Capítulo 5

3754 Palavras
Definitivamente, eu não estava bem da cabeça. Assim que cheguei à Mansão, toda a minha coragem pareceu prestes a se dissolver. Só me segurei porque tinha alguém abraçado a mim mais trêmulo do que eu. – Onde estamos? Que lugar é esse? – Perguntou o rapaz loiro, os olhos arregalados, provavelmente pelo tamanho da mansão. A Mansão Malfoy era realmente impressionante. Imponente. Com pelos menos oitenta cômodos. Quem não a conhecesse bem, se perderia lá dentro. No meio do gramado bem aparado, alguns pavões passeavam. O pequeno agarrado em meu robe pareceu interessado. Meus cães apareceram correndo e tive que gritar uma ordem para que eles se comportassem. – Querido? – Astoria apareceu à porta e me olhou assustada. Não fazia idéia do que ela poderia estar imaginando, mas naquele momento só o que eu queria era entrar e tomar um chá forte. De preferência com minhas pílulas. Eu precisava urgentemente delas. Caminhei com dificuldade até a porta onde Astoria me esperava parecendo petrificada. Seus olhos se arregalaram quando pousaram no pequeno ao meu lado. Acho que seus instintos de mãe falaram mais alto, pois ela imediatamente se recuperou e se ajoelhou perto do garoto, gentilmente tirando-o de perto de mim e levando-o para dentro. – Ei, ei! Aonde ela pensa que vai com meu irmão? – gritou o pivete atrás de mim, correndo na direção de Astoria como se fosse atacá-la. Foi fácil pará-lo com apenas um toque da varinha, e confesso que foi divertido. O rapaz me fuzilou com o olhar. – Ela é minha esposa. Qual o seu nome, pirralho? – perguntei. Ele ergueu o queixo. – Alfred. E não sou um pirralho! Já tenho 15 anos! Mais velho do que eu esperava. – E seu irmão? -–Por que quer saber? – perguntou na defensiva. Deu um sorrisinho sem humor algum. – Talvez porque eu tenha feito a loucura de trazê-los para o conforto do meu lar, acho que eu tenho o direito de saber o nome de vocês, não é? Ele grunhiu: – O nome dele é Angel. E quer fazer o favor de me soltar? Caminhei até Alfred, que continuava com um olhar beligerante. – Vou pensar no seu caso, Fred. – Eu odeio que me chamem de Fred. – Que se dane, Fred. Você está no meu território agora, e eu vou chamá-lo do que eu quiser. O garoto bufou. Ele era realmente divertido. O pavio curto me lembrava muito Harry. Será que era por isso que eu os trouxera para casa? O pequeno porque tinha os olhos de Harry, e o mais velho porque era estourado e tinha aquele arzinho insuportável de quem não tinha medo de nada? Ambos tão parecidos com Harry. Eu estava mesmo enlouquecendo. Talvez devesse marcar uma consulta em St. Mungus. Era o que Astoria iria sugerir, com certeza. Seu marido estava pirando. Olhando pelo lado bom, ao menos eu não havia seqüestrado os filhos de Harry, não é mesmo? – Então essa é sua casa? Você é rico? – O som irritante me interrompeu. – Não é óbvio? Ele fez uma careta. – Por que não tira esse feitiço de mim de uma vez e me deixa ir embora com meu irmão? – Por que não age educadamente e me agradece por ter salvado sua vida, primeiro? – Eu teria escapado se você não estivesse no caminho! – Ah, claro. Com três Comensais te perseguindo, uma criança a tiracolo e uma varinha que parece fazer mais estragos do que qualquer outra coisa... Realmente, suas chances eram muito boas. – Disse com sarcasmo. Tirei o feitiço dele e caminhei até o hall de entrada. O pirralho me seguiu perguntando mil coisas ao mesmo tempo, e ordenando que eu lhe trouxesse o irmão. Quando cheguei à sala principal, invoquei um copo e