Meu raciocínio sempre foi meio lento, devo admitir. Somente no dia seguinte, quando estávamos prestes a Aparatar para o Egito, foi que me dei conta de que praticamente todo o Quartel General Espanhol sabia que Harry Potter estava trabalhando ao lado de Draco Malfoy. Quando perguntei a Harry se não seria melhor ter escondido minha identidade de todos, o bastardo apenas deu de ombros.
- Pensei que tivéssemos que ser discretos. – insisti. – Foi pra isso que tingi o cabelo!
Harry abriu um sorriso enviesado.
- É mesmo. Mas não foi uma má idéia. Seu cabelo loiro realmente chama muito a atenção.
- Potter... Estou perdendo a paciência. – grunhi. – Se Candelaria e o resto abrirem a boca para o mundo exterior sobre estarmos aqui juntos...
- Eles não dirão nada. São Aurores, não jornalistas sensacionalistas. Eles acham que você está me ajudando com uma investigação que nada tem a ver com o real motivo de estarmos aqui.
- Que outra investigação?
Novamente, o desgraçado deu de ombros.
- Potter! Por que não pára de me ignorar? Não fui o único culpado pela noite de ontem. Você também...
Ele tapou minha boca com uma das mãos antes que eu dissesse mais alguma coisa. Num ato de rebeldia, mordi seus dedos.
- Ei! – ele reclamou.
Eu já estava de saco cheio da frieza de Harry. Num momento ele era puro calor e no outro parecia o Pólo Norte. Cheguei a imaginar a noite passada como um sonho. Eu havia adormecido em seus braços e acordara sozinho na minha cama. Era óbvio que ele não passara a noite comigo, e nem deveria. Mas não esperava que, ao me trazer o café da manhã e me obrigar a comer tudo, ele agisse como se nada tivesse acontecido, como se ele não tivesse gozado comigo, como se não tivesse me abraçado de forma tão terna.
- Por um acaso você faz parte da minha equipe de Aurores, Malfoy? – ele me perguntou frio.
Franzi o cenho, já sabendo o que estava por vir.
- Então não me faça perguntas imbecis! Qualquer investigação nossa não tem nada a ver com você.
- É claro que tem! Se os Aurores daqui acham que eu estou te ajudando em alguma outra investigação é porque...
- Não é da sua conta! – ele gritou.
Harry Potter finalmente havia perdido a paciência a ponto de derreter a máscara de frieza que adornava seu rosto a maior parte do tempo. Sorri, satisfeito.
- É da minha conta, e você sabe disso. Temo em pensar no que eles acham que eu estou te ajudando...
Era algo que podia imaginar muito bem. Os Malfoys não eram apenas persona non grata na comunidade bruxa do Reino Unido. Tínhamos caído no conceito de outras comunidades bruxas internacionais também graças ao nosso apoio ao Lorde das Trevas. Infelizmente, não conseguia pensar em nada que ligasse qualquer dos negócios de meu pai a Espanha. Harry nunca me diria também.
- Então não pense. E pare de me fazer perder tempo.
Com um resmungo ele me puxou para perto e me enlaçou a cintura. Eu segurava as nossas bagagens, portanto não tinha as mãos livres para acariciá-lo como queria.
- Está mais zangado comigo ou com você mesmo? – perguntei num falso tom doce.
- Cale a boca que eu preciso me concentrar.
Fechei os olhos quando senti o mundo girar, e quando os abri já estava no Egito, mais precisamente na cidade do Cairo. O dia estava extremamente quente e o sol brilhava soberano. Senti meu corpo cansado e os já esperados efeitos da Aparatação me acometeram. Embora nossas bagagens não estivessem pesadas graças ao feitiço de leveza que Harry colocara nelas, deixei-as cair no chão. Agarrei-me à camisa de Harry antes que fosse junto com elas também.
- Se tivesse ficado quieto e se concentrado mais não estaria assim tão fraco. – ouvi Harry dizer com irritação.
Mesmo assim, suas mãos ao me apoiarem eram gentis. Com um suspiro, Harry me pegou no colo.
- Você deve pesar o mesmo que uma folha de papel. – ele murmurou.
Não retruquei como de praxe. Não sei por que razão estava mais debilitado do que nunca. Sentia meu corpo cada vez mais cansado. Não tinha nem forças para ralhar com ele.
- Droga, Malfoy! Nós m*l chegamos e você já entregou os pontos?
Não respondi. Desmaiei em seus braços e quando voltei a mim estava deitado em um quarto espaçoso com uma decoração tipicamente egípcia. Harry estava à janela com os olhos fixos em algum lugar do lado de fora.
- Potter. – chamei com a voz fraca. Tossi.
Harry veio até mim de imediato. Seus olhos transmitiam preocupação, mas também raiva.
- Onde estamos? – perguntei.
- Em um hotel. Dessa vez estamos disfarçados. Seu nome é Jules Manfrey e eu sou Charles Thompson. Mas não se apegue muito a ele. Amanhã mesmo você estará num avião de volta para a Inglaterra. Já conversei com sua mulher.
Levantei-me de um salto sem me importar com a tontura e a náusea que me abateram.
- De jeito nenhum.
- De jeito nenhum? E como espera continuar desse jeito? Do nada você simplesmente desmaiou! Esteve desacordado o dia todo! Tive que chamar um médico, Malfoy!
- Se está preocupado com a conta, Potter... – comecei com um sorriso escarninho.
- Cale a boca!
Seu grito realmente me calou. Há muito tempo não via Harry tão transtornado. Lembrei-me imediatamente da forma assassina como ele havia me olhado pouco antes de quase acabar com a minha vida no banheiro em Hogwarts.
