Meu nome é Elizabeth Victoria.
E eu deveria estar morta.
Não porque alguém tentou me matar.
Mas porque eu quis.
A última coisa que lembro antes da floresta foi o chão frio sob meus joelhos… e a voz do meu pai.
— Mentirosa.
Aquilo doeu mais do que qualquer outra coisa.
Mais do que as mãos dele me empurrando.
Mais do que os olhares.
Mais do que os sussurros.
Porque eu ainda acreditava que ele me conhecia.
Eu estava errada.
O sangue ainda escorria pela minha boca quando ele virou o rosto, como se eu fosse sujeira.
Como se eu tivesse escolhido aquilo.
Como se eu tivesse escolhido ser tocada.
Quebrada.
Usada.
— Você envergonhou essa família — ele disse.
E foi ali que eu deixei de ter uma.
As mulheres me olhavam com pena.
Algumas… com nojo.
Os homens…
Ah, os homens…
Eles olhavam diferente agora.
Como se eu tivesse deixado de ser pessoa.
E me tornado… algo disponível.
Eu ouvi alguém rir.
— Cinco dólares.
Eu nem sei quem disse.
Mas eu nunca esqueci.
Porque naquele momento… eu entendi.
Eu não era mais filha.
Não era mais noiva.
Não era mais nada.
Só um corpo.
Então eu corri.
Não pra viver.
Mas pra desaparecer.
A floresta apareceu diante de mim como uma boca aberta.
Escura.
Silenciosa.
Errada.
Mas eu entrei.
Porque qualquer coisa era melhor do que aquilo.
Eu não sabia…
Que tinha acabado de escolher algo pior.
Muito pior.
O silêncio veio rápido demais.
E então…
Os olhos.
Vários.
Amarelos. Vermelhos. Humanos demais para serem humanos.
Observando.
Respirando junto com a floresta.
Lobos.
Não comuns.
Grandes demais.
Quietos demais.
Errados demais.
E ele.
Cabelos escuros.
Olhos dourados como fogo antigo.
E a presença…
A presença de alguém que não pede espaço.
Ele sorriu.
E disse apenas uma palavra:
— Minha.
E pela primeira vez desde que tudo aconteceu…
Eu senti medo de verdade.
Eu deveria ter corrido.
Mas meu corpo não respondeu.
Era como se algo dentro de mim tivesse… reconhecido.
Errado.
Totalmente errado.
E ainda assim… familiar.
O homem não se movia rápido. Não atacava como um animal descontrolado. Ele apenas caminhava, lentamente, como se tivesse todo o tempo do mundo — como se soubesse que eu não tinha para onde ir.
E talvez não tivesse mesmo.
O ar ficou mais frio.
Pesado.
Cada passo dele fazia o silêncio ao redor se contrair, como se a própria floresta respirasse junto com ele.
Eu dei um passo para trás.
Depois outro.
Mas não consegui desviar o olhar.
Os olhos dele… não eram apenas dourados.
Eram antigos.
Instintivos.
Como se carregassem algo que eu não conseguiria entender.
E então eu vi.
As mãos.
Levemente manchadas.
Sangue recente.
Meu estômago revirou.
— Você… — minha voz saiu fraca — você é humano?
Ele inclinou a cabeça.
Como se a pergunta fosse irrelevante.
— Não.
O coração bateu mais forte.
— Então o que você é?
Silêncio.
Ele parou a poucos passos de mim.
Perto demais.
Eu podia sentir o cheiro.
Terra. Sangue. Fera.
Algo vivo demais.
Algo faminto demais.
— Você entrou — ele disse, como se isso explicasse tudo.
Eu balancei a cabeça, tentando manter a respiração.
— Eu não sabia—
— Não importa.
A forma como ele disse aquilo não era c***l.
Era final.
Como uma lei.
O vento passou entre nós.
E eu senti.
A mudança no ar.
Como se algo dentro da floresta estivesse ouvindo.
Observando.
— Eu deveria te matar — ele disse.
E dessa vez…
Eu acreditei.
Não havia ameaça na voz dele.
Só certeza.
Pura.
E ainda assim…
Ele não se movia.
Os olhos dele desceram lentamente pelo meu rosto… meu pescoço… meu corpo.
Não era o olhar dos homens da aldeia.
Era pior.
Porque não era desejo humano.
Era instinto.
Reconhecimento.
— Então por que não faz isso? — eu perguntei, mesmo com a voz tremendo.
Ele não respondeu imediatamente.
Em vez disso, deu mais um passo.
Agora tão perto que eu podia sentir o calor dele.
O corpo dele… não era completamente humano.
Havia algo mais ali.
Algo preso.
Algo que lutava.
Ele respirou fundo.
E algo dentro dele… respondeu a mim.
— Isso não está certo… — ele murmurou.
— O quê?
Ele levantou a mão.
Por um segundo pensei que fosse me tocar.
Ou me destruir.
Mas ele parou no meio do caminho.
Como se estivesse se segurando.
— Você deveria estar com medo.
Eu estava.
Mas não como ele queria.
E isso parecia… errado para ele.
— Eu estou — respondi.
Ele se aproximou mais.
Perto demais.
— Não como deveria.
Silêncio.
E então—
Um som.
Atrás dele.
Um rosnado.
Profundo.
E eu vi.
Sombras se movendo entre as árvores.
Outros.
Grandes. Selvagens.
Mas não descontrolados.
Organizados.
Ele não virou.
Mas eu vi.
O corpo dele mudou.
Como se algo dentro dele reconhecesse perigo.
— Não olha — ele disse.
Mas eu já tinha olhado.
E o que vi…
Fez meu sangue gelar.
Lobos.
Não apenas animais.
Não apenas feras.
Algo entre os dois.
E eu entendi, tarde demais, que aquilo não era apenas uma floresta.
Era território.
E eu tinha entrado nele.
A criatura atrás dele se moveu.
Rápida.
Violenta.
Caçando.
O som veio primeiro.
Rasgar.
Morder.
Quebrar.
Meu corpo travou.
Eu deveria fugir.
Gritar.
Mas não fiz nada disso.
Eu fiquei.
E o pior…
Algo dentro de mim não rejeitou.
O homem à minha frente percebeu.
Claro que percebeu.
Ele virou lentamente o rosto para mim.
E dessa vez…
Havia algo mais no olhar dele.
Mais escuro.
Mais consciente.
— Você não é normal — ele disse.
Eu ri.
Fraco.
Sem humor.
— Nem você.
Por um segundo…
Algo como um sorriso apareceu.
Rápido.
Perigoso.
— Não — ele concordou.
O som atrás de nós continuava.
Brutal.
Real.
Vivo demais.
— O que são eles? — minha voz falhou.
Ele finalmente olhou para a floresta.
— O que nós somos.
Silêncio.
Meu coração desacelerou por um instante.
Estranhamente.
Como se aceitasse.
— E você? — perguntei.
Ele voltou a me encarar.
E dessa vez…
Não havia dúvida.
— Eu sou o Alfa.
O vento soprou mais forte.
As árvores rangeram.
E naquele momento…
Eu entendi.
Eu não estava sendo caçada.
Eu já tinha sido encontrada.
E isso…
Era muito pior.