A Travessa do Tranco não havia mudado tanto assim. Talvez seus comerciantes tenham ficado um pouco mais ariscos, mas, pensando bem, eles sempre haviam sido daquela forma. Bruxos de respeito quase nunca eram vistos por ali, principalmente hoje em dia.
Por pelo menos cinco anos após o fim da guerra, a Travessa fora patrulhada e vigiada por Aurores diariamente. Apenas os Comensais mais estúpidos e menos importantes haviam sido pegos por ali.
Gastou-se um bom tempo debatendo-se a ideia de que a Travessa deveria ser fechada para sempre. De fato, algumas lojas estavam vazias há quinze anos ou mais. Outras, porém, continuavam de pé. Alguns itens só eram encontrados na Travessa do Tranco, e isso era um fato inegável. Infelizmente, a comunidade bruxa precisava de um lugar como aquele.
No momento, a Travessa me era mais do que conveniente. Eu não queria estar ali, mas era necessário. Eu precisava de informações.
As ruas estreitas continuavam sujas. Quase não se via ninguém, e as poucas pessoas que se arriscavam a andar por ali estavam devidamente encapuzadas. Uma bruxa de aparência grotesca passou por mim. Seus olhos encontraram os meus por um instante e eu me retraí sem querer.
Odiava estar ali. Quando mais novo, sentia-me importante andando por aqueles becos m*l-iluminados ao encalço do meu pai. Artefatos amaldiçoados sempre haviam me fascinado. Eu podia passar horas na Borgin & Burkes explorando cada item maligno, sonhando em possuir alguns. Minha visão havia mudado muito depois da guerra. Não era hipócrita o suficiente para dizer que agora abominava tudo que fosse magia n***a. Magia n***a ainda me interessava. Porém, já não me fascinava como antigamente.
Há quantos anos não entrava na Borgin & Burkes? As estantes empoeiradas continham artefatos não tão assustadores, mas não menos perigosos. Quase todos traziam uma placa com os dizeres 'não toque'. Havia uma jarra de olhos humanos no balcão. Um deles piscou para mim. Nas paredes, máscaras contorcidas pareciam querer me afugentar dali.
O velho Burke, ainda vivo, apareceu pela porta dos fundos e estancou assim que me viu. Seu rosto empalideceu e achei que ele fosse me dar as costas e sair correndo. Porém, surpreendentemente, veio ao meu encontro mancando bastante, os ombros um tanto curvados, um dos olhos completamente tomados por catarata. Acho que a ganância foi mais forte do que o medo.
– Já não o vejo há anos. Por um momento pensei estar diante de seu pai. Em que posso ajudá-lo? - disse Burke com a voz macilenta.
Imaginei com quantos anos ele estava.
– Preciso de informações, e estou disposto a pagar muito bem por elas.
Seu único olho bom brilhou cobiçoso.
– Ficarei feliz em poder ajudar.
Tirei de minhas vestes um saquinho cheio de moedas de ouro e o pus em cima do balcão para causar impacto. As mãos cheias de veias de Burke se mexeram inquietas. Acho que o velho já não via dinheiro há algum tempo. Não era de se estranhar. Magia n***a não era nada popular.
– Matilda Junian. O que ela anda aprontando?
As mãos de Burke se fecharam como garras no saco antes que ele dissesse algo. Puxei o saco de volta com força. Senti meu corpo reagir negativamente ao lugar. Meu estômago se revirou. Todos os meus instintos me pediam para sumir dali naquele momento, procurar o sossego da minha casa. Precisei de toda a coragem que ainda me restava para ficar ali.
– Informações primeiro, Burke. - disse gélido.
Burke me olhou com ódio.
– Não sei de nada. Por que quer saber?
– Soube que estranhas reuniões andam acontecendo na casa dela. - referi-me ao que havia visto na mente dela, esperando estar certo. Eu não tivera tempo de mergulhar nos pensamentos da velha bruxa como queria. Se me demorasse muito, ela teria percebido que eu estava bisbilhotando sua mente.
– Reuniões? Não faço ideia do que está falando.
Remexi o saquinho na frente dele, e as moedas titilaram. Burke passou a língua pelo lábio seco.
– Suponho que eu saiba de alguma coisa... - começou ele.
– Serei bastante generoso.
– Estou surpreso que não saiba de nada, Sr. Malfoy. Pensei que o senhor fizesse parte do grupo...
– Que grupo?
– O Grupo dos Poderosos. Eles se reúnem uma vez por semana no porão do Clube dos Bruxos.
