Viktor
Às vezes, o gesto mais violento não é o ataque direto.
É o silêncio.
O Conselho queria a marca pública de Alina imediatamente. Ritual, testemunhas, fogo, palavra dita em coro. O mundo veria a pele dela carregando meu símbolo e entenderia a mensagem: inacessível, intocável, propriedade do Alfa.
Política adorava símbolos.
Eu detestava dar munição de graça.
— Vamos definir uma data, Alfa? — Murilo insistira na noite anterior. — A antecipação mostrará firmeza.
Mostraria, sim. Também mostraria vulnerabilidade. Cada cerimônia era uma concentração de rotas, protocolos, lacunas. Uma agenda previsível. Um alvo marcado no calendário.
Eu olhei para o conselheiro por tempo suficiente para que ele entendesse que a conversa terminara ali.
— A marca acontecerá — respondi. — Mas não agora.
— Com todo o respeito, isso gera ruído…
— Ruído eu administro. — Minha voz cortou o espaço entre nós com precisão. — O que eu não aceito é dar aos meus inimigos um horário exato para se posicionarem.
Murilo calou-se. Não concordou, mas calou. Política também sabe se recolher quando percebe que passou do limite.
Decidido: a marca seria adiada.
Não por Alina.
Por mim.
Ela continuaria sob o meu nome, o meu teto, a minha vigilância. Mas sem ritual público, sem exposição desnecessária, sem palco montado para quem desejava transformar a minha casa num espetáculo de sangue.
***
No início da tarde, chamei Caio para a sala de segurança.
O ambiente era funcional: monitores, mapas, terminais alinhados. Nada de luxo desnecessário. A beleza daquela sala era a precisão. Ou deveria ser.
— Precisamos de varredura completa — anunciei, sem rodeios. — Tecnológica. Hoje.
Caio não perguntou o motivo. O olhar dele apenas se estreitou.
— Começar pelos setores externos? Torres, garagens, depósito novo…
— Começar pelos corredores internos — corrigi. — Ala dos convidados, ala das reuniões, minha ala. E os acessos à laje.
Ele assentiu, captando o detalhe que eu não verbalizara. A laje era o lugar de respiro de Alina. Onde há respiro, há oportunidade para observadores. E para armadilhas.
— Usaremos os equipamentos de última revisão — sugeriu. — Nada da casa fica fora do mapeamento.
— Nada — confirmei.
Caio acionou a equipe de tecnologia. Em pouco tempo, três homens treinados estavam na sala, recebendo orientações. Detalhei rotas, horários, prioridades. Não haveria aviso geral. A varredura aconteceria como um sussurro: rápida, silenciosa, letal para qualquer dispositivo escondido.
Quando terminaram o briefing e saíram, ficamos apenas nós dois.
— O que você sentiu, Viktor? — Caio perguntou, finalmente. Não era uma pergunta retórica. Ele conhecia meu dom, e não o tratava como superstição.
Cruzei os braços.
— Há alguns dias, toda vez que tomamos uma decisão de segurança, alguém se antecipa — respondi. — Rotas alteradas são testadas antes de serem usadas. Procedimentos novos encontram resistência específica, não generalizada. Isso não é acaso. É leitura.
Caio inclinou a cabeça, pensativo.
— Temos um leitor dentro da casa.
— Temos alguém que assiste ao jogo de cima da arquibancada — corrigi. — E já está familiarizado demais com minhas jogadas.
Não era apenas a explosão do depósito. Era a mensagem anônima para Alina. Era o lobo jovem “perdido” na laje. Eram os comentários que eu captava no silêncio das mentes: ele não tem como prever tudo… ninguém tem.
A varredura começou às 16h.
Acompanhamos pelos monitores enquanto as equipes percorriam corredores, salas, pontos estratégicos. Detectores passavam por rodapés, luminárias, frestas, molduras. Um trabalho minucioso.
Minucioso demais para não levantar reação.
— Setor três, ala leste — informou um dos técnicos pelo rádio. — Nada até agora.
— Setor cinco, escadas de serviço — outro complementou. — Limpo.
Eu observei a tela com atenção. O padrão estava errado. Não era normal uma casa como a minha, com histórico recente de sabotagem, estar completamente limpa. Nem um transmissor antigo, um dispositivo esquecido, nada.
Perfeição, em segurança, é suspeita.
— Repitam o percurso da ala dos convidados — ordenei. — Mesmos pontos, mesma ordem.
A câmera mostrou, em tempo real, a subida pela escada, o corredor iluminado, as portas sucessivas. Os homens paravam nos locais que havíamos marcado previamente. Nada. Apenas paredes, parafusos, interruptores.
Caio olhou para mim.
— Ou nunca houve dispositivos… — começou.
