Capítulo 08 : Primeira Caça

1579 Palavras
Viktor Levar Alina para a fronteira, naquela noite, não foi impulso. Foi cálculo. A alcateia Corvus vinha encostando território aos poucos, como ferrugem em grade antiga: discreta no início, até que o metal cede de uma vez. Testes nas rotas, barulhos em horários improváveis, sombras na linha dos morros. Eu podia simplesmente reforçar patrulhas e trancar portas. Mas portas fechadas não ensinam ninguém a reconhecer perigo. — Você tem certeza disso? — Caio caminhava ao meu lado, passos firmes na terra úmida. — Expor a ômega, mesmo em patrulha controlada, não é exatamente o que o Conselho chamaria de prudente. — O Conselho chama de prudente qualquer coisa que mantenha as cadeiras deles intactas — respondi, sem desviar os olhos da trilha. — Alina precisa ver onde pisa. E eu preciso ver como o inimigo reage à presença dela fora das paredes. Ouvi o pensamento de Caio roçar a superfície da mente: Você está testando os dois. Não neguei. Não precisava. Alina vinha alguns passos atrás, equipada de forma simples: jaqueta escura, botas firmes, cabelo preso. Os olhos atentos percorriam o caminho, absorvendo detalhes com a rapidez de quem aprendeu, cedo demais, que sobreviver começa pela leitura do ambiente. — Fique entre nós dois — ordenei, sem dureza desnecessária, mas sem margem para discussão. — Se algo acontecer, você se abaixa. Entendido? — Entendido — respondeu, a voz firme. Não era bravata. Era decisão. A fronteira leste se estendia adiante, onde o terreno descia em vales rasos e subia de novo em lombadas cobertas de mato. Ao longe, luzes esparsas indicavam o limite da Corvus. Cheiros diferentes se misturavam no ar: resina, fumaça, lobo. O território falava, para quem sabia ouvir. Eu parei num ponto estratégico, onde uma árvore retorcida se erguia como marca silenciosa. — Aqui — indiquei. — Ponto de observação três. O ideal para um ataque-teste. — Você soa quase satisfeito — Caio comentou. — Satisfeito quando estão previsíveis, não quando estão quietos demais — corrigi. A mente da noite murmurava embaixo da superfície. Pensamentos soltos dos meus homens: concentração, leve nervosismo, expectativa. Ao fundo, algo mais difuso, como respiração presa: Será hoje? Não era dos meus. Inclinei o rosto, procurando a origem do ruído mental. Nada claro. Nada próximo o bastante. — Viktor? — Alina se aproximou meio passo. — Há algo errado? — Sempre há — respondi. — A diferença é quando isso se torna útil. Ela ficou em silêncio, mas o coração acelerou. Senti como uma pulsação à distância. Meu poder de leitura nunca se limitou a mentes; em campo, o cheiro da adrenalina era quase um idioma próprio. O ataque veio como deveria vir: rápido, calculado, sem aviso verbal. Três sombras romperam a linha de vegetação à esquerda, outras duas à direita, avançando em meia-lua, mirando o flanco, não o centro. Lobos em forma humana, olhos claros, movimentos sincronizados. Corvus. Reconheci o padrão antes mesmo de sentir o odor metálico da alcateia rival. — Abaixar! — rugi, o comando ecoando como ordem instintiva. Alina obedeceu sem hesitar, agachando-se atrás de uma rocha. Caio já estava em posição, arma curta em punho, corpo voltado para o lado mais exposto. O primeiro atacante veio direto a mim, com a arrogância de quem queria testar força. Eu não recuei. O impacto foi violento, corpo contra corpo, músculo contra músculo. A força dele teria derrubado um humano comum. Eu apenas deslizei um pé para trás, ajustando o peso, e o segurei pelo colarinho, torcendo o braço com precisão suficiente para ouvir a articulação protestar. A mente dele gritou antes da boca: Não era para ser assim… — Não era para eu estar preparado? — perguntei, seco, antes de lançá-lo ao chão com um movimento curto. Outro veio por cima, saltando com as garras meio expostas, olhos cheios de ódio cuidadosamente cultivado. Senti o ar cortando perto do meu rosto, girei o tronco e o atingi no estômago com um golpe que levantaria qualquer homem do chão. Ele voou dois metros para trás, caindo sobre a grama com um gemido sufocado. À direita, Caio já tinha derrubado um, imobilizando-o com o joelho nas costas e o antebraço no pescoço, controlando sem matar. Era assim que funcionávamos: eu quebrava o avanço, ele garantia que as peças úteis ficassem vivas. O quarto atacante avançou pelo flanco onde Alina se escondia. Não foi acaso. Eu senti a intenção antes do movimento: A ômega… testar reação… — Caio, esquerda! — gritei, já me deslocando. O lobo corvus correu na direção dela, faca curta brilhando na mão. Não era arma para matar à distância, era arma para marcar, ferir, assustar. Mensagem. Alina se ergueu instintivamente, corpo entre ele e a rocha, como se