Agasalhei-me o máximo que pude, e com uma pequena mala e as palavras de preocupação de Astoria ainda na minha cabeça, parti para a estação trouxa de Saint Pancras no dia seguinte. 31 de outubro. Tentei não pensar no que a data representava. Ao contrário dos trouxas, eu sabia que muitas coisas que aconteciam naquela data não eram superstições tolas. Mesmo assim, resolvi me arriscar.
Eu poderia tentar Aparatar até Paris, mas não confiava nos meus níveis mágicos. Aviões, embora mais rápidos, me deixavam apavorado. Preferia muito mais uma vassoura, mas era uma viagem deveras longa para se usar uma. Há uma grande ironia entre preferir uma vassoura a um avião, mas não estava muito a fim de analisá-la no momento.
Estava nervoso. Era a primeira vez depois de muitos anos que me aventurava fora da Grã-Bretanha sozinho e sem uso algum de magia. Só relaxei um pouco quando já me encontrava sentado na minha poltrona, pronto para partir. Minha antiga varinha estava segura no bolso interno do meu casaco Armani. Minha segunda varinha estava na mala para o caso de uma emergência. Um sorriso amargo escapou de meus lábios. O número de varinhas não importava já que usá-las no meu estado seria loucura. O efeito psicológico de tê-las comigo, porém, era reconfortante.
Fechei os olhos e recostei-me na poltrona. Sair da Mansão não havia sido nada difícil, o que me deixara com a pulga atrás da orelha. Eu só esperava que Gray e Sinclair estivessem mesmo tomando conta da minha família.
O aviso de partida soou nos alto falantes. Ouvira dizer que esse trem em particular era controlado por um computador e não mais por trouxas. Um frio percorreu minha espinha ao imaginar que minha vida estava nas mãos de uma máquina. Mas eu tinha que confiar nos trouxas. Afinal de contas, aquele trem vinha fazendo aquela mesma rota há anos sem problema algum.
O único problema poderia advir de mãos bruxas, mas eu tomara precauções antes de sair da Mansão. Estava vestido com o melhor da alfaiataria trouxa, e minha marca registrada, meus cabelos dourados, estavam tingidos de preto. Ao contrário dos outros bruxos, eu sabia me disfarçar muito bem de trouxa. Um trouxa rico e sofisticado. Sorri.
O trem começou a se mover e a porta do compartimento onde eu estava sozinho se abriu. Um perfume suave, mas extremamente masculino, me inebriou. Abri os olhos e me deparei com os orbes verde-esmeralda de Harry me encarando com desagrado. Tentei conter meu sorriso de triunfo, mas não consegui.
Harry Potter era a única pessoa que eu esperava que fosse me seguir com sucesso, e ali estava ele. Missão cumprida.
- Isso é o oposto de 'comporte-se', Malfoy. – ele disse, sentando-se ao meu lado.
- Não sabia que havia sido uma ordem. – retruquei tentando não deixar transparecer minha alegria por tê-lo ao meu lado naquela viagem.
Harry deu um longo suspiro.
- Tudo o que sai da minha boca é uma ordem, Malfoy. Aprenda isso de uma vez por todas. – ele disse acidamente.
Lá estava o tom de Auror Chefe de novo, aquele que me excitava tanto quanto me deixava furioso.
Propositalmente, cheguei mais perto de seu corpo, deleitando-me com o seu calor. Não sabia de onde vinha minha coragem, mas de repente eu não estava a fim de me comportar e sim de quebrar regras. Afinal de contas, eu conseguira realizar o meu maior sonho: dormir com Harry. Eu tinha aquela vitória sobre ele. O resto não importava.
Harry me olhou entre divertido e zangado. Ele parecia saber exatamente o que se passava na minha cabeça.
- Você me deixou irritado, Potter. Não sou uma criança. – murmurei.
- Mas se comporta como uma.
- Só porque resolvi tomar as rédeas da situação, como, aliás, já deveria ter feito desde o começo?
Harry suspirou novamente. Era sua forma de manter a calma.