— Ou alguém os retirou antes da varredura — concluí.
A ideia se instalou na sala como uma sombra. Pesada, nítida.
— Para isso, precisaria saber que iríamos revistar a casa hoje — Caio ponderou.
— Exato.
Não tínhamos feito anúncio público. Os convocados para a varredura ficariam sob observação a partir daquele momento. Mesmo assim… o tempo era estreito. Dos primeiros preparativos à execução, havia uma janela pequena. Pequena, mas suficiente para alguém informado correr à frente.
— Pode ser coincidência — Caio arriscou, embora eu soubesse que ele não acreditava nisso.
— Coincidências repetidas são apenas preguiça de quem não quer admitir padrão — respondi.
O rádio chiou novamente.
— Alfa, encontramos algo no painel de manutenção, setor dois, corredor oeste… — o técnico hesitou. — Quer dizer… o espaço vazio de algo.
— Explique — pedi, frio.
— Marcas recentes de fixação. Trilho de suporte, fiação leve. Mas o dispositivo não está mais aqui. Foi removido há pouco tempo. Não temos poeira acumulada, nem sinal de oxidação.
Caio e eu trocamos um olhar silencioso.
Alguém havia arrancado o olho que usava para nos ver. Antes que nós o víssemos.
— Registem tudo — ordenei. — Fotos, relatórios, horário exato. E guardem a informação em canal isolado. Nada de comentários de corredor.
Desliguei o rádio.
— Estão lendo seus movimentos, Viktor — Caio disse, agora sem suavizar.
— Estão tentando me transformar em peça reagente — respondi. — Só que eu não fui criado para responder. Fui criado para antecipar.
A frase soou arrogante, mas ali não era vaidade. Era constatação. A sobrevivência da minha alcateia sempre dependera dessa linha: eu à frente, não atrás.
***
À noite, instalado no escritório, revisei contratos recentes. Sabotagem tecnológica nunca vinha sozinha. Onde alguém achava brecha física, outro tentava infiltrar números, termos, cláusulas.
As pastas estavam organizadas em pilhas: fornecimento, manutenção, alianças externas. Peguei a de fornecedores de armamento, mais sensível. Abri o último contrato.
No topo, meu nome.
Logo abaixo, minha assinatura.
O problema: eu não me lembrava daquele documento.
Li com atenção. Entrega de material não catalogado, volume acima do padrão, cláusulas de confidencialidade que contornavam o Conselho. Um acordo que, à primeira vista, poderia ter sido feito por mim em circunstâncias extremas. Mas eu conhecia o próprio traço.
A assinatura era boa. Impressionantemente boa. Copiara a inclinação das letras, a força no início, o corte do “R”. Quem fez aquilo teve acesso a registros oficiais e tempo para praticar.
Caio entrou sem cerimônia. Ele nunca precisou de anúncios para se fazer presente.
— As equipes encerraram a varredura — informou. — Três pontos com indícios de remoção recente. Nada ativo.
Deslizei o contrato sobre a mesa, na direção dele.
— Temos um quarto ponto.
Caio franziu o cenho, pegando o papel.
— O que é isso…? — começou a dizer, e calou quando viu a assinatura. — Você assinou sem passar pela secretaria?
— Não assinei.
Ele me encarou, depois voltou os olhos para o documento.
— A firma é praticamente idêntica, Viktor.
— Praticamente não é. — Toquei o canto do papel, apontando um detalhe mínimo. — Aqui. O corte é mais longo. E aqui, a curva é mais aberta. Eu nunca deixo esse espaço.
Caio não discutiu. Conhecia minha precisão quase obsessiva com detalhes. Sabia que eu não brincava com a própria assinatura.
— Quem mais tem acesso aos seus registros?
— Secretaria interna, alguns conselheiros, dois funcionários do arquivo — enumerei. — E qualquer um que tenha invadido nossos sistemas nos últimos meses.
Caio respirou fundo.
— Isso coloca a alcateia em risco jurídico e político. Se esse contrato for usado contra você…
— Não vai ser — interrompi, a frieza já solidificada na voz. — Não se alguém sumir antes de ter tempo de levá-lo para o lugar errado.
Ele me olhou com aquela mistura de lealdade e preocupação que poucos ousavam sentir perto de mim.
— Está sendo caçado em mais de um tabuleiro, Viktor.
— Então jogarei em todos ao mesmo tempo.
Fechei a pasta com uma calma gélida, um gesto calculado que confrontava a tentativa de caos. A minha raiva não era um fogo que consome, mas sim gelo concentrado, afiado e implacável.
Silêncios arranjados, prazos ignorados, investigações desviadas, documentos adulterados.
Quem orquestrava isso pensava estar no meu nível. Logo, a pessoa descobriria o quão errada estava.