Episódio 2

1903 Palavras
Fico parada junto ao vidro de observação, vendo Samanta, o marido e a filha desaparecerem na fila do check-in. Sorrio quando Samanta me lança um olhar de despedida. Sorrio. Como sempre, com confiança e calma. Mas por dentro, algo se instala lentamente, como cinzas. Não é dor — mais como saudade, uma leve sombra no meu coração. Saio do aeroporto para o ar fresco, inspirando devagar. A viagem para casa é silenciosa, longa. Os meus pensamentos estão confusos, mas uma coisa é constante: minha irmã fez tudo certo. Eles estão indo para uma vida melhor. E se eu tivesse a mesma oportunidade — de desaparecer, de me libertar, de recomeçar do zero — eu o faria sem dúvida alguma. Mas não tenho outra saída. Em casa — silêncio. Um vazio onde antes as vozes ecoavam, e onde agora a solidão ressoa abafadamente. Não me permito ficar sozinha com esse sentimento por muito tempo. Visto-me rapidamente, retoco a maquiagem e saio. Hoje é aniversário da Eva. E eu prometi estar lá. Eu não consegui evitar vir. Mesmo que seja um buraco neg*ro por dentro, eu aparecerei, sorrirei, erguerei o meu copo e cumprimentarei minha amiga. Porque é assim que tenho vivido nos últimos dez anos – escondendo a tempestade atrás de um rosto calmo. Entro no restaurante e imediatamente olho ao redor. É aconchegante lá dentro, a luz suave incide em pontos delicados sobre as mesas, e o jazz tranquilo que sai das caixas de som só reforça a i********e da noite. Discretamente, vejo o meu próprio reflexo no espelho – o meu rosto está calmo, os meus lábios levemente franzidos, meus olhos cansados. Mas parece que estou apresentável. E isso não é ru*im. Eva me nota primeiro. Ela acena com a mão e o seu sorriso brilha. E algo no meu peito estremece calorosamente. Vou até ela, e ela, sem esperar que eu me sente, se levanta e me abraça forte. — Que bom que você veio. Ela sussurra no meu ouvido, e eu apenas aceno com a cabeça em afirmação, encostando a minha bochecha no seu ombro. Eva é a única que sabe quase tudo sobre mim. E, provavelmente, é por isso que ela ainda está ao meu lado. Ela nunca pressiona, não faz perguntas, mas está sempre presente. Não há mensagens diárias nem encontros constantes na nossa amizade, mas existe algo muito mais profundo. Um silêncio que não precisa ser preenchido com palavras. — Sente-se. Ela diz quando nos sentamos à mesa. — Já pedi o vinho. O mesmo que você adora. Viu? Eu me lembro. Eu sorrio, embora um pouco torto. — Que bom. Digo, e Eva aperta a minha mão delicadamente. — Você levou a Samanta? — Sim. Aceno com a cabeça. — Você não contou nada a ela? Eva me olha atentamente. — Não. E não pretendo contar. Respondo. — Samanta finalmente está feliz. Quero que seja assim. — Sarah, sabe, eu realmente sinto muito por você. Eva suspira. — Você assumiu tanta coisa. Quanta força ainda lhe resta? — Não sei. Dou de ombros. — Mas sou forte. Você sabe disso. — Eu sei. Ela concorda com a cabeça. — É isso que me assusta. Estamos encerrando esta conversa porque não quero falar sobre mim. Quando contei a Eva sobre a visita de Mark à minha agência, ela ficou tão chocada quanto eu. Mas ficou feliz por eu ter recusado realizar este casamento. Seria muito difícil para mim. Já estamos no fundo da segunda garrafa de vinho, e sinto um leve calor se espalhando pelo meu corpo, como se atenuasse todas as arestas dos meus pensamentos. Eva ri — sinceramente, alto — e é o tipo de risada que não ouvia há muito tempo. Ela está falando sobre um novo projeto: design de interiores para um