Alina
O mundo parecia ter mudado de textura após o ataque na fronteira. Não era apenas o odor persistente de sangue, terra e fumaça que grudava em mim; era a realidade tangível de um Alfa me protegendo do perigo. A lâmina não me alcançou porque ele se interpôs. Sua mão deteve o atacante com uma força silenciosa, puramente decisiva.
O medo era esperado, e eu o senti. Mas não foi a única emoção.
Havia um sentimento incômodo, que eu me recusava a reconhecer: um alívio misturado à revolta. Uma gratidão que vinha ligada à lembrança de todas as vezes em que me disseram que a proteção tinha um custo alto demais para uma ômega.
Naquela noite, ao fechar a porta do quarto, encostei a testa na madeira e inspirei profundamente. A imagem dele interceptando o golpe se repetia incessantemente em minha mente.
Ele escolheu não me permitir ser usada para testar limites. Ele não o fez.
Isso não alterava o contrato, o controle, ou a marca — adiada ou não. Mas abria fissuras em algumas certezas sobre o que realmente significava estar sob o nome de um Alfa.
***
No dia seguinte, eu tenha sentido mais urgência em olhar para outras que não tinham ninguém entre elas e o mundo.
As ômegas invisíveis.
A casa alcateia estava cheia delas: auxiliares de limpeza, jovens na cozinha, ajudantes na enfermaria, mensageiras. Deslizavam pelos corredores na periferia dos olhares, como se fossem parte da mobília. Quando muito, recebiam ordens. Raramente, perguntas.
Comecei a procurá-las com intenção.
Na lavanderia, o vapor quente subia em nuvens, e o barulho das máquinas criava uma espécie de cortina sonora. Duas ômegas dobravam lençóis. Outra marcava pilhas de uniformes com etiquetas.
— Posso ajudar? — perguntei, entrando, sem tentar impor presença.
Elas se entreolharam, desconcertadas.
— Senhora não precisa… — começou uma delas.
— Alina — corrigi, com calma. — E preciso, sim. Ninguém se mantém em pé sozinho aqui dentro. Pelo menos não por muito tempo.
A frase pareceu desmontar uma camada de reserva. Aos poucos, as respostas ficaram menos curtas, as perguntas, menos travadas. Em pouco tempo, estávamos todas sentadas num canto menos movimentado, com uma cesta de roupas servindo de desculpa para o que realmente acontecia: conversa.
Ouvi histórias.
De toques indesejados mascarados de zelo.
De ordens que atravessavam limites pessoais em nome da disciplina.
De silêncios forçados quando alguém ousava questionar.
— Aqui, a gente só fala entre nós — murmurou uma, de olhos baixos. — Se chega nos ouvidos errados, vira fofoca de ômega histérica.
— Ou ingratidão — completou outra. — “Depois de tudo o que a casa faz por vocês…”
Cada frase ecoava o passado que eu julgara enterrar. Manipulação tem sotaque parecido em qualquer território.
— Eu não prometo milagres — falei, consciente do peso da minha posição ambígua. — Mas prometo ouvir. E, quando possível, mover o que eu puder mover sem colocar ninguém em risco.
Elas se entreolharam outra vez. Algo mudou ali. Não era idolatria. Era a semente de um conselho informal. Um espaço onde vozes abafadas ganhavam forma.
Foi nesse clima que uma informação escorregou.
— Dona Zuleide está uma fera — comentou uma das ômegas da ala médica. — Sumiram frascos do estoque, e ela está ameaçando colocar câmera até dentro dos armários.
Meu corpo inteiro se enrijeceu.
— O que exatamente sumiu? — perguntei.
— Sedativos — respondeu, baixando a voz. — Dos fortes. Aqueles que só saem com registro.
Sedativos fortes poderiam servir para muita coisa: controlar feridos, conter crises, ou… derrubar guardas. Silenciar testemunhas. Facilitar ataques “limpos”.
— Quando perceberam o sumiço? — insisti.
— Depois da explosão do depósito — retrucou. — Fizeram inventário, deu falta. Mas parece que querem abafar. Disseram que pode ser erro de anotação.
Nenhuma das ômegas da enfermaria acreditava em “erro de anotação”. Nem eu.
Agradeci mentalmente por ter ido até ali. O Conselho não falaria desse tipo de detalhe comigo. Mas a linha de frente invisível da casa sabia de tudo o que passava por baixo das portas.
— Alguém novo teve acesso ao estoque nos últimos dias? — perguntei, tentando soar apenas curiosa.
A garota pensou.
— Novo, não. Mas um dos auxiliares do Conselheiro vive indo e vindo da ala médica com papelada… sempre com autorização de cima. Diz que é para revisar custos. — Ela torceu o pano nas mãos. — Ninguém n**a entrada a alguém com o carimbo do Conselho.
Auxiliar do Conselheiro.
Próximo de Murilo.
Com trânsito entre papéis e remédios.
