Acordei como se tivesse sofrido um acidente de Quadribol. Meu corpo todo doía. Sentia dores em músculos que nem sabia existirem. Mexer era uma agonia, mas abrir os olhos foi fácil. Pisquei algumas vezes.
O sol penetrava por uma pequena fresta na cortina. Olhei para o relógio que ficava na mesinha de cabeceira. Oito e meia da manhã.
Como era de se esperar, Harry não estava mais na cama, nem em lugar nenhum do quarto. Provavelmente não deveria nem estar mais na Mansão. Coloquei a mão no lugar onde seu corpo estivera. Estava gelado. Ele provavelmente fugira assim que eu havia adormecido. Uma pena, mas já era de se esperar.
Meu coração estava dividido entre o medo do que estava por vir, e a felicidade transbordante de ter tido um sonho realizado. Parte de mim queria sair cantando. A outra parte queria se enfiar embaixo do lençol e não sair nunca mais.
A vida, porém, continuava. Caminhei devagar até o banheiro, gemendo de dor aqui e ali. Quando me olhei no espelho levei um susto. Havia marcas vermelhas por todos os lados. Mordidas e beijos deixados por Harry Potter. Meu sorriso foi um tanto pervertido. Longe de achar r**m ter meu corpo marcado daquela forma, eu estava feliz da vida. Não usaria magia para fazê-los desaparecer. Aquelas eram marcas da nossa noite de sexo. Uma noite incrível, mágica, que eu levaria em meu coração para sempre.
O que aconteceria dali para frente era um mistério completo. Eu tinha uma certeza, porém. Ficar longe de Harry agora seria tremenda agonia. Meu corpo o queria de volta. Só de imaginar meu pênis começou a mostrar sinais de extrema vitalidade. Nem mesmo a água do chuveiro foi o suficiente para apagar meu fogo. Mas ao menos o banho me deixou mais relaxado.
Estranho que Astoria não houvesse me acordado. Crescia em mim a certeza de que Astoria sabia mais do que eu supunha sobre eu e Harry. Especialmente quando ela sorriu de forma deveras estranha ao me esperar com o café da manhã ainda à mesa.
- Bom dia, querido. Espero que tenha dormido bem. Demorou tanto a descer que por um instante fiquei preocupada. Mas quando Harry Potter me disse para deixá-lo dormir...
Derrubei a xícara que segurava, e o café se derramou na toalha branca. Astoria imediatamente chamou um elfo doméstico para limpar a bagunça, e quando a pequena criatura deixou tudo em ordem, olhei para minha mulher como se estivesse vendo-a pela primeira vez.
- Potter lhe pediu para me deixar dormir? – perguntei.
- É. Ele disse que você teve uma noite agitada. Infelizmente não entrou em detalhes.
Graças a Merlin.
- Tudo bem, querido? Você parece mesmo cansado.
Revirei os olhos e tornei a colocar o café na xícara.
- Estou ótimo.
Se Astoria tinha alguma ideia sobre o que acontecera na noite passada entre eu e Harry, não disse nada mais. Apenas sorriu como sempre. Senti-me o pior dos homens. Eu sabia que ela não me amava, e ela sabia que eu não a amava. Mesmo assim éramos casamos e tínhamos um filho juntos. Astoria não merecia que eu dormisse com Harry bem debaixo do seu nariz. Ainda bem que nossos quartos ocupavam alas separadas da Mansão, mais por praticidade do que qualquer outra coisa. Meu quarto ficava na ala mais aquecida da casa. Já Astoria preferia o quarto com vista para o lago.
- Potter saiu?
Astoria assentiu.
- Disse que tinha assuntos a resolver no trabalho. Ele parecia... bastante determinado.
Aquilo mais do que me intrigou.
- Determinado como?
- Não sei bem como explicar. Tinha um olhar estranho. Como se tivesse decidido alguma coisa.
Gelei. O que quer que Harry esteja pensando, não podia ser boa coisa. Podia? Melhor manter as esperanças. Era, afinal de contas, a única coisa que me restava nas circunstâncias.
- A que horas foi isso? – perguntei.
- Bem cedo. Ele nem ficou para o café.
Perdi-me em pensamentos da noite passada, e do que estava por vir. Minha garganta imediatamente fechou-se, e deixei de lado o pedaço de torrada que estava comendo. Astoria pareceu triste.
- Sem fome? Achei que esta manhã seria diferente... – ela disse com um olhar um tanto filosófico.
Franzi o cenho.
- Por que seria diferente?
- Ah, não sei. Intuição feminina talvez.