- Isso não é um jogo, Malfoy.
Dei uma risada sem humor algum.
- Como se eu não soubesse... E antes que diga mais alguma coisa i****a, lembre-se de que eu também estive na guerra, e sei muito bem como o ser humano pode ser monstruoso.
- Eu nunca considerei Voldemort ou seus seguidores como seres humanos... – ele comentou.
- Nem todos os seguidores de Voldemort estavam ali porque queriam... – tentei me defender.
- Talvez. Não foi o caso da sua família.
- Você não sabe nada sobre a minha família, Potter. – praticamente rosnei.
- Sei muito mais do que gostaria. Mas estamos nos desviando do assunto.
A calma dele me fez espumar de raiva. Eu sabia que por dentro ele estava explodindo de raiva, mas Harry tinha aquela mania infernal de manter-se apático qualquer que fosse a situação. Eu odiava aquele lado frio de Harry. Queria de volta o Harry que perdera o controle em meus braços e me possuíra com paixão.
- Por favor, me diga que está indo para a França visitar seus pais. Prefiro a ideia de você conspirando com seu pai ao que eu estou imaginando.
- Sabe muito bem pra onde estou indo... – murmurei com um tremendo m*l humor.
- Era o que eu temia.
- E já não era sem tempo, não é mesmo?
Quando eu embarquei nessa viagem, sabia de antemão que Harry viria atrás de mim. Mesmo estando longe da Mansão, tinha certeza de que ele continuava a me vigiar do seu jeito. Meu instinto havia me dito que Harry não mais voltaria para a Mansão depois do que acontecera entre nós, e era bem possível que ele fosse para o Egito sem mim. Por isso eu tive que agir depressa. Astoria tentou me dissuadir do que ela considerava uma loucura, mas eu sabia que precisava fazer isso. Pela minha honra, e para ficar perto de Harry novamente. Precisava provar a mim mesmo que podia vencer aquela doença. E precisava de Harry ao meu lado.
- Só o que você faz é perder tempo, Potter. – mordi a língua assim que as palavras saíram de minha boca.
Harry virou-se para mim imediatamente, chegando tão perto que nossos corpos se tocaram.
- Claro. O que é que eu sei não é mesmo? Um mero Auror, que vem lidando com as forças das trevas desde que nasceu. Por um momento me esqueci que comando todo um Quartel com os melhores agentes bruxos do mundo. – veio o bombardeio.
Fiz uma careta.
- De qualquer forma, Potter, é tarde demais. Não vou voltar.
- É mesmo? – senti sua respiração em meu pescoço. – E como exatamente você pretende fazer tudo sozinho?
Virei o rosto em sua direção e nossas bocas quase se encontraram.
- Mas eu não estou sozinho, não é mesmo? Você está aqui comigo.
- Esperava que eu viesse atrás de você?
- Eu tinha certeza de que você viria. – declarei mais confiante do que realmente me sentia.
Jogar com Harry era perigoso, mas irresistível. Os olhos verdes soltaram faíscas.
- Nada me impede de te estuporar aqui mesmo, colher seu sangue e mandá-lo de volta para a sua casa.
Engoli em seco. Embora soubesse que ele realmente tinha aquele poder, me recusava a me deixar intimidar.
- Não é do seu feitio jogar sujo.
- Não é do meu feitio ser feito de i****a.
- A culpa é toda sua, Potter.
- Minha? – ele arregalou os olhos em legítima surpresa.
- Sim, sua. Dormiu comigo e depois simplesmente me deixou no escuro. Sumiu quando disse que ficaria na Mansão até que eu estivesse melhor. Desapontou Alfred! Espero que não tenha me seduzido apenas para se certificar que eu não sabia de mais nada...
Era uma ideia absurda, mas não menos do que Harry dormindo comigo porque sentia o mesmo que eu.
A boca de Harry tornou-se uma linha fina. Sua irritação era óbvia.
