Alina
A casa-alcateia tinha corredores demais.
Cada um parecia levar a um tipo diferente de vigilância: olhares diretos, cochichos contidos, sorrisos que não alcançavam os olhos. No primeiro dia, eu tentei decorar o caminho entre o meu quarto, a cozinha e a saída para o pátio. No terceiro, percebi que o trajeto mais difícil não era físico. Era o social.
As fêmeas dominantes me observavam como se eu fosse uma peça colocada na vitrine errada.
Na cozinha, duas delas cortavam legumes com eficiência quase militar. Quando entrei para pegar um copo de água, as conversas murcharam. Uma continuou mexendo na panela; a outra limpou pela terceira vez o mesmo espaço da bancada, apenas para ter algo com que ocupar as mãos.
— Bom dia — eu disse, com o tom mais neutro que encontrei.
— Bom dia, senhora — respondeu uma, sem olhar diretamente para mim.
A palavra “senhora” veio pontiaguda. Nem respeito, nem i********e. Apenas um rótulo: a ômega do Alfa, ainda que a marca oficial não estivesse em minha pele.
— Não precisa me chamar de senhora — tentei suavizar. — Pode me chamar de Alina.
A outra riu de leve, um som curto.
— Aqui, os nomes têm peso — comentou, enfim me encarando. — E alguns ainda não foram aceitos.
Entendi o recado.
Eu era um corpo estranho num sistema muito bem organizado. Uma ômega vivendo no andar superior, com quarto próprio, porta que fechava por dentro e horário para sair e voltar. As dominantes, acostumadas a negociar posição com força, não viam isso como conquista minha. Viam como ameaça ao equilíbrio.
Afastei-me com o copo nas mãos, sentindo o peso das costas expostas. Quando saí para o corredor, respirei fundo. Respiração era a primeira das minhas regras.
Eu as criei na primeira noite, quando percebi que, se não colocasse limites internos, o contrato engoliria o que restava de mim.
Regra de respiro número um: sempre que a casa parecer pequena demais, subir para a laje.
Foi o que fiz.
A escada de serviço levava ao topo da construção, onde o concreto se abria para o céu. Ali, o barulho da casa-alcateia virava ruído distante. O vento não perguntava quem eu era. O horizonte não exigia postura. Havia vasos de plantas abandonados em um canto, alguns ainda com terra seca.
A segunda regra nasceu ali.
Regra de respiro número dois: cuidar do que ninguém vê como valioso.
Comprei mudas discretamente, durante uma ida ao hospital para resolver meus plantões. Ervas simples: manjericão, alecrim, hortelã, e uma roseira pequena, quase tímida. Voltei com o casaco mais pesado do que quando saí, disfarçando as sacolas como se carregasse livros.
Na laje, ajoelhei-me diante dos vasos e senti a textura da terra nos dedos. O ato de plantar devolveu ao meu peito um tipo estranho de controle: eu poderia não escolher tudo o que entrava na minha vida, mas poderia escolher o que criava com as mãos.
A terceira regra veio em seguida.
Regra de respiro número três: instituir rituais diários.
Todas as manhãs, antes de descer para o café, eu passava dez minutos em silêncio na laje, regando plantas, organizando folhas, observando o céu. À noite, quando a casa ficava mais pesada com segredos, eu subia novamente e contava as janelas acesas, como se pudesse mapear, pelo brilho, onde a inquietação morava.
Viktor sabia.
Ele não comentou, mas sabia. Eu sentia quando a mente dele roçava a minha como sombra à distância, avaliando se a minha “fuga vertical” era ameaça ou apenas mecanismo de sobrevivência. Até agora, ele não cortara esse respiro. Talvez porque entendesse. Talvez porque estivesse usando tudo isso para somar variáveis no seu tabuleiro mental.
Foi numa dessas manhãs que o vi.
Um lobo jovem, encostado próximo à entrada da laje, fingindo ajustar o rádio no cinto. Rosto ainda marcado pela adolescência recente, cabelo um pouco desalinhado, postura obediente… demais. Ele parecia deslocado ali, como se ainda não tivesse decidido quem era.
— Deve ser o lugar errado para perder tempo — comentei, aproximando-me dos vasos.
Ele sorriu, sem humor.
— Dizem que a senhora gosta de ar livre.
A palavra novamente. Senhora. Eu me perguntei quantas vezes ainda ouviria o título até esquecer meu próprio nome.
— Gosto de lugares onde consigo ouvir meus próprios pensamentos — respondi. — Aqui embaixo, às vezes, é difícil.
Ele hesitou antes de falar de novo.
— Aqui em cima também pode ser perigoso.
Aquilo não era apenas um comentário. Soou como aviso, quase ensaiado. Segurei o regador com firmeza.
— Vou anotar — respondi, com delicada ironia. — O perigo, até agora, tem preferido explodir depósitos durante a madrugada.
Ele olhou rapidamente para o lado, como se temesse ter sido ouvido. Depois, baixou a voz.