Seu sorriso foi tão inocente que foi impossível perguntar-lhe qualquer outra coisa. Melhor assim. Não estava preparado para conversar sobre Harry e o que acontecera entre nós. Talvez nunca estivesse.
- E os meninos?
- Alfred e Angel foram caminhar com os cães.
- Acha prudente? A casa está bem protegida, mas nunca se sabe... – preocupei-me.
- Há um Auror com eles. O jovem Gray.
Ah, sim. O homem de nome Hugh Gray. Era bastante jovem e impetuoso. Alto, forte e extremamente educado. Gray fazia o possível para ficar invisível e não atrapalhar nossa rotina. Os meninos pareciam gostar dele. Além disso, Gray não se mostrava defensivo na minha presença como os outros Aurores. Era uma mudança e tanto para um Auror. Não que eu ainda gostasse de Aurores na minha casa, mas Gray ao menos não me desagradava. E Harry parecia confiar plenamente nele, pois ele fora um dos escolhidos para ficar em casa e guardar o segredo.
A outra Auror, de nome Cindy Sinclair, também não atrapalhava nem parecia me julgar com o olhar.
Passei o dia a vagar pela casa, tentando sem sucesso não pensar no que Harry estaria fazendo. Imaginei se ele teria coragem de partir para o Egito sozinho. Minha paranóia chegou a tal grau que cheguei a pensar que ele só dormira comigo para tirar o meu sangue quando eu estivesse dormindo, cobrindo qualquer vestígio do mesmo com magia.
Sentei-me ao piano com a alma turbulenta. Nem Astoria conseguiu me deixar mais calmo. Achei que dormir com Harry uma vez ao menos bastaria. Porém, eu queria mais. Muito mais. Eu o queria todo pra mim. Tive um ódio enorme de Gina Weasley, muito maior do que jamais havia sentido. Se Harry, todavia, havia feito sexo comigo daquela forma tão intensa, ele não devia amar a esposa tanto assim.
A música me deixou em transe. O som soturno me envolveu. Podia sentir o suor em cada poro do corpo. Devia parar, mas não conseguia. Assim que terminava uma música, começava outra ainda mais intrincada, mais desafiadora. Perdi a noção das horas e só parei quando uma mão tocou a minha com firmeza. Quase pulei de susto. Olhei para o lado e vi os olhos verdes fixos em mim. Meu coração disparou.
- Autoflagelação não combina com você. – ele disse.
Engoli em seco. Procurei no seu olhar qualquer coisa que me desse uma pista de como ele se sentia com relação a nós dois. Seu rosto era uma incógnita.
- Quem disse que isso é autoflagelação? – retruquei com a voz rouca. Pigarreei, mas não adiantou muito. – É apenas música. E a música faz bem pra alma, não é?
A mão forte tocou meu rosto. Estremeci.
- Talvez. E, no entanto, você está suando bicas. Mas ao menos parece não estar com febre.
- É claro que não estou com febre! Não é o piano que me deixa doente.
- Não... É a magia. O que me deixa em um dilema terrível. Não posso levar você pro Egito nesse estado, mas eu preciso de você...
Ouvir que Harry Potter precisava de mim nunca era demais. Meu coração disparou.
- Eu vou ficar bem. – murmurei.
Seus olhos fixaram-se nos meus por um longo tempo. Ser presa dos olhos verdes me deixou sem saber o que dizer. A verdade era que tinha medo do que Harry estaria pensando sobre tudo, mas especialmente sobre nós. Não era da natureza do nobre Harry Potter se deixar levar por um simples momento de desejo, o que significava que seu desejo por mim vinha de muito tempo, e tornara-se forte o suficiente para que ele deixasse sua esposa de lado. Era uma ideia inconcebível, mas eu não conseguia frear minha esperança de que aquilo fosse verdade.
Harry Potter me queria. Era um fato. Desde quando era um mistério. Mas havia coisas mais importantes do que o tempo. Gina Weasley. Onde ela entrava nessa história toda?
Não queria bancar a mulherzinha da relação, mas acho que era tarde demais pra isso. Eu precisava conversar sobre o que acontecera.
- Sobre ontem à noite...
- Nós fizemos sexo. – a afirmação soou fria e impessoal. Era o Auror Chefe falando.
Suspirei. Odiava o tom clínico.
- Pensou que eu fosse negar o que aconteceu? – ele questionou, provavelmente pela expressão do meu rosto.
- Honestamente, não sei o que pensar no momento.
- Quer fingir que nada aconteceu? – ele voltou a indagar.
Olhei Harry como se ele fosse um estranho.
- Você não quer? – foi a minha vez de perguntar, surpreso.
