Duas atividades conseguiam me acalmar quando a ansiedade me atacava e eu me sentia como que preso dentro de mim mesmo, desesperado pela liberdade de simplesmente ser: caminhar pela minha propriedade tendo meus cães por companhia, e tocar piano.
Meu pai nunca havia gostado muito da ideia de que eu tocasse piano. Era, na visão dele, coisa de maricas. Minha mãe, porém, havia feito questão de que eu aprendesse. A arte de tocar piano, de correr os dedos pelas teclas, é mágica. Faz com que nossa alma transcenda a cada nota. Pelo menos era como eu me sentia.
Com a alma aos pedaços, me sentei ao piano e comecei a tocar. Rachmaninoff, concerto n.2. Deixei que a música tomasse conta do meu ser. Não tinha uma orquestra a me seguir, mas pude ouvi-la mesmo assim, cada instrumento entranhado em mim. Deixei-me levar com a esperança de que me esquecesse de Harry e do fato de não saber absolutamente nada sobre O Livro dos Mortos exceto o que estava escrito em livros de história bruxa e trouxa.
O Livro dos Mortos, um artefato egípcio desejado por todos aqueles apreciadores de magia ou história. Dizem que foi confeccionado há mais de três mil anos, por um bruxo poderoso da época. O livro continha poções e encantamentos. Um guia espiritual para a vida após a morte. No entanto, ia muito além. Era um livro de magia n***a. Dizia poder trazer os mortos à vida desde que se tivesse um recipiente apropriado. Um corpo dotado de alma. Não era um tópico para fracos, e era tão tabu quanto as Maldições Imperdoáveis. No passado, porém, não havia sido. Não era essencialmente um livro maligno. Havia coisas além do nosso conhecimento nele. Muito além de pura e simples magia n***a. Certo. Não tão simples, mas não menos interessante.
Os trouxas achavam que o tinham, ou ao menos parte dele, num museu em Londres. Um papiro de 24 metros. Continha coisas extraordinárias, é verdade, mas a parte que faltava continha encantamentos de arrepiar os cabelos. Era muito melhor e maior. Era completa. Talvez tivesse uns 50 metros ao todo, ou mais. Ninguém sabia com precisão. Uma janela para o outro mundo. Fora achado por nada menos que um trouxa. Mas diziam os livros que um bruxo havia feito a troca sorrateiramente, e a parte verdadeiramente bruxa havia há muito desaparecido. A parte que restara, embora interessante historicamente, não tinha nada de bruxaria em si.
E eu não fazia ideia de onde estava. Meu único consolo era saber que os Poderosos também não sabiam. Já havia me informado sobre o assunto. Burke fora, como sempre, reticente em suas respostas. Mas sendo um expert em artefatos de magia n***a, era o homem ideal para se tentar obter informações. Ao menos ele havia me dito ter certeza de que ninguém sabia da localização do Livro dos Mortos.
Menos m*l, menos m*l.
Concentre-se na música, Draco. Talvez você obtenha respostas com ela. Eu esperava que cada nota me trouxesse inspiração se não esquecimento. Apenas eu e a música.
Um barulho repentino me tirou do ritmo. Olhei a minha volta e encontrei os olhos verdes infantis de Angel me observando. Ele parecia assustado por ter sido pego me espionando. Sorri.
- Tudo bem, Angel? – perguntei com suavidade.
Ele assentiu.
- Gosta de piano?
- Gosto. Eu ouvia de vez em quando... quando a gente morava perto do teatro...
- Venha até aqui então.
Após uma leve hesitação, ele veio se postar ao meu lado. O encorajei a sentir as teclas sob seus dedos, o que ele fez quase com reverência. Lembrei-me de Scorpius brincando ao piano com a mesma idade. Scorpius tocava, mas não tinha a mesma paixão que eu pelo instrumento. Podia ver, no entanto, que o pequeno já mostrava sinais claros de quem tinha jeito pra coisa. Para meu espanto, ele conseguiu tocar os primeiros acordes do concerto n.2 de cor. E era tão pequeno. Fiquei encantado.
Toquei mais um pouco e fiquei impressionado com sua habilidade em me copiar. Ele parecia sentir a música tanto quanto eu. Não tinha ainda a mesma delicadeza, mas tinha talento nato. Ele era um prodígio.
Sorrimos um para o outro. Alguns acordes mais complicados. Ele se atrapalhou um pouco, mas conseguiu assim mesmo. Incrível.
