Pré-visualização gratuita Episódio 1
Estou acostumada a casamentos. À felicidade alheia, às noivas radiantes, cheias de luz e amor. O meu trabalho é criar belas histórias para os outros, mesmo que a minha própria história esteja há muito enterrada sob uma espessa camada de dor.
Hoje é um dia comum. O escritório cheira a café fresco e rosas brancas. Os floristas acabaram de trazer amostras de buquês para a cerimônia que se aproxima. Reviso a agenda mais uma vez para não me esquecer de nada.
Há quase dez anos, acordo com a mesma dor que aprendi a esconder sob uma camada de ironia, sob um tom profissional, sob a correria do dia a dia. A dor que quase me destruiu. A minha vida inteira se dividiu em “antes” e “depois” daquele m*aldito acidente. Perdi o homem com quem queria passar o resto da vida e o filho que nunca nasceu. E com eles, a crença de que um dia eu poderia ser verdadeiramente feliz.
Eu não podia desistir. Tinha que continuar vivendo, porque a minha irmã Samanta precisava de mim naquele momento. Eu era o apoio dela, e ainda sou.
Foi nessa época que comecei a trabalhar muito. Trabalhei em diferentes agências, onde adquiri experiência, e depois tentei abrir o meu próprio negócio, e me saí muito bem.
No início, era uma forma temporária de não enlouquecer. Organizar festas. Engraçado, não é? Uma pessoa que sempre tem o inverno na alma cria os dias mais alegres para os outros.
Mas isso ajudou. Ajudou a estruturar o caos, a me distrair, a sobreviver. Eu criava beleza para os outros, porque havia perdido a minha para sempre.
Nem mesmo Samanta. A minha querida e amada irmã, sabe de tudo. Ela sempre foi um raio de luz, minha luz. Eu a protegi o melhor que pude. Por isso nunca compartilhei os meus sentimentos mais profundos. Porque quando a dor é insuportável, é mais fácil ficar em silêncio.
Chego cedo ao escritório como de costume, verifico os meus e-mails, dou uma olhada nos buquês e nos esboços de design. Uma nova reunião está marcada. O casal quer organizar um casamento, e já temos um conceito básico. Visto-me de forma formal, mas com bom gosto. Blusa creme, calça escura, salto alto. O meu cabelo está preso. O meu rosto está inexpressivo.
Samanta saiu para uma reunião de manhã, então o escritório está à minha disposição.
Concentro-me no trabalho, como sempre, mas o telefone toca e me distrai. Quando vejo que é Denis, o meu primeiro pensamento é não atender, mas ele é persistente e me conhece como a palma da mão.
— Alô?
— Nossa! Ele está claramente surpreso. — Achei que você não fosse atender.
— Como você pode ver, eu atendi. Suspiro. — Aconteceu alguma coisa?
— Senti a sua falta. Ele diz simplesmente, mas suas palavras não me incomodam em nada. — Talvez possamos nos encontrar hoje?
— Vamos marcar para outra hora. Respondo. — Tenho muito trabalho. Samanta está se preparando para se mudar para os Estados Unidos. Quero passar mais tempo com ela.
— Então você vai morar sozinha? A pergunta de Denis me causa um espasmo doloroso. Sei que ele faz isso sem querer, mas ainda assim me machuca.
—Den, te ligo daqui a alguns dias. Minto, mudando de assunto abruptamente.
— Você acha que eu acredito? Ele ri baixinho. — Eu mesmo ligo. Trabalho, sou um trabalhador esforçado.
A ligação termina e eu já me arrependo de ter atendido. Suspiro e olho para o meu relógio. Os noivos vão chegar a qualquer minuto, então preciso me recompor.
Saio do escritório rapidamente, quase mecanicamente. Quero pelo menos ter tempo para lavar o rosto, para me recompor um pouco depois de conversar com Denis. Muita coisa acumulou-se dentro de mim nos últimos dias e agora preciso desesperadamente me livrar disso. Pelo menos com água.
Passo pela parede com as cabines de fotos, viro para o corredor. E de repente esbarro em alguém.
