito com a falta de entusiasmo geral. Achei bonitinho que ele ainda fosse inocente a ponto de imaginar que conseguiria amolecer o coração daquele bando de bruxos interesseiros. Matilda, porém, havia achado tudo maravilhoso, e prometeu a Harry uma quantia substancial para o Fundo de Ajuda às Crianças Carentes, criado por ele logo depois da guerra.
Não conseguia entender porque Harry precisava da ajuda de bruxos que, em circunstâncias normais, não teriam nem olhado na sua cara. E essa foi exatamente a pergunta de um repórter do Pasquim, agora comandado por Luna Lovegood, eterna devota de Harry.
Aproximei-me um pouco para escutar a resposta de Harry, e me diverti com os olhares de estupefação de alguns dos bruxos que estavam por perto ante àquela pergunta impertinente.
– Queremos a união de todos os segmentos do mundo bruxo nesse assunto. - começou Harry. – Principalmente nesse momento em que cresce a delinquência juvenil. Acredito que temos nossa cota de culpa nisso. Esses meninos não teriam entrado no mundo do crime se estivéssemos prestando atenção às suas necessidades.
Estava tão perto agora que podia sentir o perfume amadeirado dele.
– O fato de esses meninos serem filhos e netos de ex-Comensais apenas agrava o assunto. - Harry continuou. – Eu espero que todos possam abraçar a causa.
– Pois eu acho uma atitude um tanto hipócrita. - disse Ulian Karl, um bruxo de meia-idade que não se juntara ao Lorde das Trevas no passado, mas também não tomara partido da Ordem. O Sr. Karl era o verdadeiro exemplo de alguém que estava sempre em cima do muro. Era mais do que bizarro vê-lo falar com Harry daquele jeito grosseiro.
– Hipócrita? - Harry tinha um quê de raiva na voz, mas aparentemente ele se mostrava sereno.
Aproximei-me ainda mais. O perfume agora tomava todo meu ser.
– Sim, hipócrita. Esse seu fundo foi criado há quase vinte anos, e só agora vocês resolveram tomar conta dessas crianças em particular.
– Sr. Karl, como eu disse antes, - Harry começou educado, porém frio. – sei que falhamos nesse quesito. O senhor se esquece, porém, de que há vinte anos a maioria nem tinha nascido. E eu realmente não esperava que certo segmento do mundo bruxo fosse dar as costas às famílias dessas crianças.
Foi um ataque frontal. Pensei que Harry fosse ser posto para fora a pontapés, mas é claro que ninguém teria coragem de tratar o herói do mundo bruxo de forma tão grosseira. Eles esperariam até que Harry fosse embora para falar m*l dele e bani-lo dos círculos mais influentes. Como se Harry fosse se importar.
– Mas é óbvio que eles não seriam bem-vindos aqui! - exclamou o Sr. Karl. Ele realmente estava sendo corajoso.
– O que apenas corrobora a teoria de que alguns dos senhores também estão sendo hipócritas, não é mesmo? – rebateu Harry, referindo-se aos vários bruxos que ali estavam e que haviam apoiado o Lorde das Trevas por debaixo dos panos.
Eu estava me divertindo à beça. O Sr. Karl fuzilou Harry com o olhar, e o moreno apenas sorriu inocentemente. Matilda provavelmente deveria estar se perguntando no que exatamente se metera ao deixar que Harry entrasse em seu exclusivíssimo clube. Olhei para ela, mas a velha bruxa não parecia preocupada. Franzi o cenho me perguntando o quê exatamente estaria lhe passando pela cabeça.
Nesse momento eu resolvi ser i*****l. Meus níveis de magia haviam caído muito desde que ficara doente. Eu conseguia realizar truques mágicos simples sem muito esforço, mas qualquer outro truque mais complexo sugava todas as minhas energias. Mesmo assim, resolvi usar de Legilimência em Matilda.
