Alina
O salão do Conselho parecia um tribunal antigo, esculpido em pedra e expectativa.
Bandeiras da alcateia nas paredes, fileiras de cadeiras ocupadas por dominantes, betas, representantes de famílias antigas. O ar cheirava a incenso discreto e tensão explícita. No centro, a mesa em meia-lua. No vértice, Viktor.
Eu estava diante deles.
Vestiram a sessão de solenidade: palavras como “estabilidade”, “tradição”, “honra da alcateia” marcavam o discurso de a******a, mas, por baixo, eu sentia outra camada: controle, medo, imagem. A própria Lua n***a, mencionada como evento inevitável, parecia um personagem à parte, pairando sobre todos nós.
Murilo tomou a palavra. A voz dele era polida, o tom respeitoso, as vírgulas milimetricamente calculadas.
— Diante dos ataques recentes, do incêndio no abrigo das ômegas e da insistência de forças rivais em testar nossas defesas, o Conselho deliberou que a marca entre o Alfa Viktor e a ômega Alina precisa ser oficializada antes da próxima Lua n***a.
Um murmúrio correu pelo plenário, como o roçar de garras em pedra. Alguns assentiram, aliviados. Outros apenas observaram, avaliando.
Eu respirei fundo.
Meu coração batia acelerado, mas não com o pânico de antes. Era uma mistura de medo antigo — o da marca forçada — com a consciência nova de que, desta vez, eu não estava sozinha numa casa pequena. Estava de pé, numa casa grande, cheia de olhos. E eu tinha voz.
— Com licença — pedi, antes que a pauta avançasse. — Gostaria de falar.
Um conselheiro mais velho franziu o cenho.
— Esta audiência é, em parte, para ouvi-la, senhora Alina — disse, num tom condescendente. — Mas a decisão…
— A decisão não pode ignorar aquilo que vimos nos últimos dias — interrompi, sem elevar a voz, porém sem recuar. — Há um traidor mexendo na intendência. Contratos falsificados. Sedativos desaparecidos. Ataques “limpos” demais para serem coincidência. A marca, neste momento, não é apenas ritual. É arma política.
Alguns rostos se endureceram. Outros revelaram, por um segundo, surpresa… ou desconforto. Eu continuava.
— Se eu for marcada de forma pública, exposta, no lugar tradicional, no tempo que os senhores desejam, vou me tornar o alvo perfeito. Um símbolo que pode ser ferido para atingir o Alfa.
Murilo ajeitou os papéis, tentando retomar o controle.
— Justamente por isso a marca é necessária, senhora Alina. Ela declara ao mundo que ninguém pode tocá-la sem declarar guerra direta à alcateia.
— A guerra já foi declarada — retruquei. — O fogo no abrigo das ômegas foi uma frase clara demais. “Nenhuma ômega está realmente segura.” Essa não é só uma muralha para mim. É para todas elas.
O plenário se mexeu. Eu senti olhares deslizando para as ômegas espalhadas discretamente pelo fundo da sala. Invisíveis até aquele instante, elas, de repente, tornavam-se parte da equação.
Viktor ainda não falara.
Ele me observava com atenção, o corpo relaxado numa postura que enganava quem não o conhecia. Eu sabia que aquilo não era descaso. Era prontidão silenciosa.
Respirei de novo, escolhendo as palavras com cuidado.
— Não estou me recusando à marca. — A frase pesou no ar. — Mas proponho uma condição. Um meio-termo entre tradição e sobrevivência.
Murilo estreitou os olhos.
— Que tipo de condição?
Olhei ao redor, depois fixei o foco onde precisava: em Viktor. Era com ele que, no fim, a decisão se firmaria ou cairia.
— Uma marca simbólica — declarei. — Em local coberto. Um compromisso entre nós, formalizado, registrado, porém não exposto ao jogo político até que o traidor seja desmascarado. Até que a casa seja, de fato, segura o bastante para transformar meu corpo em bandeira.
O plenário reagiu como um animal ferido.
Uns protestaram, indignados com a quebra da “tradição visível”. Outros cochicharam, calculando vantagens. Ouvi palavras como “precedente perigoso”, “capricho de ômega”, “exagero”. Nenhuma delas me surpreendeu.
— Isso é inaceitável — disparou um conselheiro de bigode espesso. — A marca sempre foi pública. O Alfa e sua companheira são pilares visíveis. Esconder a marca é abolir o rito.
— Esconder não — corrigi, mantendo o tom calmo. — Proteger. Por um período. Não é recusa. É adiamento da vitrine.
O barulho cresceu, vozes se sobrepondo, argumentos se chocando. Por trás das palavras, eu sentia intenções: temem perder controle, temem parecer fracos, temem que uma ômega abra um precedente de negociação.
— Silêncio — a voz de Viktor cortou o tumulto.
Não foi grito. Foi ordem.
Os sons se dissolveram, um por um.
Ele cruzou os braços, olhando primeiro para o Conselho, depois para mim.
— O Conselho teme que uma marca não vista seja marca inexistente — começou. — Eu temo algo mais concreto: que uma marca exposta antes da hora sirva de mira perfeita para alguém que já demonstrou estar disposto a queimar abrigos de ômegas para enviar recados.
Murilo franziu o cenho.