uma garrafa de uísque. Não era uma boa ideia beber com o tipo de remédio que eu tomava, mas que se dane. Eu precisava de uma bebida forte. Ofereci um copo a Alfred, que desafiador, virou-o de um gole só. Foi engraçado vê-lo revirar os olhos e desfalecer no sofá. O garoto não tinha resistência ao álcool, pelo visto. Apreciei o silêncio que se seguiu, quebrado apenas pelos passos leves de Astoria. – Draco, você sabe que não deve beber nada tão forte... – Ela ralhou docemente. Somente Astoria conseguia ser suave mesmo quando estava zangada. Eu queria tanto poder amá-la. – Foi só um copo. Como está o garoto? Ela olhou para o sofá e franziu o cenho ao ver Alfred roncando. Porém, não fez perguntas. – Este é Alfred. – Expliquei com um sorriso. – E o garotinho é Angel. Os dois são irmãos. – O que aconteceu? Você está com uma cara horrível. – Ela veio ao meu encontro e colocou as mãos na minha testa. – Está febril, Draco. Acho que deveria tomar um banho e ir se deitar. Eu cuidarei do resto. Ela era realmente fenomenal. Toda aquela confusão e tudo que conseguia pensar era no meu bem-estar. – Nem sabe o que está acontecendo. – Lembrei-a. – Bem... Você deve ter tido seus motivos. Suspirei alto. – Eles foram atacados por Comensais. Seu rosto de boneca imediatamente empalideceu. Eu sabia que Astoria havia odiado a guerra tanto quanto qualquer outro bruxo normal. Seu pai havia resistido à tentação de ser um servo do Lorde das Trevas, mas pagou um preço alto. O velho ainda tinha sequelas profundas, e seu primogênito havia sido morto como punição. – Comensais? – Ela perguntou em um fio de voz. – Pensei que eles não existissem mais... – Eu também. Mas talvez eles não se intitulem mais como Comensais. Talvez estejam formando outro grupo, o Grupo dos Poderosos. – Mas para quê? Por quê? – Não faço ideia. No entanto, talvez o Alfred aí saiba de alguma coisa. – Foi por isso que os trouxe? – Não. – Sentei-me na poltrona temendo que meu corpo não fosse mais aguentar meu peso. – Foi puro reflexo, mas não podia deixá-los lá. Não sei o que Goyle e os outros planejam, mas não gosto da ideia de que eles andam por aí atacando criancinhas... Astoria apenas assentiu, como se minhas ações bizarras não a surpreendesse. – Como está Angel? – Perguntei. Ela finalmente sorriu um pouco, menos tensa. – Está tomando banho. Ele estava imundo, Draco! Temo só de pensar no que esses garotos possam ter vivido até agora... – Ela estremeceu. – Ele é tão fofinho, mas está assustado. Não disse uma palavra. Falando nisso, devo voltar. Deixei-o com Lara. Observei-a se afastar. Chamei Joah – um de nossos elfos domésticos– e pedi que ele tomasse conta de Alfred. O rapaz precisava de um banho e provavelmente de comida e descanso. Ele era deveras pequeno para quem tinha quinze anos. Também era franzino. Eu tinha plena certeza de que estava diante de um dos órfãos que se encaixariam perfeitamente no programa de Harry. E falando no diabo... Parte de mim queria entrar em contato e lhe contar o que aconteceu, a outra parte estava com medo. Não ter idéia do que estava acontecendo no meio bruxo, não me agradava também. Além disso, eu nunca fora exatamente um exemplo de cidadão. Embora andasse na linha desde o final da guerra, havia cometido alguns pequenos deslizes, coisas à toa, mas que o Ministério nunca deixava passar. Como, por exemplo, quando eu tentei sem sucesso algum importar um filhote de dragão da Romênia para a festa de aniversário de seis anos de Scorpius. Definitivamente, entrar em contato com o Ministério