Viktor
Intendência é onde a guerra acontece em silêncio.
Não há tiros, não há explosões visíveis, mas cada caixa que some, cada assinatura adulterada, cada frasco desviado é um tiro em câmera lenta. Quando o inimigo mexe na sua intendência, ele não quer só te atingir. Quer te deixar cego, faminto, cansado.
Eu passei o dia inteiro enterrado em relatórios.
Mapas de rotas internas, listas de estoque, registros de entrada e saída. As colunas de números eram mais sinceras do que muitos rostos. Elas não sabiam mentir; apenas mostravam quando alguém as havia manipulado.
O problema é que, desta vez, a manipulação era inteligente.
— Não são desvios aleatórios — comentei, fechando uma pasta. — É alguém que conhece a casa melhor do que deveria.
Caio, ao meu lado, cruzou os braços.
— Intendência é o coração invisível, Viktor. Quem mexe ali não é soldado raso.
— Nem sempre — retruquei. — Às vezes é o funcionário discreto que ninguém vê, mas que tem acesso a todas as portas.
Pensei no auxiliar de Murilo. Pensei nos sedativos desaparecidos. Pensei na assinatura falsificada. As peças começavam a se aproximar, mas ainda faltava um fio para costurá-las.
E esse fio, eu sabia, passaria inevitavelmente por Alina.
Encontrei-a no pátio de treino, ao final do dia.
Ela havia insistido em aprender o básico de defesa com os meus homens. Não para agradar, mas por necessidade. Quando cheguei, dois lobos do núcleo interno a observavam com respeito cauteloso. Ela girava o corpo para se livrar de um golpe simulado, respiração rápida, expressão concentrada.
— De novo — ordenou ao instrutor, antes que ele mesmo pedisse.
Gostei da insistência.
O movimento não era perfeito. Os pés ainda se posicionavam um pouco atrasados, o ombro pendia mais do que devia, mas a vontade estava no lugar certo. E vontade, no campo, às vezes vale mais do que técnica.
— Chega por hoje — anunciei, aproximando-me.
O instrutor recuou de imediato. Alina se voltou para mim, o suor marcando a testa, algumas mechas soltas do cabelo coladas à pele.
— Poderia continuar mais um pouco — afirmou, não perguntou.
— Poderia — concordei. — E amanhã acordaria com o corpo em frangalhos, presa à cama quando precisarmos que esteja de pé.
Ela mordeu o lábio por um instante, irritada por reconhecer que eu tinha razão. Não verbalizou essa irritação. Apenas assentiu, respirando fundo.
Foi então que vi: o dorso da mão direita, arranhado e m*l coberto por um curativo improvisado. A marca do treino somava-se ao resquício quase curado do corte da fronteira.
— Venha comigo — disse.
— Estou bem — respondeu, por reflexo.
— Nunca confie no “estou bem” dito depois de um dia como este — retruquei. — Venha.
Ela hesitou um segundo, depois me seguiu.
***
No meu gabinete havia um pequeno armário de primeiros socorros. Não porque faltassem médicos na casa, mas porque existem feridas que não exigem enfermaria, apenas atenção rápida.
Indiquei a cadeira em frente à mesa.
— Sente-se.
Ela sentou. O silêncio entre nós não era confortável, mas também não era hostil. Era um espaço em construção.
Peguei uma bandeja com gaze, antisséptico, faixas. Sentei-me à frente dela, perto o suficiente para alcançar sua mão.
— Posso? — perguntei.
Ela sustentou o meu olhar por um momento longo demais, como se procurasse ali alguma forma de controle escondida. Depois, estendeu a mão, com a dignidade de quem não pede, apenas aceita uma necessidade.
O corte era superficial, mas m*l cuidado. Limpei a área com cuidado clínico, sem movimentos bruscos. O cheiro do antisséptico se misturou ao perfume discreto dela, criando uma combinação curiosa: ferro e algo doce. Ferro e mel.
— Teria tratado sozinha depois — murmurou.
— Teria esquecido, ocupada demais tentando resolver o mundo — respondi.
Ela deixou escapar um meio sorriso, fatigado.
— Parece que esquece que eu não comando nada aqui dentro.
Enfaixei o ferimento com firmeza, sem apertar demais.
— Comanda mais do que imagina — falei. — As ômegas já te veem como referência. E quem você escuta passa a ser ouvido por mim.
Os olhos dela se estreitaram, curiosos.
— Está admitindo que precisa de filtro?
— Estou admitindo que não posso estar em todos os lugares. — Pausei, avaliando até onde iria. — E que, quando alguém mexe na intendência, é útil ter olhos em lugares que não pertencem a conselheiros nem betas.
Ela ficou imóvel.
— Intendência — repetiu. — É onde sumiram os sedativos?
Assenti.
— Não só isso. Contratos adulterados, registros de estoque alterados, ordens de compra estranhas. Alguém está sabotando a casa por dentro. Não é apenas política. É preparação de campo.
— Para quê? — perguntou, embora soubéssemos a resposta.
— Para quando decidirem que está na hora de me derrubar. — Minha voz saiu mais baixa. — Não se derruba um Alfa só com bala. Derruba-se cortando suas reservas, suas rotas, sua credibilidade.
Ela respirou fundo, os olhos presos nos meus.
— Por que está me contando isso, Viktor?
Era a pergunta inevitável.
Larguei a gaze usada, levantei-me e fui até o cofre embutido na parede. Digitei a combinação, senti o clique metálico, puxei a pequena porta.
