A última coisa que eu queria é que o Theo estivesse no meio daquela situação, já estava sendo extremamente difícil para mim lidar com tudo aquilo tão de repente, não queria que meu filho fosse exposto e acabasse ficando m*l com tudo isso, primeiro eu absorveria as coisas e então quando fosse seguro eu lhe contaria a verdade.
Colocando a mochila em suas costas, ajeitei suas roupas deixando um beijinho em sua testa logo em seguida.
- Eu não quero ir para a casa do Henry agora.- franzi a testa surpresa com o que o Theo disse, ele sempre queria estar com o Henry, na verdade era difícil fazê-lo ficar longe de seu melhor amigo.
- Vocês brigaram de novo por causa daquele jogo? - questionei o segurando pela jaqueta carinhosamente. - Meu filhote, eu já te falei que se o Henry quiser jogar com outras pessoas isso não se configura como traição.
- Não é isso. - ele resmungou baixinho dando um passo para trás fazendo minhas mãos se desvencilharem de sua roupa. - Eu não quero deixar você sozinha.
- Oh meu amor. - o puxei para um abraço. - A mamãe precisa trabalhar agora mas eu prometo que estou bem.
- Você jura de dedinho? - ele me estendeu seu dedinho esperando que eu o segurasse com o meu, engoli a seco forçando um sorriso sabendo muito bem que juramentos de dedinhos eram muito sérios para o meu filho, eu não estava bem de verdade, mas ele não iria embora se eu fosse sincera, e eu precisava receber a Alice sem tê-lo ali.
Eu disse que ela havia ido embora da minha vida e eu não queria confundi-lo com sua volta ainda, já bastava toda a tristeza que ele exalou por dias a fio e suas tentativas de me fazer comprar bolinhos para trazer a Alice de volta.
- Eu juro de dedinho. - entrelacei meu dedo ao seu unindo nossos polegares em seguida dando um beijinho na minha mão para finalizar como sempre fazíamos. - Agora você vai lá e trate obedecer as Stevens-Miller. - ele me deu um beijo na bochecha e saiu do seu quarto correndo indo encontrar a babá que o levaria para dormir fora.
Suspirei alto me levantando dos meus joelhos, desci as escadas indo até a porta dos fundo da casa, abri olhando em volta do meu quintal logo encontrando a Alice encostada a parede como se aquilo a deixasse invisível.
- Isso era mesmo necessário? - revirei os olhos ignorando sua pergunta enquanto dava passagem para que ela entrasse.
Nos reunimos na sala onde a Alison estava sentada esgotando minha garrafa de whisky sem permissão.
- Vocês estavam namorando esse tempo todo ou o que? - respirei fundo tendo certeza de que seria uma longa tarde com as perguntas inconvenientes da Alison. - Preciso do seu notebook ruiva.
Sem questionar fui até meu escritório buscá-lo, aproveitei e peguei o tablet do Theo para ajudar no que quer que ela fosse procurar.
- Está faltando algo ruiva. - Alison pronunciou antes que eu sentasse no sofá ao seu lado. - Os arquivos do caso que lhe entreguei.
- Achei que fôssemos falar sobre a adoção do Theo. - murmurei confusa, Alison me olhou cética por longos segundos enquanto Alice coçou a nuca mordendo o lábio inferior como se escondesse algo, deixei um riso escapar não entendendo nada. - Aquele caso não tem nada a ver com a adoção do Theo afinal aquilo fala sobre a condenação de uma assassina que... - a frase morreu em meus lábios ao ver o olhar vazio da Alice. - É o seu caso?
- Sim, é o meu caso. - senti uma tontura se abater sobre mim, sentei devagar no sofá erguendo a cabeça para não vomitar.
Como um flash, todas as informações e fotos que vi do caso invadiram minha mente me causando náuseas, eu não tinha nojo ou medo da Alice, pelo contrário, me sentia m*l por ela ter vivido tudo aquilo.
- Hastings, eu preciso do caso. - olhei para a morena ao meu lado perplexa. - Eu sei que é muito para processar agora mas...
- Muito para processar? - questionei incrédula com a sua indiferença em dizer aquilo. - Eu estou há quase 4 meses vivendo este caso em segredo de todo mundo, eu li cada depoimento e nota sobre como aquele homem foi assassinado depois de ter seu m****o arrancado com uma tesoura enferrujada e sem nem ter a chance de sair da casa ele morreu carbonizado, você quer mesmo que eu acredite que a adolescente que fez isso era a Alice? - apontei para a mulher parada a minha frente que até então estava em silêncio. - Eu a vi ter medo de um cachorro no nosso quinto encontro, ela agarrou meu pescoço e quase me estrangulou só porque o animal cheirou o pé dela, ela não faria isso...