— Com licença!... Exclamo ao sentir uma mão forte agarrar o meu ombro, me impedindo de cair.
Involuntariamente, coloco a palma da minha mão sobre essa mão — quente, grande — e paro. Uma estranha tensão paira no ar por alguns segundos.
— Você está bem? Ele pergunta.
Essa voz… Eu conheço essa voz.
Lentamente, como num fotograma de filme, levanto os olhos. Primeiro vejo uma camisa branca, depois uma clavícula, depois um pescoço… E então encontro o seu olhar.
O meu coração faz algo indescritível. Bate contra as minhas costelas, aperta, desaba. Parece que está levando um choque.
Timur está diante de mim. Vivo. Como me lembro dele nos momentos mais felizes da sua vida.
O seu rosto. O seu olhar. O seu sorriso. Tudo. Só que agora ele está muito mais velho e ainda mais bonito.
Mal consigo respirar. As minhas pernas fraquejam e dou um passo para trás, como se isso fizesse tudo desaparecer. Mas ele não desaparece.
— Você… Quase sussurro. A minha voz treme. — Quem é você?
— Mark. Ele responde simplesmente. — Mark Dagaev. Alisa, minha noiva, e eu temos uma reunião com você.
Viro a cabeça e a vejo. A mesma Alisa. A noiva com quem tenho uma reunião hoje. Loira, radiante, confiante. Sorrindo para mim. Sem perceber que o chão está sumindo debaixo dos meus pés.
Ela pega no braço dele e diz:
— Bom dia, Sarah. Este é o Mark, meu noivo. Estamos atrasados?
Pisco os olhos. Um silêncio constrangedor paira no ar. Tudo dentro de mim grita que preciso acordar deste pesadelo, mas isto não é um sonho.
— Está tudo bem. Forço essas palavras a saírem de mim mesma e procuro a recepcionista. — Espere alguns minutos aqui. Vão trazer o café para vocês. E eu… agora.
Vou até o banheiro e fecho a porta atrás de mim, tentando bloquear a realidade que me pressiona por todos os lados. Seguro a borda da pia e encaro o meu rosto pálido e os meus olhos assustados.
Este é o irmão do Timur. Eu sabia que ele tinha um irmão gêmeo, mas nunca o tinha visto. Mark estava estudando no exterior na época.
E agora ele está aqui. No meu escritório. Na minha vida.
Os seus olhos são tão profundos. Tão familiares. E, no entanto, completamente estranhos.
Ele não me conhece. Se conhecesse, cuspiria na minha cara, como seus pais fizeram um dia. Devo confessar a ele? Acho que não.
Eu simplesmente entendo que não posso aceitar esse trabalho. É impossível. Não consigo suportar olhar nos olhos dos pais dele novamente.
Abro a torneira de água fria e apoio as palmas das mãos na pia. Respiro fundo. Entendo que preciso me recompor, porque não posso desmoronar agora. Não tenho esse direito.
Alguns minutos depois, volto ao corredor – já recomposta, embora as rachaduras dentro de mim sejam mais altas que os meus próprios passos.
Eles estão parados onde os deixei. Alice diz algo para Mark, que acena com a cabeça em resposta. Ela sorri, mas ele não. O seu olhar é severo, um pouco concentrado e… o mesmo de Timur quando estava em silêncio. Quando ele apenas olhava para mim – era só isso.
Aproximo-me, mas deliberadamente não levanto o olhar. Se eu encontrar aquele olhar novamente, não conseguirei suportá-lo.
– Preciso me desculpar. Digo calmamente. – Infelizmente, não poderei assumir a organização do seu casamento.
— O quê? Alice reage primeiro. O seu sorriso se transforma em surpresa, depois em irritação. — Mas… nós quase tínhamos combinado tudo. Eu adiei a reunião para hoje. Você mesma escreveu que poderia aceitar outro pedido.
Aceno com a cabeça. Lentamente.