Comecei a tocar Pathetique, de Beethoven. Não menos difícil, mas não tão intricado quanto Rachmaninoff. Depois foi a vez de Konna ni Chikaku de. Era mais suave, com um quê de canção de ninar. Ele me acompanhou muito bem. Foi assim que nos deixamos levar pela melodia. Eu sorri como há muito não sorria. A meiguice e inocência de Angel finalmente me conquistaram por inteiro. Até então ele fora apenas um meio de manter Harry por perto. Agora eu realmente o via pela primeira vez. Eu via o garotinho frágil e adorável que pessoas como Goyle queriam transformar em Slytherin. Era tão surreal quanto nós dois tocando naquela sala juntos. Eu tinha que protegê-lo.
Astoria chegou pouco depois para levá-lo para tomar um lanche. Não me juntei a eles. Continuei a tocar, minha mente mais leve. Quanto eu havia mudado em apenas poucos segundos. O piano era realmente mágico. E nem era bruxo.
Eu queria Harry com todas as minhas forças, mas já não via a necessidade de usar crianças inocentes para que eu passasse uns poucos minutos na companhia dele. Será que eu finalmente estava amadurecendo? Sorri. Antes de tarde do que nunca.
- Não sabia que tocava piano. – disse uma voz as minhas costas.
Errei o tom e minhas mãos congelaram. Como eu não o vira chegar? Como não percebera sua presença? Eu sempre sabia quando Harry estava por perto. Sabia que ele costumava me seguir usando a capa da Invisibilidade durante os anos em Hogwarts. Ele, porém, sempre conseguia me surpreender. Como aquela humilhante cena no banheiro de Hogwarts onde ele me flagrara chorando. E depois quase havia me matado numa batalha que saíra ao nosso controle.
Tremi de leve.
- O que está fazendo aqui? Não acha que deveria ter batido primeiro? – perguntei seco.
Virei-me para encará-lo. Os olhos verdes brilhavam mais do que o normal, como se algo o tivesse emocionado. Minha música talvez? Era pedir demais. Mas não era a esperança a última a morrer?
- Desde quando você toca?
Típico dele ignorar minhas perguntas.
- Desde pequeno. Não que isso seja da sua conta.
- Não esperava que você tivesse um lado tão...
- Humano? – completei por ele.
- Suave.
Escondi minhas mãos trêmulas nos bolsos do robe.
- O que veio fazer aqui?
- Não foi você mesmo que me disse que sua casa estava a minha disposição?
Touché.
- Se veio conversar com os meninos...
- Já tentei. Alfred não me contou muita coisa, e não creio que Angel realmente saiba do perigo que corre.
- Então acredita em mim agora?
- Nunca disse que não acreditava. Só disse que não era Voldemort o objetivo de toda essa loucura.
Ele caminhou até a janela e olhou para fora. Seus olhos pareceram se perder na imensidão. Já os meus se perderam em sua silhueta contra a luz.
- O livro que está no Museu Britânico definitivamente não é bruxo. – ele disse.
- Não precisava ter se dado ao trabalho de ir até lá. Eu poderia ter lhe dito isso. Além do mais, Potter, se o papiro que está no museu trouxa fosse realmente bruxo, acha que ainda estaria lá depois de todo esse tempo? Acha que alguém já não o teria usurpado?
Ele suspirou.
- Tínhamos que nos certificar, Malfoy. Faz parte de uma investigação. Burocracias necessárias... Não imagino que você saiba o que é isso. Afinal, alguma vez na vida trabalhou em alguma coisa?
Bem, era parcialmente verdade. Ouvir isso da boca dele, porém, magoava.
Levantei-me zangado.
- Acha que passo o dia todo sem fazer nada? A família Malfoy tem negócios.
- Ah, sim. Lucius Malfoy tem ações em várias empresas bruxas... Inclusive algumas trouxas. Como ele se apropriou delas, porém, é algo a ser investigado a fundo. Especialmente as de origem trouxa...
- Pensei que o seu Esquadrão de super-heróis já tivesse investigado os Malfoys de cabo a r**o.
- Seu pai é um mestre em negócios obscuros.
Isso era inegável. De forma bastante distorcida, muitos tinham inveja daquele lado pra lá de esperto do meu pai. Eu inclusive. Eu até tentara me espelhar em Lucius, mas falhara miseravelmente. Hoje em dia, aquele estilo de vida já não me seduzia. Não queria mais poder, ou fama, ou dinheiro. Não queria a glória ou o mundo bruxo aos meus pés. Queria apenas Harry Potter. Eu sempre queria o impossível, cada vez mais...
- Veio falar do meu pai?
- Não. – Harry se aproximou de mim com a aparência exausta. – Vim até aqui porque preciso deixar algumas coisas bem claras. Não sei exatamente o que pretende...
- Não posso simplesmente querer ajudar?
- As coisas nunca funcionaram assim entre nós, Malfoy.
