Capítulo 12

4582 Palavras
Retiro o que disse. Harry Potter era um babaca. Tudo o que havia feito até aquele momento era observá-lo ensinar Alfred a canalizar seu poder para a varinha ao invés de destruir tudo ao redor. Não que não fosse interessante. Harry era um bom professor. Paciente, porém firme. Lembro-me que Harry bancou o professor de Defesa Contra Arte das Trevas em Hogwarts. Lembro-me também da inveja que senti por não poder fazer parte do grupo, por isso quis entregá-lo para Umbridge. Já ouvira diversas vezes que McGonagall não se cansava de convidá-lo para ser professor em Hogwarts. Imagino, porém, que, embora a oferta lhe fosse tentadora, Harry nunca deixaria a profissão que tanto amava. Tentei me livrar das lembranças incômodas do passado em Hogwarts focando em coisas mais mundanas. Como por exemplo, os dotes físicos de Harry. Estava tendo dificuldade em desviar o olhar da figura forte. Harry agora usava suas roupas trouxas. Ele tirara o robe momentos antes e ficara apenas de jeans e suéter preto. Harry não era excessivamente musculoso, o que me agradava. Seu corpo era esculpido com perfeição graças a sua profissão. Profissão detestável, é verdade, mas que o trouxera para minha casa e também lhe delineara as coxas e quadris. Por mais aborrecido que estivesse por estar sendo ignorado, ficar só olhando definitivamente tinha suas vantagens. A forma como o jeans agarrava suas pernas e quadris estava me deixando louco. O modo como seus olhos brilhavam de felicidade por estar fazendo algo que obviamente lhe dava prazer também me encantava. Harry era encantador. - Espero que esteja prestando atenção, Malfoy, porque você é o próximo. Pisquei. Eu era o próximo a fazer o quê? Era difícil me concentrar em qualquer outra coisa que não fosse seu corpo. Harry tinha um sorriso nos lábios como se ele soubesse exatamente a causa da minha distração. Tive vontade de morder aquela boca carnuda. Harry mostrou mais alguns truques a Alfred, que fingia desinteresse, mas de fato estava cada vez mais fascinado por Harry Potter, um homem que ele odiara até então. Um homem que agora lhe estendia a mão e lhe mostrava que era de confiança. O homem que eu amava. - Estou esperando, Malfoy. Não tinha reparado que Alfred se sentara ao lado de Angel, nem que Harry me esperava. Senti o rosto esquentar. Levantei-me devagar e parei na frente dele. Tirei a varinha do bolso. Senti descargas de eletricidade subirem pelo meu braço. Harry apenas me olhou, o que me deixou incomodado. Franzi o cenho. - O que foi? – perguntei. - Não tem roupas mais confortáveis? Ou sempre se veste como se estivesse indo a um baile, Sua Alteza? Sempre se achou um príncipe, não é? Olhei de relance para minhas vestes cinza claro. O tecido de seda caía bem em mim. Desde pequeno eu aprendera a sempre me vestir bem qualquer que fosse a ocasião. Harry estava errado. Eu não me achava um príncipe. Eu era um príncipe. - Faz diferença? – dei de ombros. – Por séculos bruxos vêm duelando entre si com roupas ainda mais pesadas do que estas. Esse robe foi desenhado por um dos melhores costureiros bruxos de Paris. - Não dou à mínima. Vá vestir um jeans e uma camiseta. Bufei. Não era a primeira vez que ele me dava ordens. - E se eu não quiser trocar de roupa, Potter? Ele sorriu de maneira diabólica. - Sem problemas. Posso resolver isso com um toque da minha varinha. Já vou avisando, porém, que você pode acabar nu. Não podia perder aquela oportunidade. Sorri de volta com ainda mais malícia. - Por que simplesmente não confessa que me quer nu? – provoquei. - E por que eu iria querer ver alguém magro como você nu? - Ah. Então qualquer homem sarado serve? Harry fez uma careta