- Pra começar, não acho apropriado conversarmos sobre isso aqui. Freie essa sua imaginação insana. Isso não é um filme de espionagem. Eu nunca dormiria com alguém pelo meu trabalho! Sou bom no que faço. Não preciso recorrer a esse tipo de artimanha barata.
- Então por que dormiu comigo? – murmurei um pouco mais aliviado.
Harry evitou olhar pra mim. Julguei que aquilo fosse bom. Após algum tempo perdido nos seus pensamentos, Harry disse:
- Porque a vida é engraçada.
Meu sorriso de escárnio combinou com o dele. Sabia muito bem que Harry não queria conversar sobre o que tinha acontecido entre nós. Ao contrário de mim, ele estava se sentindo bem na terra da negação. Tive vontade de gritar. Havia ficado todo aquele tempo sem vê-lo, e só o que queria mesmo era poder beijá-lo ou tocá-lo de alguma forma. Infelizmente, apesar da minha língua ferina, não tinha a coragem necessária para ir além.
- Finalmente consegui fazer você ficar quieto? – Harry me olhou entre curioso e divertido.
Dei de ombros.
- Muito engraçado, Potter. Tudo bem. Se você não quer conversar, então não vamos conversar.
- Simples assim?
- Simples assim.
Após um tempo em silêncio, Harry me olhou novamente como se procurando por alguma coisa no meu ser.
- Não está utilizando psicologia reversa, está? – ele me perguntou.
Revirei os olhos.
- Honestamente, Potter, quem é a criança agora? Se estiver a fim de conversar, então converse!
Ele riu. Cerrei os dentes.
- Você se diverte demais me irritando. – retruquei.
- Por que é muito fácil irritar você. – ele rebateu.
Dei um sorriso maligno.
- Ah, não se esqueça de que eu também tenho esse poder sobre você, Potter.
- Eu sei muito bem disso. Não notou o quanto eu estou irritado por você me desobedecer?
- Nunca disse que ia seguir suas ordens... Como você mesmo não se cansa de dizer, não sou um Auror. Não trabalho pra você. Além do mais...
- É, você já é adulto e blah-blah-blah. Mas o que você é mesmo é um pé no saco.
- Por que você não vai se...
Os dedos de Harry me calaram muito mais pelo toque repentino do que pelo gesto ultrajante. Tive que segurar meu impulso de mordiscá-los. Harry demorou a tirar seus dedos dos meus lábios, e por um instante fiquei imaginando se ele não queria que eu os tomasse na minha boca e passasse a língua ao redor deles, sugando-os e... Droga. Eu estava ficando muito e******o. Infelizmente, a cara de blefe de Harry não deixava transparecer nada do que ele sentia.
- Malfoy?
- Você gosta de provocar, não?
Sinto dizer que minha voz não havia soado nada sexy e sim melancólica. Harry suspirou.
- Não mais do que você gosta de me provocar. – ele respondeu.
Ficamos nos olhando por um bom tempo. Fiquei imaginando o que meus olhos estariam mostrando a ele. Os olhos verdes eram difíceis de serem decifrados, mas ao menos tinha a certeza de que ele me queria.
- Não torne tudo ainda mais difícil. – ele disse com um brilho estranho nos olhos.
Fechei os meus por um momento. Pensei ter sentido as mãos de Harry me acariciando o rosto de leve.
- Não tenho a intenção de atrapalhar você. Só quero ajudar. – eu disse num sussurro.
- Me ajudaria muito mais se voltasse pra Inglaterra.
- Isso não vai acontecer.
- Eu poderia te prender. Você ainda em uma audiência no Ministério por ter me atacado. Eu poderia levá-lo comigo a força agora mesmo. Não tem autorização para deixar o Reino Unido.
- Ameaças não vão me fazer mudar de ideia. Usarei o que me resta de magia, mas não vou deixar que você me leve de volta.
- Droga, Malfoy! Por que tudo isso?
Ele parecia realmente frustrado e confuso. Será que ele não percebia que eu o amava?
É claro que não. Como ele poderia saber? Havíamos sido inimigos desde o nosso primeiro encontro.