- Cachorros com certeza são melhores que o nosso pai mas fazer o que se a Alice tem medo não é!? - ela riu sozinha de sua própria piada. - Você é muito esperta Sophia, eu sei disso pois além de ler a sua ficha eu te observo há anos. - arqueei a sobrancelha não gostando de saber que eu estava sendo vigiada este tempo todo e nunca notei. - E é muito fofo que enxergue o lado bom da Alice a ponto de não acreditar que ela cometeu homicídio, mas agora eu preciso que confie na gente e acredite em tudo o que diremos, e outra coisa, apesar de ter sido uma morte dolorosa lembre-se que a verdadeira vítima era a criança estuprada constantemente que perdeu alguns dentes de tanto levar socos, que teve a virilha queimada com cigarros e precisou cometer um homicídio senão ela seria o corpo caído no chão daquela casa.
- E se eu não quiser confiar em vocês? - perguntei fitando os olhos azuis da Alison que parecia serenos demais para citar todas aquelas coisas horríveis.
- Então você nunca poderá proteger o seu filho de algo que desconhece, fora que, um dia ele perguntará sobre o passado dele e de onde veio... - olhei para a Alice que sorriu tristemente como se tivesse vergonha de todo seu passado. - É melhor que você saiba o que responder, senão ele poderá procurar por conta própria e não vai gostar do que encontrar.
- Eu sei que menti para você... - Alice se ajoelhou a minha frente colocando suas mãos em meus joelhos, engoli meu desconforto em tê-la tão próxima prestando atenção em seus olhos. - Mas eu nunca faria nada para machucar o Charlie, e eu sei que você não quer tanto quanto eu que ele descubra do jeito errado que é filho de uma ex-condenada e que seu pai era um estuprador. - assenti concordando com suas palavras. - Eu sinto muito que este seja o único passado que eu tenha a oferecê-lo, nenhuma criança deveria saber de algo assim.
O Theo já tinha uma vida muito difícil sem tudo aquilo, eu não queria que ele se sentisse m*l por seu passado.
- O nome dele é Theodoro. - murmurei após alguns instantes vendo ela morder o lábio inferior sem graça. - Eu entendo que deu um nome ao seu bebê, mas agora ele se chama Theo. - ela assentiu em concordância e eu entendi que respeitaria isso.
Toquei a sua mão suavemente a removendo de cima de mim, me levantei indo até o meu escritório pegando todos os documentos, voltei a sala deixando-os sobre a mesinha de centro.
- Por que me queria na investigação do caso da Alice? - perguntei enquanto pegava o notebook para abrir alguns arquivos que eram confidenciais.
- Desconfio que a pessoa que queria destruir a Alice a mantendo presa ainda esteja na polícia, eu só poderia confiar em você. - Alison me entregou um dos papéis que deixava claro que a Alice nunca foi a julgamento em um tribunal porque consideravam que as provas de seu crime eram irrefutáveis.
- Por que só destruir a mim me separando do Char... - ela parou a frase no meio ao perceber o que iria dizer e logo se corrigiu. - do Theo se a Alison também foi abusada por anos e ficou grávida? - arregalei os olhos incrédula com aquilo.
Olhei rapidamente para a Alison que parecia neutra diante daquilo, eu realmente não entendia o por que elas se comportavam daquela maneira, pois não era possível que fossem indiferentes a toda dor que passaram, talvez só estivessem tão acostumadas com aquele sofrimento que se tornou algo cauterizado.
Pelo visto elas sofreram tanto que já era algo comum em suas mentes, e isso só tornava tudo extremamente pior.
- O meu bebê morreu, eu fui embora de Hope Garden e desde que voltei fiquei em silêncio sobre tudo, o que restou foi a minha palavra somente e ela não vale de nada diante da reputação do admirável policial condecorado Thomas Griffin. - Alison explicou sem nem tirar os olhos de um dos papéis sobre o caso. - Você é a única que tem uma prova substancial circulando com o DNA do Tom por aí, fora que o Theo provavelmente foi escondido porque com uma gota de sangue ele pode provar que os abusos foram reais e que a Alice nunca deveria ter sido presa visto que foi legítima defesa.
- Vamos fazer isso! - murmurei como se fosse óbvio.
- Provamos que seu filho veio de um estupro incestuoso e ai o que? - Alison murmurou cética e se recostou no sofá me encarando. - Entregamos as provas numa polícia corrupta que protege o estuprador para que destruam tudo e logo em seguida queiram colocar uma bala no meio da testa daquela criança de sorriso fofo? - fiquei em silêncio diante de suas palavras pesadas e desnecessárias. - Seja esperta, ruiva.