- Bem, mas é como eu quero que elas funcionem agora.
- Não acha isso um tanto absurdo?
- Escuta, Potter. – levantei-me e corajosamente fui me postar a frente dele. – Eu realmente não quero um replay do que aconteceu há vinte anos. Mesmo que seja Slytherin quem eles querem, e Slytherin na verdade é uma alternativa agradável em vista das circunstâncias...
- Em vista de quais circunstâncias exatamente?
Harry parecia bastante zangado. Endireitou os ombros e cruzou os braços.
- O mundo bruxo nunca esteve tão bem. – Harry começou a enumerar. – Os crimes baixaram, as leis estão mais justas, os impostos...
- Blah-blah-blah. Eu sei, Potter. Exceto pela Gangue dos Bruxos, o mundo bruxo realmente se tornou mais seguro com você no comando dos Aurores, e com... – fiz uma pausa. Se meu pai me ouvisse dizer aquelas coisas com certeza me deserdaria no ato. -... Shacklebolt como Ministro da Magia. Ninguém teria coragem de dizer o contrário.
- Ao menos não na minha frente.
- Com certeza não. Mas isso não vem ao caso. Eu realmente quero proteger esses meninos... – Parei de falar porque literalmente perdi a fala quando meus olhos se perderam nos dele.
Harry me olhava com tanta intensidade que seria difícil voltar a ter um pensamento coerente. Pelo menos por um tempo.
- Está tentando usar Legilimência pra cima de mim de novo? – consegui perguntar.
- Você me confunde... – ele disse, para minha total e absoluta surpresa.
- Isso é novidade.
- Pensei que estaria pulando de alegria ante a ideia de ter Slytherin no comando. Achei que fosse estar do lado dos seus amiguinhos daquele grupinho de super poderosos...
Fiz uma careta.
- Acho que pular de alegria é um pouco demais.
- Sabe o que quero dizer. Eu tenho ficado de olho em você.
Aquilo me irritou e me agradou ao mesmo tempo. Eu era um paradoxo ambulante.
- Não faz parte do grupo. Revirei sua vida de cabeça pra baixo nessas últimas semanas.
Definitivamente, estava irritado agora.
- Descobri que você m*l sai de casa, Malfoy. Em todos esses anos, você m*l saiu da Mansão.
Dessa vez fui eu a lhe dar as costas e fitar a paisagem lá fora. Meu rosto estava extremamente quente. Sentia o embaraço queimar minhas entranhas. Ele havia descoberto tudo? Era humilhante demais.
- Está em tratamento com um psiquiatra bruxo.
- Estou de férias no momento. – tentei ironizar.
- E sei que tem sofrido de alguma deficiência mágica... talvez causada por esses problemas psicológicos que têm enfrentado nesses anos todos.
- Isso tudo é informação mais do que confidencial! Como descobriu tudo isso?
Sabia que devia estar mais do que pálido. Meu estômago se revirou imediatamente, e uma tontura me invadiu. Fechei os olhos. Se a escuridão me envolvesse agora eu lhe daria boas vindas. Tudo para fugir daquele momento tão desagradável.
Harry Potter definitivamente havia virado o novo Dumbledore do mundo bruxo. Ele parecia saber de tudo. Tudo mesmo.
- Malfoy.
- Como descobriu? – tornei a insistir.
- Eu sou um Auror. É o meu trabalho.
- Essas informações, porém, eram altamente confidenciais. Ou ao menos eu pensava... Acho que não se pode mesmo confiar em ninguém...
Eu iria matar o meu psiquiatra.
- Não foi assim que fiquei sabendo. E isso não vem ao caso. O fato é que...
- Como assim não vem ao caso? Isso é invasão de privacidade!
- Eu precisava me certificar de que o seu envolvimento nessa história realmente aconteceu por acaso. E por mais difícil que seja, acredito em você.
Arregalei os olhos. Meu coração quis saltar pela boca.
- Acredito que não esteja envolvido com o Grupo dos Poderosos. – ele continuou. – E pelo jeito, está mesmo falando sério quando diz que quer proteger os meninos... Eles parecem gostar daqui. Sua esposa não é como eu esperava...
- O que esperava?
Ele fez uma careta, como se estivesse se perguntando se deveria me dizer ou não.
- Esperava que ela fosse como você.
- E isso é r**m por quê?
Ele deu uma risada seca.
- Preciso mesmo responder?
Já podia imaginar exatamente o que ele havia pensado de Astoria. A versão feminina de Draco Malfoy. Harry não era o único. Mas todos eles não podiam estar mais enganados.
- Enfim, o fato é que eu agradeço sua ajuda, mas...
- Agradece? É isso? Você agradece minha ajuda, mas agora quer que eu me afaste e...