— Nem sempre o que explode é o mais perigoso.
Alguma coisa dentro de mim se enrijeceu.
— Como você se chama? — perguntei.
— Iuri — respondeu, rápido demais. — Sou das equipes novas. Fui remanejado para este setor.
A mente dele, porém, vibrava num compasso estranho. Eu não conseguia ouvi-la como Viktor, mas reconhecia quando alguém guardava frases prontas. Ele falou o nome como quem decora senha.
— Equipes novas costumam ser mais silenciosas — comentei. — Você não parece gostar de silêncio.
Ele me encarou por um instante, avaliando o quanto podia avançar.
— Só não gosto quando alguém que não escolheu estar aqui parece achar que está segura.
As palavras acertaram fundo, não pela ameaça em si, mas pelo que insinuavam: alguém, em algum lugar, estava discutindo a minha permanência. Talvez usando meu nome como argumento. Talvez como alvo.
— A segurança aqui não é assunto meu — respondi, lenta. — É assunto do Alfa.
Iuri recuou meio passo, mas os olhos dele brilharam com algo próximo de provocação.
— Existem outros alfas — disse, quase num sussurro. — Alguns menos… rígidos com quem escolhem proteger.
O ar pareceu gelar ao redor.
Não era paquera. Não era tentativa de aproximação pessoal. Era semente. Uma insinuação cuidadosamente colocada. Um convite sem convite: você poderia estar em outro lugar.
Recrutamento.
Não de mim, especificamente. Mas da ideia que eu representava: a ômega sob proteção de Viktor. Se alguém conseguia instilar dúvida em mim, instilava rachaduras no poder dele.
Não respondi. A minha terceira regra de respiro incluía silêncio estratégico: nem tudo merecia resposta imediata.
Iuri percebeu a barreira, ajeitou o rádio e se afastou.
— Pense no que eu disse — murmurou, antes de descer as escadas.
Fiquei sozinha com as plantas e o vento. O coração batia rápido, mas não era apenas medo. Era uma mistura de raiva e lucidez. Eu estava envolta por véus — proteção, contrato, status — que, aos olhos de muitos, eram coleiras.
Eu não permitiria que fossem.
Desci da laje direto para a sala onde o Conselho se reunia. Fui chamada pouco depois por um funcionário que não ousou me encarar nos olhos. Quando entrei, encontrei Viktor ao centro da mesa, Murilo à direita, outros conselheiros distribuídos como peças imóveis.
Algo no ar já anunciava sentença.
— Alina — Murilo começou, com a voz polida demais. — Diante dos últimos ataques e da exposição crescente do seu nome, o Conselho deliberou que…
— Querem antecipar a marca — completei, antes que terminasse.
Os olhos de Viktor pousaram sobre mim com atenção aguda. Ele não parecia surpreso. Pelo contrário: parecia preparado.
— A marca oficializará o vínculo — disse Murilo. — Reduz boatos, consolida alianças, fortalece a percepção de que ninguém pode tocá-la sem tocar o Alfa.
— E fortalece a percepção de que eu pertenço a alguém — retruquei, sentindo a respiração falhar por um segundo. — Como um objeto com selo.
Um dos conselheiros mais velhos pigarreou.
— A marca sempre foi tradição entre alfas e ômegas. Não é objeto, é proteção.
Eu ri, sem humor.
— Depende de quem está segurando o fogo.
Viktor não desviou o olhar. A mente dele parecia uma muralha; eu não tinha acesso aos pensamentos, mas podia sentir o peso das decisões que ferviam por trás dos olhos.
— Está decidido — ele afirmou, enfim. — A marca será antecipada.
Meu estômago virou.
— Você prometeu um ano — sussurrei. — Um ano para que isso fosse… negociado.
— Prometi um ano de contrato — corrigiu, a voz baixa, porém cortante. — Não prometi ignorar guerra aberta para preservar delicadezas.
O silêncio que se seguiu foi pesado demais.
Eu respirei, lembrando das minhas regras. Laje. Plantas. Rituais. Coisas pequenas que eu podia controlar enquanto o resto do mundo decidia o que fazer com o meu destino.
Levantei o queixo.
— Então que fique registrado nos seus papéis e nas suas memórias — disse, firme. — Eu aceito a marca como véu. Não como coleira.
Murilo franziu o cenho.
— Isso não muda o rito — comentou.
— Talvez não mude o rito — respondi, sem desviar de Viktor. — Mas muda o que eu serei por baixo dele.
Por um breve instante, o olhar do Alfa revelou algo. Não era piedade, nem ternura. Era a mesma faísca de respeito, dura e inabalável, que observei durante a negociação do contrato.
Véus podem ser rasgados.
Coleiras, destruídas.
Mas enquanto eu respirava naquela sala, rodeada por homens que falavam de proteção como se ignorassem o que é ser consumida pelo próprio pavor, fiz uma promessa a mim mesma: o mundo podia tentar definir meu lugar, mas só eu decidiria quem eu seria dentro dele.