- Talvez porque eu finalmente possa fazer alguma coisa para me redimir pelo passado. – foi a minha resposta.
Harry me olhou novamente como se procurasse a sinceridade nos meus olhos. Acho que deve tê-la achado, porque no minuto seguinte disse:
- Espero que saiba mesmo o que está fazendo. Depois não haverá volta.
Meu coração deu um salto.
- Quando chegarmos a Paris vamos aparatar até a Espanha e de lá até o Egito. – Harry me informou como um bom funcionário do Ministério.
A sensação de pânico me abateu. Eu não conseguiria aparatar no meu atual estado. Pensei que ele soubesse, afinal de contas, estávamos indo de trem para a França. Ter que admitir em voz alta o fato seria muito humilhante.
- Potter... Eu não posso Aparatar. – disse num murmúrio, odiando-me por isso.
- O que disse?
O desgraçado!
- Eu disse que não posso Aparatar!
Harry apenas riu.
- Eu sei disso, Malfoy. – disse ele com um ar de sabe-tudo. – O que é mais um forte motivo para que você fique de fora...
- O que não irá acontecer.
- Correção, então. Eu vou Aparatar levando você junto. Não vai precisar gastar níveis mágicos de energia. Vou fazer isso por nós dois.
Eu devia saber. Queria mais do que nunca poder beijá-lo até lhe tirar o fôlego. E as calças. De preferência a última.
- Já tem tudo planejado? – ergui a sobrancelha.
- Você não me dá escolha...
- E vai conseguir me levar junto numa viagem tão longa? Tem certeza de que pode fazer isso, Potter? Não quero perder nenhum m****o do meu corpo pelo caminho...
- Não se preocupe. Eu dou conta do recado. – ele piscou pra mim.
Senti meu coração bater apressado.
- E para onde iremos assim que chegarmos ao Egito?
- Ficaremos no Cairo até que meu contato apareça. Depois seguiremos para o deserto.
Ao dizer aquilo, Harry me encarou como se esperasse que eu dissesse algo.
- O que foi? – perguntei, incomodado com aquele olhar.
- Estou esperando o momento em que você irá desistir de tudo e voltar para casa, de onde, aliás, você nunca deveria ter saído. Sua esposa está preocupada.
Fiz uma careta.
- Não vou desistir não importa quantas vezes você tente me convencer do contrário. E Astoria sabe que eu preciso fazer isso.
- Não precisa fazer nada, Malfoy. Ainda me intriga o fato de você querer tanto se meter nessa história. Se quiser se redimir pelo passado, junte-se aos milhares de programas sociais bruxos que existem desde o final da guerra.
Harry podia ser esperto para muitas coisas, mas assuntos do coração não eram da sua alçada. Pelo jeito ele ainda não entendera a profundidade dos meus sentimentos. Pensando racionalmente, porém, a coisa toda era difícil de engolir até para mim. Quem diria que eu estaria assim tão desesperado para ficar um pouco mais perto dele a ponto de correr atrás do perigo? Devia estar uma crise de meia-idade adiantada.
Suspirei.
- Só espero que não esteja fazendo isso como autopunição ou... Porque tem esperanças de que não sobreviverá a experiência. – a última sentença foi proferida em voz baixa, como se Harry temesse que aquilo fosse verdade.
Aquilo foi uma surpresa e tanto.
- Acha que quero morrer?
Harry olhou pra mim e não foi suficientemente rápido para esconder o que estava sentindo. Fiquei tocado com sua preocupação.
- Sinceramente, não sei o que se passa pela sua cabeça oca. – ele disse.
- Não quero morrer, Potter. E não vou morrer.
Ou pelo menos eu esperava que não. Ainda mais agora que Harry e eu estávamos finalmente juntos. Seria muito c***l da parte do destino.
- Mas obrigado por se preocupar. – disse quase num sussurro.
Por um momento achei que sua mão fosse tocar na minha, mas a sensação não durou mais do que um breve instante.
- Mantenha-se a salvo, Malfoy. – foi a última coisa que ele me disse até o final da viagem.