Ela ainda se sentia um pouco exausta, os pensamentos sobre a noite anterior rodopiando em sua mente. Cada gesto de Charles, cada dança, cada olhar dela para ele voltava em sua memória e a deixava com o coração apertado. Era difícil respirar sem que a lembrança dele ao lado de Lady Daniela surgisse em sua mente e agora, tinha que lidar com mais uma confusão que se instalara em sua mente: Charles a olhara diferente, chegara perto demais ou estava enlouquecendo?
Ela apertou a mão firme contra o peito e suspirou fundo, até que foi surpreendida por uma voz que vinha logo atrás.
— Bella… — começou ele, com a voz suave, mas ainda carregada daquele tom de brincadeira que ela tanto conhecia. — Você está estranha.
— Eu? Estranha? — perguntou ela, tentando soar indiferente, embora o aperto no peito denunciasse o contrário.
— Sim. Estranha no sentido mais dramático possível — ele respondeu, aproximando-se com passos silenciosos. — Parece que a vida acabou de te pregar uma peça c***l, e você ainda não percebeu como reagir.
Bella suspirou, cruzando os braços. — Não é nada, Ruan. Sério.
Ele ergueu uma sobrancelha, claramente incrédulo. — Nada? Nada, é? — Ele fez um gesto amplo com as mãos. — Bella, posso sentir o drama em você daqui. Você precisa se animar.
Ela hesitou, mas o sorriso travesso dele era difícil de ignorar. — E você sugere o quê? — perguntou, um pouco mais curiosa do que queria admitir.
— Um jogo — disse ele, tomando a iniciativa de se aproximar dela. — Mas não um jogo de etiqueta, nada de damas e cavalheiros. Um jogo totalmente não convencional.
Bella arqueou as sobrancelhas. — Não convencional? Isso soa como você inventando regras novamente.
— Exatamente! — ele exclamou, sorrindo com aquela confiança que sempre a deixava sem fôlego. — Um jogo de coragem e risadas. Um jogo em que você não pode rir de mim, mas eu posso rir de você.
— Isso é totalmente injusto — murmurou ela, tentando parecer séria, mas não conseguiu evitar um pequeno sorriso.
— Injusto? — Ruan bateu palmas, teatralmente indignado. — Bella, meu jogo é a última oportunidade para salvar sua manhã depois do baile de ontem. Vamos começar agora, sem desculpas.
Ele estendeu a mão, e Bella, sem saber muito bem por quê, a segurou. Ele a conduziu para o terraço, onde o sol já iluminava o jardim, e a deixou ao lado dele, os braços cruzados sobre o peito e um sorriso divertido brincando nos lábios.
— Primeira regra — disse ele, inclinando-se levemente — você deve me fazer rir. Pode ser com caretas, gestos exagerados, ou até mesmo contando algo que aconteceu no baile que te deixou ridícula.
— Eu? Ridícula? — perguntou Bella, franzindo o cenho. — Não posso contar nada, ou você vai rir de mim sem piedade.
— Sem piedade é exatamente a regra do jogo — respondeu Ruan, piscando. — Agora, comece.
Bella respirou fundo, tentando pensar em algo que pudesse surpreendê-lo. Então, num impulso, ergueu os braços e começou a imitar a postura rígida de Suzzie no baile, exagerando cada gesto: “Sempre elegante, sempre uma dama, Bella. Não se esqueça, a sociedade está observando!”
Ruan não conseguiu conter a gargalhada. Primeiro um sorriso tímido escapou, e logo ele estava rindo tão alto que a risada dela se misturou à dele, enchendo o terraço de um som leve e contagiante.
— Ah, você é absolutamente imperdoável! — exclamou ele, ainda rindo. — Eu nunca poderia manter a compostura diante disso.
— Eu estava apenas… tentando me defender — respondeu ela, rindo também, sentindo o peso que carregava na noite anterior se dissipar pouco a pouco.
— Defesa? — ele zombou. — Isso foi um ataque deliberado! E você ganhou ponto porque me fez rir, pequena Bela.
— Então, qual é a próxima regra? — perguntou Bella, animada apesar de ainda sentir o coração pesado.
— A próxima regra é simples — disse Ruan, aproximando-se dela com um sorriso malicioso — você deve inventar algo que me faça rir de novo. Mas desta vez, não vale imitar mais ninguém. Tem que ser criativa.
Bella refletiu por um instante, então colocou a mão na cintura, ergueu o queixo e começou a fazer uma dança improvisada, misturando passos de valsa com movimentos totalmente descoordenados e exagerados, girando sobre os próprios pés de maneira que parecia que iria cair a qualquer instante.
Ruan explodiu em gargalhadas, segurando a barriga para não cair de tanto rir. Bella sentiu um calor subir ao rosto, mas agora era diferente — era de pura diversão, e não de vergonha ou frustração.
— Eu… eu não consigo — ele disse entre risadas — você é impossível!
— Impossível? — retrucou Bella, sorrindo. — Então estamos empatados?
— Sim, pequena Bela — disse ele, ainda sorrindo, inclinando-se levemente e segurando a mão dela. — Mas o jogo não termina aqui. Podemos continuar o dia inteiro, e talvez a noite também, se você me permitir.
Ela sentiu o coração apertar, mas pela primeira vez em muito tempo, não era uma dor causada pela frustração ou pela paixão não correspondida. Era uma sensação leve, divertida, que lembrava o quanto Ruan sempre fora seu porto seguro.
— Eu aceito — disse ela, com a voz firme, mas os olhos brilhando de alegria.
— Ótimo — ele respondeu, inclinando-se mais perto. — Mas agora, prometo que a próxima rodada será ainda mais difícil. Preciso ver você inventar algo que me faça rir tanto quanto ontem, no salão.
— Você é impossível — murmurou ela, rindo.
— E você adora isso — rebateu ele, sorrindo com aquela confiança que sempre a deixava sem fôlego.
Por alguns instantes, eles permaneceram ali, rindo e inventando regras, cada movimento aproximando-os mais, não apenas como amigos, mas como duas pessoas que, de forma silenciosa e sem pressa, estavam descobrindo a alegria de estar simplesmente juntos.
E, pela primeira vez desde o baile, Bella sentiu que mesmo diante das complicações do coração, da sociedade e das expectativas, ainda havia espaço para a felicidade genuína. E essa felicidade tinha um nome: Ruan.