Capitulo 2— ELIZABETH

1704 Palavras
Eu não corri. E isso foi o primeiro erro que cometi naquela floresta. Ou talvez não tenha sido erro. Talvez… fosse inevitável. O som atrás dele ainda ecoava. Rasgos. Estalos. Algo sendo consumido com uma calma errada demais para ser chamada de fome comum. E mesmo assim… eu não tirava os olhos do Alfa. Era como se o resto tivesse deixado de existir. — Você deveria estar gritando — ele disse. Minha garganta apertou. — Já fiz isso antes. Não funcionou. Silêncio. Os olhos dele me analisaram de novo. Mais fundo. Como se estivesse tentando entender algo que não encaixava. — Humanos quebram fácil — ele murmurou. — Você não quebrou. Eu soltei uma risada curta. Sem humor. — Você não me viu antes. Ele inclinou levemente a cabeça. — Vi o suficiente. Eu duvidei disso imediatamente. Mas não disse nada. Porque algo dentro de mim… não queria lembrar. O vento passou entre nós. E trouxe o cheiro. Sangue. Terra. Pelagem molhada. Fera. — Você mora aqui? — perguntei, mais para manter minha mente funcionando do que por curiosidade. — Eu governo aqui. A resposta veio simples. Definitiva. — Isso não é a mesma coisa. — Aqui é. Silêncio. Irritante. O som atrás dele diminuiu. Não terminou. Só… mudou. Como se algo tivesse acabado de se alimentar. E agora estivesse satisfeito o suficiente para esperar. — Aquilo… — engoli seco — são todos como você? Ele seguiu meu olhar por um instante. — Não. — Ótimo… — Alguns são piores. Meu estômago virou. — E você? Silêncio. Ele demorou mais do que antes. — Depende do que você considera pior. Eu não gostei da resposta. Nem um pouco. Outro som ecoou na floresta. Mais distante. Mas não era aleatório. Era um chamado. Profundo. Coordenado. O corpo dele mudou instantaneamente. Tenso. Alerta. — Eles estão vindo — ele disse. — “Eles”? Ele me olhou. E pela primeira vez… havia urgência. — Minha alcateia. Minha garganta secou. — Eu deveria correr? Ele me encarou como se a pergunta fosse inútil. — Já deveria ter corrido. Honesto demais. A floresta ao redor pareceu ficar mais pesada. Mais fechada. Como se estivesse ouvindo junto. — Eu não tenho para onde ir — eu disse, mais baixo. Algo mudou no rosto dele. Não suavidade. Não bondade. Algo mais perigoso. Consciência. — Isso não importa. — Pra mim importa. Outro som. Mais perto. Mais rápido. Mais… organizado. O Alfa se moveu pela primeira vez com intenção clara. Ele segurou meu braço. Firme. Quente. Forte demais para algo humano. — Você vem comigo. — Isso não parece uma escolha. — Não é. Eu deveria resistir. Mas não resisti. Porque naquele momento… Ele era o único que não estava tentando me devorar. Literalmente ou não. Ele começou a me guiar pela floresta. Rápido. Preciso. Como se o chão fosse conhecido demais por ele. Eu tropecei uma vez. Ele não soltou. Nem um centímetro. — Mais rápido — ele disse. — Eu estou tentando! — Tente melhor. — Você quer correr no meu lugar?! Ele não respondeu. Mas apertou meu braço um pouco mais firme. Não machucando. Mas lembrando. Sempre lembrando. Que ele poderia. A floresta mudou. Não fisicamente. Mas no ar. Na pressão. Na sensação de estar sendo observada por olhos que eu não via. — Eles estão perto — eu disse. — Sim. — E você? Ele parou por meio segundo. Só um. — Eu estou entre você e eles. Aquilo deveria ser reconfortante. Não foi. Porque soou como promessa… e posse ao mesmo tempo. Continuamos até que o ambiente mudou. Não ficou seguro. Nada ali era seguro. Mas ficou… antigo. Pedras cobertas por raízes grossas. Marcas no chão. Cheiro de território. — Aqui — ele disse. Ele me soltou. Finalmente. Eu quase senti falta do peso. Quase. — Fica aqui. Eu ri sem vontade. — E confiar em você? Ele me olhou por cima do ombro. — Você já está aqui. Justo. E assustador. — Por quê? — perguntei. Ele não respondeu de imediato. Só começou a se afastar. — Porque você não deve sair daqui. — Por quê? Ele parou. Não virou. — Porque eu volto. Silêncio. Aquilo não soou como proteção. Soou como destino. E pior… Como certeza. Ele desapareceu entre as árvores. Sem som. Sem hesitação. E pela primeira vez desde que entrei na floresta… Eu fiquei sozinha. Mas não livre. Nunca livre. Porque agora eu sabia. Eu não tinha sido abandonada. Eu tinha sido colocada em espera. E alguma coisa… Estava vindo. Eu fiquei imóvel por alguns segundos depois que ele desapareceu. Não por segurança. Não por escolha. Mas porque o silêncio ali não era silêncio de verdade. Era observação. A floresta respirava de um jeito errado, como se cada árvore tivesse olhos, como se o chão lembrasse de mim pisando nele. O tipo de sensação que não vinha de imaginação… vinha de instinto. E instinto, eu estava começando a aprender, não mente. O vento mudou. Mais frio. Mais pesado. E então eu ouvi. Um estalo leve à