- Droga! Quer calar a boca e me deixar falar? – Harry disse bastante irritado.
Infelizmente, calei-me na mesma hora. i****a.
- Não quero que você se meta mais nessa história. – ele disse.
- Já estou metido nela, se é que ainda não percebeu! Até o pescoço! – retruquei.
- Você não está em condições de ajudar, Malfoy! Será que anda se olhando no espelho?
Não sei se ele queria me magoar, ou se estava apenas querendo me fazer enxergar a realidade. Acho que os dois. Dei as costas a ele, e o espelho enorme acima de lareira me mostrou o que ele queria dizer. Eu estava branco, quase translúcido. Também estava terrivelmente fraco e magro. Todo o meu charme passado havia se esvaído.
Humilhante.
Harry caminhou na minha direção e parou a alguns centímetros atrás de mim. Ficamos nos olhando pelo espelho, vívidos olhos verdes contra opacos olhos acinzentados. Mordi o lábio. Harry abriu parcialmente os dele. Se eu me virasse naquele momento, e se eu o beijasse, o que ele faria? Eu podia estar acabado, é verdade, mas ainda não estava morto. E o meu desejo por Harry era mais forte do que tudo, até do que minhas fraquezas. Se bem que meu desejo por ele era uma fraqueza em si. Ou não. Quis rir, gargalhar. Não pegaria bem naquele clima de enterro.
- Vou ser o fiel do seu segredo. Os garotos podem continuar aqui. – ele disse finalmente. – Mas é só. Esqueça do Livro dos Mortos. Isso é assunto do meu Esquadrão.
Virei-me lentamente. Nossos corpos quase se tocaram. Estremeci de leve. Rezei para que ele pensasse ser de frio.
- Ótimo. – disse, surpreendendo a mim mesmo. – E só para sua informação, vou adotar os meninos.
Harry arregalou os olhos. Peguei-o desprevenido. Bom.
- Não acha que está se precipitando um pouco? Ou será que tomou essa decisão só porque descobriu a ligação de Angel com Slytherin? – Harry disse com suspeita.
- Honestamente, Potter! – exclamei, ultrajado. – Se esse realmente fosse o caso, eu já teria entregado Angel aos Poderosos! Sei que é difícil aceitar sem que você tenha vontade de me internar em St Mungus, mas eu tenho sentimentos! E gosto mesmo dos meninos! Eu sou pai, sabia? Amo meu filho! Acha que não penso em Scorpius toda vez que olho para Angel e Alfred? Acha que não fico imaginando o que teria acontecido a ele se eu tivesse sido morto ou preso?
Eu estava mesmo falando grosso com Harry? Sorri por dentro. Senti-me mais vivo do que nunca.
- Diga o que quiser, mas eu vou adotar os meninos. – continuei. – E se souber de qualquer pista sobre o livro dos mortos, vou atrás dele! Não importa o que você diga. Ainda não estou morto.
- Ainda? O que isso quer dizer? O que você tem realmente? – ele me perguntou, e pareceu genuinamente preocupado.
Ora, ora. O que isso queria dizer?
Antes que eu dissesse algo, porém, Astoria apareceu na sala.
- Draco, querido, algum pedido especial para o...
Sua voz melodiosa morreu assim que se deparou comigo e com Harry. A poucos centímetros um do outro. O rosto de ambos vermelhos pela discussão de outrora. Temia o que ela devia estar pensando. Ainda bem que Astoria não era mulher de dar escândalos. Ou de fazer comentários inapropriados. Embora levemente ruborizada – como eu deveria estar no momento – simplesmente sorriu e disse:
- Me desculpe. Não sabia que o Sr. Potter estava aqui. Devia ter batido.
- Está tudo bem.
- É. Eu já estava de saída. – disse Harry, recobrando-se do que quer que tivesse acontecido há poucos segundos. – E você, - falou, olhando na minha direção, - esqueça essa história!
- Qual delas? – perguntei, cruzando os braços numa atitude que deveria parecer ameaçadora, mas que devia estar mais para infantil.
- Todas. Pense um pouco antes de agir, Malfoy. Não tome decisões de impulso só para me irritar.
Ok. Culpado. Mas eu realmente queria adotar os meninos. Agora a ideia não parecia tão assustadora. Eu gostava mesmo deles. Será que era assim tão inacreditável?
Harry não se despediu de mim quando saiu, mas ao menos foi educado o suficiente para se despedir de Astoria, que agora me olhava curiosa.
Suspirei, minhas forças drenadas. Sentei-me na poltrona mais próxima. Astoria correu para o meu lado, preocupada. Era preciso contar a ela tudo. Assim, coloquei-a a par das minhas decisões.