estava fora de meus planos. Precisava falar com meu pai. Antes porém, precisava de um descanso. Fui para o banheiro do meu quarto e levei um susto ao me olhar no espelho. Eu parecia um morto vivo. Estava pálido, meio febril e com olheiras fundas. Senti-me muito mais velho do que era. A água morna no meu corpo me acalmou um pouco e meus músculos cansados foram relaxando. Tinha certeza de que adormeceria assim que minha cabeça pousasse no travesseiro, e não me enganei. Só fui acordar bem tarde da noite, com Astoria me sacudindo delicadamente. Seu rosto imerso em preocupação. – O que foi? – Perguntei abrindo os olhos lentamente. – Harry Potter está aqui. – O quê? Levantei-me em um salto. – Harry Potter está aqui, na nossa sala de estar. Ele quer falar com você. Era impossível controlar as batidas descompassadas do meu coração. Não queria ver Harry, mas ao mesmo tempo queria. Se ele estava ali, boa coisa não era. Podia apostar que tinha a ver com o que acontecera na Travessa do Tranco. De algum modo ele ficou sabendo de tudo. Pensando bem, Harry sempre parecia saber de tudo o que se passava no mundo bruxo, sem exceções. Como quando ele soubera exatamente aonde interceptar meu filhote de dragão. Com certeza não ficaria do meu lado. Eu deveria ser o principal suspeito do que quer que ele estivesse investigando. Mas antes que minha mente desse asas demais à imaginação, eu resolvi enfrentá-lo. Eu realmente preferia o conforto do meu quarto, aonde eu sabia que estaria seguro. Já podia sentir a familiar tontura e o embrulho no estômago ao me levantar e me arrumar. Comecei a suar frio também. Típicos sintomas de quem sofria de Síndrome de Pânico. Desci as escadas lentamente, como se aquilo fosse aliviar de alguma forma o meu sofrimento. Caminhei por um grande corredor lateral à minha direita e fui em direção à sala de estar. Ao abrir a porta, vi Harry parado em frente à lareira. Estava sozinho. Seus olhos verde-esmeralda imediatamente se viraram em minha direção. Meu corpo transformou-se em geléia. Minha náusea só aumentou. Agora, porém, não era só porque eu estava entrando em pânico, mas também porque Harry Potter estava bem ali na minha frente. – Potter. – Disse com enfado. Ou pelo menos foi a impressão que tentei passar. – Malfoy. – Ele retribuiu no mesmo tom, uma sobrancelha arqueada. – Você parece ainda pior do que quando nos vimos no Clube dos Bruxos Esnobes de Londres. – Galanteador como sempre. – Disse com um sorrisinho. – Em que posso ajudá-lo? Está um pouco tarde para visitas sociais. – Bem, não é uma visita social, então acho que não quebrei nenhuma regra de etiqueta, não é? – Seu sorriso foi tão cínico quanto o meu. – Acho que sabe porque estou aqui. – É melhor ser mais específico. Ele riu. – Devo me preocupar com essa afirmação? Franzi o cenho. – O que quer dizer com isso? – Perguntei. – Bem, se preciso ser específico, significa que você anda tendo uma vida cheia de aventuras. Ah, sim. Minha vida era fantástica. Eu passava a maior parte dos meus dias enfurnado dentro de casa lendo, tentando comer alguma coisa ou passeando com meus cachorros. Scorpius fazia muita falta. – Ando vivendo dentro da lei, Potter. – Eu não duvido. Seus últimos cinco anos têm sido bem reclusos. Senti meu corpo tencionar. Então ele realmente sabia de tudo. Será que sabia também que eu frequentava um psiquiatra bruxo? Provavelmente. Nada escapava à Harry Potter. Duvidava, contudo, que ele soubesse o que eu sentia por ele. Ao menos esse aspecto da minha vida estava salvaguardado. – Mas