– Para fazer o quê?
– Não faço ideia. É só o que sei. – ele estendeu as mãos.
– Não me deu nada, Burke. – lembrei-o friamente. – Preciso de mais.
Ele bufou.
– E o que é que eu sei nos dias de hoje? Nada! O Esquadrão dos Aurores vem aqui uma vez por mês! Afugentou a maior parte dos meus clientes! E você, pergunte ao seu próprio meio o que anda acontecendo nele! Seu pai deve saber mais do que eu.
Eu esperava sinceramente que meu pai não estivesse envolvido com nada ilegal. Não de novo. Será que ele não aprendera a lição? Minha mãe havia aprendido. Mas pensando bem, mamãe sempre havia sido mais sensata do que Lucius.
– Quem faz parte desse grupo?
Mais grunhidos.
– Dolohov, Carrow, Avery, Rowle... Os de sempre.
Calafrios na espinha eram meus velhos amigos agora. Obviamente que ex-Comensais não conseguiriam se reunir. Todos estavam em Azkaban. Burke não estava se referindo aos antigos, mas aos novos. Filhos e netos de ex-Comensais. A Gangue de Bruxos que Harry Potter tanto queria ajudar? Será que Harry fora até o Clube por que já sabia de alguma coisa? Senti-me um i*****l. Era lógico que sim. Harry não fazia nada sem segundas intenções. E aposto que apenas me seguiu e fingiu me ajudar para ver se eu abriria a boca. Harry Potter era um filho da mãe. Ele estava sempre um passo a frente.
– Por que eles estão se reunindo? Por um acaso eles fazem parte da Gangue de Bruxos?
Os olhos de Burke se apertaram. Podia imaginar o que lhe passava pela mente. Pensei em usar Legilimência novamente, mas era arriscado demais. Burke não era cabeça de vento como Matilda. Ele já sofrera aquele tipo de magia. Devia, inclusive, estar se preparando para se defender de algo do tipo.
– Eu estou limpo, Sr Malfoy. Não me meto mais nessas coisas.
– Que coisas, Burke? – insisti.
– Coisas que não são do meu bico. E é só o que sei. Se precisar de algo mais, estarei às ordens. Mas não me misturo mais a outros tipos de coisa, se é que você me entende.
Cerrei os punhos. Nunca havia sido tão bom quanto meu pai em obter informações dos outros. Lucius sempre soubera exatamente que botões apertar para fazer os outros falarem. Ou que preço pagar. Eu, no entanto, não tinha o mesmo talento.
– Só mais uma informação, Burke, e esse saco aqui irá se transformar em dois.
Meu pai teria me matado se estivesse comigo.
– Eles estão ligados com a Gangue dos Bruxos, comandando o show por detrás das cortinas. Satisfeito? – ele respondeu a contragosto.
Não sabia se ele dizia a verdade ou se apenas queria se livrar de mim. Em todo caso, dei-lhe os dois sacos de moedas. As mãos enrugadas se fecharam com força nos sacos, como se ele esperasse que eu fosse mudar de ideia. Meu pai costumava fazer isso. Eu não. Deixei que ele ficasse com o dinheiro. Ofereci ainda mais caso ele se lembrasse de mais alguma coisa. Burke pareceu tentado, e eu imaginei se naquela mesma semana receberia mais alguma informação.
Saí da loja, desapontado. Que grande t**o eu era. Confesso que tive fantasias idiotas sobre todo aquele episódio. Nelas, Harry me agradecia profusamente por ajudá-lo. Quem sabe até me chamasse de amigo.
De minha boca contorceu-se um risinho amargo. Eu era mesmo muito arrogante se continuava a me achar melhor do que o grande Harry Potter.
Sentindo-me cansado, encostei-me na parede por um momento. O que aconteceu em seguida foi extremamente inesperado. Uma criança apareceu correndo e se agarrou em minhas vestes. Parecia ter cinco anos. Era um garoto pequeno, tinha cabelos castanhos e enormes olhos verdes. Seu rosto em formato de coração estava todo sujo, assim como suas vestes. Minha repulsa foi tão forte quanto meu instinto de pai. As mãozinhas sujas me davam nojo, mas os olhos verdes me impediram de jogá-lo longe. Olhos tão parecidos com os de Harry...
Outra criança apareceu correndo. Dessa vez era um adolescente. Devia ter uns catorze anos. Era quase da minha altura, e tinha olhos castanhos e cabelos loiros tingidos. Quando ele viu o garotinho grudado na barra do meu robe, pareceu aliviado. O alívio, porém, durou poucos segundos. Outra figura apareceu atrás dele, a varinha empunhada e pronta para ser usada.