sabendo muito bem que havia acabado de cometer um lapso na ânsia de me ofender. Notei o rubor na face morena e meu eu interior deu pulos de alegria. - Hei! Querem parar com isso? Essa conversa está me dando arrepios... – disse Alfred, nos olhando com estranheza. Foi como um balde de água fria. Dessa vez eu fiquei tão sem graça quanto Harry. Havia me esquecido completamente da presença dos meninos. Resolvi acatar a ordem de Harry, mas por pura curiosidade. Queria saber o que ele tinha reservado pra mim. Escolhi um jeans que havia comprado em uma das lojas trouxas mais caras de Londres, e um suéter bege de cashmere Armani. Podia continuar com ar de doente, mas ao menos estava bem vestido. Era preciso manter o ar de dignidade de um Malfoy. Harry não foi rápido o bastante para esconder sua aprovação, e quem sabe atração? Talvez fosse sonhar alto demais. Mas com todas aquelas trocas de olhares e conversas cheias de duplo sentido, como eu podia esmagar minhas esperanças de que Harry talvez estivesse interessado em mim? Ilusões... Estava tão desesperado que começava a imaginar coisas. - Sou todo seu. – disse, e juro que sem segundas intenções. - É mesmo? – Harry perguntou com um ar maroto. Ele definitivamente estava me provocando. Tive vontade de continuar o jogo para ver até onde ele iria, mas me contive. Angel e Alfred ainda estavam ali. O pequeno parecia alheio ao que realmente se passava. Alfred, no entanto, estava numa idade muito perigosa. Era melhor tomar cuidado. Harry pareceu se dar conta também, porque no minuto seguinte voltara a ser o sério Auror Potter. Começamos com alguns exercícios mágicos leves, e me senti de volta ao meu primeiro ano em Hogwarts. Era impossível estar com Harry e não ser remetido ao passado. Impossível não me deixar levar pelas emoções. As lembranças passaram pela minha mente na velocidade de um raio. Harry e eu na floresta proibida. Harry e eu duelando, e Harry falando com a cobra. Nossas várias brigas. A dor em seus olhos quando ele foi atrás de Snape para se vingar da morte de Dumbledore. Meu desespero ao vê-lo prisioneiro na Mansão. A humilhação por perder minha varinha. Sua mão segurando a minha e salvando minha vida. Parei por um momento, levemente enjoado. Harry veio até mim. - Tudo bem, Malfoy? - Tudo ótimo, Potter. Vamos continuar. – abri os olhos e fingi uma confiança que não sentia. Era imprescindível que eu não desmoronasse. Precisava mostrar a Harry que tinha melhorado, mesmo que não fosse toda a verdade. - Acho melhor pararmos por aqui. – ele disse com ar de suspeita, guardando a varinha logo em seguida. - Não terminamos ainda. – retruquei, apertando a minha varinha nas mãos. – Além disso, foi idéia sua lembra-se? - Foi, mas também prometi a sua mulher que iríamos devagar. - Nós m*l começamos, Potter! - Você m*l se agüenta em pé, Malfoy. - Bobagem. Sinto-me ótimo! Como que para provar o contrário, minha vista escureceu e eu tombei pra frente. Para minha completa humilhação, Harry me segurou. Ele me pegou nos braços como se eu fosse de papel. Resmunguei. Para ser honesto, tudo o que eu queria era encostar minha cabeça em seu ombro e descansar ouvindo o som de sua respiração. - O que aconteceu? Ele vai ficar bem? – ouvi Alfred perguntar. Ele vinha caminhando ao lado de Harry com Angel agarrado às suas vestes. - Eu estou... – tentei dizer, mas fui cortado bruscamente por Harry. - Ele está sendo teimoso, mas vai ficar bem. - Potter... – teoricamente minha voz deveria ter soado mais ameaçadora e não um mero murmúrio. - O quê? Vai dizer que deveríamos continuar mesmo sabendo que não é verdade? Deixa de ser teimoso! Que droga, Malfoy! Eu devo estar enlouquecendo mesmo se