ainda me lembro com muito carinho do filhote de dragão Chifres Longos Romeno que você tentou trazer para a Inglaterra. Fiz uma careta. – Águas passadas, Potter. Eu me lembro de ter pagado uma multa enorme pelo episódio... – Pense pelo lado positivo. Você não foi preso como deveria ter sido. Sem dúvida. Eu nunca sobreviveria à Azkaban. Ele sabia disso. Meus advogados haviam conseguido um acordo mais do que justo. - Certo. Conversinhas à parte, por que não me diz o que veio fazer aqui, de uma vez? Eu estava terrivelmente cansado. Fui me sentar na poltrona apenas para tentar disfarçar meu m*l-estar. Se ele percebeu, não disse nada. - Houve um incidente na Travessa do Tranco às 03h40min da tarde aproximadamente. Se ele esperava que eu fosse dizer algo, se decepcionou. Harry enfiou as mãos nos bolsos. Infelizmente ele estava usando o uniforme típico de Auror, um robe preto horrível, mas intimidador, com o símbolo de uma águia no peito. Nunca pensei que fosse dizer isso, mas preferia que ele estivesse usando roupas trouxas. Elas o deixavam bem mais atraente. Seus cabelos continuavam como sempre, rebeldes e muito negros. Ele correu os dedos por eles. Tive que conter um suspiro de desejo. Os olhos verdes faiscaram quando encontraram os meus. Será que ele percebeu o meu interesse nada saudável? Estremeci. – Com frio? – ele perguntou. Nada escapava de Harry. Que irritante... – Um pouco. – Quer que eu aumente o fogo da lareira? – Ele ofereceu. Olhei-o como quem estivesse diante de um cão Cérbero de três cabeças. – Certo. Eu que estou doente e você quem delira? Apenas um sorriso discreto nos lábios sensuais. Foi o que bastou para disparar meu coração e me dar a sensação de estar caindo em um abismo. – Só estou tentando ser gentil. Então, está mesmo doente? O que você tem? – Não acho que isso seja da sua conta. – Respondi com frieza. Parte de mim, porém, deu gritinhos de alegria por Harry ter perguntado. Ele suspirou. – Ok. Acho que chega de conversa fiada. – Ele disse, cansado. Aproximou-se um pouco mais. Prendi a respiração. – Travessa do Tranco, Malfoy. O que aconteceu? – Eu deveria saber? – Fingi-me de i****a. – Deveria. Afinal você estava lá. Uma testemunha ocular o viu disparar sua varinha, mais de uma vez. Um feitiço seu acertou alguém. Mas ninguém sabe quem eram as outras pessoas. – Ah, então só apontaram a mim? – Deu um sorriso escarninho. – Por que será? – Talvez porque os traços genéticos dos Malfoys sejam únicos. – Loiros, altos e incrivelmente belos? – Não sei quanto a parte do belo... – Ah, mas está em dúvida, não é? – Tive coragem de provocar. Harry quase sorriu, ou ao menos foi a impressão que me deu. Ele se aproximou mais e sentou-se no sofá ao lado. Lutei para me manter indiferente. – Vamos lá. Se não quiser me dizer o que aconteceu terei que intimá-lo a comparecer ao Ministério, onde você será interrogado, não só por mim, mas por outra dúzia de Aurores que não vão com a sua cara. – Encontraram algum corpo na Travessa? – Eu o ignorei. É lógico que não queria ver nenhum Auror na minha frente. – Está me dizendo que matou alguém? – Ele franziu a testa, o corpo tenso. – Não, Potter! Só estou perguntando se havia alguém desacordado... – Não havia ninguém quando chegamos ao local. Só um grande buraco na parede de uma antiga loja vazia, e uma porção de danos aqui e ali. Esteve na Travessa do Tranco hoje, não esteve? – Você não deveria perguntar primeiro onde eu estive às 3h40? – Estou perdendo a paciência, Malfoy. – Ele avisou gentilmente. Seu