Instintivamente, puxei a minha varinha do bolso e antes que o homem encapuzado pudesse acertar o adolescente com o que reconheci ser o começo da maldição imperdoável Cruciatus, acertei seu peito em cheio com um feitiço Estuporante. O adolescente me olhou com um misto de gratidão e desconfiança. O pequeno se agarrou ainda mais a mim e escondeu o rosto nas minhas vestes de seda, agora totalmente sujas.
Outro indivíduo encapuzado apareceu já soltando uma saraivada de feitiços. Meu coração foi a mil. Parte de mim quis entrar em pânico. A outra parte me mandou aguentar firme. Defendi-me como pude, principalmente porque o rapaz, embora possuísse uma varinha, não parecia saber muito bem o que fazer com ela.
Quando outro bruxo apareceu, gritou algo para o homem que me atacava.
– Pare! É Malfoy! - disse uma voz conhecida.
Mesmo na penumbra, distingui o homem robusto e alto como Gregório Goyle. Há quanto tempo não o via? Minha mente foi inundada com imagens do passado em Hogwarts.
O outro baixou a varinha. Foi estranho ver Goyle dando ordens a alguém e sendo obedecido de pronto. Era eu quem costumava fazer aquele papel.
– Malfoy, peço desculpas pelo súbito ataque. - disse Goyle com a voz fria e dura. – Só precisamos dos dois meninos.
– Para quê? – ousei perguntar.
O homem ao lado de Goyle riu.
– Como se você tivesse direito de perguntar, traidor imundo. - disse o homem. Não sabia quem era. O rosto não me era familiar.
– Deixa isso pra lá, Travers. Só queremos os garotos, Malfoy. – Goyle tornou a insistir. Tinha as mãos na varinha, pronta para ser usada.
Não éramos mais amigos. Pensando bem, nunca havíamos sido. Goyle e Crabbe haviam sido apenas meus dois capangas em Hogwarts e nada mais. Crabbe havia deixado o poder do Lorde das Trevas lhe subir a cabeça e acabara morrendo. Goyle fora um pouco menos i****a. Depois da guerra, nossos pais haviam perdido contato. O pai de Goyle havia sido mandado para Azkaban enquanto meu pai conseguira se safar, como sempre. Era por isso que éramos considerados traidores. Mais ainda pelo fato de termos falhado em todas as missões que haviam sido dadas a nós pelo Lorde das Trevas. Não parecia ser importante o fato de que eu salvara a vida de Goyle. Ou talvez fosse. Talvez fosse por esse motivo que ele ainda não me lançara um feitiço.
Os olhos do adolescente brilhavam de raiva. Ele estava encurralado, mas mantinha a cabeça erguida. Quase ri. Aquela atitude era tão Harry Potter.
– O que está acontecendo? - perguntei usando o mesmo tom de voz do passado, quando Goyle costumava fazer todas as minhas vontades.
Por um instante, quase o peguei. Travers, que agora eu sabia ser um antigo Comensal, apontou a varinha na minha direção e disse categórico:
– É melhor ficar fora disso, Malfoy. Afinal de contas, não queremos você e sua família traidora no nosso grupo.
– Vamos lá, Draco. - disse Goyle um pouco menos agressivo. Notei, porém, que sua varinha continuava empunhada. – Só queremos os dois garotos. Eles nos pertencem.
– Eu não pertenço a ninguém! - exclamou o adolescente, apontando a varinha para Travers.
Ele bem que tentou acertá-lo, mas sua mágica era a de um iniciante, e apenas serviu para abrir um rombo na parede ao lado. O estrondo foi tanto que eu não conseguia entender como ninguém ainda havia aparecido. Que eu soubesse, o Esquadrão costumava patrulhar a área, não é? Não havia tempo para conjecturas, porém. Eu não podia ficar ali esperando pela cavalaria. Talvez, se eu realmente fosse esperto, teria entregado os dois garotos e ido para casa.
Acontece que eu não era esperto. Pelo contrário. Com muita rapidez e habilidade, e antes que outra maldição imperdoável atingisse o adolescente de cabelos loiros, puxei-o para perto de mim e corri com os dois a tiracolo, lançando feitiços às minhas costas. Assim que vi numa área livre e sem bloqueios contra aparatação, desaparatei para longe com os dois trêmulos ao meu lado, o pequeno abraçado a mim como se eu fosse a sua única tábua de salvação.