ainda tenho esperanças de te levar comigo pro Egito nesse estado... Sorri debilmente. - Ah, mas é perfeito, Potter. Eu sou o sacrifício. Ou será que ainda não percebeu? Só o que tem a fazer é me deixar sangrar para pegar o livro. Não precisa de mim saudável, apenas vivo. - Se eu quisesse você morto teria te deixado na Sala Precisa. E pare de bancar o engraçadinho. Cale a boca. Franzi o cenho. Ele estava mesmo zangado. Será que era preocupação? Ou simplesmente irritação por ter que me carregar até o quarto? Pensando bem, o todo poderoso Potter podia simplesmente ter usado um feitiço ao invés de bancar o cavaleiro medieval. Meu coração deu um salto olímpico. A maneira delicada como ele me deitou na cama me comoveu. O olhar, porém, continuava duro. Tive vontade de me encolher. Senti a mãozinha de Angel apertar a minha, e por um instante me esqueci de Harry. Os olhos verdes infantis me olhavam com apreensão e doçura. Ele estava mesmo preocupado. Senti-me culpado. Como uma criança que até pouco tempo atrás era uma completa desconhecida poderia se preocupar tanto com uma pessoa como eu? Harry acariciou os cabelos castanhos. - Não precisa se preocupar. O i****a só precisa descansar. – disse ele para confortar Angel. - Hei! – reclamei. - Não acha idiotice preocupar seus filhos à toa? – ele me questionou com um brilho no olhar. Meus filhos. A súbita realização deste fato caiu sobre mim como uma bomba. Eles agora eram meus filhos. Os papéis da adoção ainda estavam para sair, mas o processo já começara. Olhei para Alfred, que parecia tão abalado quanto eu, como se apenas naquele momento tivesse se dado conta da nova realidade. - Se vai ser mesmo nosso pai, é bom melhorar logo. – resmungou o adolescente. – Não gosto de ter um pai inválido... E dizendo isso pegou na mão de Angel e saiu do quarto. Franzi o cenho. Ao meu lado, Harry sorria. - Acha isso engraçado? – perguntei irritado. - Você não? Alfred já se afeiçoou a você, sabe-se lá porque razão. Talvez. Não que eu realmente me importasse. Fiz uma careta. A quem eu queria enganar? Tinha um carinho especial por aqueles meninos. Eu os salvara afinal de contas. Depois de um tempo, Harry recomeçou: - Estava falando sério, Malfoy. Não vejo como você pode ir comigo ao Egito. A idéia me parece bastante absurda agora. Mais do que antes. - Eu vou melhorar, Potter. - Só usamos feitiços básicos, Malfoy, e olhe o seu estado! Meu estado, eu finalmente começava a acreditar no meu psiquiatra, tinha tudo a ver com o passado. Eu só começara a realmente me sentir m*l naquele dia depois que as lembranças desagradáveis haviam me invadido e enfraquecido o meu espírito. Harry era grande parte do problema, mas não era o único. Eu era um homem assombrado. Suspirei. Para meu total espanto, senti um toque leve na minha mão esquerda. Meu coração disparou. Minha respiração se acelerou. Olhei para Harry tentando enxergar em seus olhos o que aquele toque queria dizer. Nada. O adolescente Harry Potter havia sido tão fácil de interpretar, talvez devido à pureza do seu coração. Seus sentimentos sempre estiveram à flor da pele. O adulto Harry Potter já era mais complicado. Ele havia experimentado coisas demais, visto e sentido muitos horrores para continuar o mesmo. Os olhos verdes ainda irradiavam calor, mas não eram mais duas janelas abertas. Já não era tão fácil saber o que se passava em sua mente. Uma pena. Sentia falta do Harry moleque. - É bom melhorar logo. – ele sussurrou. Meu coração se derreteu. - Harry... Não lhe passou despercebido o fato de eu ter usado o seu primeiro nome. Pude ver em seu semblante que ele estava confuso, e talvez até surpreso. Provavelmente consigo mesmo. A mão que me