- Nada aconteceu ainda porque estamos em silêncio. - Alice murmurou se sentando ao meu lado, movi meu corpo um pouco para o lado oposto mantendo uma certa distância. - Temos que descobrir o que aconteceu nos últimos quatro meses para que eu tenha conseguido sair da prisão e me aproximar de vocês.
- A pessoa pode ter morrido. - sugeri tentando pensar com clareza mas ninguém poderia me culpar por não conseguir, apesar de conhecer todo o caso agora era diferente.
Eu estava diante da pessoa que li nos últimos meses, e meu coração não podia estar mais perturbado do que naquele momento, era muito difícil associar a mulher a minha frente de lindos olhos castanhos a adolescente grávida que cometeu aqueles crimes horrendos para fugir do cárcere.
Eu fui bombardeada com as coisas mais inescrupolosas e doentes que um pai poderia fazer as suas filhas, a pessoa que deveria amá-las as destruiu de maneiras inimagináveis e para a minha surpresa ambas agiam como se o inferno que passaram fosse aceitável.
- Ele não morreu, ele está hospitalizado. - corrigi minhas palavras digitando rapidamente algo que me lembrei sobre o caso. - Das 7 audiências que a Alice solicitou ao longo dos anos na penitenciária havia somente uma pessoa em quase todas elas, Gregory Jackson, na última década ele fazia parte do conselho da prisão que decidiu em todas as audiências ao longo de 8 anos que a Alice não deveria ir ao tribunal revogar a sua pena que a princípio era de 47 anos em regime fechado.
- Ele era o parceiro do meu pai na polícia, depois que a Alison fugiu eu lembro que ele sempre ia até a nossa casa dar atualizações sobre o paradeiro dela. - Alice apontou para uma das foto do google que exibia o homem.
- Seus 47 anos viraram 10 por que o Jack está doente? - Alison questionou tentando se convencer daquilo.
- Eu não sabia que ele estava por trás disso, mas depois que a diretora interina o substituiu tudo ficou melhor para mim lá, e ela acreditou quando eu disse que foi legítima defesa, ela conseguiu convencer o conselho a me soltar. - Alice explicou sorrindo de modo esperançoso, ignorei a pontada em meu coração desviando meu olhar de seu rosto rapidamente. - Ela foi a única que acreditou em mim lá dentro. - toquei a sua coxa sorrindo também feliz por ela não ter estado completamente sozinha no pior lugar do mundo.
- Vamos reunir provas para que quem fez isso a você pague pelo resto da vida. - pronunciei decidida, eu não queria apenas garantir que meu filho ficasse bem, no fundo eu também queria que a Alice nunca mais corresse o risco de passar por mais nada horrível na vida. - Você e o Theo ficarão seguros e poderão se conhecer sem ter medo de que alguém possa machucá-los.
- Vou ligar para essa diretora interina e ver o que ela tem a dizer sobre esse tal de Jack, ou talvez você possa ir vê-la Alice e ela se lembre de você. - Alison anunciou se levantando do sofá mas a ignorei mantendo meus olhos fixos na Alice.
- Eu sinto muito ter trazido esse caos todo para a sua vida. - ela falou baixinho fazendo um biquinho chateado como se eu realmente pudesse me importar com a bagunça a aquela altura.
Era exatamente igual ao que o Theo fazia sempre que estava encrecado com alguma coisa, deixei um sorriso escapar ao me lembrar disso.
- Você me trouxe também o meu bem mais precioso nessa vida. - ergui minha mão removendo uma mecha do seu cabelo que estava na frente do seu rosto a colocando atrás da orelha para poder vê-la melhor. - Eu estou muito perdida e chocada com tudo, mas podemos enfrentar isso juntas.
- Você jura de dedinho? - encarei o seu dedinho erguido em minha direção, ela ficou ali esperando que eu o segurasse com o meu, ironicamente ela e o Theo eram parecidos nisso também, engoli a seco não tendo certeza se poderia prometer que tudo ficaria bem facilmente, mas eu faria até mesmo o impossível para que a Alice e o Theo ficassem seguros.
- Eu juro de dedinho. - entrelacei meu dedo ao seu sorrindo, quando estava para me desvencilhar ela ergueu o polegar esperando que eu unisse o meu ao dela.
- Agora o beijinho na mão. - ela se aproximou das nossas mãos me olhando fixamente, deixamos um beijinho ao mesmo tempo selando assim a promessa.
Percebi naquele momento que seria difícil lidar com todo o passado das Griffin's sendo jogado em meu colo de repente, mas, seria ainda mais difícil passar aquele tempo ao lado da Alice fingindo que não sinto mais nada.
Como que eu superaria o que meu coração sente por aquela mulher?