- Tudo o que precisa fazer é comer, mas você não o faz!
- Eu comi no café da manhã! – tentei me defender.
- Não foi o suficiente! O médico disse que você provavelmente está anêmico.
Isso não era novidade. Só não esperava que Harry não soubesse. Astoria não havia sido assim tão franca com ele no final das contas. Fazia sentido. Se Harry soubesse antes, nunca teria deixado que eu viesse até aqui. Tentei não deixar que ele percebesse que eu já sabia.
- E daí?
- Daí que o joguinho acabou e você vai pra casa.
- De jeito nenhum e você não pode me obrigar a voltar!
- Quer apostar?
Havia desafio em seus olhos, mas os meus provavelmente refletiam o mesmo. Não iria voltar de maneira alguma. Só precisava de mais algumas horas para me recuperar. O que eu estava sentindo não era nenhuma novidade.
- Se me obrigar a partir, eu vou voltar, Potter. Sabe muito bem disso.
Ele deu um suspiro de frustração.
- Por que está fazendo isso, Malfoy? Por que arriscar sua vida dessa forma?
- Porque ninguém espera que eu o faça! – desabafei. – Porque no passado só o que eu fiz foi tentar alcançar a glória a qualquer preço por um ideal e******o e terminei tentando fingir que nada estava acontecendo! Porque eu sempre fui um covarde, e agora é minha chance de provar a mim mesmo que eu não sou! Porque eu tenho no meu sangue o poder para salvar duas crianças inocentes de um destino terrível! Mas o principal, Potter, é que eu simplesmente quero estar aqui. Com você!
Parei ofegante. Meu corpo tremia de nervosismo. Eu havia dito coisas demais num espaço de tempo muito curto. Não sabia como Harry reagiria. Só tinha certeza de uma coisa. Eu estava cansado. Não só fisicamente, mas mentalmente também. Estava cansado de bancar o covarde, de fugir de tudo, de fingir que não queria Harry quando na verdade eu o queria mais do que qualquer outra coisa. Mais até do que meu orgulho i****a.
Para meu total espanto, ele me abraçou.
- i****a. – ouvi-o murmurar.
Dei um sorriso débil. Passado o susto, eu o abracei devagar. Tinha medo de ser rechaçado, mas Harry não se afastou. Seu abraço tornou-se ainda mais apertado.
- Está assim tão apaixonado por mim? – ele me perguntou.
Senti o rosto esquentar. Minhas mãos se fecharam em sua camisa e eu suspirei. Negar o óbvio não me levaria a lugar algum. Confessar, contudo, era mais difícil do que eu imaginara. As palavras estavam presas em minha garganta. Podia senti-las querendo escapar. Adoraria saber o efeito que elas teriam em Harry. Infelizmente, não tinha coragem.
- Isso seria um absurdo, não? – sussurrei.
- O maior dos absurdos. – ele respondeu.
Não queria me afastar. Minha vontade era de ficar enlaçado a ele pra sempre. Harry acariciou meu rosto, e nossos olhos se encontraram. Devagar, nossos lábios se tocaram. Foi um beijo tão doce que senti vontade de chorar. Havia tantas coisas que queria perguntar a ele. A maioria delas ligadas a Gina Weasley. Estava claro que o casamento dos dois não ia bem, caso contrário Harry não estaria me beijando. Não tinha ilusões de que meu charme irresistível havia feito Harry se apaixonar por mim de repente.
Quando Harry se afastou, senti frio. Ele já não me tocava. Nossos olhos continuaram a se procurar tentando entender o inexplicável. Como duas pessoas tão diferentes e com um passado tão complicado podiam sentir-se tão atraídas uma pela outra? O mistério aumentava ainda mais quando eu considerava a nossa idade. Não éramos mais adolescentes. Éramos dois homens adultos. Harry vivia um casamento dos sonhos e seus filhos eram prova disso. Então por que...
- Prometa-me que vai se esforçar para melhorar. E que vai me obedecer mesmo quando sua cabeça dura quiser o contrário.
Deveria ter soado como um pedido, mas soou como uma ordem. Sentei-me na cama e suspirei. Embora quisesse lutar, a verdade era que não tinha forças. Harry me tinha nas mãos. Eu era seu. Faria o que ele quisesse. Já não estava colocando toda a minha vida em risco por ele? Arriscava ter a fúria de meu pai sobre mim, a decepção da minha mãe, até o desprezo do meu filho.
Ao pensar em Escorpio meu coração se apertou. Não fazia idéia do que ele diria se soubesse que seu pai era apaixonado por Harry Potter. Escondi o rosto nas mãos.
Imediatamente, senti Harry perto de mim. Uma mão quente tocou o meu ombro.
- Malfoy? – ele me chamou preocupado.
- Eu estou bem.
Olhei para ele. Os olhos verdes pareciam angustiados. Imaginei se os meus não estavam da mesma forma.
- Ok. Vou fazer o que você mandar daqui por diante. Dessa vez é uma promessa. – disse.
Como sempre, seu telefone tocou nos interrompendo. Mordi o lábio. Harry pareceu paralisado por um instante, depois se recompôs e atendeu. Vi seu olhar mudar. Havia culpa nos olhos verdes, mas também carinho. Não era Gina Weasley, mas Lilian, sua filha mais nova. Senti raiva, embora soubesse muito bem que não tinha direito de me sentir daquela forma.
Para meu alívio e também dor, Harry saiu do quarto para ter mais privacidade. Deitei-me na cama com um suspiro cansado. Definitivamente, aquela viagem seria um desafio para os meus nervos.
Se eu sobreviveria até o seu fim era um mistério.