Capítulo 10 : Ferro e Mel

1720 Palavras
Viktor Intendência é onde a guerra acontece em silêncio. Não há tiros, não há explosões visíveis, mas cada caixa que some, cada assinatura adulterada, cada frasco desviado é um tiro em câmera lenta. Quando o inimigo mexe na sua intendência, ele não quer só te atingir. Quer te deixar cego, faminto, cansado. Eu passei o dia inteiro enterrado em relatórios. Mapas de rotas internas, listas de estoque, registros de entrada e saída. As colunas de números eram mais sinceras do que muitos rostos. Elas não sabiam mentir; apenas mostravam quando alguém as havia manipulado. O problema é que, desta vez, a manipulação era inteligente. — Não são desvios aleatórios — comentei, fechando uma pasta. — É alguém que conhece a casa melhor do que deveria. Caio, ao meu lado, cruzou os braços. — Intendência é o coração invisível, Viktor. Quem mexe ali não é soldado raso. — Nem sempre — retruquei. — Às vezes é o funcionário discreto que ninguém vê, mas que tem acesso a todas as portas. Pensei no auxiliar de Murilo. Pensei nos sedativos desaparecidos. Pensei na assinatura falsificada. As peças começavam a se aproximar, mas ainda faltava um fio para costurá-las. E esse fio, eu sabia, passaria inevitavelmente por Alina. Encontrei-a no pátio de treino, ao final do dia. Ela havia insistido em aprender o básico de defesa com os meus homens. Não para agradar, mas por necessidade. Quando cheguei, dois lobos do núcleo interno a observavam com respeito cauteloso. Ela girava o corpo para se livrar de um golpe simulado, respiração rápida, expressão concentrada. — De novo — ordenou ao instrutor, antes que ele mesmo pedisse. Gostei da insistência. O movimento não era perfeito. Os pés ainda se posicionavam um pouco atrasados, o ombro pendia mais do que devia, mas a vontade estava no lugar certo. E vontade, no campo, às vezes vale mais do que técnica. — Chega por hoje — anunciei, aproximando-me. O instrutor recuou de imediato. Alina se voltou para mim, o suor marcando a testa, algumas mechas soltas do cabelo coladas à pele. — Poderia continuar mais um pouco — afirmou, não perguntou. — Poderia — concordei. — E amanhã acordaria com o corpo em frangalhos, presa à cama quando precisarmos que esteja de pé. Ela mordeu o lábio por um instante, irritada por reconhecer que eu tinha razão. Não verbalizou essa irritação. Apenas assentiu, respirando fundo. Foi então que vi: o dorso da mão direita, arranhado e m*l coberto por um curativo improvisado. A marca do treino somava-se ao resquício quase curado do corte da fronteira. — Venha comigo — disse. — Estou bem — respondeu, por reflexo. — Nunca confie no “estou bem” dito depois de um dia como este — retruquei. — Venha. Ela hesitou um segundo, depois me seguiu. *** No meu gabinete havia um pequeno armário de primeiros socorros. Não porque faltassem médicos na casa, mas porque existem feridas que não exigem enfermaria, apenas atenção rápida. Indiquei a cadeira em frente à mesa. — Sente-se. Ela sentou. O silêncio entre nós não era confortável, mas também não era hostil. Era um espaço em construção. Peguei uma bandeja com gaze, antisséptico, faixas. Sentei-me à frente dela, perto o suficiente para alcançar sua mão. — Posso? — perguntei. Ela sustentou o meu olhar por um momento longo demais, como se procurasse ali alguma forma de controle escondida. Depois, estendeu a mão, com a dignidade de quem não pede, apenas aceita uma necessidade. O corte era superficial, mas m*l cuidado. Limpei a área com cuidado clínico, sem movimentos bruscos. O cheiro do antisséptico se misturou ao perfume discreto dela, criando uma combinação curiosa: ferro e algo doce. Ferro e mel. — Teria tratado sozinha depois — murmurou. — Teria esquecido, ocupada demais tentando resolver o mundo — respondi. Ela deixou escapar um meio sorriso, fatigado. — Parece que esquece que eu não comando nada aqui dentro. Enfaixei o ferimento com firmeza, sem apertar demais. — Comanda mais do que imagina — falei. — As ômegas já te veem como referência. E quem você escuta passa a ser ouvido por mim. Os olhos dela se estreitaram, curiosos. — Está admitindo que precisa de filtro? — Estou admitindo que não posso estar em todos os lugares. — Pausei, avaliando até onde iria. — E que, quando alguém mexe na intendência, é útil ter olhos em lugares que não pertencem a conselheiros nem betas. Ela ficou imóvel. — Intendência — repetiu. — É onde sumiram os sedativos? Assenti. — Não só isso. Contratos adulterados, registros de estoque alterados, ordens de compra estranhas. Alguém está sabotando a casa por dentro. Não é apenas política. É preparação de campo. — Para quê? — perguntou, embora soubéssemos a resposta. — Para quando decidirem que está na hora de me derrubar. — Minha voz saiu mais baixa. — Não se derruba um Alfa só com bala. Derruba-se cortando suas reservas, suas rotas, sua credibilidade. Ela respirou fundo, os olhos presos nos meus. — Por que está me contando isso, Viktor? Era a pergunta inevitável. Larguei a gaze