acariciava de leve parou. Era como se só então ele tivesse se dado conta do que vinha fazendo. O ambiente ficou tenso, mas antes que eu pudesse dizer alguma coisa, Astoria entrou no quarto. - Draco, querido, você está bem? Ouvi Alfred dizer que... Ela se calou quando viu Harry na beira da cama. Não sabia se me sentia grato a ela por nos interromper antes que eu fizesse papel de palhaço, ou se espumava de raiva por mais uma oportunidade perdida. - Está tudo bem, Astoria. – disse já cansado de me repetir. - A culpa foi minha. Prometi ir devagar, mas acho que exagerei. – Harry se desculpou. Revirei os olhos. - Bobagem. Não exagerou, Potter. Aliás, se a gente tivesse continuado... - Ia desmaiar no gramado? Provavelmente, mas eu não costumava desmaiar com muita facilidade. Só umas três vezes por semana. Fiz uma careta. - Bem, já que todos concordam que preciso descansar, será que posso ficar sozinho? Não que eu realmente quisesse me livrar de Harry. Meu coração, porém, precisava de uma pausa. Achava que ter Harry por perto seria bom. Realmente era. Mas também tinha seus revezes. Ele simplesmente assentiu e saiu do quarto sem dizer mais nada. Achei aquilo estranho, mas não estava em condições de ir atrás dele, nem de gastar minhas energias tentando entendê-lo. - Exagerou, não é? – Astoria me perguntou, vindo até mim e afofando meu travesseiro. - Não. Potter está exagerando. Astoria deu um suspiro. - Achei que tê-lo aqui fosse uma boa idéia, mas agora não tenho certeza... Peguei em sua mão delicada. Estava tão fria quanto a minha. Não éramos dados a gestos de carinho, mas às vezes eu sentia falta de contato humano. Não ter Escorpio por perto estava acabando comigo. Eu costumava abraçá-lo o tempo todo. Fiquei imaginando se ele sentia a nossa falta. Provavelmente sim. Mas com a vida agitada em Hogwarts, a falta dos pais durava pouco. Pensei em lhe escrever. Não mencionaria Alvo Severo. Quando Escorpio estivesse pronto, falaria sobre ele. Fechei os olhos. Odeio admitir, mas eu estava mesmo exausto. Assim que Astoria me deixou, adormeci. Acordei horas depois e tomei um banho. Desci sabendo que já era hora do jantar. Curiosamente, estava com fome. Angel me presenteou com um sorriso quando me viu. Alfred me olhou de relance. Sabia que se importava, mesmo que não parecesse. Harry não jantou conosco. Ele havia saído logo após me deixar no quarto sem dizer aonde ia. Senti sua falta, e ao olhar Astoria com os meninos à mesa de jantar, desejei que eu e Astoria pudéssemos nos apaixonar. Seria ótimo para os meninos e para a minha paz de espírito. Se ao menos meu coração não pertencesse a Harry. Muito mais tarde, quando tocava piano com Angel, deixei que minha mente fosse tomada por Harry. Graças a isso, minha música foi melancólica. Há dez anos eu havia começado a compor achando que seria uma terapia. Dera certo por um tempo até Harry voltar a dominar todos os meus pensamentos e estragar tudo. Havia uma música só para ele é claro. Uma melodia triste e inacabada. Meus dedos correram pelo piano a procurar por ela. O começo invadiu meu espírito, alegre, pulsante. Não demorou muito para começar o drama. Não foi uma boa idéia, mas não pude evitar. Fiquei febril. Senti o suor escapar do meu corpo. Minha alma se dilacerou em mil pedaços. Então veio a última nota, o término abrupto, o silêncio à espera do fim derradeiro. Parei. Não havia fim, nem nunca haveria. Estremeci. Só me lembrei de Angel ao meu lado quando ele me olhou como se me entendesse. Era impossível que uma criança da idade dele soubesse o que eu estava sentindo. Angel, porém, não era uma criança comum. Havia um entendimento mútuo entre nós. Sorri para não preocupá-lo. Não