Pela primeira vez desde que Harry colocara os pés na minha vida novamente, eu o vi evitar meu olhar como se escondesse alguma culpa. Ou talvez vergonha. Ou talvez os dois. Senti uma dor no peito.
- Honestamente, - ele começou, me remedando. – não sei. Uma coisa é certa, eu não quero conversar sobre isso nesse momento. Não vou negar o que aconteceu, porque isso seria hipocrisia. Mas também não vou analisar as razões do meu ato de loucura.
- Também foi meu ato de loucura. Não acha que eu tenho direito de...
- Me colocar na parede? – ele me cortou um tanto irritado. – É, você tem. Assim como eu tenho. Não esperava por nada do que aconteceu, Malfoy, mas aconteceu. E com tantas coisas acontecendo no momento, vou precisar de um tempo pra processar tudo...
- Gina Weasley? – perguntei quase num fio de voz, temendo sua reação ao nome da esposa sendo dito por mim.
Mais uma vez, no entanto, Harry me surpreendeu. Não havia raiva no seu olhar nem em sua voz quando ele disse:
- Já faz um bom tempo que ela é conhecida como Gina Potter, Malfoy. E se pudéssemos deixá-la de fora por enquanto, eu agradeceria. Além disso, não sei exatamente como olhar pra suamulher.
Éramos dois.
- Meu casamento com Astoria não é verdadeiro. – confessei. Harry era a primeira pessoa a quem eu contava aquilo.
Os olhos verdes me fitaram novamente. Decidi continuar:
- Foi um casamento de conveniência. Até que tentamos no início, e assim nasceu Scorpius, mas Astoria e eu somos mais amigos do que amantes. – Senti um alívio enorme ao deixar as palavras saírem.
Harry levantou-se.
- Não posso encarar isso agora, Malfoy.
Eu me levantei também e me postei na frente dele.
- Não pode encarar o fato de que me deseja tanto quanto eu te desejo? – pressionei.
- Isso eu já encarei na noite passada. O que eu não posso lidar no momento são as conseqüências do que aconteceu. Temos assuntos mais urgentes a resolver.
Dei um sorriso escarninho.
- O nobre Harry Potter. Trabalho em primeiro lugar.
- Trabalho que tem tudo a ver com você, e misturar as coisas não está me ajudando a pensar com mais clareza. – ele desabafou.
- Certo. Devo esperar o famoso: 'a noite de ontem foi um erro?'
Harry passou a mão pelos cabelos negros, despenteando-os ainda mais. Tive vontade de fechar a distância entre nós e passar meus braços ao redor de seu ombro.
- Não é... Quer dizer, não que... – Harry deu um suspiro frustrado. Era a primeira vez que eu o via sem palavras. Por minha causa. – Droga, Malfoy! Nós somos adultos, não adolescentes. Casados e com filhos. Então...
- Então?
Meu coração estava quase saindo pela boca.
- Não posso fazer isso agora.
Ele deu meia-volta e caminhou até a porta, mas parou assim que a mão tocou na maçaneta. A tensão em seu ombro era evidente. Harry estava sofrendo tanto quanto eu. O fato apenas serviu para me deixar mais ansioso. Se isso fosse um romance, o próximo passo era óbvio. Eu deveria sair correndo, me declarar pra ele e cair em seus braços beijando-o apaixonadamente. Infelizmente, na minha triste realidade, eu era um grande covarde. Meus pés estavam colados ao chão. Já podia até visualizar meu próximo passo. Harry deixaria a Mansão, e eu me acabaria ao piano. Draco Malfoy, o rei do drama.
Mais uma vez, porém, Harry me surpreendeu. Ele veio até mim com passos decididos, os olhos brilhando como um lince prestes a pular sobre a presa indefesa. Um de seus braços me enlaçou e me puxou contra seu corpo como se eu fosse feito de papel. Gemi antes mesmo que sua boca cobrisse a minha. Seus lábios me machucaram, mas quem estava se importando? Retribui na mesma moeda, minha boca encontrando a sua com sofreguidão. Meus dedos se fecharam em seu robe como garras.
Mordi seu lábio inferior para logo em seguida passar a língua sobre ele, saboreando-o. Harry gemeu. E para meu desespero, ele se afastou.
Nada mais foi dito. Mesmo que eu quisesse, não conseguiria dizer uma palavra sequer. Harry parecia estar se sentindo da mesma forma. Havia conflito em seu olhar, e dor. Finalmente, ele se foi. Não voltou dessa vez.
Fiquei parado no mesmo lugar por sabe-se lá quanto tempo. Queria gritar, mas fiquei calado. Como um sonâmbulo, sentei-me novamente ao piano e pus-me a tocar.
Réquiem de um Malfoy.