Fui até ela e usei de meu charme nato para lhe chamar a atenção. Meus olhos encontraram os dela, e por um breve instante pude vislumbrar em sua mente nebulosa uma reunião secreta com bruxos encapuzados e de máscaras. As mesmas máscaras usadas pelos Comensais. Imediatamente, pisquei para cortar nosso contato. Felizmente, Matilda pareceu não perceber. Eu realmente havia me tornado muito bom naquele tipo de magia. Minha tia maligna Belatriz fora uma boa professora.
Senti meu corpo enfraquecer. Não querendo que ninguém percebesse, pedi licença e fui me refugiar numa sala vazia. Minha visão estava embaçada. Apoiei-me numa coluna de pedra, e estava prestes a deixar que a gravidade fizesse seu serviço e me levasse ao chão quando um par de braços fortes me pegou antes que eu caísse.
Se ao menos eu conseguisse ver com mais nitidez. Sabia que era Harry pelo perfume intoxicante, e pela forma como meu corpo reagiu ao seu toque. Estremeci, mas de prazer e não de dor como ele deve ter pensado, pois logo em seguida me colocou gentilmente no sofá mais próximo e agachou-se a minha frente. O que eu não daria para poder ver o seu semblante naquele momento. Ele parecia genuinamente preocupado.
– Malfoy, tudo bem? Você está mais pálido do que o normal. - disse ele colocando uma mão na minha testa.
Não era religioso, mas se existisse um Deus, esperava que ele congelasse aquele momento no tempo.
Infelizmente, meu cérebro se recusou a me ajudar a falar. Temia que os sons que sairiam da boca seriam ininteligíveis se eu tentasse, o que só me faria parecer mais patético.
– Vou chamar alguém. - falou Harry, levantando-se.
Não sei como, mas minhas mãos se fecharam no robe dele como garras e se recusaram a deixá-lo ir. Seria engraçado se não fosse tão trágico. Minha visão começou a voltar ao normal aos poucos. O mundo já não rodava tanto. Olhei para Harry, que parecia confuso e preocupado, mas também um tanto irritado.
– Malfoy?
– Eu... Já estou melhor. - falei roucamente.
Nós nos olhamos pelo que pareceram horas, mas que provavelmente foram apenas alguns segundos. Os olhos verdes brilhavam estranhamente. Ele finalmente olhou para as mãos que o seguravam, e eu, corando como um pimentão, o larguei.
Acho que nunca me senti tão embaraçado em toda a minha vida como naquele momento. Eu ficaria extremamente feliz se o chão se abrisse e eu pudesse ser tragado por ele.
– Já estou bem. - disse, levantando-me repentinamente e quase derrubando Harry no processo.
Quis sair correndo, mas eu não estava bem. Harry me pegou nos braços novamente quando eu bambeei.
– Honestamente, Malfoy, você está péssimo. É melhor se sentar.
– Não, eu estou ótimo! - evitei olhar para ele e tentei me desvencilhar sem sucesso.
– É óbvio que não está! Quer parar de ser teimoso?
Ele era mais forte do que eu, portanto não foi tão difícil me subjugar. Acabei sentando-me de novo com um suspiro irritado.
– Vou chamar sua mulher.
– Não é preciso. É sério, Potter. Eu só preciso descansar um pouco e logo estarei cem por cento.
Eu nunca estaria cem por cento, mas não diria isso a ele.
Ele cruzou os braços, parecendo tão irritado quanto eu.
– Não é o que parece.
– Mas as aparências enganam. - falei com um sorrisinho cínico. – Agradeço a preocupação excessiva, mas...
– Não estou preocupado. - ele me cortou. Senti o coração sangrar.
– Então por que não me deixa aqui? Por que veio ao meu socorro? - rebati.
– Foi puro reflexo. Minha missão é ajudar as pessoas, não importa quem elas sejam.
De minha garganta saiu um grunhido. Pensei tê-lo ouvido rir.
– Mas falando sério, Malfoy, tem certeza de que não quer que eu chame alguém?
– Tenho.