restaurante com instalações feitas de flores frescas. Os olhos dela brilham quando ela fala, e fico feliz que ela esteja feliz. Eu também estou falando. Automaticamente. Sobre uma nova encomenda para um casamento em estilo retrô, sobre uma noiva caprichosa que queria encomendar pombos e depois mudou de ideia, sobre os empreiteiros que nos deixaram na mão de novo. Nós duas estamos fingindo normalidade. Estamos indo bem. Até demais. — E o Denis? Ela pergunta, mudando de assunto de repente e abruptamente. O seu olhar se torna atento, embora o sorriso ainda permaneça no seu rosto. Dou um gole e coloco o meu copo na mesa. — E o Denis? Respondo, examinando o fundo do copo como se a resposta estivesse lá. — Ele apareceu de novo? Ela esclarece, e a sua voz suaviza um pouco. — Você... como estávamos juntos? Suspiro. Cansada. Silenciosamente, passo os dedos pelo guardanapo. — Ele vem e vai, Eva. Digo finalmente. — E isso é bom para nós dois. Eva fica em silêncio. Apenas observa. — Não temos nada estável. Nem sei se somos “nós”. Ele aparece quando eu quero e desaparece tão abruptamente quanto surgiu. Às vezes, deixo-o ficar. Às vezes, não. Tudo depende do meu estado de espírito no momento. — Você gosta dele? Ela pergunta baixinho. Eu sorrio, embora por dentro eu esteja me contraindo novamente. — Você gosta dele? Ela repete. — Eva, depois de tudo o que aconteceu há dez anos, parei de confiar em mim mesma quando se trata de “gostar” ou “amar”. Eu apenas me permito não ficar sozinha. Mas não me permito sonhar que um dia serei feliz. Ela estende a mão por cima da mesa e cobre a minha. — Você pode se permitir mais, Sarah. Ela diz. — Você merece ser feliz mais do que qualquer outra pessoa. Fico em silêncio. Porque sei que ela tem razão. Mas também sei outra coisa: enquanto eu não me perdoar, ninguém mais conseguirá derrubar o muro que construí para mim mesma. Saio do restaurante com Eva, e o ar fresco imediatamente toca o meu rosto, dissipando o calor do vinho, mas não a névoa difusa das emoções. Rimos — sinceramente, cansadas, como só duas pessoas que guardam muita coisa dentro de si conseguem. — Parece que nós duas vamos ficar doentes amanhã. Eva faz uma careta. — Ei, eu te avisei! Sorrio, embora lá, no fundo eu já saiba que voltar para casa é a perspectiva mais solitária por enquanto. Deixamos os carros no estacionamento. Dois táxis diferentes param ao nosso lado. Em direções opostas. Abraço Eva com força. Ela não me solta por um longo tempo. Os seus dedos apertam as minhas costas, como se quisessem extrair algo indescritível de mim. Amor, carinho, fé. — Obrigada. Digo baixinho. E ela entende o que quero dizer. Entro no carro. As ruas passam pela janela como slides de memórias, e tiro o meu celular da bolsa. Os meus dedos digitam uma mensagem sozinhos. Posso ir à sua casa? Denis responde em poucos segundos: Sim. Eu sorrio. Não estou surpresa. Sei o endereço de cor, então o chamo para o motorista. O meu coração começa a bater um pouco mais rápido. A casa é nova, as janelas brilham no escuro, como olhos observando cada movimento meu. Choro e saio. Subo as escadas e, assim que estendo a mão para a campainha, a porta se abre sozinha. Ele está parado na minha frente. Na luz do corredor, Denis parece sombrio e calmo. Os seus olhos são atentos, um pouco zombeteiros, um pouco preocupados. E tão familiares. — Olá. Consigo apenas sussurrar. Mas ele não diz nada. Ele apenas me puxa para perto e me beija. Os seus lábios são quentes, confiantes. A suas palmas encontram as minhas