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999 Palavras
SAIMON NARRANDO Faz exatamente dois anos que Sophia está sendo treinada e está dentro do quarto vermelho. É assim que chamamos o lugar onde ela passa a maior parte do tempo, o lugar criado especificamente para o treinamento dela. O quarto é um galpão enorme dentro de nossa própria casa. Tudo lá dentro é vermelho, e a ventilação é quase inexistente. O objetivo é fazer ela sentir todas as sensações possíveis, para saber como está o seu psicológico. Ela sabe que está sendo monitorada 24 horas por dia, e por isso não pode fraquejar em momento algum. Eu a ensinei que só poderia mostrar suas fraquezas para mim, porque, fora do quarto, qualquer coisa que acontecesse, ela teria que contar para mim, sem que eu precisasse perguntar. — Você chuta mais alto que isso, não é mesmo? — pergunto para ela. Já passei da etapa de torturá-la. Agora, tento tornar os treinos mais descontraídos, porque preciso que ela confie em mim, mas também que sinta medo. A disciplina é rigorosa. Ela tem horários para tudo. Acorda às 6h, toma café da manhã, e às 7h já está treinando tiro até as 10h. Depois, tem aulas de 10h às 12h, onde aprende o básico, incluindo inglês, espanhol e outras línguas tradicionais. Almoça às 12h30 e, à tarde, continuo o treinamento com ela até a noite, onde o foco é aperfeiçoar suas habilidades de combate. E cada noite, ela se torna melhor. Eu não podia deixar que ela fosse descartada. Se não desse certo, meu pai e Antônio a descartariam como lixo. Mas eu sei que ela tem potencial. — p***a, essa você acertou em cheio — digo quando ela me dá um soco forte. Vejo que ela segura a mão. — Está doendo? — Ela n**a, mas eu insisto. — Está doendo sim, você precisa fechar mais a sua mão e dar o soco dessa forma. — Então, faço um movimento com a minha mão fechada em direção a ela, e ela se defende colocando o corpo para o lado. Abro um sorriso. — Sua defesa está ótima, parabéns. — Ela me responde com um sorriso tímido. — Eu posso tomar água? — ela pergunta. — Depois dessa defesa perfeita, pode — respondo. Ela estava suada e se dirigiu até a garrafa de água. Quando ela tira a camiseta, ficando só de top, eu a observo, sua postura já mais confiante. Quando ela percebe que estou olhando, me encara. — Daqui a alguns meses, você completa 16 anos — digo, me aproximando dela. — O certo é você sair daqui no dia do seu aniversário. — E depois que eu sair daqui, o que acontece? — ela pergunta, com uma leve curiosidade. — Você vai estar pronta para trabalhar ao meu lado — digo, quase sussurrando, enquanto me aproximo mais dela. — Eu e você, juntos. — Ela sorri. — Mas como seu treinador, posso dizer que você está tirando nota 10 em tudo, em todas as matérias do dia. — Em seguida, passo a mão pelos seus ombros. Eu abro um sorriso quando ela encosta a boca na minha. Ela me beija, e eu correspondo o beijo, passando minha mão por trás do seu pescoço. De repente, escuto uma batida forte na porta, e ela é aberta. — Saimon — Samuel diz, ofegante. — Papai acabou de falecer. Fico parado, tentando processar o que ele acabou de me falar. Sophia me olha o tempo todo, seu olhar é de desespero. Ela nos via como seus protetores, os que lhe deram a chance de uma vida nova, mesmo com todas as torturas e sofrimentos que passou. — Entra para o quarto — ordeno a ela, com um tom firme. — Treine com os brinquedos que eu deixei com você na semana passada. Treine até eu voltar. — Ela assente com a cabeça e se vira para entrar no quarto. Aperto o botão que tranca a porta. Corro até o quarto de meu pai e vejo seu corpo, já sem vida, sobre a cama. Me aproximo dele, mas não consigo acreditar que o homem que sempre foi meu herói, meu melhor amigo, está morto. Perdemos nossa mãe no parto e ele nos criou sozinho, sempre sendo um bom pai, apesar de sua frieza com os outros. — E agora? — Samuel pergunta, quebrando o silêncio. — Seguir o que ele criou — respondo, com a voz grave. — Solta aquela garota — Samuel diz, com impaciência. — Ele está morto. — Sophia, você quer dizer? — pergunto, e ele assente. Eu n**o com a cabeça. — Sophia está pronta para realizar todos os sonhos e desejos que meu pai sempre teve. Ela vai começar eliminando um a um da lista que ele deixou. Nesse momento, Antônio entra no quarto e se aproxima do corpo de meu pai. Ele fecha os olhos de meu pai com uma expressão de respeito. — Eu sinto muito, meninos — ele diz, com uma voz baixa. — Ele estava muito doente — respondo. — Já havia me deixado no comando de tudo, sabia que não ia sobreviver. — Você será o grande sucessor do seu pai — ele diz, me olhando nos olhos. — Eu prometi isso a ele no leito de sua morte — digo, com firmeza. — E estou cumprindo com minha palavra. A arma mais perigosa e valiosa dele está pronta. — Antônio me encara, abrindo um sorriso de entendimento. — Você está falando sério? — ele pergunta. — Como ele sempre sonhou — respondo, com um sorriso discreto. Me aproximo do corpo de meu pai e fecho seus olhos lentamente, dando-lhe um último adeus. — Descansa em paz, meu pai — digo, com um tom baixo e solene. Samuel apenas nos observa, sem dizer nada. Sempre soubemos que nossas personalidades eram diferentes. Samuel puxou mais à minha mãe, eu ao meu pai. Mas tanto ele quanto eu sabíamos que só eu seria capaz de levar adiante tudo o que meu pai construiu.
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