— Sim, mas a situação mudou. Minha colega está se mudando e eu ficarei sozinha. Haverá mais trabalho do que o esperado. Não quero te decepcionar num momento tão importante.
— Mas você… Ela para, provavelmente percebendo que é impossível me convencer. — Você realmente não vai mudar de ideia?
— Não. Desculpe. Posso recomendar alguns outros organizadores, se necessário.
Durante todo esse tempo, tento não olhar para Mark. Mas sinto o olhar dele sobre mim, atento e um pouco… tenso? Acho que ele quer dizer algo. Ou perguntar. Mas ele permanece em silêncio. Apenas segura a mão de Alice — com cautela, mas com confiança.
Pelo canto do olho, vejo-o se mover. Este homem é mais alto que Timur. Mais forte. A sua silhueta é mais larga e, mesmo parado, ocupa mais espaço do que eu consigo suportar.
Mas o pior são os olhos dele. Profundos, um pouco frios. E não são os mesmos que um dia me olharam com amor. Estes são cautelosos, isolados do mundo. Mesmo quando está ao lado de Alice, uma parte dele parece estar em outro lugar.
Aperto os dedos. Forço-me a respirar.
— Desculpe novamente. Espero que você encontre alguém que consiga fazer tudo perfeitamente. Digo, elevando a voz para um tom profissional.
Alice murmura algo em resposta, algo como “desculpe”, depois agradece e se vira.
Mark a segue, mas antes disso, para por um instante. Ele se vira para mim e os nossos olhares se encontram. Não tenho tempo de desviar o olhar.
— Nos conhecemos? Ele pergunta baixinho. A sua voz é calma, quase fria. — Acho que já te vi antes.
Aquilo me atinge em cheio.
— Não. Respondo secamente. — Você deve ter se enganado.
Sei que a minha voz soa incerta demais. Mas chega. Mark franze a testa levemente, mas não diz mais nada.
Ele se vira e vai embora, e eu fico parada observando a sua figura se afastar junto com a dela. E então eu simplesmente… respiro. De novo. E de novo.
Sobrevivi. Mas algo mudou dentro de mim. E sei que isso é só o começo.
Estou sentada à minha mesa, incapaz de me concentrar pela primeira vez em muito tempo. A pasta com os catálogos está aberta, mas meus olhos percorrem as páginas sem ler. Um nome ressoa na minha mente, um nome que não pronuncio há anos. Timur. E agora – Mark.
Quase mecanicamente, pego uma xícara de café, mas já está frio. Nesse instante, a porta se abre e Samanta entra.
— Olá. Ela sorri e entra imediatamente. Parece cansada, mas seus olhos brilham. — Nossa, que reunião estranha.
— Tire o casaco e sente-se. Respondo calmamente, escondendo a minha ansiedade por trás da rotina. — Quer um chá?
— Café. A minha irmã sorri. — E escuta… eu vi o Vlad hoje.
O meu coração aperta. Assinto, como se essa informação fosse apenas um detalhe interessante para mim. Nada mais.
Samanta me conta sobre o ex dela, e eu escuto atentamente, deixando os meus próprios problemas para bem longe. Como sempre faço.
Sinto um peso no peito. As palavras querem escapar – sobre Mark, sobre o choque, sobre a dor que ressurgiu do passado, como uma ferida aberta. Mas permaneço em silêncio. Porque ela não pode saber. Não agora. Não quando ela finalmente está livre e quer começar uma nova vida.
— Mais alguém apareceu hoje? Ela pergunta, olhando para mim novamente.
Balanço a cabeça negativamente.
— Nada de interessante. Um pedido foi cancelado. Um pequeno. Para ser sincera, fico feliz. Tento sorrir, como de costume.
— Bom, pelo menos você vai descansar um pouco. Diz Samanta, sem suspeitar de nada.
Assinto. Sou uma muralha. Confiável. Inabalável. Samanta vai viajar para os Estados Unidos de coração leve se eu não lhe der motivos para duvidar. Ela merece recomeçar do zero. Ela merece ser feliz.
E eu... eu vou aguentar firme. Como sempre.