Episódio 18

1636 Palavras
Mark Olho para Sarah, sentada à minha frente com as mãos cerradas em punhos, os olhos marejados brilhando na penumbra da cozinha. E isso me despedaça por dentro. Tudo o que ela acabou de mencionar é o que ela carrega dentro de si há anos… Sinto a sua voz trêmula, os seus lábios se apertando para conter as lágrimas. E não consigo mais ficar sentado e observar. Levanto-me, contorno a mesa e fico ao lado dela. Não peço permissão. Apenas a abraço. Com cuidado, mas com firmeza. E quando ela enterra o rosto no meu ombro, permaneço em silêncio. Porque todas as palavras são supérfluas aqui. Porque ambas sofremos. A mesma dor. Compartilhada, cru*el, como uma velha ferida que não cicatrizou. Os seus ombros tremem. Sinto-a tentando se conter, mas não é mais necessário. Deixe estar. Ela tem o direito. E eu também. Finalmente, de vivenciá-lo. Em voz alta. De verdade. Ficamos ali por um longo tempo. Em silêncio. No mesmo ritmo dos nossos corações, na mesma lembrança dele. De Timur. Quando Sarah se acalma um pouco, eu a deixo ir devagar. Ela enxuga as lágrimas, tenta se recompor. E eu a olho como se ela fosse a única pessoa que entende o que está acontecendo comigo agora. — Preciso pensar. ​​Digo, quase sussurrando. — Sobre muitas coisas. Ela fica em silêncio, apenas acena com a cabeça. — Eu… não quero mais ser quem eu sou. Uma pessoa que simplesmente se cala quando é preciso gritar. Tentei a vida toda ser um “filho exemplar”, não decepcionar. Mas… para ser sincero, faz muito tempo que não me reconheço. E sei com certeza. Timur jamais concordaria com tudo isso. Com uma mentira. Com a ne*gação de mim mesmo. Olho nos seus olhos. E não desvio o olhar. — Vou falar com meu pai. Vou dizer tudo o que tenho para dizer. Porque depois do que você me disse… não posso mais ficar calado. Não quero. Não tenho o direito. A pausa dura um bom tempo, e então eu acrescento, em voz baixa, mas com confiança: — Quero que Timur se orgulhe de mim. Não que se envergonhe. Quero ser como ele. Pelo menos em parte. E nesse momento vejo algo brilhar nos seus olhos novamente. Não é dor. Não é arrependimento. Ou, talvez… esperança de que eu finalmente consiga me impor e me tornar um homem de verdade. Eu a observo por mais alguns segundos. Em silêncio. Apenas para capturar esse momento. O seu olhar é ansioso, cansado, mas tão vivo. Sarah abriu o seu coração para mim, e eu nunca me esquecerei disso. — Chegou a minha vez. Digo baixinho, levantando-me. — Mas… obrigado. Pela verdade. Por poder contar. Ela me olha um pouco confusa, como se estivesse hesitando sobre o que dizer. Vejo-a juntar as mãos. Ela deve estar preocupada. — Tem certeza… Você está bem? Ela pergunta cautelosamente. — Você vai embora agora… e eu não sei… É que… Você ouviu tanto… — Você está preocupada comigo? Encontro o seu olhar e tento sorrir, embora não ache graça nenhuma. Ela acena com a cabeça. M*al. — Está tudo bem. Hoje eu quero pensar. Ficar sozinho. E depois a gente vê. Respondo. — E o seu pai? Não quero que você brigue. Ela acrescenta. — Não vou brigar com ele. Digo sinceramente. — Eu simplesmente não consigo mais viver como se tudo estivesse bem, quando, na verdade, tudo está completamente errado. Com essas palavras não ditas pairando no ar há anos. Com a sombra dele pairando sobre mim em vez das minhas decisões. Respiro fundo. Preciso dizer isso em voz alta. Não só por mim, mas por ela também. Por Timur. — Quero entender quem eu sou. Não o filho do meu pai. Não o meu irmão que sobreviveu. Apenas… eu. E, talvez pela primeira vez na vida, começar a viver de verdade. Não de acordo com o plano de outra pessoa. Sarah me olha por um longo tempo. Então, ela acena com a cabeça, como se aceitasse. Não justificando, não ne*gando. Apenas... compreendendo. — Você vai conseguir. Ela diz num sussurro. — Sabe por quê? — Por quê? — Porque você e Timur têm muito mais em comum do que imagina. E as palavras dela penetram fundo em algum lugar. No meu coração. Assinto em silêncio, agradeço-lhe mais uma vez com o olhar e vou embora. Já no carro, penso no que fazer agora. Alice liga várias vezes, vejo chamadas perdidas do meu pai, mas agora nada disso importa. Dói-me ter passado tantos anos tentando ser o filho perfeito. Estou triste por nunca ser um. Mas estou feliz, muito feliz, porque finalmente percebi que não posso ser bom para todos. Amo meus pais, mas não farei mais o que eles querem. Eu também sofro. Também perdi meu irmão. Mas em todos esses anos ninguém me perguntou como me sinto, e todos os dias penso em como aliviar um pouco a dor dos meus pais. Voltando para o meu apartamento, tomo um banho, preparo um café e vou trabalhar. Sei que não conseguirei dormir esta noite, então decido aproveitá-la ao máximo. Na manhã seguinte, vou para o escritório. Tem muito trabalho por lá, então até fico um pouco feliz por poder me distrair de pensamentos pesados. Estou imerso no trabalho. Pela primeira vez em muito tempo, ele não me sobrecarrega, pelo contrário, me permite organizar os meus pensamentos. Papéis, cartas, contratos. Tudo segue o seu curso natural. Mas, no início das onze horas, a porta se abre sem bater. Nem preciso levantar a cabeça. Sei quem é. Ontem não atendi a nenhuma das ligações do meu pai. Aliás, nem às da Alice. — Que bom que você está aqui. Diz meu pai, com a voz seca e fria. Ele já está à mesa, senta-se na cadeira à minha frente e me olha como se eu fosse um garotinho que fez alguma besteira. — Estou aqui todos os dias. Respondo calmamente, sem elevar a voz. — Não seja irônico, Mark. É melhor me contar o que realmente aconteceu ontem? Você simplesmente se levantou e saiu do jantar sem dizer nada a ninguém. O que foi aquilo? Largo a caneta e fecho lentamente a pasta à minha frente. Olho para ele. — Eu não sou um garotinho, pai. Talvez eu tenha assuntos importantes para resolver. As suas sobrancelhas se contraem num olhar irritado. — Você só tem um assunto para este período: Alice. A família dela, o dote, as conexões. A estabilidade da nossa empresa depende desse casamento, e você sabe disso muito bem. É sua obrigação levar o assunto até o casamento. — Obrigação? Repito e rio baixinho. — Estranhamente, pela primeira vez na vida não me sinto culpado por não fazer o que se espera de mim. Isso é… um sentimento novo. E, sabe, eu gosto. Meu pai estreita os olhos. Há irritação no seu olhar que ele ainda não consegue esconder. — Você gosta, é? Ele dispara friamente. — Você gosta de negligenciar tudo pelo que temos trabalhado durante décadas? — Você estava trabalhando, pai. Você. E eu só estava sendo conveniente. E obediente. Porque eu continuei sendo o único filho. Porque eu não queria causar ainda mais dor a você e à mamãe. Mas agora… eu não posso continuar vivendo uma vida que não é minha. Vejo o seu maxilar se contrair. Essas palavras não apenas ferem. Elas matam. Porque nunca é agradável ouvir a verdade quando se passou anos construindo uma ilusão para si mesmo. — Você não tem o direito de destruir tudo o que eu… — Não. Eu o interrompo. — Eu tenho. Porque esta é a minha vida. E eu quero viver isso, não as suas ambições. Talvez pela primeira vez, mas honestamente. Ele quer dizer algo mais, mas eu já estou abrindo outro arquivo na tela. O meu olhar está calmo. Estou mais confiante do que nunca. — A conversa acabou. Se você quer falar de negócios, eu te escuto. Se for sobre o casamento e Alice, não recomendo. Espero que meu pai se levante e vá embora agora, mas milagres não acontecem. Ele está confiante demais em si mesmo e no fato de que todos devem fazer o que ele manda. — Aquela garota conseguiu te manipular? Ele debocha, e eu imediatamente entendo de quem ele está falando. — Não envolva a Sarah nisso. Digo friamente. — Ela também é uma vítima, como o Timur. — Uma vítima? Meu pai bufa e continua: essa garota está envenenando o cérebro dele. Ele não vê ninguém além dela. E eu só queria apontar os erros dele. — Foi por isso que vocês brigaram? Na noite em que Timur morreu, ele estava bêbado por causa da briga de vocês. — Ele ficou bêbado porque eu o fiz ver a suposta amante dele. Ela disse que estava grávida. E ele queria se casar com ela. Levanto os olhos bruscamente. Sinto um arrepio percorrer a minha espinha. — O quê? Expiro, porque as palavras ficam presas na minha garganta. — Ela disse que estava grávida. Que esperava um filho dele. Repete meu pai, cerrando os punhos. — E ele insistiu que ele deveria se casar com ela. O silêncio entre nós se torna ensurdecedor. Lembro-me daquele período. Lembro-me de como Timur estava estranhamente tenso, mas feliz. Eu não sabia os detalhes. E agora parece um raio em céu azul. — E foi exatamente por isso que vocês brigaram? Pergunto lentamente, quase arrancando as palavras da minha garganta. — Sim. Ele acena com a cabeça, sem demonstrar o menor arrependimento. — Porque eu não queria ver essa garota na minha casa. Ela é órfã. Sem raízes, sem dignidade. Ela não estava à nossa altura. Eu não acreditava nesse amor. Parecia um romance barato de rebeldia juvenil. ‍​‌
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