sei se deu certo. Ele continuou com o semblante sério. Ergui uma das mãos lentamente e acariciei os cabelos castanhos. Angel finalmente sorriu. Tive vontade de apertá-lo nos braços como costumava fazer com Escorpio. O relógio anunciou dez horas. Angel já deveria estar na cama. Estava achando estranho que Astoria não houvesse aparecido. Ela sempre vinha atrás de Angel. - Acho que passou da hora de dormir, mocinho. – disse. Levantei-me e vi Angel fazer o mesmo. Quando me virei tomei um susto. Harry estava ali tal qual uma estátua grega. Ele parecia exausto. Os olhos verdes, no entanto, brilhavam intensamente. Havia admiração naquele olhar, mas também algo mais. Algo que parecia espelhar o que eu sentia. Tristeza misturada com resignação. Desejo de que as coisas fossem diferentes. Ou talvez eu simplesmente estivesse imaginando tudo. Não consegui dizer nada, mas pelo menos eu não fui o único a perder a fala. Harry parecia tão perdido quanto eu. Angel pegou na minha mão e a puxou de leve. - Tudo bem? – ele perguntou. Eu sorri e assenti. Obviamente que nada estava bem, mas Angel não precisava saber. Ele era extremamente sensível. Alfred apareceu atrás de Harry. - Ah, aí está você. A Sra. Malfoy está te procurando. Já passou da sua hora de dormir. Então dessa vez Astoria mandara Alfred nos interromper ao invés dela mesma. Quis dar uma gargalhada. O que Astoria estaria pensando? Devia ter uma conversinha com ela, mas me faltava coragem. - Mas eu não tô com sono. – Angel reclamou pela primeira vez. Alfred pegou na mão do irmão e enquanto o levava para fora o ouvi dizer: - Eu te conto uma história. - Sobre duelos bruxos? – os olhinhos verdes se iluminaram. Franzi o cenho. Desde quando o pequeno gostava de ouvir sobre duelos bruxos? - É. Sobre duelos bruxos. O melhor de todos! Merlin contra a Ordem de Fênix! Foi a vez de Harry franzir a testa. Não consegui não rir. Harry olhou para mim imediatamente e minha risada morreu. - Boa noite! – exclamou Angel antes de sair. - Boa noite. – Harry e eu respondemos ao mesmo tempo. O silêncio preencheu novamente o aposento quando os meninos se foram. Harry caminhou na minha direção. Fiquei paralisado. Infelizmente, eu não era o seu objetivo, mas sim o piano atrás de mim. Ele parou na frente do instrumento e delicadamente pressionou algumas teclas. Tomei coragem para chegar mais perto. - Sempre me surpreendo quando vejo você tocando. – ele disse quase num sussurro. Meu coração foi a mil. - Porque assim você é obrigado a me ver como um ser humano? – retruquei. Nossos olhos se encontraram. Harry estava terrivelmente sério. - Talvez. - E com certeza isso é um destino pior que a morte. – dei um sorriso de lado. - Não chegaria a tanto. – Harry sorriu de volta com o mesmo cinismo. – Como você está? - Bem melhor. Foi só uma recaída. - Ninguém me diz nada de concreto, o que me deixa fulo da vida. – Harry bateu nas teclas com mais força, tirando um som de arrepiar os cabelos. – O que exatamente você tem? Os olhos verdes pareciam querer me perfurar. Sem me conter dei um passo pra frente. Era agora ou nunca. Harry nem piscou. Continuou me encarando, me desafiando. - Pensei que não se importasse. - Vamos ter essa conversa de novo? – ele perguntou cruzando os braços. - Não, droga. Você é que me deixa fulo da vida! Porque quando começa a falar assim eu acho que se importa! – respondi, irritado. - Faz assim tanta diferença eu me importar ou não? É claro que fazia! A pergunta, porém, era uma pegadinha. Qual seria a resposta que ele queria escutar? - Por que você se importa com o que eu me importo? – ele insistiu. - E por que você se importa? A conversa estava me deixando com dor de cabeça. Harry