esquerda. Depois outro à direita. Não era aleatório. Não era animal comum. Era cercamento. Meu corpo reagiu antes da minha mente. Eu recuei um passo. Depois outro. A mão ainda vazia, porque eu não tinha nada além de sobrevivência e uma vontade fraca de não morrer ali. — Não… — eu sussurrei, sem perceber. O primeiro surgiu entre as árvores sem pressa. Grande. Deformado no limite entre homem e fera. Os olhos dourados, mas vazios de qualquer coisa humana. E então outro. E outro. Não estavam correndo. Estavam me fechando. Como se já soubessem que eu não sairia dali. Meu coração bateu forte demais. Errado demais. E o pior pensamento veio junto, frio e claro: “Ele não está aqui.” Eu engoli seco. — Ótimo… — minha voz saiu falha. — claro que não está. Um rosnado respondeu. Baixo. Profundo. Perto. O primeiro deu um passo. E eu vi os dentes. Grandes demais. Reais demais. E naquele segundo, algo dentro de mim entendeu uma coisa simples: eles não estavam me testando. Estavam decidindo. Meu corpo congelou. Mas minha mente… não. Eu me forcei a respirar. Uma vez. Depois outra. Não gritar. Não cair. Não demonstrar o tipo de medo que faz alguém parecer presa. — Eu não sou comida — eu falei, mas não sei se foi pra eles ou pra mim. O som que veio foi quase uma risada. Quase. Mas não humana. O segundo avançou. Rápido. Demais. Eu tentei me mover. Mas não dava tempo suficiente. Eu vi o impacto antes de sentir. E então— Ele parou. No meio do salto. Como se algo tivesse puxado o mundo inteiro de volta. O corpo dele caiu pesado no chão. Silêncio. Diferente. Mais denso. Mais absoluto. E então eu senti. Antes de ver. A presença. Atrás deles. Não precisava olhar pra saber. O ar mudou. O medo deles mudou. E isso era impossível de ignorar. Um a um, os lobos se viraram. E recuaram. Devagar. Como se o instinto deles estivesse gritando algo mais alto que fome. — Eu não disse para ficarem longe dela? — a voz veio baixa. Controlada. Perigosa. O Alfa saiu da floresta como se sempre tivesse estado ali. Mas agora… não era só presença. Era domínio. Os olhos dele passaram por eles. Um por um. E nenhum sustentou. Nenhum. Os lobos recuaram mais. Submissão pura. Instinto puro. E então ele olhou pra mim. Só pra mim. E por um segundo… o mundo ficou estranhamente quieto. — Você ficou no mesmo lugar — ele disse. Não era pergunta. — Eu não tinha opção melhor. Ele se aproximou. E os outros… sumiram na floresta como se nunca tivessem existido. Só ele ficou. Sempre ele. — Você sentiu eles vindo — ele disse. — Eu não sou burra. — Não. Silêncio. Ele parou a poucos passos. Perto demais de novo. Como sempre. — Você deveria ter gritado — ele falou. Eu ri, mas saiu sem humor. — Eu já te disse… isso não ajuda aqui. Ele me observou por um momento mais longo. Como se estivesse decidindo algo. Ou lembrando. — Eles vão voltar — ele disse. Meu estômago apertou. — Ótimo. fila de gente querendo me matar, então. Ele inclinou a cabeça. Quase imperceptível. — Você fala disso como se não entendesse. — Eu entendo muito bem. — Não. A palavra veio firme. Cortante. E irritantemente certa. Ele se aproximou mais um passo. Agora perto o suficiente pra eu sentir o calor dele de novo. — Você ainda não entendeu o que é isso aqui. — E você vai me explicar? Silêncio. Longo. Errado. E então ele disse, mais baixo: — Você não está sendo caçada por eles. Meu corpo travou. — Então por quem? Ele me encarou. E dessa vez não havia suavidade nenhuma. Só verdade. — Por todos. Um frio atravessou meu peito. — Isso não faz sentido… — Faz. Ele virou o olhar por um segundo para a floresta. — Você entrou no território errado. — Eu não sabia que isso existia. — Não importa. Silêncio. O vento passou entre nós de novo. Mas agora parecia mais pesado. Como se carregasse alguma decisão invisível. — Você vai me matar também? — perguntei. Direto. Sem filtro. Ele voltou o olhar pra mim. E dessa vez… não respondeu rápido. Isso foi pior. Muito pior. — Se eu quisesse… você já estaria morta. Honesto. Simples. Perigoso. — Isso não é exatamente reconfortante — eu murmurei. — Não era pra ser. Silêncio. Ele se aproximou mais. E agora não havia mais espaço confortável entre nós. Só proximidade. Só tensão. Só aquilo que eu ainda não sabia nomear. — Você deveria ter ficado em casa — ele disse. Eu ri. Fraco. — Eu não tinha mais casa. Algo mudou no olhar dele. Pequeno. Mas real. — Então agora você tem algo pior. Eu franzi o cenho. — E o que seria isso? Ele olhou diretamente pra mim. Sem desviar. Sem hesitar. — Você tem mim. O silêncio que veio depois disso não foi só silêncio. Foi queda. E eu não soube dizer exatamente quando o mundo começou a ficar irreversível. Mas naquele momento… eu senti que já era tarde demais para voltar.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR