Capítulo 16

2067 Palavras
Não importava o que eu fizesse, eu sempre seria vista como uma pessoa horrível, mas a grande questão é que desde o dia do meu nascimento eu não tive sequer a chance de ser qualquer outra coisa, era como se já estivesse predestinada a falhar. Eu não acredito que nenhum ser superior ou força do universo desejou que eu tivesse uma vida em cárcere com um pai inescrupuloso e enfrentasse as piores atrocidades que um psicopata com a ajuda do sistema judiciário corrupto pudesse cometer, mas por favor, sejamos francos, eu nunca tive a chance de escapar de nada disso, e antes de considerar que eu consegui fugir aos 17 anos é só me recordar que eu não passei nem um dia em liberdade antes de ser capturada pela polícia. De um ato violento veio o meu bem mais precioso e eu sequer podia estar perto dele, eu estava condenada a nunca ser feliz, mas se há uma coisa que eu aprendi neste tempo todo é que eu nunca deveria desistir de tentar. Respirei fundo batendo na porta, esperei impaciente até que a porta fosse aberta por um garotinho moreno de sorriso largo e fofo. - Sua mãe está em casa, pequeno? - questionei vendo-o franzir a testa, sorri ao vê-lo ficar na ponta dos pés como se quisesse me mostrar que não era pequeno de fato. - Qual delas? - olhei para trás dele esperando avistar mais alguém na casa porém era meio difícil já que ele mantinha somente uma fresta aberta. - Há mais de uma? - perguntei confusa, ele fechou a porta rapidamente mas ela logo se abriu exibindo quem eu tanto procurava. - Diretora Stevens. - sorri aliviada por vê-la. Fazia alguns meses que não nos víamos e mesmo ela me trazendo lembranças daquele lugar horrível em que vivi por anos eu ainda conseguia sorrir ao ver seus olhos gentis esverdeados que me causavam uma sensação de paz. - 0805. - ela murmurou dando passagem para que eu entrasse em sua casa. - Desculpe, você está fora, devo usar outra coisa além do seu número de identificação. - Griffin é melhor, pode me chamar assim. - coloquei as mãos nas costas endireitando minha postura, mesmo fora da prisão eu sentia a necessidade de demonstrar respeito por ela. - Então você é casada com uma mulher? - ela assentiu que sim antes de sumir por um cômodo e retornar com dois copos de suco. - Como me achou, e por que? - engoli a seco aceitando o copo de sua mão, nos sentamos no sofá e ela esperou pacientemente até que eu estivesse pronta para falar. - Eu procurei seu endereço no google. - expliquei baixinho cabisbaixa. - Eu sinto muito ter vindo, mas eu preciso de ajuda e você foi a única pessoa na prisão que não me julgou ou me tratou como um animal. - ela me deu um sorriso compreensivo ao passo que colocava sua mão em meu joelho dando um tapinha leve. - Está tendo problemas com a justiça? - assenti com a cabeça em afirmação mesmo que não fosse bem isso. - Você agrediu alguém de novo? - Não, não é isso! - me apressei em falar antes que ela me olhasse como uma criança rebelde assim como fez quando eu bati em uma detenta que disse que meu filho havia sido morto e jogado em qualquer buraco como merecia. - Eu só quero ver o meu filho. - O bebê que tiraram de você? - assenti que sim. - A essa altura ele deve estar com uns dez anos ou algo assim!? - Sim. - sorri ao me lembrar do Theo. - A história é longa mas para encurtar, ele foi adotado quando pequeno por uma mulher chamada Sophia Hastings, mas agora eu soube que talvez ele esteja correndo risco de vida. - c****e! - a diretora murmurou perplexa, se levantando do sofá ela levou uma de suas mãos aos seus fios loiros os arrumando nervosamente.- Que mundo pequeno. - franzi a testa desconfiando de sua reação, talvez ela não fosse confiável e apoiasse o Jack. - Sophia sabe que você é a mãe do filho dela? - arqueei a sobrancelha ao ver sua cara de preocupação, desviei rapidamente minha atenção para a escada de sua casa onde o Theo estava parado ao lado do filho da diretora espiando a conversa. Será que ele tinha escutado algo? - Você é a minha mãe? - senti minha alma me abandonar naquele instante, por sorte eu estava sentada senão minhas pernas teriam falhado, engoli a seco me levantando rapidamente. - Você é a mulher que me abandonou? - Melhor eu ligar para a Sophia. - ouvi a diretora Stevens pronunciar enquanto eu me aproximava da escada para falar com o Theo. Tentei pensar em algo coerente para dizer a ele, talvez eu pudesse mentir e dizer que ele ouviu errado... Não, péssima idéia, a primeira coisa que direi ao meu filho não pode ser uma mentira, eu já estava lidando com as consequências de mentir para a sua mãe, não poderia carregar outro fardo. - Theo. - chamei vendo ele dá um passo para trás subindo um degrau. - Eu não queria que soubesse dessa forma, eu sinto muito... - observei seus lábios tremerem anunciando seu choro, engoli a seco tentando não chorar também. - Você me abandonou! - ele pronunciou bravo ao passo que suas lágrimas caiam sem sequer tocar as suas bochechas. - Eu não abandonei você, eu juro que eu não queria que... - Madelyn! - olhei para porta vendo a Sophia entrar desesperada. - Tantos lugares para você ir e tinha que ser justamente aqui que seu contato mora? - Sophia resmungou me encarando. - Na próxima você me diz o nome da pessoa que vai procurar só para checarmos se ela não é uma das minhas melhores amigas. - Você veio voando? - a loira perguntou porém foi ignorada pela Sophia que atravessou a sala e parou ao meu lado no pé da escada. - Você sabia que ela era a minha mãe? - Theo perguntou direcionando sua raiva a uma Sophia completamente desesperada e perdida, ela abriu a boca pra falar algumas vezes mas nada saia, no fundo eu sabia que ela temia magoá-lo. Eu não poderia submetê-la a isso, então segurando sua mão eu tomei a sua frente impedindo que ela dissesse algo. - A Sophia não sabia, eu menti para ela. - falei ocultando a parte que eu havia contado tudo há uma semana. - Eu enganei ela para poder ficar perto de você. Havia tanta mágoa e raiva em seu olhar que aquilo me quebrou de formas inimagináveis, a última coisa que eu faria neste mundo seria abandoná-lo mas as circunstâncias estavam contra mim lhe mostrando o oposto. Observei ele subir as escadas sendo seguido pelo filho da diretora e a Sophia, retornando a sala parei ao lado da Stevens. - Então quer dizer que 0805 e Alice são a mesma pessoa. - assenti que sim mesmo que não lembrasse de ter lhe dito o meu primeiro nome. - Eu sinto muito por tudo. - ela me deu dois tapinhas nas costas, dei-lhe um sorriso forçado sem conseguir fingir o quão m*l estava. - Minha esposa tem uma solução perfeita para os problemas. - a encarei esperando que ela me dissesse que tipo de solução mágica seria essa. - Whisky. - Eu agradeço, mas é melhor que eu vá embora antes que eles desçam - murmurei baixinho caminhando até a porta. - Pensei que precisasse da minha ajuda. - confesso que eu já estava cogitando descobrir tudo sozinha pois não tinha nenhuma garantia que a Stevens fosse realmente confiável, mas agora que eu sabia que ela era uma das amigas da Sophia eu poderia confiar que ela me ajudaria a proteger o Theo. - Eu aceito a ajuda, e o whisky. - sorri grata me permitindo ser guiada até a sua cozinha. - Você sabia que com um pouquinho de comunicação, todos nós poderíamos ter nos conhecido há meses? - ela riu do próprio pensamento balançando a cabeça negativamente. - Em que posso ser útil? A observei pegar dois copos e a bebida, me sentei próximo ao balcão ao passo que era servida por ela. - Você me disse