suspirou. - Certo. Nós dois nos importamos. O porquê não importa no momento. Franzi o cenho. - Não? - Não. O que eu quero saber é o que exatamente você tem. Hermione já ouviu falar de alguns bruxos que perderam a magia com o passar do tempo, mas esses são raros. E nenhum deles se sentia doente como você. Eu já sabia de tudo aquilo. Afinal de contas, já convivia com minha condição há mais de 10 anos. - Acha que vou morrer? – perguntei. - Não sei o que achar no momento. Vai? Havia preocupação em sua voz e em seu olhar. Eu não estava sonhando. Não podia estar. Harry não era assim tão bom ator, e não mudara radicalmente com o passar do tempo. O velho Harry Potter ainda estava ali, talvez não com as emoções à flor da pele, mas quase. Meu coração vibrou. Talvez... Cheguei mais perto. Nossas respirações se misturaram. - Não se atreva a me perguntar por que eu me importo. – ele rosnou. As defesas de Harry estavam todas acionadas. Interessante. Se eu desse mais um único passo nossos corpos se tocariam, assim como nossas bocas. Esse era o momento de Astoria entrar e nos interromper. Esperei alguns segundos. Nada. - Todo mundo morre um dia. Mas ainda não chegou a minha hora. – respondi num murmúrio. – Não sei o que eu tenho. Ninguém sabe realmente. Alguns acham que é puramente psicológico. Mas não é contagioso. E embora me debilite ao extremo, também não parece fatal. Mas talvez... talvez no futuro eu venha a perder completamente meus poderes. - Por quê? Havia um quê de desespero na voz, mas bem disfarçado. Sorri e dei de ombros. - Quem é que sabe. Justiça divina talvez? O que interessa é que eu estou bem o suficiente para ir com você ao Egito. - Não está, e esse é o problema! Ele pegou meu braço com força e me puxou. Nossos corpos se colaram. Nossas respirações erráticas agora pareciam uma só. - Estou considerando a hipótese de simplesmente levar um frasco com seu sangue e ver se dá certo. Era uma idéia, e nada má. Mas de jeito nenhum eu deixaria Harry ir naquela viagem sem mim. - De jeito nenhum você vai sozinho, Potter! Se quiser o meu sangue, vai ter que duelar comigo! - Como se isso fosse um grande desafio, Malfoy... Lembra-se de quem caiu quase morto das últimas vezes em que duelamos? Se é que aquilo pode ser considerado um duelo... – zombou Harry. Cerrei os punhos de raiva. - Afinal de contas, por que quer tanto ir? – ele insistiu. Gelei. Não podia dizer a verdade de maneira alguma. Não podia dizer a ele que eu só queria ficar ao lado dele, que saber que ele precisava de mim realmente me dava forças para acordar todas as manhãs. Ele não só não acreditaria em mim como também me mandaria direto para St Mungus. O jeito era mentir de tal forma que ele não mais me questionasse. - Tenho interesse direto nessa história não só pelo bem de Angel – o que era verdade. – mas porque o livro tecnicamente pertence aos Malfoy. Eu quero o que é meu por direito. O desprezo no olhar de Harry foi intenso e imediato. Odiei-me por aquilo, mas não havia nada que eu pudesse fazer agora. Era tragicamente engraçado que Harry acreditasse mais na mentira da minha suposta – e esperada – ganância Malfoy, do que no fato de eu amá-lo. A vida realmente era uma droga. Ele me soltou como se eu fosse um ser repugnante, e deu alguns passos pra trás. - Então é isso? – ele rosnou. – Só quer colocar as mãos no Livro como aquele bando de malditos do Grupo dos Poderosos? Depois de afirmar tantas vezes ser diferente deles? - Não! Não vou usar o Livro para trazer Slytherin de volta! - E pra que exatamente quer o Livro? Pra colocá-lo na estante e mostrar ao seu grupinho de amigos bruxos esnobes que tem o poder de reviver quem quiser? - Não seja melodramático! - Como