a postura bastasse para deter o avanço. O tempo esticou. Vi os olhos do atacante se arregalarem ao percebê-la de frente — não como vítima, mas como testemunha. Eu alcancei os dois num segundo que pareceu inteiro. Agarrei o pulso dele antes que a lâmina tocasse a pele dela. O metal ainda estava frio quando apertei a mão do atacante com força suficiente para sentir os ossos comprimidos. — Você escolheu o alvo errado — murmurei, perto o bastante para que apenas ele ouvisse. Ele tentou reagir, girando o corpo, mas não estava preparado para alguém com minha força. Torci o pulso, arranquei a faca e o empurrei para trás, lançando-o contra uma árvore. O impacto tirou-lhe o ar. Alina respirava rápido, mas não gritou. Havia medo ali, evidente, mas também um brilho diferente: indignação. — Está ferida? — perguntei, sem desviar os olhos do inimigo. — Não… — Ela tocou o próprio braço, o ombro, confirmando. — Não me atingiu. Havia, porém, um risco superficial na mão, fruto de uma pedra ou de um movimento brusco. Sangue. O cheiro subiu, imediato. Aquilo poderia atrair quem estivesse mais perto. Não apenas lobos, mas memórias. Cicatrizes. Vi no rosto dela, por um segundo, o reflexo de outra noite, outro fogo, outra mão segurando metal. Ergui a mão em direção ao corte. — Não encoste — ela murmurou, reflexo. — Estou controlado, Alina — respondi, e havia verdade ali. Aproximando os dedos da pele, deixei meu poder fluir, concentrado. Não era milagre. Era genética. Energia canalizada. O sangue estancou mais rápido do que seria natural. A ardência cedeu. — Isso… — Ela franziu a testa, surpresa. — Como faz isso? — O mesmo jeito que faço quase tudo — respondi, recuando. — Com disciplina. No fundo, a mente dela sussurrou algo que não era para mim, mas chegou mesmo assim: Ele poderia usar isso para me prender… e ainda assim está usando para me manter de pé. Respeito não nasce de gentileza. Nasce de coerência em campo. O estampido de um tiro cortou o ar. Um dos meus homens, mais distante, avisando que a retirada havia começado. Os corvus recuavam em formação, arrastando os que podiam, deixando apenas o indispensável para trás. Não tentaram capturar ninguém. Não insistiram na ômega. Não buscaram vantagem prolongada. Ataque-teste. Nada mais. Nada menos. — Deixe este consciente — indiquei, apontando para o que Caio mantinha imobilizado. — Quero perguntas respondidas. Caio assentiu, ampliando a pressão apenas o bastante para marcar quem mandava ali. Os outros atacantes já se moviam, cambaleando de volta para a zona neutra, obedecendo a uma ordem silenciosa. E foi quando senti. Um cheiro. Familiar. Não de alcateia rival. De casa. Aproximei-me do atacante contra a árvore, puxando-o pela gola para ficar em pé. O sangue dele escorria pelo canto da boca, mas os olhos ainda tinham foco suficiente para me encarar com ódio. Inalei de perto. Por baixo do odor metálico da Corvus, havia algo que não pertencia àquele território: resquício de nosso sabão de quartel, fumaça do nosso tipo de lenha, o exato perfume usado em um dos corredores internos da casa-alcateia. A mente dele tentou se fechar. Tarde demais. Ele não pode ligar… o outro garantiu que o cheiro não seria notado… Minha raiva não explodiu. Congelou. — Interessante — murmurei. — Alguém te preparou bem para entrar e sair da minha casa sem levantar suspeita. Ele não respondeu. O pensamento, porém, gritou: Traidor… não eu… o de dentro… — Um dos seus cheira a vocês. — Virei o rosto para Caio. — E esse aqui cheira a nós. Caio entendeu na hora. O olhar dele ficou mais escuro. — Isso confirma o que já desconfiávamos — disse. — Há mão interna guiando os passos deles. Soltei o atacante apenas para atingi-lo no ponto certo da nuca, deixando-o desacordado. Não precisava de mais resistência por enquanto. Precisava de respostas, e elas viriam. Olhei para Alina. Ela já olhava para mim. Não havia romantização no rosto dela. Havia, sim, uma compreensão silenciosa: ela tinha acabado de ver, de perto, o que significa ter um Alfa entre o perigo e seu corpo. Não como dono, mas como escudo. — Foi irresponsável me trazer? — ela perguntou, sem rodeios. Pensei antes de responder. — Foi necessário — disse. — Agora você sabe de que tipo de guerra estamos falando. E eu sei de que tipo de coragem você dispõe. O respeito que nasceu ali não foi súbito. Foi como um traço finíssimo, começando a ser desenhado entre nós. Ainda havia desconfiança, traumas, política demais. Mas naquele pedaço de fronteira, entre sangue e fumaça, duas verdades se encararam: Eu nunca permitiria que a encostassem sem passar pelo meu corpo. E ela nunca voltaria a ser apenas vítima em território de ninguém.
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