bochechas, os seus dedos deslizam pelo meu pescoço. Um beijo sem palavras. Sem “por quê” e “por quê”. Apenas “você está aqui” e “eu estou aqui”. Estou me afogando nele. E pela primeira vez em muito tempo, não quero pensar. Algum tempo se passa. Ficamos deitados em silêncio, eu nos braços de Denis, pressionada contra o seu corpo quente, ouvindo o seu peito subir e descer ritmicamente. Isso me acalma. Tudo ao meu redor se torna turvo, só resta isso: a cama macia, a escuridão lá fora e nós dois. Sinto-me bem aqui. Sinto-me muito bem. Foi por isso que vim. Porque a solidão, embora familiar, é tão repugnante. Ela queima, oprime, corrói por dentro. E aqui... pelo menos por algumas horas, posso esquecer que ela existe. Que sou eu. Denis permanece em silêncio. Os seus dedos deslizam pelo meu braço, como se estivesse apenas desenhando círculos na minha pele, mas sei que ele está pensando. O seu coração bate forte demais. Ele tem palavras. Posso senti-las. Mas ele espera. Sempre espera. E eu... sempre falo primeiro. Afasto-me um pouco para ver o seu rosto. Os mesmos traços marcantes, o mesmo olhar – teimoso, um pouco cansado, um pouco predatório. Mas hoje há algo de suave nele também. Quase gentil. Denis é um homem bonito. Tem olhos azuis, cabelo loiro curto e lábios carnudos. As garotas gostam. E eu também gosto dele, embora nunca vá admitir. — Denis… Digo baixinho. A minha voz treme um pouco, e estou irritada comigo mesma por isso. — Você está esperando que eu diga algo importante, ou quer dizer você mesmo? Ele não responde imediatamente. Apenas me encara. Em silêncio. Mas nos seus olhos – uma tempestade inteira. — Sarah, eu te conheço muito bem, e… não espero mais nada. Responde ele calmamente. — Você entende perfeitamente que eu quero estar com você, mas nem eu consigo derrubar todas as barreiras atrás das quais você se esconde. Dói-me ouvir essas palavras. Principalmente vindas dele. Denis sabe que há dez anos eu perdi muita coisa, mas ele ainda me quer. Mesmo sabendo que nunca poderei lhe dar tudo o que ele merece. — Me desculpe. Sussurro. — Não precisa. Ele faz uma careta. — Não depois do que acabou de acontecer entre nós. Assinto e permaneço em silêncio. Isso acontece sempre que nos encontramos na mesma cama. Chegamos a um ponto em que nos sentimos constrangidos, e prometo a mim mesma, mais uma vez, não voltar a isso. E assim adormecemos — cada um com os seus próprios pensamentos e a dor que corrói as nossas almas. Denis me abraça, me puxa para perto dele, e eu ouço o seu coração batendo calmamente. É ao som desse coração que adormeço. Na manhã seguinte, acordo sozinha na cama. Vou para o chuveiro, me visto e encontro Denis na cozinha. Ele está preparando o café da manhã usando apenas uma calça de moletom baixa. Olho para suas costas largas — e o meu coração acelera. Quero me aproximar e tocá-lo, mas continuo parada. — Bom dia. Denis vira a cabeça para mim e sorri. — Sente-se. Preparei o café da manhã. — Obrigada. Digo, indo até a mesa e me acomodando numa cadeira. — Alguém já te disse que você é o homem perfeito? — Sério? Ele ri baixinho, e uma xícara de café aromático aparece ao meu lado. — Sério! Concordo com a cabeça. — Alguém vai ter muita sorte em ter você. Denis paralisa com uma espátula na mão. Ele não esperava ouvir isso, e eu entendo. Mas eu nunca lhe prometi nada. Mas logo em seguida disse que sinceramente desejava que ele encontrasse uma garota que o amasse e lhe desse tudo o que eu não podia dar. ‍​
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