usada, levantei-me e fui até o cofre embutido na parede. Digitei a combinação, senti o clique metálico, puxei a pequena porta. De lá de dentro, tirei uma chave. Não era grande. Metal escuro, dentes específicos, um número gravado na lateral. Aquela chave abria apenas duas coisas no mundo: uma sala de guerra e um compartimento secundário num depósito que poucos conheciam. Voltei, coloquei a chave sobre a mesa, entre nós. — Porque já não basta te proteger com o corpo — respondi. — Preciso te dar meios para agir se eu cair. Ela demorou um instante para entender. — Cair… em que sentido? — Todos eles. — Encarei-a sem desviar. — Se um dia eu for afastado à força, preso, ferido a ponto de não conseguir comandar… ou morto. A palavra ecoou pesada, mas não a retirei. Não tenho o hábito de adoçar venenos. — Esta é uma chave de guerra, Alina. — Toquei o metal com a ponta dos dedos. — Abre o acesso à sala onde mantenho protocolos de emergência. Rotas, contatos fora da casa, recursos que não passam pelo Conselho. Se acontecer o pior, você vai até lá, pega o dossiê marcado com o símbolo da lua cortada e segue as instruções. Ela olhava a chave como quem observa um animal desconhecido. — Por que eu? — insistiu. — Tem Caio. Tem homens que já lutam ao seu lado há anos. — Porque Caio será o primeiro alvo se quiserem me paralisar — respondi, simples. — E porque os homens que já lutam ao meu lado são precisamente aqueles que o inimigo espera ver reagir. Você, não. Ela engoliu em seco. — Está pedindo que eu confie em você… ao mesmo tempo em que me prepara para viver sem você. — Estou pedindo que confie em si mesma o bastante para não congelar se o mundo desabar — corrigi. A mão dela tremeu ao pegar a chave. Vi o conflito no rosto: a lembrança de alfas que usavam poder para enclausurar, misturada à imagem recente do meu corpo entre ela e a faca. — Não vou prometer que vou obedecer cegamente ao que estiver nesse dossiê — avisou, erguendo o queixo. — Mas também não vou desperdiçar uma ferramenta que pode salvar vidas. Um canto da minha boca quase se ergueu. — Não esperaria menos. Foi quando o alarme tocou. Não o de perímetro, não o de depósito. Um som diferente, mais agudo, intermitente. O sistema inteiro da casa-alcateia reagiu. Luzes de emergência acenderam-se em alguns corredores. Caio irrompeu pela porta sem formalidades. — Abrigo das ômegas — disse, direto. — Fogo. O corpo reagiu antes da mente. Deixei a bandeja de curativos de lado, ergui-me num movimento só. — Vítimas? — perguntei, já a caminho. — As primeiras informações dizem que conseguiram evacuar a tempo — respondeu. — Mas o fogo começou em dois pontos distintos. Não foi acidente. Alina estava de pé, a chave ainda na mão. O rosto dela perdeu cor por um segundo, mas não houve paralisia. — Vai ficar no gabinete — comecei. — Não vai — cortou, com firmeza surpreendente. — O abrigo é delas, Viktor. É nosso. Se alguém está atacando esse lugar, está atacando tudo o que começamos a construir. O instinto de comando queria ordenar que ficasse. O instinto de sobrevivência, porém, reconheceu o valor de tê-la ali: as ômegas responderiam a ela. E eu precisava de ordem no meio do pânico. Assenti. — Fica ao meu lado. Não se afasta sem que eu veja. Descemos as escadas em passos largos, guardas abrindo caminho. O cheiro de fumaça chegou antes da visão das chamas. No corredor que levava ao abrigo, mulheres estavam amontoadas, algumas tossindo, outras chorando, todas assustadas. Nenhuma ferida de forma grave. — Afastem-se, respirem fundo, organizem filas — ordenei, a voz firme. — Ninguém volta lá para “salvar coisas”. A vida é a prioridade. Alina foi até elas como se tivesse nascido para isso. Tocou ombros, murmurou orientações, olhou nos olhos de cada uma que conseguia. Eu ouvi o pensamento de várias: Ela está aqui. Ela também correu. Dois pontos de fogo, disse Caio. Um no depósito interno de roupas, outro próximo às camas. Chamas controladas o suficiente para permitir evacuação. Insinuações de desastre, sem mortes. Recado. Entramos no abrigo quando os extintores já começavam a domar o incêndio. As paredes estavam negras em alguns pontos. O cheiro de plástico queimado dominava o ambiente. Na parede ao fundo, sobre uma faixa ainda intacta de reboco, alguém havia rabiscado com tinta escura, grossa, apressada: “NENHUMA ÔMEGA ESTÁ REALMENTE SEGURA.” Senti a raiva subir, não em calor, mas em gelo. — Estão atacando o que você simboliza — Caio murmurou, ao meu lado. — E o que ela está tentando formar. Alina leu a frase em silêncio. Seus dedos apertaram a chave dentro do bolso, como se o metal pudesse lhe dar equilíbrio. Eu me aproximei da parede, observando a caligrafia, o gesto, a altura do traço. Enquanto os outros viam apenas ameaça, eu ouvia o que estava por baixo: Vamos ver até onde ele consegue protegê-las. Vamos ver até onde ela aguenta. Vozes cobardes sempre acreditam que ferro e mel não combinam. Em breve, alguém descobriria o contrário.
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