Ele suspirou. Ficamos em silêncio por um bom tempo. Achei que ele fosse me deixar, mas ao invés disso sentou-se ao meu lado. Seus olhos verde-esmeralda ficaram me analisando, eu podia sentir. Meu rosto esquentou. O que será que ele estava vendo? O pirralho de antigamente transformado em um homem delicado e doente? O seu antigo inimigo reduzido a nada? Cerrei os punhos. Tive raiva de mim por não ter a coragem de virar-me e encará-lo com intensidade.
– Por que veio aqui hoje? - perguntei. – Esse era o último lugar em que eu achava que você viria...
– Há lugares piores. - ele brincou. – Por exemplo, o Vale da Morte na Romênia, ou a Montanha dos Gigantes. Ou onde quer que os Dementadores estejam.
Ri um pouco mais descontraído, e finalmente olhei para ele. Harry estava relaxado. Tinha a expressão serena, porém, olhando mais de perto, reparei nas olheiras e no seu aspecto cansado.
– Você emagreceu. - ele notou.
Eu dei um sorriso torto.
– Anda prestando muita atenção em mim ou é impressão minha?
– É impossível não notar o quanto você mudou...
Acho que corei, mas preferi fingir que não.
– Mas você não está preocupado, se lembra?
Ele riu.
– Definitivamente não.
Fiz uma careta.
– A propósito, você engordou, Potter.
Harry arqueou a sobrancelha num gesto de ultraje.
– Eu estou em plena forma, Malfoy! Tenho que estar! Faz parte do trabalho.
Ah, sim, ele estava mesmo em plena forma. Mesmo com o corpo coberto por todo aquele pano preto, eu sabia que os músculos de Potter haviam se definido com o tempo. Já o vira com roupas trouxas. Sabia muito bem o que o robe escondia. Infelizmente, não podia deixar que ele soubesse.
– Falando sério, Potter, o que veio fazer aqui? - insisti.
– Por um acaso dormiu durante o meu discurso? - ele perguntou, divertido.
– Claro que não!
– Então sabe exatamente o que vim fazer aqui.
– Não precisa do apoio deles.
– Fala como se não fizesse parte do grupo.
– E não faço. - assegurei.
Ele me olhou como quem finge que acredita. Fiz uma careta.
– Astoria, minha mulher, gosta de comparecer a algumas reuniões. Eu já não vinha há algum tempo.
– E veio só por minha causa? - ele provocou.
Nossos olhares se encontraram e me perguntei se ele estava automaticamente me provocando, porque sempre havia sido assim entre nós, ou se havia um quê de flerte na pergunta. Claro que ele não estava flertando comigo. Aquilo era impossível de acontecer.
– Vim porque Astoria me pediu.
Nenhum comentário. E então:
– Acha que ninguém aqui dá a mínima, não é? - era um fato, não uma pergunta.
Mesmo assim resolvi responder:
– Não exatamente. Sei que Astoria se importa, e talvez mais uma meia dúzia. Mas não acredito que resolveram chamá-lo aqui porque realmente se interessaram pela causa.
– Eles não me chamaram exatamente. Hermione vem tentando discursar aqui há bastante tempo. Eles finalmente concordaram, mas apenas se eu viesse.
– Não deixaram a Granger entrar, não é?
O olhar de Harry pareceu escurecer.
– Ah, eles não teriam coragem de fazer isso. Não quando eu fui bem enfático em tê-la comigo. Mas no fim das contas, Hermione não pôde vir.
Ao imaginar a voz gélida de Harry ao lidar com o assunto, sorri. Lógico que eles não teriam coragem de barrar Granger, mesmo ela sendo filha de pais trouxas. Afinal de contas, ela era uma das melhores amigas de Harry Potter, e ninguém costumava lhe negar nada. Sem contar que era uma bruxa brilhante. Era de se estranhar, portanto, que só agora o Clube houvesse concordado em tê-los ali.
– Você não acha isso estranho? - perguntei.
– Isso o quê?
– Ser convidado a vir aqui agora. Por que agora?
