André
São quase 3 da tarde, quando o sol bate com menos intensidade no chão do escritório. Ainda assim, a grande parede de vidro o demonstra com força, projetando um pequeno fragmento que se parece à um arco-íris, tomando o chão e a parede em uma linha fina. Isso não é importante para ele. É apenas física. Ele sequer notou a arte que a natureza fez em seu escritório, mas notou avidamente quando Samanta bateu e entrou com passos suaves.
- Sr. Bueno... seu irmão está ao telefone. - disse enquanto seu rosto ficava um tanto vermelho.
- Eliezer disse o que quer? - abaixou um pouco o óculos para vê-la melhor.
- Não, mas...eu tentei que o senhor atendesse. Como não respondeu, eu precisei entrar. Ele já ligou três vezes.
- Não atendi, propositalmente.- sorriu
- Eu quis vê-la no meu escritório, Srta Samanta . Seu uniforme e minha sala absolutamente combinam.
- Oh, obrigada, eu acho - desviou o olhar, enquanto colocava o cabelo atrás da orelha
- Devo transferir a ligação?
- Sim. Antes que eu entre em reunião e ele venha fazer um show por aqui.
- É claro. Com licença.
André curvou o corpo para frente, observando as pernas de Samanta , enquanto ela abandonava o escritório. Sorriu e mordeu o lábio, enquanto retirava o óculos e atendia o telefone. Samanta, definitivamente é o gosto dele. Ela é branca, loira e com olhos claros, contrastando totalmente ao seu cabelo e olhos negros e pele mais bronzeada. Apesar de André detestar praias, a vida lhe foi gentil com a "cor do verão" que ele tem, naturalmente. Ele se encostou na cadeira e cruzou suas longas pernas, realmente longas, já que André mede seus 1,90m. Ele poderia ser um jogador de basquete ou um modelo, mas definitivamente, sabe se destacar até no mundo dos negócios. Se destacar é a sua marca principal.
- Pronto. - atendeu, encerrando seu sorriso.
- Irmão! Que saudades de você! - Eliezer riu, com o bom humor de sempre.
- Sim, posso imaginar. O que quer?
- Na verdade...- respirou
- Eu precisava de um dinheiro emprestado.
- Eu fico me perguntando, o que você faz com o dinheiro que ganha...
- Por favor, eu vou dar uma festa! E você está totalmente convidado, dessa vez!
- É o mínimo que você pode fazer depois de usar meu dinheiro.- rolou os olhos.
- Certo e você vai? E isso significa que vai me emprestar?
- Emprestar...- ele riu sarcástico
- Sim, eu te dou o dinheiro, mas não sei sobre ir. Cecilia detesta suas festas, Eliezer.
- Eu amo você! Ah, eu amo! - riu alto
- E f**a-se a Cecilia . Digo... você pode vir sozinho. Vão ter mulheres gostosas.
- Eliezer, eu não estou interessado em qualquer mulher no momento. Cecilia me tira qualquer vitalidade.
- Vão ter homens também, se é o que prefere.- tentou não rir.
- Eliezer... vá se f***r. E depois venha pegar o cheque com Samanta.- pressionava os lábios, irritado e com pressa.
- Samanta , hum? Já são íntimos...
- Não faça qualquer coisa com ela. Eu definitivamente estou na fila, platonicamente.
- Que bom saber que você ainda gosta de mulher! Te vejo às 9!
- Vou pensar sobre isso.- e desligou.
Ao desligar, Samanta o ligou no mesmo instante.
- Devo relembrar ao Senhor que a reunião começará em 15 minutos e os acionistas já chegaram.
- Você pode me relembrar sempre. É difícil esquecer algo vindo da sua voz, querida.
- Confirmo que o Senhor vai agora, então?"
- Sim, absolutamente.- desliga.
André tem um péssimo hábito: dificilmente se despede de alguma ligação. Sempre ocupado, acabou por reduzir até seu jeito de atender e desligar as chamadas. Isso incomoda à todos, mas é simplesmente o jeito André Bueno de ser: rápido, direto e objetivo. Ah e rude. Bem rude.
Quando seu horário de trabalho terminou, André foi buscar Cecilia em sua empresa, o que fazia sempre que tinha tempo. Em casa, antes de dar o menu para a cozinheira preparar-lhes o jantar, André a interrompeu.
- Eliezer nos chamou para uma festa em sua casa, hoje!
- E daí?
- Eu banquei a festa. Eu suponho que eu deva aparecer por lá.
- Oh, sim? - rolou os olhos.
- Agora você se preocupa para onde vai seu dinheiro quando Eliezer usa? Por favor...
- Não estou preocupado, Cecilia, eu apenas acho..
- Que quer beber um pouco, já que colaborou para isso. Que interessante.
- Você vai ou não? - disse com a voz mais alta e ríspida.
- Eu não vou até lá para ver você rodeado das vadias que seu irmão chama de amigas. Se você quer tanto uma mulher para sua diversão hoje, apenas vá, André , não me crie desculpas. Estou cheia, absolutamente cheia disso. - gritou.
- Você é completamente louca, mulher. - gritou de volta.
- Tudo o que eu quero, é outra mulher para perturbar minha vida, francamente, Cecilia. Ouça as merdas que você fala.
Cecilia não respondeu, mas seus olhos verdes lançavam toda a raiva que ela tinha no momento, respirava fundo enquanto o acompanhava com o olhar, ao subir as escadas. A relação entre Cecilia e Eliezer era apenas social. Enquanto Eliezer realmente aproveitava seus 27 anos, Cecilia já era uma mulher vivida, de 42. Entre ela e André há uma diferença de 10 anos e isso lhe traz muitas inseguranças. Um homem mais novo, cheio de vida enquanto ela já começava a sentir a tensão de sua idade. Ela se serviu com um vinho, enquanto ouvia André no andar de cima, se preparando para sair.
Após um tempo, ele saiu em completo silêncio, em direção ao carro. Ligou o rádio para escutar uma música.
André escuta todo o tipo de músicas. Clássicas, quando está com Cecilia ou entre empresários. Eletrônicas, perto do seu irmão. E algum rock, quando está sozinho. Ninguém nunca pensaria nesse gosto musical de André , mas ele é apenas um homem comum, de 30 e poucos anos, por debaixo de uma máscara dura e impermeável.
- Mulher! Cecilia acha que vou atrás de mulher! - riu.
- Eu estou completamente desistindo das mulheres. Elas são o abismo da vida de qualquer homem. E não posso me divorciar, então o que me importa? Estou preso à uma mulher para sempre! Depois dessa merda de discussão, me declaro fora do mercado. Sem mais mulheres. Nunca mais. Nunca! - pensou.
A chuva começou a cair severamente enquanto ele estacionava. O vento fazia barulho e o frio se aproximava. André saiu do carro, aproveitando a chuva para tranquilizá-lo. Ele precisava de um pouco de paz dos próprios pensamentos. Ao se aproximar do portão da casa de Eliezer, a luz se apagou, o som parou e a rua ficou completamente escura por instantes, antes de as luzes com geradores do quarteirão retornarem.
André precisava de um descanso mental e teve. O que a escuridão queria lhe dizer?
Às vezes precisamos da escuridão para apreciar a luz. E isso, André não fazia ideia, já que vivia sua vida em completa escuridão.