não, Malfoy? Eu nem acredito que me preocupei com você! Meu coração quase parou de susto. Será que eu tinha estragado tudo? Será que eu deveria ter me arriscado mesmo que... Mesmo que o quê? Nosso relacionamento já era mais do que complicado, e eu acabara de fazê-lo ainda pior. - Você não entende. – repliquei. - Acho que eu entendo até demais. De alguma forma eu tinha a esperança de que você realmente houvesse adquirido uma alma nesses anos todos... Mas tudo não passa de um jogo, não é mesmo? Seu interesse por Angel, sua súbita vontade de me agradar... - Você não sabe de nada! – exclamei, os nervos à flor da pele. - Sei que você continua o mesmo egoísta de sempre! A acusação doeu muito mais do que eu pensara. Senti meu coração se encolher. Não queria Harry me olhando com todo aquele ódio. Não mais. Estava tão cansado daquele jogo de gato e rato. - Se eu te dissesse a verdade, você não acreditaria em mim, Potter. - Que verdade? - Essa. Sem pensar no que estava fazendo ou nas conseqüências dos meus atos, dei alguns passos rápidos na direção dele e o beijei. Não foi uma cena romântica, nem um beijo delicado. Foi um beijo rude, desajeitado, zangado. Eu queria provar mais do que o gosto de sua boca. Queria provar a ele que eu não estava ali pela glória, nem pelo maldito Livro. Estava ali por ele. Embora o momento parecesse perdurar no tempo, não durou mais que alguns segundos. Harry me empurrou pra trás com força e colocou uma grande distância entre nós. A essa altura, eu já nem conseguia pensar em nada. Meus olhos não conseguiam desgrudar dos olhos verdes. Tentei desesperadamente ler os seus sentimentos. Raiva, surpresa, confusão. Ele estava perturbado. O silêncio foi tão opressor que senti o aposento encolher ao meu redor e me esmagar. - O que significa isso? – ele finalmente perguntou. - O que você acha? – ousei replicar. - Não faça isso, Malfoy... – ele avisou. - Não faça o quê? - Não me provoque. E o que exatamente ele queria dizer com aquilo? Não me provoque ou vou beijar você de volta, ou não me provoque ou vou te estuporar? Molhei os lábios secos com a ponta da língua. - E se eu disser que... – respirei fundo. Era preciso mais do que coragem para o que eu tinha a dizer. – Se eu disser que só o que eu quero é... - Dormir comigo? Arregalei os olhos. Aquela era a última pergunta que eu esperava ouvir da boca dele. A verdade nua e crua. - É isso? Sente-se atraído por mim? É um gay enrustido? – ele continuou. Mordi o lábio e cerrei o punho. - Não! Não sou gay. Não sinto atração por homens. - Sei... - É verdade! Você não entende! Não é... Eu não... - Procure outra pessoa, Malfoy. Não estou a fim de jogar esse jogo. - Droga, Potter! Você realmente não entende, não é? - Me faça entender então! Ele cruzou os braços a espera da minha resposta. Acho que podia tomar aquilo como um sinal positivo. Ele estava zangado, mas não me dera um soco, nem ameaçara me levar pra St Mungus. - Eu quero você. Só você. – disse num fio de voz. Os olhos verdes brilharam. Harry nunca me parecera tão ameaçador, nem tão sexy. Nem tão perdido. Ele abriu a boca, mas pareceu pensar melhor e a fechou. Tentou de novo. Nada. Finalmente, ele deu meia-volta e me deixou sozinho. Assim que Harry sumiu de vista, deslizei ao chão com as mãos no rosto. Estava mais do que exausto agora. O que eu fizera? Será que dava tempo de voltar atrás? Lançar um feitiço de memória no momento todo? Como se eu fosse conseguir lançar um feitiço contra Harry, qualquer que fosse. Dei uma risada amarga, seguida de um soluço estrangulado. Tudo estava perdido. O que aconteceria dali pra frente era um mistério.
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