– Por que não? Acho que alguns finalmente estão entendendo que não podemos nos fechar no nosso próprio mundinho e esperar que o que acontece ao redor não nos afete. Esses meninos são apenas crianças, mas estão fazendo um estrago enorme, e tudo porque simplesmente nos esquecemos deles.
A voz de Harry agora era amarga. Estava claro que ele se culpava pelo fato. Não sei por que. Afinal de contas, ele não podia ser responsável por todo mundo, muito menos pelas famílias de ex-Comensais da Morte. Ninguém queria saber deles. Minha família mesmo até hoje sofria preconceito com o que ocorrera na guerra, inclusive do nosso próprio meio.
– Não vá pensando que todos aqui são bonzinhos. - eu disse.
– Pode ter certeza de que eu não penso isso, Malfoy. Mas precisamos de toda a ajuda que pudermos ter. Não vim aqui só para pedir dinheiro. Vim porque não quero ver outro Voldemort ser criado.
À menção daquele nome, arrepiei. Harry era provavelmente um dos únicos que conseguiam dizer o nome do Lorde das Trevas com tanta naturalidade. Eu mesmo sequer conseguia pensar nele sem estremecer.
– Não vá me dizer que ainda tem medo do nome de Voldemort, Malfoy. - Harry disse com incredulidade.
– Claro que não! - menti, e infelizmente não fui nada convincente.
Ele riu, e duas covinhas apareceram em seu rosto. Senti vontade de apertá-lo.
– Falando sério, Potter, devia tomar cuidado com Matilda.
Harry me encarou com intensidade. Perguntei-me se ele finalmente aprendera Legilimência e agora tentava ler minha mente. Impossível. Eu conseguiria saber se alguém estivesse invadindo a minha mente. Também conseguiria manter a pessoa fora dela se quisesse, mesmo que me custasse todas as minhas forças. Harry não estava usando Legilimência naquele momento, mas podia apostar que gostaria de tentar.
– Sabe alguma coisa que eu não sei? - ele perguntou.
– Não sei o que você sabe.
Ele riu sem humor algum.
– Não banque o engraçadinho, Malfoy. Se sabe de algo...
– Mas eu não sei. É só que...
Ouvi um barulho do lado de fora da sala onde estávamos e me calei. A ideia de que alguém estivesse nos espionando me causou calafrios na espinha. Levantei-me em um salto, pronto para escapar. Harry levantou-se na mesma hora e me impediu de deixar a sala.
– Malfoy...
Meu coração disparou quando encontrei seu olhar intenso. Eu não deveria ter medo do passado, mas tinha. Não conseguia conter meu pavor diante de tudo o que acontecera, e que poderia acontecer de novo. Não queria que Scorpius tivesse que passar pelo que eu passei.
– Só tome cuidado, Potter. - disse, saindo antes que fizesse papel de t**o.
Harry não me seguiu, nem esperava que ele o fizesse. Com um suspiro, avistei Astoria, que assim que pousou os olhos em mim soube que precisávamos ir embora. Não aparatamos. Eu estava fraco demais. Ao invés disso, resolvemos ir por pó de flu.
Quando chegamos, subi para meus aposentos. Procurava me esconder do mundo, como sempre. Como se fosse mesmo possível.
Sentei-me na cama. Era difícil acreditar que há algum tempo eu estivera tão perto de Harry. Conversara com ele. Sentira seu perfume tão masculino. Vira-o sorrir. Fechei os olhos. Não queria mais pensar em nada. Nem em Harry ou na minha obsessão por ele, algo nada saudável. Também não queria pensar no que havia visto na mente de Matilda. Esperava que tudo aquilo não significasse nada.
No entanto, ao dormir, tive vários pesadelos com Comensais da Morte voltando e assassinando Harry.
Era preciso fazer alguma coisa. Certificar-me de que os Comensais eram realmente coisa do passado. Mas como? Meu pai? Duvidava que ele fosse me dizer alguma coisa. Lucius banira qualquer conversa desagradável sobre o passado.
Levantei-me, suado. Olhei para fora, onde a lua reinava soberana.
Só havia um lugar onde eu poderia obter informações. Travessa do Tranco.