O desconfia dentro de mim acendeu como sirene.
Fui direto à enfermaria.
Encontrei Dona Zuleide debruçada sobre uma prancheta, óculos na ponta do nariz e expressão de poucos amigos.
— Diga logo que não veio medir pressão, que eu poupo a conversa padrão — resmungou, sem levantar o olhar.
— Não vim medir nada, só confirmar um rumor — respondi. — Sumiram sedativos?
Ela ergueu os olhos, avaliando se você poderia confiar em mim aquele tipo de irritação.
— Sumiram, sim — admitiu. — E não foi erro de anotação. Eu mesma conferi. Três frascos. Dos mais controlados.
— Quem tem acesso a eles?
— Eu, dois enfermeiros antigos, a chave do armário… e qualquer pessoa que venha com ordem assinada pelo setor administrativo e carimbo do Conselho — explicou. — E adivinhe quem apareceu dois dias antes da explosão pedindo nota detalhada de uso de medicamentos?
— Um auxiliar de Murilo — arrisquei.
Ela assentiu, amarga.
— Educado demais para o meu gosto. Gente que sorri muito para quem manda e olha pouco no olho de quem trabalha.
Senti a raiva subir em ondas contidas.
— Você contou a Viktor?
— Ainda não. — Zuleide pousou a prancheta. — O homem está apagando incêndio com as próprias mãos, literalmente. Preciso levar não só suspeitas, mas algum fio mais concreto, ou vira paranoia de velha.
— E se paranoia de velha for exatamente o que vai salvar essa casa? — retruquei, com mais veemência do que planejei.
Ela me olhou de um jeito diferente.
— Você está vendo o Alfa com olhos menos nublados pelo medo, não está? — perguntou, sem rodeios.
Engoli em seco.
— Ele me protegeu na fronteira — admiti. — Não como quem exibe poder, mas como quem coloca o corpo na frente sem pensar duas vezes. Eu sei reconhecer isso. Mas também sei que ninguém, por mais forte que seja, enxerga tudo sozinho.
— Hum — murmurou, pensativa. — Então use esse lugar estranho em que você está: não é apenas “a ômega dele”. Também não é só “a menina assustada que chegou com cicatriz escondida”. Está em posição de ouvir de cima e de baixo. Pouca gente tem esse privilégio e essa maldição.
A palavra “maldição” fez sentido demais.
Antes que eu pudesse responder, ouvi passos no corredor. Deixamos o assunto morrer ali, por segurança. O mensageiro da casa apareceu na porta com uma pasta nas mãos e postura oficial.
— Senhora Alina — anunciou, usando o tom protocolar que detestava. — Há uma convocação para a senhora.
O papel tinha o brasão da alcateia carimbado em vermelho. Peguei-o com dedos que eu me obriguei a manter firmes.
“Convocação oficial para audiência interna sobre a oficialização da marca do Alfa Viktor…”
As linhas seguintes detalhavam horário, local, presença do Conselho, formalidades. O discurso bonito de preservação de tradições, proteção da estabilidade, blá-blá-blá cuidadosamente escrito para que parecesse favor, não pressão.
— Querem resolver logo — comentei, a voz mais fria do que me sentia.
— Não querem resolver. — Dona Zuleide pegou um estetoscópio, mais para ter o que fazer do que por necessidade. — Querem organizar o espetáculo.
O mensageiro se retirou.
Fiquei ali, com o papel nas mãos, sentindo uma mistura brutal de emoções: medo de reviver tudo aquilo que quase fui forçada a viver com outro Alfa; raiva por ter meu corpo novamente transformado em pauta; e, para meu desconforto, um fio de confiança que não queria morrer — confiança num homem que, horas antes, havia estancado sangue da minha pele com as próprias mãos e enfrentado, sozinho, a investida de lobos treinados.
Viktor não era meu salvador.
Mas também não era o mesmo tipo de carrasco do meu passado.
Essa ambiguidade, essa zona cinzenta entre proteção e controle, entre poder que aprisiona e poder que sustenta, era o que arrancava pedaços de mim.
Dobrei a convocação devagar, como se o ato de dobrar pudesse, de algum modo, diminuir seu peso.
— Você vai? — Dona Zuleide perguntou, embora soubesse a resposta.
— Tenho contrato — respondi. — E tenho voz. Não pretendo abandonar nenhuma das duas coisas.
Ela assentiu, um respeito mudo atravessando o olhar.
— Então que sua voz faça barulho suficiente para quem precisa ouvir… e silêncio suficiente para quem ainda está sendo caçado — disse.
Saí da enfermaria com duas novas convicções: sedativos estavam sendo usados indevidamente por alguém próximo ao Conselheiro, agindo como uma sombra, e uma audiência estava marcada para que meu corpo se tornasse, definitivamente, um símbolo.
Se era isso que o mundo desejava ver, que olhasse.
A única coisa que eu não lhes daria era a peça dócil que esperavam.