olhar, porém, era feroz. Encostei-me mais na poltrona e fechei os olhos. De que me adiantaria esconder a verdade? Talvez compartilhar com Harry o pouco que eu sabia poderia nos deixar mais próximos. Ou talvez eu devesse lançar a maldição da morte sobre mim e acabar de uma vez com aqueles sonhos inúteis. – Eu estive na Travessa do Tranco. – Confessei. Cansado, narrei toda a história a ele, desde as minhas suspeitas na Mansão de Matilda, até minha luta com Goyle e os outros dois. Harry ouviu tudo calado e atento a todos os detalhes. – É incrível. – Ele disse após um tempo. – Incrível que você tenha feito tudo isso por um bem maior! Minha careta de desagrado foi evidente. – Não esperava que você estivesse contra seus antigos amigos. Nem que fosse proteger dois inocentes de forma tão veemente... – Hey, Potter! – Eu o interrompi antes que ele fosse além e me deixasse ainda mais irritado. – Por favor, não se esqueça de que você está na minha casa e eu exijo respeito. Eles não são meus amigos. – Preciso lembrá-lo do seu passado, Malfoy? Ou do que eu e meus amigos sofremos aqui nessa casa? – O tom de voz era sombrio. Certo. Ele tinha razão. Eu era Draco Malfoy, ex-comensal, filho de um ex-comensal, e minha maior preocupação sempre havia sido meu próprio umbigo. Mas isso era no passado. Tantos anos haviam transcorrido desde minhas escolhas erradas... Será que ele não havia percebido que essa sala era diferente da outra? Eu fechara para sempre a sala principal da Mansão, onde tantas pessoas haviam sido torturadas e mortas. Não suportava nem passar perto dela. Mas ele nem parecia ter se dado conta disso. – As pessoas mudam. – Declarei. – Não mudam tanto assim. – Foram anos, Potter! Acha que não aprendi minha lição? – Disse com uma raiva que pensava não mais conseguir colocar pra fora. Ele deu de ombros. Não parecia acreditar naquela hipótese. Que se dane também. Eu deveria ter ficado na minha. Deveria ter me recusado a recebê-lo. Então no dia seguinte os garotos já teriam partido e nada me ligaria a Travessa do Tranco. Eu era masoquista, porém. Queria Harry por perto, mesmo que fosse daquela forma tão sórdida. – Não sabe mesmo de mais nada? – Ele perguntou, após um minuto de silêncio. – Não. Se quiser, pode me dar a poção da verdade. – Eu o provoquei. – Não me tente. Olhamo-nos por um momento, e eu senti uma corrente elétrica percorrer cada poro do meu corpo. Havia chama nos olhos verdes, mas não me atrevi a criar esperanças. A atração não era mútua. Quando eu iria realmente me conformar com isso? Fui o primeiro a desviar o olhar. – Você também não parece estar em condições de tomar qualquer poção mais forte no momento. – ele acrescentou. Nossa, eu devia estar mesmo com uma aparência péssima. – Preciso conversar com os meninos. – Disse ele sem levar em conta o meu desagrado. – Eles serão levados para a nossa Instituição. Ficarão bem, lá. Pode chamar os dois? – Potter, já é tarde. Eles estão dormindo. E longe de mim querer contrariar você, mas acha mesmo que eles estarão seguros na Instituição? Ele me olhou como se eu fosse uma criancinha de cinco anos que não entendesse nada do mundo. Fiquei fulo da vida. – Elas estarão mais seguras do que aqui. Seus amigos... – Não são meus amigos! Já disse! – Que seja. Eles virão aqui, você sabe disso. Estou surpreso por ainda não terem batido em sua porta. – Ninguém imagina que eu os traria para minha casa, não é mesmo? Não Draco Malfoy, o covarde. – Me desprezei pelas minhas próprias palavras. Infelizmente, elas eram verdadeiras. – Além