— Alfa…
— Alina está correta numa coisa — continuou Viktor, sem lhe dar a palavra. — Estamos em guerra. Não entre garras e floresta, mas entre garras e lei, política e sabotagem. A Lua n***a se aproxima, sim. A marca, também. Mas não serei eu a entregar de bandeja o ponto mais vulnerável do meu território só para satisfazer convenções.
Meu coração deu um salto estranho.
Era proteção, sim. Ainda cercada de controle, de decisões que nem sempre passavam por mim. Mas, ali, diante de todos, ele assumia que não faria da minha pele palco de bravata.
— Proponho o seguinte — concluiu. — A marca será feita em local coberto, registrada perante este Conselho, com testemunhas restritas, antes da Lua n***a. Quando identificarmos o traidor e estabilizarmos a intendência, realizaremos a cerimônia pública, nos moldes tradicionais. Até lá, o que precisar de símbolo será sustentado pela minha palavra. Quem não confia nela, não confia na própria alcateia.
Silêncio.
Denso. Cortante.
Murilo olhou para os demais conselheiros. Alguns estavam claramente contrariados, outros faziam contas invisíveis, pesando perdas e ganhos. A recusa aberta ao Alfa traria mais rachaduras do que a concessão.
— Um acordo mínimo, então — murmurou, por fim. — A marca simbólica, temporariamente, até que a normalidade retorne.
Engoli em seco. A palavra “normalidade” me pareceu irônica, num mundo em que incendiavam abrigos e falsificavam contratos.
Ainda assim, era uma linha. Não a que eu teria desenhado num mundo ideal, mas nenhuma linha de sobrevivência nasce em papel limpo.
A audiência seguiu com detalhes burocráticos, prazos, registro. Eu respondia quando solicitada, mas a mente já estava adiante, respirando na laje, contando plantas, tentando entender o que significaria carregar um símbolo invisível num corpo que o mundo inteiro queria roubar.
Quando terminou, o salão começou a esvaziar.
Viktor foi cercado por conselheiros, betas e representantes. Fiquei um pouco afastada, observando. Alguns vinham até mim com sorrisos cuidadosos, palavras de elogio pela “prudência”, pela “coragem”. Eu escutava, filtrando o que era genuíno do que era mera manobra.
Foi uma das ômegas da enfermaria que trouxe o estouro seguinte.
— Alina… — Ela se aproximou aflita, o celular tremendo na mão. — Precisa ver isto.
Peguei o aparelho.
Na tela, um perfil anônimo, sem foto clara. Um nome genérico, desses que se multiplicam nas sombras da rede. E ali, fixada no topo, uma imagem.
Minha imagem.
Uma foto adulterada, mas bem trabalhada: eu, aparentemente, num beco de periferia, corpo inclinado na direção de um lobo que não era Viktor. Um homem alto, traços que lembravam os da Corvus. A luz editada, o ângulo sugestivo, a ilusão de proximidade íntima. Como se estivéssemos prestes a nos beijar.
A legenda era um veneno calculado:
“É por isso que o Alfa atrasa a marca? Ômega com dois lados da lua.”
O sangue gelou.
Eu sabia que nunca estivera naquele beco. Sabia que aquela postura, aquele gesto, aquele rosto ao lado do meu eram construções. Mas a maioria das pessoas não saberia. Nem todos se importariam em saber.
Era munição perfeita.
Senti um peso às minhas costas antes de ouvir a voz.
— O que é isso? — Viktor.
Virei-me devagar.
Ele não tocou no meu braço. Não invadiu meu espaço. Apenas estendeu a mão, e eu entreguei o celular. O olhar dele percorreu a imagem com atenção milimétrica. A mandíbula se contraiu, o maxilar trabalhando como se segurasse um rosnado.
A mente dele, por um segundo, vazou na superfície: Estão usando o rosto dela para me atingir. Estão tentando sujar o nome dela para limpar o caminho deles.
A raiva que atravessou seus olhos não era pequena. Nem era cega. Era metódica.
— Perfil anônimo — murmurou, devolvendo o aparelho. — Mas não ingênuo. Sabem exatamente que botões apertar.
— Vão dizer que traio a alcateia antes mesmo de ser oficialmente parte dela — sussurrei, amarga. — Que sou brecha, não ponte.
Ele me encarou.
— Quem importa de verdade não aceitará uma imagem como prova — afirmou.
— E quem não importa “de verdade”, mas tem boca grande? — perguntei. — Conselheiros? Rivais? Gente que espera qualquer oportunidade para me transformar em argumento contra você?
Os músculos dele ficaram mais tensos. Por um instante, vi no rosto de Viktor não apenas o Alfa calculista, mas o homem acuado numa guerra de narrativas.
— Então vamos achar quem tirou a foto original — disse, a voz baixa, perigosa. — Quem mexeu nela. Quem compartilhou primeiro. E, quando encontrarmos, farei questão de mostrar, diante da casa inteira, que há diferença entre marca de verdade e lama jogada em nome de honra.
Algo dentro de mim se mexeu.
Não havia paz. O medo, a desconfiança e as feridas do passado persistiam. Contudo, em meio a garras e leis, a fotos manipuladas e marcas de poder, uma verdade difícil começava a se impor:
O mesmo poder que poderia me manter cativa era o que, naquele exato momento, se voltava com fúria contra qualquer um que ousasse me instrumentalizar.
Com a iminente chegada da Lua n***a, eu tinha a certeza: neste jogo, eu não era mais uma mera peça. Quer gostassem ou não, eu já era parte essencial da jogada.