De lá de dentro, tirei uma chave.
Não era grande. Metal escuro, dentes específicos, um número gravado na lateral. Aquela chave abria apenas duas coisas no mundo: uma sala de guerra e um compartimento secundário num depósito que poucos conheciam.
Voltei, coloquei a chave sobre a mesa, entre nós.
— Porque já não basta te proteger com o corpo — respondi. — Preciso te dar meios para agir se eu cair.
Ela demorou um instante para entender.
— Cair… em que sentido?
— Todos eles. — Encarei-a sem desviar. — Se um dia eu for afastado à força, preso, ferido a ponto de não conseguir comandar… ou morto.
A palavra ecoou pesada, mas não a retirei. Não tenho o hábito de adoçar venenos.
— Esta é uma chave de guerra, Alina. — Toquei o metal com a ponta dos dedos. — Abre o acesso à sala onde mantenho protocolos de emergência. Rotas, contatos fora da casa, recursos que não passam pelo Conselho. Se acontecer o pior, você vai até lá, pega o dossiê marcado com o símbolo da lua cortada e segue as instruções.
Ela olhava a chave como quem observa um animal desconhecido.
— Por que eu? — insistiu. — Tem Caio. Tem homens que já lutam ao seu lado há anos.
— Porque Caio será o primeiro alvo se quiserem me paralisar — respondi, simples. — E porque os homens que já lutam ao meu lado são precisamente aqueles que o inimigo espera ver reagir. Você, não.
Ela engoliu em seco.
— Está pedindo que eu confie em você… ao mesmo tempo em que me prepara para viver sem você.
— Estou pedindo que confie em si mesma o bastante para não congelar se o mundo desabar — corrigi.
A mão dela tremeu ao pegar a chave. Vi o conflito no rosto: a lembrança de alfas que usavam poder para enclausurar, misturada à imagem recente do meu corpo entre ela e a faca.
— Não vou prometer que vou obedecer cegamente ao que estiver nesse dossiê — avisou, erguendo o queixo. — Mas também não vou desperdiçar uma ferramenta que pode salvar vidas.
Um canto da minha boca quase se ergueu.
— Não esperaria menos.
Foi quando o alarme tocou.
Não o de perímetro, não o de depósito. Um som diferente, mais agudo, intermitente. O sistema inteiro da casa-alcateia reagiu. Luzes de emergência acenderam-se em alguns corredores.
Caio irrompeu pela porta sem formalidades.
— Abrigo das ômegas — disse, direto. — Fogo.
O corpo reagiu antes da mente. Deixei a bandeja de curativos de lado, ergui-me num movimento só.
— Vítimas? — perguntei, já a caminho.
— As primeiras informações dizem que conseguiram evacuar a tempo — respondeu. — Mas o fogo começou em dois pontos distintos. Não foi acidente.
Alina estava de pé, a chave ainda na mão. O rosto dela perdeu cor por um segundo, mas não houve paralisia.
— Vai ficar no gabinete — comecei.
— Não vai — cortou, com firmeza surpreendente. — O abrigo é delas, Viktor. É nosso. Se alguém está atacando esse lugar, está atacando tudo o que começamos a construir.
O instinto de comando queria ordenar que ficasse. O instinto de sobrevivência, porém, reconheceu o valor de tê-la ali: as ômegas responderiam a ela. E eu precisava de ordem no meio do pânico.
Assenti.
— Fica ao meu lado. Não se afasta sem que eu veja.
Descemos as escadas em passos largos, guardas abrindo caminho. O cheiro de fumaça chegou antes da visão das chamas. No corredor que levava ao abrigo, mulheres estavam amontoadas, algumas tossindo, outras chorando, todas assustadas. Nenhuma ferida de forma grave.
— Afastem-se, respirem fundo, organizem filas — ordenei, a voz firme. — Ninguém volta lá para “salvar coisas”. A vida é a prioridade.
Alina foi até elas como se tivesse nascido para isso. Tocou ombros, murmurou orientações, olhou nos olhos de cada uma que conseguia. Eu ouvi o pensamento de várias: Ela está aqui. Ela também correu.
Dois pontos de fogo, disse Caio. Um no depósito interno de roupas, outro próximo às camas. Chamas controladas o suficiente para permitir evacuação. Insinuações de desastre, sem mortes.
Recado.
Entramos no abrigo quando os extintores já começavam a domar o incêndio. As paredes estavam negras em alguns pontos. O cheiro de plástico queimado dominava o ambiente.
Na parede ao fundo, sobre uma faixa ainda intacta de reboco, alguém havia rabiscado com tinta escura, grossa, apressada:
“NENHUMA ÔMEGA ESTÁ REALMENTE SEGURA.”
Senti a raiva subir, não em calor, mas em gelo.
— Estão atacando o que você simboliza — Caio murmurou, ao meu lado. — E o que ela está tentando formar.
Alina leu a frase em silêncio. Seus dedos apertaram a chave dentro do bolso, como se o metal pudesse lhe dar equilíbrio.
Eu me aproximei da parede, observando a caligrafia, o gesto, a altura do traço. Enquanto os outros viam apenas ameaça, eu ouvia o que estava por baixo: Vamos ver até onde ele consegue protegê-las. Vamos ver até onde ela aguenta.
Vozes cobardes sempre acreditam que ferro e mel não combinam.
Em breve, alguém descobriria o contrário.