disso, a Mansão é bem protegida contra intrusos indesejáveis. E contra intrusos leia-se ex-Comensais que gostariam de ver a família Malfoy aniquilada da face da terra. – É, talvez você esteja certo. – Mais uma vez seu olhar penetrou no meu, e eu me senti flutuar para outro lugar, mais vivo e feliz. Ele estava me encarando com muita intensidade, o que me deixou inquieto. – Está tentando usar Legilimência comigo, Potter? – Perguntei com suspeita. Ele riu. – Nem sonharia com isso. – O Snape sempre disse que você não era mesmo bom nisso... – Deixei escapar. Uma sombra pareceu cair no rosto de Harry por um momento, depois se dissipou. – Bem, na época ele tinha razão. – Ele disse, para meu espanto. Houve um silêncio desconfortável. Por que eu trouxera o nome de Snape à tona? – Ele acreditou em você, Potter. – Disse baixinho. Nem sabia se Harry havia ouvido. O que ele disse a seguir me confirmou que seus ouvidos estavam bem atentos. – Eu sei, Malfoy. Não é a toa que meu filho se chama Albus Severus. – É verdade. Mas realmente, Potter, é um nome terrível. Ele fez uma careta. – Não mais do que Scorpius Hyperion. Não tive tempo de retrucar. Ele se levantou de um salto e se colocou a um canto da sala. Olhei com curiosidade, imaginando se ele vira alguma coisa ali, ou se simplesmente queria mais espaço entre nós. Na verdade, seu celular estivera vibrando em seu bolso, e ele se afastara para ganhar alguma privacidade. Pelo tom baixo e carinhoso, podia imaginar quem era. Fechei os olhos novamente. Por que precisava aguentar tudo aquilo? – Malfoy, vamos fazer o seguinte. – Disse ele quando desligou o aparelho. – Os garotos ficam até amanhã, quando os levarei para a Instituição. Nesse meio tempo, deixarei dois Aurores de vigia aqui. – Não é preciso. – E a idéia me desagradava profundamente. Já não bastara minha casa ter servido de quartel-general para Você-Sabe-Quem na guerra, e depois ter sido devastada por um bando de Aurores famintos confiscando tudo o que podiam? – É claro que é preciso, e não vejo como você pode me impedir. – É minha casa. – E os garotos são minhas testemunhas. Não posso arriscar a vida dos dois. Mas podia arriscar a minha? Pensei em reclamar, mas de que adiantaria? No final, acabei por me deixar levar. Afinal de contas, não adiantaria me opor à ideia. Eu sabia que, querendo ou não, os Aurores ficariam vigiando minha casa. Harry simplesmente virou as costas e se dirigiu à porta. Eu me levantei imediatamente, sentindo náusea e tontura ao mesmo tempo, mas me mantive ereto. – Potter. Não vai me dizer o que está acontecendo? – Não vejo razão para tanto. Quis voar no seu pescoço. – Não acha que eu mereço saber? Salvei a vida dos garotos! Fui até a Travessa do Tranco para obter informações pra você! – Deixei escapar. Fiquei pálido. Por que eu dissera aquilo? O que ele iria pensar? Não tive coragem de olhar nos olhos de Harry. Tinha medo do que encontraria ali. Ele estava dizendo algo, mas eu estava tão perturbado que não consegui ouvir uma palavra. Achei que fosse desmaiar a qualquer momento. Algo se fechava em meu peito, tirando-me todo o ar. –... Enfim, amanhã conversamos. – Ele terminou. E dizendo isso, bateu a porta. Fiquei paralisado, e foi assim que Astoria me encontrou alguns minutos depois. Ela bem que tentou extrair alguma coisa de mim, mas eu não tinha mais forças para nada. Apenas voltei para o quarto, tranquei as portas e fechei as cortinas ao máximo. Na completa escuridão, chorei.
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