uma vez que sempre trabalhou no sistema, então você deve conhecer bem o Gregory Jackson, o antigo diretor. - ela se inclinou sobre o balcão prestando atenção no que eu falava. - Há treze anos ele era policial assim como o meu pai, em pouco tempo se tornou delegado e em menos de três anos ele já era administrador da prisão, eu não entendo muito bem disso mas me parece rápido demais para alguém que... - Não tem uma das mãos? - ela sorriu porém logo ficou séria novamente, com certeza seu senso de humor era incomum. - Voltando ao que importa, é estranho que alguém tão displicente como o Jackson tenha subido de cargo rapidamente. - Exatamente. - concordei com ela. - Eu queria saber se você pode acessar os registros da prisão nos últimos anos, procurar alguma irregularidade envolvendo ele. - Claro que posso, sempre tive minhas suspeitas de que aquele lugar estava funcionando a base de chantagens e torturas, Gregory tinha seus próprios métodos para fazer justiça. - suspirei tendo certeza de que eu havia sido um dos alvos dele. - Mesmo que este método fosse manter preso pessoas que sequer tiveram direito a julgamento as acusando de crime hediondo apenas para acobertar os erros de um policial corrupto. - virei a dose de whisky na boca sentindo o líquido descer queimando minha garganta. - Nunca imaginei que o Theo teria um passado e tanto. - ela murmurou me servindo mais whisky. - Quando eu e minha esposa adotamos o Henry a princípio não queríamos saber de seu passado, mas ele veio a tona há pouco tempo e no fundo eu fico feliz por isso pois deu a chance ao nosso filho de se despedir de seu pai biológico antes que ele morresse. - Não sei se a Sophia queria que ele soubesse da existência de sua família biológica, no fundo eu entendo pois eu não gostaria de saber que fui gerado de uma forma tão horrível, mas ela está se saindo muito bem. - me permiti sorrir observando a ruiva adentrar a cozinha. - Quem está se saindo bem? - Sophia questionou tomando o copo da minha mão o bebendo de vez, nem falei nada, sabia que ela precisava daquilo muito mais do que eu. - Você está se saindo muito bem, não investigou a vida do seu filho e terminou beijando a boca da mãe dele. - neguei com a cabeça rapidamente ao ouvir a Stevens falar aquilo. - Adoraria ficar aqui e ouvir todas as piadinhas que você tem para fazer sobre isso mas eu preciso levar o Theo para casa, ele não está se sentindo bem. - afundei meu rosto em minhas mãos me sentindo culpada por aquilo. - Não se preocupe Alice. - senti a mão da Sophia tocar o meu ombro o apertando levemente. - Ele vai me odiar agora. - murmurei baixinho sem me atrever a olhá-la. - Quando tudo isso passar nós sentaremos e explicaremos para ele que você nunca quis deixá-lo. - fiz um som nasalado em concordância mesmo que não acreditasse que isso serviria de algo. - Farei o meu melhor para ajudá-las a encontrar provas contra o Gregory. - Stevens murmurou se levantando e saindo da cozinha. - Voltarei para casa com o Theo e trabalharei com a Alison no caso, temos algumas pistas sobre o paradeiro da sua mãe, ela também tem culpa nisso. - m*l havíamos começado aquilo e eu já sentia minha cabeça latejar. - Obrigada por estar me ajudando com isso. - toquei sua mão sobre o meu ombro erguendo o meu olhar até fixar no seu. - Tudo o que eu quero é que fiquemos bem outra vez e possamos... - Ser boas mães para o Theo. - ela me cortou se desvencilhando do meu contato. - Estamos fazendo isso por ele. - assenti levemente dando-lhe um sorriso fraco. Parece que eu realmente perdi as minhas chances com ela, ao menos, eu ainda tinha seu apoio para me aproximar do meu filho e isso era tudo o que eu mais desejava naquele momento.
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