Na manhã seguinte, Bela acordou indisposta mas faminta. Vestiu um traje leve e desceu as escadas na expectativa de tomar seu desjejum.
Não era seu intuito ouvir a conversa que vinha da cozinha, mas travou os pés quando notou que era o assunto.
- A acompanhei e dancei com ela como a sra. pediu, agora gostaria de pedi-la para não voltar a armar tais obrigações para mim. Não tenho tempo para esses bailes e não pretendo acompanhar nem ela, e nem dama alguma novamente.
Bela sentiu o coração se apertar no peito, era a voz de Charles.
- Querido, não lhe custou absolutamente nada e além do mais, havia me prometido duas danças, apenas vi uma. - Retrucou Suzzie em um tom de desaprovação.
- Pelo menos metade dos cavalheiros ali presentes a tiraram para dançar, mãe. Uma dança foi mais do que suficiente e além do mais, ainda estou me decidindo quanto ao enlace com Lady Daniela. Não seria bom que ela pensasse que estou cortejando dezenas de garotas além dela.
Suzzie o olhou confusa, a pouco tempo ouvira o filho praticamente desconjurar a dama em questão.
- Por Deus, não consigo acompanhar seus pensamentos querido. Não era você quem não a queria?
Charles tomou um longo gole de café e se levantou dando a conversa por encerrada.
- Nem tente, seria perda de tempo. Preciso ir. - Ele deu um beijo na testa da mãe e saiu apressado sem dar a ela mais oportunidade de contestar.
Bela que ouvira toda a conversa perdeu o resto do ânimo que lhe restara para aquele dia, ela subiu as escadas sentindo o coração saltar forte no peito. Como podia ter sido tão inocente a ponto de pensar que Charles o indiferente Charles a convidaria para o baile por livre e espontânea vontade? Certamente todos sabiam de sua paixão infantil por ele e Suzzie tentara fazer de tudo para ajuda-la, sempre tinha tentado disfarçar, mas talvez não fosse tão boa com isso afinal. Ela recostou-se na parede gelada do corredor e apertou as mãos nas saias.
- Bela? .- Ouviu a voz de Charles chegar até ela. Mas que diabos ...
Quando já chegava na porta de saída percebera que esquecera o relógio de bolso que um dia fora de seu pai, um relógio que nunca deixava para trás e então tinha retornado para busca-lo. Para sua surpresa, tinha encontrada Bela aparentemente desnorteada no corredor.
Ela engoliu em seco quando o viu parado no sua frente, encarando-a e aguardando uma reação sua.
- Está tudo bem? .- Ele a segurou pelos ombros com cautela e ela sentiu vontade de espernear feito uma criança, bater no ombro dele e declarar em voz alta o quanto o odiava.
- Não precisava me levar ao baile por piedade. - Murmurou, incapacitada de segurar a própria língua, mas não foi forte o suficiente para firmar o olhar ao dele. Seus olhos insondáveis prenderam-se a ela de uma forma que a deixara totalmente desconcertada.
- Andou ouvindo conversa escondida? .- Perguntou de forma indiferente sem nem mesmo alterar sua postura.
Bela tentou se afastar dele e soltar-se de seu aperto, mas Charles o intensificou. Ela olhou para cima para encara-lo e pelo menos metade de sua raiva pôde ter transmitida com aquele olhar.
- Não porquê desejei, lhe garanto. Foi uma infeliz coincidência.
- Me desculpe. - Ele disse em um tom seco. - Eu certamente o faria mesmo se minha mãe não tivesse pedido.
- Eu preferia que não tivesse feito. Maldição Charlie, o que há com você? .- Explodiu. - Tem agido distante desde o último verão, sempre fomos bons amigos, se lembra disso? Não entendo porquê de repente há uma barreira entre nós.
Tendo que usar toda sua força de vontade para segurar as lágrimas, Bela tentou mais uma vez se afastar, totalmente em vão ... Ele a agarrou com mais força.
Charles sentiu o corpo - agora curvelineo - de Bela em contato com o seu e uma sensação estranha o percorreu, um arrepio que começou na nuca e foi descendo gradualmente, uma atração forte e uma incontrolável vontade de puxa-la para um pouco mais perto e enfim colar sua boca aos lábios carnudos e rosados dela. Não sabia o que estava acontecendo e tampouco queria descobrir ... Simplesmente não podia ter esses sentimentos por ela, não por ela.
Bela por alguns segundos teve certeza de que ele iria beija-la, os olhos intensos de Charles se firmaram em seus lábios de uma forma que a fez perder a força das próprias pernas, mas no segundo seguinte, uma névoa se instalou novamente diante dos olhos dele.
- Eu preciso ir. - Disse por fim largando-a e passando ao lado dela ele saiu em passos lentos pelo corredor abaixo, deixando para trás até mesmo o relógio que viera buscar e quando se afastou por completo, ela enfim voltou a respirar.